O plenário também decidirá se confirma a liminar dada pelo ministro Luís Roberto Barroso que determinou o governo Bolsonaro a adotar ações de proteção aos povos indígenas durante a pandemia da Covid-19
Publicado 03/08/2020 10:24 | Editado 03/08/2020 12:03

O STF (Supremo Tribunal Federal) abre os trabalhos do segundo semestre judiciário nesta segunda-feira (3), a partir das 15h, com sessão extraordinária de julgamento convocada pelo presidente, ministro Dias Toffoli. Para a sessão, que será realizada por videoconferência, foram pautados a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 709, sobre os efeitos da pandemia da Covid-19 nas aldeias indígenas, e outros dois processos. A ADPF foi ajuizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e por seis partidos políticos (PSB, PSOL, PCdoB, Rede, PT e PDT).
O Plenário decidirá se confirma a medida cautelar deferida no início de julho pelo relator ministro Luís Roberto Barroso para determinar ao governo federal a adoção de diversas medidas para combater o avanço da Covid-19 sobre os povos indígenas e suas aldeias.
De acordo com a Apib, manter a liminar é fundamental para evitar uma catástrofe sanitária. Também é importante contemplar o único ponto da ação original não atendido por Barroso: a retirada de invasores de áreas criticamente afetadas pela epidemia – as Terras Indígenas (TIs) Karipuna e Uru-Eu-Wau-Wau (RO); Kayapó, Munduruku e Trincheira Bacajá (PA); Araribóia (MA); e Yanomami (AM/RR).
Para o movimento indígena, o governo é omisso no combate à crise de saúde e estimula invasões aos territórios indígenas, um dos principais vetores da Covid-19. A administração federal paralisou operações de fiscalização, exonerou os responsáveis pelas poucas ações realizadas nas TIs e, agora, ameaça os servidores com processos administrativos.
Com informações da Conjur e Apib
Oprograma Fantástico, da Globo, veiculou em sua edição da noite deste domingo (2) uma longa reportagem mostrando detalhes sobre a investigação do Facebook que derrubou páginas de assessores próximos à família Bolsonaro que são utilizadas para disseminar fake news e promover ataques contra adversários.
Durante a exibição da matéria, o programa procurou evidenciar a proximidade entre assessores que se fingiam de “jornalistas” com o presidente Jair Bolsonaro, seus filhos e deputados bolsonaristas.
No dia 8 de julho, o Facebook derrubou uma rede de distribuição de fake news e perfis falsos ligados aos gabinetes de Jair Bolsonaro, do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e dos deputados estaduais bolsonaristas Anderson Moraes (PSL-RJ) e Alana Passos (PSL-RJ). Todos tiveram destaque na matéria do Fantástico.
Técnicos da rede social identificaram 35 contas, 14 páginas e 1 grupo, além de 38 contas no Instagram, que pertence ao Facebook. O grupo contava com 350 participantes. Já as páginas no Facebook somavam 883 mil seguidores, e os perfis do Instagram, 917 mil.
Já neste sábado (1º), o Facebook informou que acatou pedido do Supremo Tribunal Federal (STF) e vai bloqueou, em todo o mundo, as contas de perfis bolsonaristas.
A medida vem após o ministro do STF, Alexandre de Moraes, aumentar o valor da multa diária contra a rede social para R$ 1,2 milhão e cobrar o pagamento de R$ 1,92 milhão por descumprimento da ordem judicial, no âmbito do inquérito das fake news. O ministro também intimou pessoalmente o presidente da empresa no país a cumprir sua determinação.
Dando detalhes de como funcionava a operação das páginas de fake news bolsonaristas, o Fantástico destacou, por exemplo, as notícias falsas criadas sistematicamente contra Fernando Haddad (PT), oponente de Bolsonaro na eleição de 2018.
A reportagem também ressaltou que as informações colhidas pelo Facebook sobre as páginas foram enviadas à Polícia Federal e podem ainda serem anexadas às ações que pedem a cassação de Bolsonaro no STF.
Assista a reportagem aqui.
Fonte: Revista Fórum
Aqueda da renda per capita dos brasileiros será tão acentuada em 2020 que fará com que a gestão de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes entre para a história como a de maior retrocesso econômico na história do país, mesmo que a causa maior seja a pandemia.
“A crise causada pelo novo coronavírus deve levar à maior queda do padrão de vida do País desde a década de 1940, quando começa a série histórica. Calculada a partir do Produto Interno Bruto (PIB) per capita, a retração esperada é de 6,7% este ano – e mais da metade dos brasileiros já percebe que está em uma situação pior do que antes da pandemia. Até então, o maior recuo havia sido em 1981”, aponta reportagem de Douglas Gavras, no jornal Estado de S. Paulo.
A queda acentuará o contraste com o período em que os brasileiros mais prosperaram, que foi justamente o período do governo Lula. “De crise em crise, o brasileiro vai perdendo o que havia conquistado na década passada. Segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), de 2011 a 2020, o PIB per capita deve recuar 8,2% ante uma alta de 28% na década anterior”, aponta ainda a reportagem.
“Segundo pesquisa feita pelo Instituto Locomotiva a pedido do Estadão, além de mais da metade (54%) dos brasileiros afirmar que seu padrão de vida piorou, seis em cada dez deles estimam que vai levar mais de um ano para reconquistar o que tinham. Além disso, um terço dos entrevistados que têm plano de saúde, pagam escola particular para os filhos ou empregam um trabalhador doméstico afirma que não conseguirá manter ao menos um desses serviços”, revela Gavras, em sua reportagem.
Fonte: brasil 247
Em liminar, o ministro Luís Roberto Barroso acatou um pedido da ação formulada pela Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e seis partidos (PSB, PSOL, PCdoB, Rede, PT, PDT) cobrando um plano emergencial do poder público
Publicado 30/07/2020 18:12 | Editado 31/07/2020 00:09

Apesar do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luís Roberto Barroso determinar a adoção de um plano emergencial pelo governo Bolsonaro para proteção dos povos indígenas diante da pandemia da Covid-19, nenhuma ação concreta foi efetivada até o momento. A denúncia é da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil).
Na sessão por videoconferência da próxima segunda-feira (3), às 14h, o plenário do STF decidirá se referenda ou não a cautelar de Barroso. Trata-se da primeira sessão após o recesso do judiciário.
No início do mês, em liminar, o ministro acatou um pedido da ação formulada pela Apib e seis partidos (PSB, PSOL, PCdoB, Rede, PT, PDT) cobrando um plano do poder público.
Barroso determinou ações específicas para os povos isolados como criação de barreiras sanitárias; outro de enfrentamento para todo povo indígena; e a instalação de uma Sala de Situação com representantes do MPF (Ministério Público Federal), DPU (Defensoria Pública da União) e dos povos indígenas.
Passados quase um mês, o ministro estabeleceu um prazo de dez dias para as primeiras ações, houve a primeira reunião no 17 deste mês. Segundo a Apib, nesse encontro o governo apresentou um planejamento genérico, sem ações específicas para a realidade de cada território.
Além disso, a entidade reclamou do tratamento “desastroso, humilhante e constrangedor” e “uma clara tentativa de violar sua liberdade de expressão”. A representante Coiab (Coordenação das Organizações dos Indígenas Amazônia Brasileira), Angela Kaxuyana, teve o microfone cortado.
O chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, ministro Augusto Heleno, afirmou que os indígenas que estiverem fora de Terras Indígenas (TIs) homologadas (com demarcação já concluída) serão tratados como “produtores rurais”, indicando que o governo não pretende atendê-los, o que contraria a decisão do STF.
“Agora, estamos na fase de fazer com que essa decisão da mais alta corte do Brasil seja cumprida. Ainda em relação aos povos indígenas, não houve nenhuma mudança de postura do governo brasileiro no combate à pandemia”, diz Luiz Henrique Eloy Terena, assessor jurídico da Apib e um dos responsáveis pela ação.
O presidente do CNDH (Conselho Nacional dos Direitos Humanos), o defensor público Renan Sotto Mayor, avalia que o diálogo para a construção da estratégia de combate e prevenção à pandemia entre os povos indígenas estava travado e que, a partir da decisão, ele tem de acontecer.
MPF
A subprocuradora-geral da República e coordenadora da Câmara de Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais do MPF, Eliana Torelly, considera que a segunda reunião da Sala de Situação, no dia 24, foi mais positiva, com uma pauta mais objetiva e menos participantes. “O Ministério Público Federal acompanhará atentamente todas as etapas do cumprimento da medida liminar”, garante.
Com informações do ISA (Instituto Socioambiental)
Coalização é formada por 150 organizações e coletivos do movimento negro
Publicado 31/07/2020 00:38 | Editado 31/07/2020 00:43

A Coalizão Negra por Direitos vai pedir o impeachment do presidente Jair Bolsonaro por crimes de responsabilidade que, conforme o grupo, “agravam a política de genocídio contra a população negra”. Formada por 150 organizações e coletivos do movimento negro, a articulação denuncia que os crimes se intensificaram durante a pandemia de Covid-19, que foi negligenciada pelo governo. O pedido de impeachment, em fase de elaboração, pode receber adesões de entidades ligadas ao movimento negro até 6 de agosto.
“Não podemos admitir a condução de políticas públicas que aumentam a exclusão, a violência e perpetuam o racismo, como faz o atual Presidente da República”, afirma, em documento, a Coalização. “As ações empreendidas e autorizadas por Jair Bolsonaro demonstram que ele não só realiza discursos racistas, como efetiva suas práticas racistas durante o exercício de sua gestão pública.”
Confira a íntegra do documento:
Movimento negro pelo Impeachment
A Coalizão Negra por Direitos, articulação que reúne 150 organizações e coletivos do movimento negro, irá propor um pedido de impeachment contra o atual Presidente Jair Bolsonaro pelos crimes de responsabilidade por ele praticados e de como estes agravam a política de genocídio contra a população negra.
A Coalizão Negra por Direitos pactuou a importância e necessidade de ser realizado um pedido de impeachment proposto pelo olhar reivindicatório da população negra brasileira. No curso de nossa história, o movimento negro brasileiro sempre se fez presente em momentos críticos de defesa aos direitos humanos e de necessidade de construção democrática. E mais um vez agora!
Nosso pedido de impedimento aponta como crimes de responsabilidade práticas do Presidente Jair Bolsonaro que atentam, objetivamente, contra a vida da população negra e suas comunidades. Especialmente nos atos do Presidente contra a saúde pública no contexto da pandemia COVID 19, a insuficiência das medidas emergenciais que deveriam estar cautelosamente voltadas às famílias negras, empregadas domésticas, trabalhadoras/es informais negros/as, comunidades quilombolas, populações rurais negras, populações negras de nossas favelas, periferias e bairros. Lembramos, em nosso pedido de impedimento que, em 2018, 38,1 milhões de pessoas negras viviam abaixo da linha da pobreza e isso significa 33,0% do total da população negra (PNAD-2018), e que esta situação piorou drasticamente neste período de governo Bolsonaro + Pandemia de Covid-19. Lembramos que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no país e que o número de mortes decorrentes da brutalidade policial bate recordes no país. Por isso, não podemos admitir a condução de políticas públicas que aumentam a exclusão, a violência e perpetuam o racismo como faz o atual Presidente da República. As ações empreendidas e autorizadas por Jair Bolsonaro demonstram que ele não só realiza discursos racistas, como efetiva suas práticas racistas durante o exercício de sua gestão pública. Nosso pedido também apresenta a relevância de vozes do movimento negro estarem nos processos de discussão dos rumos políticos e democráticos desse país.
Essa ação está em consonância com o nosso manifesto ENQUANTO HOUVER RACISMO NÃO HAVERÁ DEMOCRACIA. Mais do que uma ação de impedimento com o objetivo da defesa da democracia e dos direitos fundamentais, estamos pautando a construção de uma sociedade brasileira verdadeiramente antirracista. Informações adicionais do manifesto e de sua campanha podem ser acessadas em: https://comracismonaohademocracia.org.br.
Movimento negro pelo Impeachment
A Coalizão Negra por Direitos, articulação que reúne 150 organizações e coletivos do movimento negro, irá propor um pedido de impeachment contra o atual Presidente Jair Bolsonaro pelos crimes de responsabilidade por ele praticados e de como estes agravam a política de genocídio contra a população negra.
A Coalizão Negra por Direitos pactuou a importância e necessidade de ser realizado um pedido de impeachment proposto pelo olhar reivindicatório da população negra brasileira. No curso de nossa história, o movimento negro brasileiro sempre se fez presente em momentos críticos de defesa aos direitos humanos e de necessidade de construção democrática. E mais um vez agora!
Nosso pedido de impedimento aponta como crimes de responsabilidade práticas do Presidente Jair Bolsonaro que atentam, objetivamente, contra a vida da população negra e suas comunidades. Especialmente nos atos do Presidente contra a saúde pública no contexto da pandemia COVID 19, a insuficiência das medidas emergenciais que deveriam estar cautelosamente voltadas às famílias negras, empregadas domésticas, trabalhadoras/es informais negros/as, comunidades quilombolas, populações rurais negras, populações negras de nossas favelas, periferias e bairros. Lembramos, em nosso pedido de impedimento que, em 2018, 38,1 milhões de pessoas negras viviam abaixo da linha da pobreza e isso significa 33,0% do total da população negra (PNAD-2018), e que esta situação piorou drasticamente neste período de governo Bolsonaro + Pandemia de Covid-19. Lembramos que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no país e que o número de mortes decorrentes da brutalidade policial bate recordes no país. Por isso, não podemos admitir a condução de políticas públicas que aumentam a exclusão, a violência e perpetuam o racismo como faz o atual Presidente da República. As ações empreendidas e autorizadas por Jair Bolsonaro demonstram que ele não só realiza discursos racistas, como efetiva suas práticas racistas durante o exercício de sua gestão pública. Nosso pedido também apresenta a relevância de vozes do movimento negro estarem nos processos de discussão dos rumos políticos e democráticos desse país.
Essa ação está em consonância com o nosso manifesto ENQUANTO HOUVER RACISMO NÃO HAVERÁ DEMOCRACIA. Mais do que uma ação de impedimento com o objetivo da defesa da democracia e dos direitos fundamentais, estamos pautando a construção de uma sociedade brasileira verdadeiramente antirracista. Informações adicionais do manifesto e de sua campanha podem ser acessadas em: https://comracismonaohademocracia.org.br.
Brasil chega a 2,6 milhões de casos e 91,2 mil mortes. Aumento significativo de casos nas últimas semanas deve interromper platô de mortes.
Publicado 30/07/2020 21:30 | Editado 31/07/2020 13:01

O Brasil chegou a 2.610.102 casos acumulados de covid-19. Nas últimas 24 horas, foram registradas mais 57.837 pessoas infectadas. Ontem (29), o sistema trazia 2.552.265 casos desde o início da pandemia. Os dados são da atualização diária do Ministério da Saúde, divulgada no início da noite desta quinta-feira (30).
Também conforme o balanço do órgão, foram 91.263 vidas perdidas desde o início da pandemia. O painel recebeu 1.129 novos registros nas últimas 24 horas. Ainda há 3.591 óbitos em investigação. Ontem, o sistema marcava 90.134 falecimentos em função da doença.
Faltam dois dias para terminar a 31a. semana epidemiológica, mas já dá pra observar um aumento significativo de contágios nas últimas semanas. No início de junho, a média de contágios diários era de cerca de 25 mil casos, e já havia começado o platô de mortes em torno de mil registros, que ainda se mantém.

No início de julho, a média de contágios diários já era de cerca de 35 mil, com o mês chegando ao fim em torno de 45 mil casos. Se essa proporção continuar, ainda na primeira quinzena de agosto teremos dobrado o número de casos diários para cerca de 50 mil, em relação a dois meses atrás. Como o platô de mil mortes já dura dois meses, esse número de contágios deve começar a se refletir no número de óbitos diários, também. As mortes costumam refletir os números de contágio cerca de 14 dias depois.

Ainda de acordo com a atualização diária do Ministério da Saúde, há 694.744 pacientes em acompanhamento. Outras 1.824.095 pessoas já se recuperaram da covid-19.
A taxa de letalidade (número de mortes pelo total de casos) ficou em 3.5%. A mortalidade (quantidade de óbitos por 100 mil habitantes) atingiu 43,4. A incidência dos casos de covid-19 por 100 mil habitantes é de 1.242.
Consórcio da imprensa
Segundo os números levantados pela imprensa, o país registrou 1.189 mortes pela Covid-19 confirmadas nas últimas 24 horas, chegando ao total de 91.377 óbitos. Em casos confirmados, já são 2.613.789 brasileiros com o novo coronavírus desde o começo da pandemia, 58.271 desses confirmados no último dia.
Covid-19 nos estados

Os estados com mais mortes são: São Paulo (22.710), Rio de Janeiro (13.348), Ceará (7.661), Pernambuco (6.526) e Pará (5.699). As Unidades da Federação com menos falecimentos pela pandemia são: Mato Grosso do Sul (357), Tocantins (368), Roraima (501), Acre (521) e Amapá (561).
Já em termos de casos, São Paulo lidera (529.006), seguido por Ceará (171.468), Rio de Janeiro (163.642), Bahia (161.630) e Pará (153.350). Os estados com menos pessoas infectadas até o momento são: Acre (19.573), Tocantins (24.278), Mato Grosso do Sul (24.287), Roraima (31.455) e Amapá (36.272).
Mas segundo o boletim epidemiológico divulgado ontem pelo Ministério da Saúde, Roraima teve maior crescimento de mortes e casos na 30ª semana epidemiológica em relação à anterior (80% e 146%, respectivamente). O Amapá teve grande aumento de óbitos no mesmo período (53%), bem como o Tocantins (41%).
No total, sete estados apresentaram alta de mortes: RS, SC, RJ, GO, MS, AC e RR.
Em relação aos dados de quarta (29), TO deixou de ter crescimento de mortes e o RJ tem óbitos subindo.
• Subindo: RS, SC, RJ, GO, MS, AC e RR.
• Em estabilidade, ou seja, o número de mortes não caiu nem subiu significativamente: PR, MG, SP, DF, MT, RO, TO, BA e SE.
• Em queda: ES, AM, AP, PA, AL, CE, MA, PB, PE, PI e RN.


Segundo informações da Polícia Rodoviária Federal da Paraíba (PRF-PB), dois homens, de 35 e 41 anos foram presos, na tarde desta sexta-feira (31), com oito baterias furtadas em torres de telefonia e internet. As prisões aconteceram em Alhandra, no Litoral Sul da Paraíba. De acordo com a PRF, a dupla integra uma quadrilha interestadual especializada no furto de baterias de telefonia celular e internet com atuação em Alagoas, Paraíba e Pernambuco.
Os suspeitos foram abordados no Km 107, da BR-101, e o material foi encontrado no porta-malas do veículo em que a dupla estava. Sem as baterias, o sistema de comunicação entra em pane e a localidade atingida fica sem transmissão de telefonia celular e internet.
Além das baterias, foram encontrados um conjunto de chaves, dois alicates, um pé de cabra e outras ferramentas utilizadas para o furto dos produtos. Os materiais eram usados para arrombamento dos depósitos nas torres de transmissão e também nas lojas de telefonia celular.
Os suspeitos informaram aos policiais que furtaram as baterias em João Pessoa, no bairro Bancários. A dupla foi detida e encaminhada a uma delegacia de Polícia Civil, onde foi autuada pelo crime de furto qualificado.
A prisão aconteceu por meio de uma ação integrada entre a PRF e Polícia Militar da Paraíba (PMPB).
*Com G1/PB
A última semana foi marcada por uma escalada de conflitos entre os Estados Unidos e a China, desde o campo diplomático ao militar.
Por José Reinaldo Carvalho *
Na sexta-feira (24), a China determinou que os Estados Unidos encerrem as atividades de seu consulado na cidade de Chengdu. Foi uma atitude recíproca à ordem emitida pelo presidente Donald Trump para que o país asiático fechasse o Consulado Geral em Houston (Texas).
Como sempre, seguindo os princípios da prudência, bom senso e equilíbrio, o ministério chinês das Relações Exteriores, limitou-se a dizer que se tratava de uma contra medida “legítima e necessária” ao ato unilateral e injustificado de Washington, não falou em confronto e apelou a que os Estados Unidos revejam a política de hostilidade para evitar uma escalada de tensões. Expressou ainda o desejo de que as coisas voltem à normalidade e as relações percorram os caminhos do entendimento, ainda que cada um mantenha suas próprias visões e interesses.
Os episódios envolvendo os consulados de Houston e Chengdu fazem parte de uma escalada sem precedentes em meio à crescente tensão nas relações entre Washington e Pequim, que se deterioram devido à intensa guerra comercial e tecnológica, disputas sobre a administração da pandemia, ingerências nos assuntos internos chineses a partir da nova legislação de segurança para Hong Kong e posicionamentos militares envolvendo mobilização de belonaves na área do Mar do Sul da China, que podem ter desdobramentos estratégicos
As alegações de Trump para o fechamento do consulado chinês em Houston não encontram respaldo na realidade. O Departamento de Estado não conseguiu demonstrar que funcionários chineses tenham roubado dados da vacina americana. Tudo indica que as autoridades americanas laboram em erro e mais dia menos dia vai se tornar patente a obrigação de rever a decisão. A China participa ativamente da cooperação internacional na pesquisa e desenvolvimento da vacina contra a Covid-19, com respaldo da Organização Mundial de Saúde e parcerias com países, entre eles o Brasil, via estado de São Paulo/Instituto Butantan. Os ensaios de algumas vacinas chinesas estão adiantados e em torno deles há grande expectativa no mundo.
Para além das estratégias diferentes – os EUA apostando no unilateralismo e perseguindo lucros, a China investindo na cooperação e prometendo tornar sua vacina bem público da humanidade – ficou patente uma disputa ideológica que tem a ver com interesses geopolíticos e cosmovisões distintas. Os Estados Unidos enveredaram pelo caminho da politização e estigmatização da pandemia, designando o novo coronavírus como “vírus chinês”, enquanto exibiam a vulnerabilidade do seu sistema sanitário, incapacidade para lidar com um problema complexo de saúde pública e o obscurantismo do inquilino da Casa Branca, que preferiu se eximir de responsabilidades adotando a postura negacionista. Os chineses, por seu turno, foram tempestivos, precisos, enérgicos e abrangentes no enfrentamento da pandemia, conseguindo contê-la em pouco tempo e enfrentando o problema com visão ampla. Combinaram a defesa dos seus interesses nacionais com ciência e visão política internacional baseada no multilateralismo.
Quanto ao Mar do Sul da China, tudo indica que será problema agudo nos próximos anos, e sobre Hong Kong a China mais uma vez deixou claro que se trata de um problema interno e rechaçou qualquer tipo de ingerência.
Paralelamente, o país asiático, que ocupa cada vez mais espaços econômicos e políticos com a assertividade de sua diplomacia, consegue dar novos passos em áreas sensíveis.
Sobre a delicada questão do Oriente Médio,o presidente Xi Jinping conversou por telefone com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas e reafirmou o engajamento na criação do Estado Palestino independente, com as fronteiras anteriores à expansão da ocupação israelense em 1967, em conformidade com o direito internacional e resoluções da ONU.
Relativamente à América Latina e Caribe, o chanceler chinês Wang Yi se comprometeu, durante uma videoconferência, a trabalhar com os países da região para enfrentar os múltiplos desafios apresentados pela Covid-19 e contribuir em conjunto para a recuperação econômica mundial.
A China apresentou na conferência propostas para avançar na cooperação com a América Latina, incluindo a ajuda mútua para salvaguardar a economia e a subsistência das pessoas, avanço da construção conjunta da iniciativa de comércio e investimentos em infraestrutura denominada Cinturão e Rota, além do fortalecimento da cooperação para melhorar o ambiente internacional.
Doravante, a China e os Estados Unidos trilharão caminhos divergentes e opostos. Tudo leva a crer que nas próximas décadas a rivalidade sino-americana estará no centro dos contenciosos internacionais. A China tem uma política de paz e desenvolvimento, o que requer contornar os conflitos com a superpotência do norte e evitar que se transformem em confrontação trágica. Mas objetivamente, será assertiva e defenderá seu lugar no mundo. Já os Estados Unidos tendem a reagir com violência no seu longo mas irreversível declínio.
*Jornalista, editor da página Resistência, membro do Comitê Central e da Comissão Política do PCdoB
A internação do cacique de 90 anos, considerado um dos maiores líderes indígenas do mundo, causou surpresa e repercutiu no Brasil e no exterior, principalmente devido à pandemia do coronavírus, mas Raoni testou negativo para a infecção
Publicado 27/07/2020 11:18 | Editado 27/07/2020 13:06

“Agora eu estou curado”. Com essa frase o líder indígena Raoni Metuktire, de 90 anos, se despediu dos nove dias em que ficou internado em tratamento de saúde decorrente de problemas gastrointestinais e anemia. Ao receber a alta no sábado (25), o cacique Kayapó viajou da cidade, em avião do governo estadual, para sua aldeia Piaruçu, na Terra Indígena Capoto-Jarina, onde passa este domingo com seus familiares.
A internação do cacique de 90 anos, considerado um dos maiores líderes indígenas do mundo, causou surpresa e repercutiu no Brasil e no exterior, principalmente devido à pandemia do coronavírus, mas Raoni testou negativo para a infecção. Em coletiva, ainda no hospital Dois Pinheiros, onde o líder ficou internado, ele explicou o impacto de uma doença repentina e pediu respeito.
“Queria falar para vocês que a doença chega a qualquer dia e ataca alguém da nossa família. Queria que todas as pessoas pensassem nisso, e poder gostar, amar… poder respeitar o outro, porque a gente não sabe o dia de amanhã, se nossos amigos vão ficar doentes. Isso que eu penso, que a gente deve estar juntos, porque doença não marca dia quando ela vem”, disse.
Raoni apresentou sintomas de desidratação, anemia e fraqueza e foi internado, no dia 16 de julho, em um hospital do município de Colíder (MT), a 260 quilômetros do território Capoto-Jarina, na bacia do Rio Xingu. O quadro de saúde se agravou com os problemas gastrointestinais e uma hemorragia. O cacique foi removido para o hospital Dois Pinheiros, em Sinop (a 317 quilômetros do território). Na unidade de saúde, o exame de endoscopia digestiva alta apresentou duas úlceras em atividade. A liderança passou por transfusão de sangue para controlar o quadro de anemia. “Quero agradecer a todos vocês que me apoiaram, que estão escutando todo dia sobre mim, sobre a minha saúde”, disse Raoni.

Durante a coletiva, o médico Douglas Yanai disse que o quadro de saúde de Raoni está controlado. “O quadro infeccioso já está praticamente debelado. A gente acredita que ele encontra condições de ir embora para a aldeia dele”, afirmou.
Yanai ressaltou que o adoecimento do cacique foi uma mistura de acontecimentos, e também teve relação com a morte da esposa, Bekwykà Metuktire, no último dia 23 de junho. “[O falecimento] gerou esse quadro de tristeza profunda do cacique. Ele tem tido uma alimentação bastante regular por causa desse quadro de tristeza e se agravou com as úlceras que ele tem. Ele fez sangramento digestivo baixo, além de sangramento pelas úlceras que acabaram se agravando ao longo da semana”, explicou.
O médico lembrou que Raoni chegou ao hospital num estágio bastante preocupante de saúde. “Um estado de quase choque. Ele estava bastante desidratado e apresentava uma anemia importante. Havia sim risco de morte para ele, porque era um quadro que inspira bastante cuidado”, observou ao acrescentar que foram feitas duas transfusões de sangue no líder dos Kayapó por causa das hemorragias.

Mesmo na aldeia Piaruçu, na Terra Indígena Capoto-Jarina, o tratamento da saúde de Raoni vai continuar à distância, com um trabalho contínuo para melhorar o seu quadro nutricional. Segundo o médico Douglas Yanai, se houver necessidade o cacique será internado de novo. No momento, a equipe médica continua investigando o resultado de uma biópsia que apontou, preliminarmente, para uma “possível doença inflamatória intestinal”, disse o médicos. O exame será encaminhado para São Paulo para a confirmação do diagnóstico da equipe do hospital Dois Pinheiros.
“Estabelecemos um canal direto de contato com a saúde indígena [Dsei] para que possamos ajudar a manejar esse quadro de saúde dele a distância e, claro, se a gente perceber que algum momento há necessidade que ele retorne , essa reavaliação será agendada, e se não houver condições de atendê-lo in loco, a gente traz ele aqui [hospital] para que se façam os exames necessários”, concluiu o médico Douglas Yanai.
Assim que foi informado sobre a alta do cacique, o governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (DEM), colocou um avião à disposição para levar o grande líder de volta a sua aldeia. Raoni saiu do hospital por volta das 13h40 e foi direto para o aeroporto de Sinop. O embarque ocorreu por volta das 14h, com a chegada do cacique à sua aldeia as 16h deste sábado (25).
“Ele já está lá na aldeia. Tomando todas as precauções, todas as medidas de segurança sanitária, e ele saiu do hospital direto para o aeroporto. Estamos todos felizes”, disse à Amazônia Real por áudio de Whatsapp o sobrinho-neto de Raoni, Patxon Metuktire. Nas últimas semanas, ele acompanhou o avô no hospital.

Mesmo com a alta do líder Raioni Metuktire, o movimento indígena continua apreensivo com internações de grandes lideranças. No dia 20 de julho foi transferido para um hospital de Goiânia (GO), o líder Aritana Yawalapiti, que tem 71 anos de idade. Eles está internado em tratamento de Covid-19 na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital particular, cujo nome não foi divulgado para preservar o paciente.
Neste sábado (25), em nota à imprensa, a organização Uma Gota no Oceano desmentiu uma notícia divulgada na imprensa nacional dando conta de que o cacique havia morrido. A informação, segundo a organização, foi prontamente desmentida pelo filho, Tapi Yawalapiti. Ele também informou que o estado atual de saúde do pai é estável.
“Estou muito triste e preocupado. Sei que todos querem saber notícias do meu pai e a informação é: ele está internado em quadro estável. Peço a todos os jornalistas que, ao divulgarem notícias sobre meu pai, entrem em contato conosco quando quiserem informações que nós passamos a informação correta. Não aceitamos que informações falsas sejam divulgadas”, advertiu Tapi Yawalapiti em trecho da nota.
Neste domingo (26), o hospital onde Aritana está internado divulgou um boletim médico informando que “é gravíssimo o estado de saúde do paciente, que está contaminado pelo novo Coronavírus”.
O boletim médico disse também que Aritana “é do grupo de risco e está em UTI desde terça-feira, dia 21”. “O líder indígena foi transferido de Canarana, no Mato Grosso, e precisou do auxílio de 4 tanques de oxigênio para fazer a viagem, acompanhado de seu médico, o Dr. Celso Correia Batista”, disse o site do jornal Diário do Estado.
Aritana é uma das maiores e mais antigas lideranças do Alto Xingu, território que fica entre os estados do Mato Grosso e Pará. “Ele é um dos últimos falantes do idioma materno de seu povo, o Ywalapiti, mesmo nome da etnia. Além de guardar a memória de seu idioma tradicional, Aritana também fala português e outras quatro línguas indígenas. É um grande defensor da luta pela preservação e perpetuação da cultura de seu povo para as novas gerações”, disse a nota da Gota no Oceano.
O Xingu é o segundo território indígena mais contaminado pela Covid-19, conforme a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). Já são 83 casos confirmados e seis mortes em decorrência do vírus, de acordo com o boletim epidemiológico da secretaria, divulgado na sexta-feira (25).
Os indígenas Xavante são os mais atingidos pela pandemia no estado do Mato Grosso, com 313 casos e 30 mortes. Já A campanha “A’uwe tsari: S.O.S. Xavante”, que também monitora os casos da doença, registrou mais de 40 mortes na maior etnia do estado do Mato Grosso, com mais de 22 mil pessoas.
Fonte: Amazônia Real
Projeto eleva investimentos da União no ensino público e mantém o piso de 70% para pagamento de professores e demais trabalhadores da Educação
Publicado 21/07/2020 22:23 | Editado 22/07/2020 13:16

Entidades ligadas à educação comemoraram a aprovação na Câmara Federal, em primeiro turno, do novo Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica). O projeto – que teve como relatora a deputada Professora Dorinha (DEM-TO) – eleva os investimentos da União no ensino público e mantém o piso de 70% para pagamento de professores e demais trabalhadores da Educação.
Tão logo saiu o resultado expressivo pró-Fundeb – 499 votos a favor e apenas sete contrários –, a Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) celebrou no Twitter: “Vitória Histórica da Educação! Câmara dos deputados aprova agora Novo Fundeb Permanente”. Segundo a entidade, “apesar do governo Bolsonaro e suas tentativas constantes de impedir a renovação do Fundeb, conquistamos uma aprovação ampla. #AprovaFundeb é realidade”.
A UNE (União Nacional dos Estudantes) também comentou a conquista desta terça. “Mais uma vez uma demonstração prática de que a Educação é uma das pautas que mais mobilizam a sociedade e exercem pressão sobre o Governo Bolsonaro. Tsunami da Educação, #AdiaEnem e agora #AprovaFundeb, só pra usar alguns exemplos”, tuitou a entidade.
“Momento histórico! #NovoFundeb maior e mais redistributivo foi aprovado no 1º turno da @camaradeputados. Este avanço da PEC 15/2015 significa um financiamento educacional fortalecido e em benefício dos alunos mais pobres!”, avaliou a ONG Todos pela Educação.
“Este #NovoFundeb significa na prática: 7,3 milhões de alunos de redes de ensino mais pobres recebendo recursos adicionais; mais de 2.700 redes de ensino mais pobres recebendo mais recursos; sai de R$3,7 mil para R$5,7 mil o mínimo de investimento por aluno/ano entre 2020 e 2026.”, agregou a ONG.
A Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) destacou o apoio do conjunto dos movimentos à luta em defesa do Fundeb. “A CTB, demais centrais sindicais, entidades de profissionais do ensino e de estudantes se mobilizaram junto à comunidade e aos parlamentares para garantir a vitória na votação”, afirmou a central, em matéria no Portal CTB. “O relatório apresentado por Dorinha é fruto da atuação de entidades da educação e muitos parlamentares vinculados ao tema. Foram realizadas mais de 100 audiências públicas para debatê-lo.”
Na opinião de Heleno Araújo, presidente da CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação), é hora, agora, de atentar-se aos “próximos passos da mobilização”. Segundo ele, passada a aprovação do Fundeb na Câmara e com a PEC chegando aos senadores, “não podemos baixar a guarda”. O governo “pode tentar alterar” o projeto no Senado.
Crise do coronavírus causa desaceleração sem precedentes em investimentos, comércio e turismo das economias em desenvolvimento
Publicado 14/07/2020 10:55 | Editado 14/07/2020 13:06

A crise vivida pelos países em desenvolvimento é pior do que o pós-colapso do Lehman Brothers em 2008 – e seus impactos podem se estender por dez anos. Quando a pandemia de Covid-19 se espalhou pelo mundo, os investidores estrangeiros cortaram, praticamente da noite para o dia, o fornecimento de dinheiro às economias emergentes. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), só nas fases iniciais da pandemia, mais de US$ 100 bilhões em capital estrangeiro foram retirados desses países.
Trata-se de “uma crise como o mundo nunca viu antes, com recuperação incerta”, escreveu o FMI em junho, em suas perspectivas atualizadas para a economia global. Os países industrializados deverão perder um ou dois anos de crescimento econômico. Já as nações em desenvolvimento e emergentes estão ameaçados de uma década perdida: eis o cenário de horror pintado pelos peritos da organização.
De acordo com a chefe do FMI, Kristalina Georgieva, nunca tantos países solicitaram assistência financeira à instituição ao mesmo tempo desde sua fundação, em 1945, numa evidência da gravidade da situação. Os gestores do FMI temem, acima de tudo, que uma crise longa do coronavírus leve o órgão a seus limites financeiros.
Para 2020, o Banco Mundial calcula um recuo econômico de 2,5% dos emergentes. Comparado ao retrocesso de cerca de 8% esperado nos países industrializados, nem parece tão ruim. Ainda assim, é a pior crise financeira para os emergentes desde os anos 1960. A fuga de capital desacelerou, e dados iniciais indicam que desde junho mais investimentos têm fluído para os países emergentes do que sido cancelados. Mas isso não se aplica a todas as economias afetadas pela crise do coronavírus.
Crescimento freado
Na Europa, a Rússia foi duramente atingida pela pandemia. Mas os analistas do IHS Markit predizem tempos especialmente difíceis para países como Montenegro, Bósnia-Herzegovina, Armênia, Turquia e Croácia. Em Montenegro, por exemplo, o turismo contribui para mais de 20% do produto interno bruto (PIB). Na Turquia, supera os 12%. Além disso, os turcos dependem fortemente de investimentos estrangeiros, tal como outros mercados emergentes.
No mundo todo, países como as Filipinas (com uma participação do turismo de 25% do PIB) ou a Tailândia (com pouco menos de 22%) são duramente atingidos. Mesmo economias gigantescas, como as da China e da Índia, com uma participação do turismo em seu desempenho econômico de 11% e 9%, são afetadas pelas restrições internacionais às viagens.
Antigas estrelas das economias emergentes, como Brasil e África do Sul, que há muitos anos brilhavam nos mercados financeiros como membros do Brics, já estavam gravemente atingidas em sua economia antes mesmo do coronavírus. O fato de a pandemia grassar com violência especial nessas nações agrava ainda mais o quadro.
Até agora, a pandemia custou menos vidas nos países mais pobres do sul da Ásia, América Latina e África do que nos países industrializados mais afetados. Mas para Raghuram Rajan, ex-economista-chefe do FMI, o dano econômico será consideravelmente maior para eles. O especialista – que leciona na Universidade de Chicago – diz ter dor de estômago só de pensar no alto nível de endividamento das empresas nos mercados emergentes.
Muitas moedas de nações emergentes se desvalorizaram significativamente. Empresas com dívidas em euros e dólares devem, portanto, captar cada vez mais dinheiro em sua moeda local para pagar seus empréstimos. Não é de se espantar que economistas como Rajan alertem para o risco crescente de falências.
Há meses vêm caindo o comércio internacional de mercadorias, os investimentos estrangeiros diretos e o turismo. Para muitos mercados emergentes atingidos pela pandemia, será quase impossível recuperar essas perdas, escreveu Rajan em artigo encomendado pelo jornal Financial Times no início de julho.
Segundo o economista, para eles é praticamente impossível estabilizar suas contas com pacotes conjunturais bilionários e auxílios financeiros a consumidores e empresas. Além disso, muitos países emergentes não dispõem de um sistema nacional de saúde de âmbito nacional, impossibilitando uma reação efetiva a um grande surto de Covid-19.
“Quanto mais tempo isso durar – e o aumento de infecções indica que o pior ainda está por vir –, mais empresas domésticas, mesmo as grandes e saudáveis, terão que pedir empréstimos para se manter à tona. Se os credores não fizerem concessões, muitas dessas empresas excessivamente endividadas não terão mais como se recuperar financeiramente quando o crescimento voltar e a demanda aumentar”, afirmou Rajan.
A crise do coronavírus afeta muitos mercados emergentes numa fase já difícil. Muito antes da pandemia, economistas do think tank londrino Capital Economics já proclamavam: “A era de ouro dos mercados emergentes acabou. Mais cedo ou mais tarde, a China terá que se preparar para taxas de crescimento de apenas 2% ao ano.”
Para as economias emergentes, o período desde a virada do milênio foi de taxas de crescimento extraordinariamente altas – que, no entanto, não poderão ser alcançadas em um futuro próximo, avaliam os especialistas. “O crescimento do PIB das economias emergentes cairá de uma média de 5,5% nas décadas de 2000 e 2010, para cerca de 3,5% em 2020-2040. Ainda será mais rápido do que no mundo desenvolvido, mas a renda dos mercados emergentes se equiparará mais lentamente do que antes à dos países mais desenvolvidos.”
América Latina
No primeiro trimestre de 2020, mesmo após a eclosão da pandemia, países como Chile, Guatemala, México, Paraguai, Peru e Panamá conseguiram pôr títulos nos mercados financeiros internacionais sem adicionais de crise exorbitantes e em “condições razoavelmente boas”. É o que explica o especialista em economias emergentes José Antonio Ocampo, numa análise para o think tank Brookings Institution, sediado em Washington.
Agora os países mais afetados da América Latina terão que adiar os pagamentos sob a supervisão do Banco Mundial ou dos bancos regionais de desenvolvimento. Tudo para suportar melhor as consequências da pandemia, diz o economista, consultor de desenvolvimento da Organização das Nações Unidas e professor da Universidade Columbia, em Nova York
A situação é muito mais grave para os fortemente endividados, como Argentina e Equador – países que, mesmo antes da crise, já precisavam muito mais do que uma prorrogação do prazo para o pagamento de suas dívidas públicas. Para Raghuram Rajan, os investidores internacionais de títulos governamentais e corporativos devem renunciar a parte de suas reivindicações perante as nações pobres e emergentes: “Os países mais industrializados não devem levar o resto do mundo à ruína por mero interesse próprio. O que acontece em outros lugares não ficará por lá.”
A ameaça de desemprego em massa nos países mais pobres levará à grandes ondas de emigração, adverte Rajan. No fim das contas, mais protecionismo nos países industrializados “desencadeia infinitas flotilhas de barcos de refugiados e caravanas de desesperados”.
Com informações da Deutsche Welle
Crise do coronavírus causa desaceleração sem precedentes em investimentos, comércio e turismo das economias em desenvolvimento
Publicado 14/07/2020 10:55 | Editado 14/07/2020 13:06

A crise vivida pelos países em desenvolvimento é pior do que o pós-colapso do Lehman Brothers em 2008 – e seus impactos podem se estender por dez anos. Quando a pandemia de Covid-19 se espalhou pelo mundo, os investidores estrangeiros cortaram, praticamente da noite para o dia, o fornecimento de dinheiro às economias emergentes. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), só nas fases iniciais da pandemia, mais de US$ 100 bilhões em capital estrangeiro foram retirados desses países.
Trata-se de “uma crise como o mundo nunca viu antes, com recuperação incerta”, escreveu o FMI em junho, em suas perspectivas atualizadas para a economia global. Os países industrializados deverão perder um ou dois anos de crescimento econômico. Já as nações em desenvolvimento e emergentes estão ameaçados de uma década perdida: eis o cenário de horror pintado pelos peritos da organização.
De acordo com a chefe do FMI, Kristalina Georgieva, nunca tantos países solicitaram assistência financeira à instituição ao mesmo tempo desde sua fundação, em 1945, numa evidência da gravidade da situação. Os gestores do FMI temem, acima de tudo, que uma crise longa do coronavírus leve o órgão a seus limites financeiros.
Para 2020, o Banco Mundial calcula um recuo econômico de 2,5% dos emergentes. Comparado ao retrocesso de cerca de 8% esperado nos países industrializados, nem parece tão ruim. Ainda assim, é a pior crise financeira para os emergentes desde os anos 1960. A fuga de capital desacelerou, e dados iniciais indicam que desde junho mais investimentos têm fluído para os países emergentes do que sido cancelados. Mas isso não se aplica a todas as economias afetadas pela crise do coronavírus.
Crescimento freado
Na Europa, a Rússia foi duramente atingida pela pandemia. Mas os analistas do IHS Markit predizem tempos especialmente difíceis para países como Montenegro, Bósnia-Herzegovina, Armênia, Turquia e Croácia. Em Montenegro, por exemplo, o turismo contribui para mais de 20% do produto interno bruto (PIB). Na Turquia, supera os 12%. Além disso, os turcos dependem fortemente de investimentos estrangeiros, tal como outros mercados emergentes.
No mundo todo, países como as Filipinas (com uma participação do turismo de 25% do PIB) ou a Tailândia (com pouco menos de 22%) são duramente atingidos. Mesmo economias gigantescas, como as da China e da Índia, com uma participação do turismo em seu desempenho econômico de 11% e 9%, são afetadas pelas restrições internacionais às viagens.
Antigas estrelas das economias emergentes, como Brasil e África do Sul, que há muitos anos brilhavam nos mercados financeiros como membros do Brics, já estavam gravemente atingidas em sua economia antes mesmo do coronavírus. O fato de a pandemia grassar com violência especial nessas nações agrava ainda mais o quadro.
Até agora, a pandemia custou menos vidas nos países mais pobres do sul da Ásia, América Latina e África do que nos países industrializados mais afetados. Mas para Raghuram Rajan, ex-economista-chefe do FMI, o dano econômico será consideravelmente maior para eles. O especialista – que leciona na Universidade de Chicago – diz ter dor de estômago só de pensar no alto nível de endividamento das empresas nos mercados emergentes.
Muitas moedas de nações emergentes se desvalorizaram significativamente. Empresas com dívidas em euros e dólares devem, portanto, captar cada vez mais dinheiro em sua moeda local para pagar seus empréstimos. Não é de se espantar que economistas como Rajan alertem para o risco crescente de falências.
Há meses vêm caindo o comércio internacional de mercadorias, os investimentos estrangeiros diretos e o turismo. Para muitos mercados emergentes atingidos pela pandemia, será quase impossível recuperar essas perdas, escreveu Rajan em artigo encomendado pelo jornal Financial Times no início de julho.
Segundo o economista, para eles é praticamente impossível estabilizar suas contas com pacotes conjunturais bilionários e auxílios financeiros a consumidores e empresas. Além disso, muitos países emergentes não dispõem de um sistema nacional de saúde de âmbito nacional, impossibilitando uma reação efetiva a um grande surto de Covid-19.
“Quanto mais tempo isso durar – e o aumento de infecções indica que o pior ainda está por vir –, mais empresas domésticas, mesmo as grandes e saudáveis, terão que pedir empréstimos para se manter à tona. Se os credores não fizerem concessões, muitas dessas empresas excessivamente endividadas não terão mais como se recuperar financeiramente quando o crescimento voltar e a demanda aumentar”, afirmou Rajan.
A crise do coronavírus afeta muitos mercados emergentes numa fase já difícil. Muito antes da pandemia, economistas do think tank londrino Capital Economics já proclamavam: “A era de ouro dos mercados emergentes acabou. Mais cedo ou mais tarde, a China terá que se preparar para taxas de crescimento de apenas 2% ao ano.”
Para as economias emergentes, o período desde a virada do milênio foi de taxas de crescimento extraordinariamente altas – que, no entanto, não poderão ser alcançadas em um futuro próximo, avaliam os especialistas. “O crescimento do PIB das economias emergentes cairá de uma média de 5,5% nas décadas de 2000 e 2010, para cerca de 3,5% em 2020-2040. Ainda será mais rápido do que no mundo desenvolvido, mas a renda dos mercados emergentes se equiparará mais lentamente do que antes à dos países mais desenvolvidos.”
América Latina
No primeiro trimestre de 2020, mesmo após a eclosão da pandemia, países como Chile, Guatemala, México, Paraguai, Peru e Panamá conseguiram pôr títulos nos mercados financeiros internacionais sem adicionais de crise exorbitantes e em “condições razoavelmente boas”. É o que explica o especialista em economias emergentes José Antonio Ocampo, numa análise para o think tank Brookings Institution, sediado em Washington.
Agora os países mais afetados da América Latina terão que adiar os pagamentos sob a supervisão do Banco Mundial ou dos bancos regionais de desenvolvimento. Tudo para suportar melhor as consequências da pandemia, diz o economista, consultor de desenvolvimento da Organização das Nações Unidas e professor da Universidade Columbia, em Nova York
A situação é muito mais grave para os fortemente endividados, como Argentina e Equador – países que, mesmo antes da crise, já precisavam muito mais do que uma prorrogação do prazo para o pagamento de suas dívidas públicas. Para Raghuram Rajan, os investidores internacionais de títulos governamentais e corporativos devem renunciar a parte de suas reivindicações perante as nações pobres e emergentes: “Os países mais industrializados não devem levar o resto do mundo à ruína por mero interesse próprio. O que acontece em outros lugares não ficará por lá.”
A ameaça de desemprego em massa nos países mais pobres levará à grandes ondas de emigração, adverte Rajan. No fim das contas, mais protecionismo nos países industrializados “desencadeia infinitas flotilhas de barcos de refugiados e caravanas de desesperados”.
Com informações da Deutsche Welle
Consumidor pagará por empréstimos de distribuidoras por meio de encargo na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE). Já privatização deve aumentar custos de 17% a 20%.
Publicado 14/07/2020 17:55 | Editado 14/07/2020 18:26

Os governo federal vai onerar os consumidores com o pagamento do socorro ao setor elétrico, além de tornar a energia mais cara caso se concretizem os planos de privatização da Eletrobras. A avaliação é de Ikaro Chaves, diretor da Associação dos Engenheiros e Técnicos do Sistema Eletrobras (Aesel). Em entrevista ao Vermelho, Chaves falou sobre como as duas medidas impactarão na conta de luz dos consumidores comerciais e residenciais.
Ele explica que, no caso do socorro às distribuidoras de energia, as medidas editadas pelo governo federal – a Medida Provisória (MP) 950 e o Decreto 10.350, que a regulamentou – preveem concessão de crédito a essas empresas por meio do programa Conta-Covid. No entanto, quem vai pagar por esses empréstimos é o consumidor, por meio de encargo específico dentro da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE).
“O setor elétrico é dividido em três partes, geração, transmissão e distribuição. A pandemia causou uma redução do consumo de energia com o fechamento do comércio, escolas, restaurantes. Como houve uma redução, a distribuidora comprou uma quantidade de energia e não tem para quem vender. Se ela comprou energia e o cliente não vai consumir, problema dela, ela deveria arcar com o risco. Mas não foi o que o governo determinou”, diz Ikaro Chaves.
Ele ressalta que para evitar um ‘tarifaço’, o que seria impopular, houve a decisão de adiar o aumento para 2021 e dilui-lo ao longo do tempo. No entanto, ele ainda cairá no colo dos cidadãos.
“O governo autorizou as distribuidoras a repassarem os prejuízos que vão ter para os consumidores. Só que não vai ser feito de uma vez. Conseguiram uma linha de crédito para diluir esse prejuízo ao longo de cinco anos. O consumidor nunca é beneficiado. Está sobrando energia e o preço sobe.”
Encarecimento
Nos planos do governo, a privatização da Eletrobras também deve deixar a energia mais cara. Segundo Chaves, a projeção é de um impacto de 17% a 20%. Ele explica que um dos motivos é que com a privatização virá o fim do regime de cotas, instituído no governo Dilma Rousseff. Nele, a tarifa cobre apenas custos de operação e manutenção das usinas.
“É muito caro fazer hidrelétrica. Mas, depois que você construiu, a energia é relativamente barata porque não gasta combustível. Algumas usinas da Eletrobras são antigas e, na renovação de contrato, passaram a vender energia mais barata. A Eletrobras é a empresa que tem mais usinas nessa situação. Ao privatizar, essas usinas vão sair do regime de cotas e vender no regime de produção independente. Então essas usinas antigas, que já estão pagas, vão cobrar mais caro”, diz.
Segundo Ikaro Chaves, a outra razão para o encarecimento é um efeito natural da privatização. “Quando você privatiza, historicamente a energia aumenta. É um setor monopolista. Quanto mais usinas se constrói, mais energia vai ter e fica mais barata essa energia. Então, ela [geradora privada] não vai investir em usinas. A Eletrobras sempre atua nos leilões de energia para oferecer o melhor preço. Uma empresa com esse tamanho, pode mudar a regra do jogo”, afirma.
Chaves diz ainda que é “uma grande mentira” a afirmação do governo de que para manter a Eletrobras estatal seria necessário fazer aportes de valores elevados. “A Eletrobras não consome dinheiro do Estado. A Eletrobras paga. Nos últimos dois anos, deu lucro de R$ 24 bilhões. Como o governo é o maior acionista, ele recebe dividendos. Vai receber R$ 1,25 bilhão só este ano”.
Ele afirma também que desde o governo Michel Temer há uma opção política da Eletrobras por não investir. “A empresa não precisa de recurso do governo para investir. Tem hoje R$ 12 bilhões em caixa pronto para investir. Por que não investe? Porque não quer. Por uma escolha política do governo. O governo Temer e o governo Bolsonaro tomaram a decisão política de não investir”.
As metáforas bélicas para o “combate” ao coronavírus podem causar efeito reverso do desejado, especialmente quando começa haver flexibilização do isolamento social, com todos posando de corajosos e enfrentando o vírus de peito aberto.
Publicado 14/07/2020 00:23 | Editado 14/07/2020 00:44

Vemos essa guerra refletida no idioma usado por políticos, formuladores de políticas, jornalistas e profissionais de saúde.
Quando o “inimigo invisível” atacou, economias inteiras pararam conforme populações “se abrigaram em casa”. Disseram-nos para nos “agachar” para a longa batalha pela frente e “apoiar nossas tropas”, os profissionais de saúde, lutando nas “linhas de frente”.
Essas metáforas de inspiração militar servem a um propósito. Ao contrário do denso cenário linguístico da ciência e da medicina, suas mensagens são claras: Perigo. Apertem os cintos. Colaborem.
De fato, estudos mostra que, às vezes, metáforas militares podem ajudar a unir pessoas contra um inimigo comum. Elas podem transmitir um senso de urgência para que as pessoas abandonem o que estão fazendo e comecem a prestar atenção.
No entanto, como alguém que estudou a maneira como a linguagem influencia o comportamento, sei que esse tipo de retórica pode ter efeitos a longo prazo menos positivos, principalmente na saúde e na medicina. De fato, a pesquisa mostrou que essas metáforas podem levar as pessoas a tomar decisões que vão contra o bom conselho médico.
Uma base linguística de guerra
A retórica militarizada foi popularizada com a “Guerra às Drogas”, um termo cunhado pelo presidente Richard Nixon em um esforço para reduzir o uso de drogas ilícitas nos EUA. Desde então, a linguagem da guerra se infiltrou em nosso léxico coletivo. Atualmente, estamos envolvidos em uma guerra contra as mudanças climáticas. Alguns argumentam que há uma guerra no Natal, enquanto outros dizem que há uma guerra contra a verdade.
Portanto, é natural que, quando um vírus novo e mortal surja, a retórica de guerra persista.
As metáforas militares não são novas na medicina; há muito tempo desempenham um papel na formação do relacionamento dos pacientes com a doença. O câncer é um exemplo-chave disso. O câncer é um inimigo, invadindo o corpo do paciente. É dito aos pacientes que devem lutar, que estão em guerra e que devem ser fortes enquanto recebem tratamentos que visam a destruição dessas células inimigas.
O fato de serem usadas com tanta frequência, indica que essas metáforas servem a um propósito. Elas são simples e diretas, ajudando-nos a compreender e categorizar algo complexo e imprevisível.
Por que guerra e medicina não se misturam
Mas esse enquadramento contém uma subcorrente potencialmente perigosa.
A linguagem afeta a cognição, e a cognição afeta nossos comportamentos. Foi demonstrado que a linguagem de guerra altera nosso comportamento – e nem sempre para melhor.
Na guerra, lados opostos estão envolvidos em uma luta. Quem sobrevive mais tempo e luta mais, vence. Força e confiança são elogiadas, enquanto comportamentos medrosos são vistos com desprezo. O pôster da Segunda Guerra Mundial, “Mantenha a calma e continue” (Keep calm and carry on), exemplifica essa mentalidade. A mensagem subjacente da chamada “Guerra ao Terror” era não permitir que o medo perturbasse nossas vidas. Havia um grande foco em retornar à “vida normal” e pensava-se que o retorno aos passatempos nacionais, como o beisebol, tivesse um papel enorme em ajudar o país a se recuperar.
Essas abordagens podem parecer úteis, mas no caso do coronavírus o conselho médico sugere distanciamento físico e uso de máscara. Infelizmente, esta orientação requer disruptura. Ficar em casa é mudar sua rotina, usar uma máscara é parecer fraco e com medo, e evitar tudo o que compõe nossa rotina diária é deixar o inimigo vencer.
Ao lidar com um vírus, o bombardeio retórico não faz sentido – e pode até sair pela culatra. Pesquisas mostram que as metáforas militares levam a comportamentos negativos em certas situações de saúde. As pessoas podem se tornar mais propensas a correr riscos, exagerar-se e ser menos propensas a se envolver em atividades preventivas. Por exemplo, algumas pessoas podem não querer parecer com medo da exposição ao sol, e isso pode torná-las menos propensas a usar protetor solar. Outros podem continuar procurando tratamentos para doenças terminais – apesar dos efeitos colaterais debilitantes – porque não querem ser vistos como “rendidos”.
A maneira como as metáforas da guerra enfatizam a força também pode estigmatizar aqueles que adoecem, que agora são vistos como fracos.
A dicotomia entre força versus fraqueza implica em escolha, como se aqueles que estavam infectados tivessem escolhido se render. Na realidade, aquilo que nos faz parecer fortes e confiantes em uma guerra só funciona no contexto de uma batalha com outros humanos. É evidente que algo como um vírus ou uma droga ilícita não tem compreensão da psicologia humana; portanto, demonstrações de confiança não têm sentido.
A guerra afrouxa nossa moral e ética
Há também um elemento mais insidioso de metáforas de guerra que enquadram iniciativas de políticas públicas.
Durante a guerra, o público geralmente é mais aberto a ações que não são toleradas em tempos de paz. A construção de campos de internação japoneses durante a Segunda Guerra Mundial e a representação de imigrantes como “invasores” para estabelecer as bases para sua detenção indefinida são ilustrações gritantes desse fenômeno.
No mundo da pesquisa e da medicina, demonstrou-se que a guerra e as metáforas da guerra contribuem para a pesquisa antiética. As “batalhas” contra certas doenças levaram os pesquisadores a violar sua responsabilidade ética em um esforço para “vencer a guerra” para um bem maior. Por exemplo, nos infames experimentos de sífilis de Tuskegee (Alabama, EUA), em que os pesquisadores justificaram não tratar quase 400 homens negros por sífilis – ou mesmo dizer a eles que tinham a doença – para aprender sobre a progressão natural da doença.
Durante a pandemia, vimos discussões sobre o racionamento de serviços de saúde e a priorização de algumas vidas sobre outras, de uma maneira que normalmente não seria aceitável. O tenente-governador do Texas, Dan Patrick, defendeu abertamente que os idosos deveriam se voluntariar para morrer para salvar a economia.
Quando descrevemos um vírus como um inimigo a ser derrotado, ele muda nossas percepções sobre como reagir ao vírus e pode fazer com que o público se comporte de maneiras ilógicas.
À medida que os estados dos EUA começam a reabrir, apenas para descobrir que o vírus continua a se espalhar sem parar, essas metáforas militares podem estar causando mais mal do que bem. Talvez seja hora de mudar a maneira como falamos sobre o vírus.
Tabhita Moses é doutora pela Universidade Estadual de Wayne
Artigo traduzido do The Conversation por Cezar Xavier
Não é só no Brasil que a uberização do trabalho tem encontrado resistência — e, se os métodos de dominação desta nova organização do trabalho se assemelham em diversos países, a organização popular também ganhou ressonância internacional.
Publicado 12/07/2020 14:18 | Editado 12/07/2020 17:40

“Os entregadores de aplicativo vão parar”. De repente essa pauta explodiu no Brasil e trouxe à superfície uma realidade baseada na superexploração do trabalho, remuneração baixa e nenhum direito trabalhista. Essa é a vida dos entregadores de aplicativo, esses jovens que vemos diariamente em moto e bicicleta pelos grandes centros urbanos. Eles trabalham em média 12 horas por dia, ganham pouco – muitas vezes menos de R$1 mil por mês – e não têm nenhum vínculo com as empresas contratantes. Na verdade, essas empresas nem sabem que rosto eles têm e quanto custa a um “colaborador” parar porque sofreu um acidente, ficou doente ou teve algum problema pessoal.
Não é de se admirar que em algum momento essa bolha explodisse. Foi o que aconteceu no último dia 1 de julho. Os entregadores de aplicativo pararam em 15 capitais brasileiras, além de outros cinco países da América Latina – Argentina, Costa Rica, Equador, Guatemala e México. O impacto da greve não foi pequeno. Desde então, diversas frentes de trabalhadores se organizam para a nova paralisação que ainda não se sabe se acontecerá no dia 14 ou no dia 25 deste mês. O fato é que eles vão parar novamente e – mesmo com disputas internas da categoria – o ponto em comum é “melhores condições de trabalho”.
Os Entregadores Antifascistas são categóricos, eles defendem a CLT e exigem que as empresas paguem um vale-alimentação. Segundo Paulo Lima, líder do movimento conhecido como Galo, esse é o ponto de partida para buscar um vínculo empregatício. Outros grupos buscam aumento do valor da taxa de entrega, adicional contra acidentes e doença, artigos de higiene e segurança agora durante a pandemia. A pauta é longa porque eles não tem direito nenhum, e a liberdade é só a de sair do aplicativo se não estiver satisfeito com o trabalho.

Para entender os motivos que levam milhares de jovens trabalhadores a se submeter a essas condições desumanas de contratação conversamos com o doutorando em Ciência Política da USP, Caetano Patta. Ele estuda desde 2018 os processos de politização, organização e engajamento político dos trabalhadores de aplicativo e garante que no Brasil “essa forma de organização da exploração do trabalho encontrou um terreno muito fértil para se expandir”. Salta aos olhos um dado: em 2014 – ano em que Dilma Rousseff foi reeleita presidenta – o Brasil se orgulhava de atingir a mais baixa taxa de desemprego da história, apenas 4,3%. Hoje, passados cinco anos, esse índice é um dos mais altos da década, 12,9%, são mais de 12 milhões de brasileiros sem emprego.
Nesse período, o governo de Michel Temer aprovou o Teto de Gastos, em seguida, a Reforma Trabalhista. Com a chegada de Jair Bolsonaro à presidência e Paulo Guedes no Ministério da Economia, as reformas impopulares se intensificaram – foi aprovada a da Previdência – e a escalada fascista acelerou o passo.
Para Caetano, “existe um incentivo, por parte do Estado, para essa desconstrução das garantias do trabalho no Brasil. Então, ainda que a gente esteja falando de empresas que passam a ter alguma regulamentação em alguns municípios, alguma discussão no Congresso Nacional — como já aconteceu com os motoristas —, existe uma sinalização por parte do poder público do Brasil de que o projeto de Estado para o trabalho em curso é um projeto de flexibilização e de informalização da força do trabalho. Isso, de 2014 para cá, é bastante nítido, mas muito mais a partir do governo Temer”. Com a ausência do Estado, a resposta veio das ruas.
Quem são os entregadores?
“Hoje, para conseguir ganhar 2 mil reais, preciso trabalhar mais de 12 horas, todos os dias, sem folga”. O depoimento é de Mineiro, entrevistado pela BBC Brasil, mas poderia ser de inúmeros entregadores que transitam pelas ruas das grandes cidades brasileiras todos os dias, com sol, chuva ou pandemia.
A alarmante difusão do coronavírus no Brasil fez ebulir um caldeirão de contradições que já vinha cozinhando há pelo menos 9 anos, quando os aplicativos de delivery se popularizaram. Segundo dados da Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista – Remir Trabalho, que ouviu 252 trabalhadores do setor em 26 cidades entre os dias 13 e 20 de abril de 2020 -, 60,3% apontaram queda na remuneração, comparando o período de pandemia ao momento anterior. Outros 27,6% disseram que os ganhos (já baixos) se mantiveram. Nesse período, as empresas de delivery não garantiram máscaras ou álcool para os entregadores. A realidade é que essa tendência de não garantias é diretamente relacionada a criação dos aplicativos.
Patta conta que, em sua pesquisa, ficou clara a pluralidade de condições da categoria dos entregadores. “É uma condição que se repete em categorias precarizadas, de reunir e sobrepôr uma série de trajetórias, condições jurídicas, sociais e de trabalho”. Alguns entregadores, por exemplo, utilizam motos para fazer as entregas, enquanto outros a bicicleta; alguns têm um emprego fixo fora das entregas, enquanto a maioria depende exclusivamente das entregas. A diversidade etária, segundo Patta, também é alta, de jovens de 15 anos até adultos de 50.
Entre os entregadores de bicicleta, segundo a pesquisa da Aliança Bike, mais de 70% são negros – pretos ou pardos – e metade deles tem menos de 22 anos. Para ganhar um salário mínimo na cidade de São Paulo, os entregadores costumam trabalhar cerca de 10 horas por dia. Nessa carga horária, que traz cerca de mil reais ao trabalhador, não está incluída a alimentação e tampouco a manutenção dos veículos. A “economia do compartilhamento” é, na realidade, a possibilidade da empresa servir-se não apenas da força de trabalho, mas também dos meios de trabalho. O entregador, supostamente “microempreendedor”, é obrigado a arcar com os custos do meio de trabalho (aluguel de bike, parcelamento da moto ou do celular, ambos dificilmente comprados à vista) sem poder contar com direitos.

Esse serviço é organizado em uma plataforma digital com algoritmos muito complexos, intencionalmente de difícil compreensão. “No dia-a-dia é difícil pro entregador entender o que tá em jogo ali, o que é que faz diferença”, argumenta Patta. “Como é calculado o valor que vai pro bolso dele e como é calculado o valor que vai ser retido na empresa?”. Para Patta, essa forma de organizar o trabalho – ou de organizar a exploração – não confere transparência às relações trabalhistas. Algumas ações na Justiça brasileira já tentaram estabelecer vínculo empregatício entre colaboradores e as empresas, mas não têm obtido sucesso, segundo a BBC. Os aplicativos insistem que os trabalhadores não são seus funcionários, enquanto a precarização e as jornadas cada vez mais exaustivas se tornam parte da normalidade.
“A gente não se alimenta, ou se alimenta mal, para e come um cachorro quente cheio de química, que não alimenta e deixa você tonto. Ai já viu né, tontura e motocicleta tem que chamar os cara da saúde pra trocar uma ideia”, desabafou Galo em entrevista à Carta Maior. Enquanto os aplicativos não garantem nenhum tipo de seguro, Caetano Patta conta que a pesquisa da Aliança Bike colocou a segurança no trânsito como outra grande questão para os entregadores. Se o trabalhador sofre um acidente durante seu expediente e vem a falecer, sua família não ganhará nenhum seguro; se ele vive mas se fere gravemente, não receberá nada enquanto estiver em recuperação. Por fim, o conserto de todos os danos na moto ou bicicleta deverão ser pagos pelo entregador. “A gente tá falando de um cara que trabalha 12 horas por dia pra ganhar menos de um salário mínimo e que precisa descontar desse salário mínimo alimentação e manutenção”, explica Patta. “Não existe jornada de 8 horas, não existe salário mínimo, nem férias, vale alimentação ou vale transporte. É uma desconstrução completa da formalidade do trabalho que existia para uma parcela dos trabalhadores”, conclui o pesquisador.
Patta reforça a importância de entender o capitalismo a partir dessas novas experiências, muito diferente da organização sindical que liderou as grandes lutas e conquistas da classe trabalhadora no século XX e início do século XXI. “É um processo muito experimental de uma categoria que, ainda que não seja completamente nova, passou por um recente inchaço responsável por redefinir o papel dessa classe na cidade e no capitalismo”, explica Patta.
Os grandes centros são as áreas onde mais se prolifera a inscrição em aplicativos, por serem também os locais com grande concentração de pessoas desempregadas e jovens sem perspectivas. Para Patta, é importante analisar a centralidade da logística e dos transportes no capitalismo contemporâneo e sua manifestação nas metrópoles, onde mercadorias circulam em massa e diariamente para atingir milhares de pessoas. “Os entregadores são, nesse contexto, o nó dessa circulação ao passo em que encarnam o mínimo de garantias que uma pessoa pode ter no mundo do trabalho hoje”, explica o pesquisador. Essenciais para o funcionamento da sociedade, esses trabalhadores encaram as maiores mazelas do neoliberalismo: a desconstrução das garantias e a desvalorização do trabalho, processo este que conta com a fiel participação do Estado – igualmente enfraquecido e deslegitimado.
“Esse trabalhador não irá voltar a ser um trabalhador como aquele do chão de fábrica”, reitera Patta. “Fábricas como a da Ford no ABC, no final dos anos 1970, contratavam 40 mil pessoas que tinham o mesmo vínculo; com salários diferentes mas com carteira assinada por um mesmo empregador, filiados a um mesmo sindicato”, analisa, apontando para uma irremediável pulverização do trabalho. Para ele, um possível paralelo é a mobilização dos caminhoneiros, em 2018. “Os caminhoneiros tem uma condição de trabalho muito parecida: geralmente não são donos do caminhão ou arcam com os custos do veículo; vivem toda a insegurança, abandono e falta de garantias, mas são responsáveis por fazer o país funcionar”, descreve o pesquisador.
Apesar das inúmeras contradições relativas ao alinhamento político de parte dos caminhoneiros com a candidatura de Jair Bolsonaro em 2018, a greve foi um marco para a luta dos trabalhadores precarizados no Brasil. “A política de preços da Petrobrás foi um episódio explícito do mercado assumindo uma função que anteriormente era do Estado, de regular o preço do combustível. Os caminhoneiros se mobilizam e conseguem reverter, ou pelo menos estancar, o processo de flexibilização do preço do combustível”, lembra Patta, que completa: “para os entregadores de aplicativos, esse é um exemplo brilhante de luta”. Se o rendimento e as condições de trabalho não são suficientes para garantir o sustento e uma vida confortável, o entregador para. E com ele, toda a sociedade para junto.
“Desde que o Brasil é Brasil, o projeto de colonização esteve vinculado a essa miríade de formas de trabalho, de exploração da força de trabalho e de precarização”, analisa Patta. A precarização e a constante luta dos trabalhadores para reverter esse processo está longe de ser algo novo. Intelectuais como Paulo Arantes e Chico de Oliveira discutiram essa condição histórica e suas raízes atuais. “No Brasil, o passado e o futuro se encontram. A tecnologia, a economia 4.0, todas essas questões, que parecem sinais do que há de mais avançado no capitalismo mundial, se acoplam muito bem a uma estrutura de exploração da força de trabalho que existe há séculos e décadas”, destrincha Patta. Como investiga a pesquisadora Ludmila Abílio, a uberização no Brasil já é uma realidade em metamorfose há anos, que passa pelas revendedoras de cosméticos, por exemplo.
A força da herança escravocrata se estende em diversos nichos e se molda às necessidades atuais das elites. A maioria dos entregadores de bike são jovens negros e o trabalho não garantido no Brasil é uma constante. “A história da população negra nesse país é atravessada por formas de trabalho que não garantem o mínimo, mas que esvaziam a dignidade”, afirma Patta. Esse contexto histórico de opressão se repõe, obedecendo as características atuais do capitalismo contemporâneo. O exemplo são os aplicativos.
O governo Bolsonaro, representado por Paulo Guedes, é explicitamente contra as garantias, tratadas falaciosamente como distorção do bom funcionamento da economia. “Trata-se de um neoliberalismo radical, que desconstrói as garantias enquanto um setor muito restrito ainda as têm”, alerta o pesquisador. Hoje, 104 milhões de brasileiros vivem com cerca de 400 reais. O valor impede qualquer possibilidade de vida digna, já que não atinge o valor necessário para pagar o aluguel, o transporte ou a alimentação de uma pessoa – quem dirá de uma família. Enquanto isso, acompanhamos a batalha para garantir o auxílio de 600 reais durante a pandemia, quantia que o governo insistiu em chamar de “voucher”.
A crise do neoliberalismo é mundial, a resistência dos trabalhadores também
Não é só no Brasil que a uberização do trabalho tem encontrado resistência — e, se os métodos de dominação desta nova organização do trabalho se assemelham em diversos países, a organização popular também ganhou ressonância internacional. Em 2020, durante a pandemia do novo coronavírus, trabalhadores americanos do aplicativo de entregas de mercado Instacart convocaram uma greve para exigir que a empresa disponibilizasse equipamentos de proteção pessoal (sobretudo higienizadores de mãos e sabonetes) e dispositivos de seguridade contra a doença, como um pagamento adicional de US$5 por pedido devido aos riscos subjacentes ao trabalho, uma gorjeta padrão de US$10 e um aumento do valor e da duração de uma espécie de licença remunerada paga pelo aplicativo aos seus funcionários infectados pela COVID-19, além da expansão do prazo de solicitação desta garantia.

Nos aplicativos de entrega ou “carona”, a estratégia utilizada é a mesma: a “economia do compartilhamento” transforma os trabalhadores em “parceiros” (ou shoppers, no caso da Instacart) e essas plataformas criam uma estética publicitária divertida para atrair consumidores, na qual os entregadores aparecem como indivíduos felizes e bem-vestidos — e brancos, claro. Também nos Estados Unidos, tal representação não poderia estar mais distante da realidade: os latinos e negros são parte expressiva de uma força de trabalho precarizada, na qual longas jornadas de trabalho e baixa remuneração culminam em graves prejuízos para a saúde mental desses trabalhadores.
A Instacart é uma empresa sediada em São Francisco, Califórnia que opera em 5,500 cidades dos Estados Unidos e do Canadá em parceria com mais de 25,000 lojas, contando com centenas de milhares de entregadores. Seu valor de mercado, estimado em junho de 2020, foi de US$13,7 bilhões e, durante os meses da pandemia, ela viu suas vendas aumentarem 107%. Não é difícil perceber a semelhança com Rappi e iFood, aplicativos populares no Brasil cujo aumento da demanda os deixou cada vez mais próximos de se tornarem gigantes do mercado — só a Rappi já é estimada em cerca de US$2 bilhões. A pandemia da COVID-19 aprofundou o processo de exploração da força de trabalho, trazendo à tona (e fortalecendo) graves contradições do capitalismo — por exemplo, as que permitem que essas empresas tenham taxas recorde de lucro enquanto os que trabalham nas ruas para elas se veem cada vez mais próximos da miséria.
Outro dado que salta aos olhos é a quantidade recorde de desempregados tanto no Brasil (cerca de 13 milhões) quanto nos Estados Unidos (cerca de 30 milhões). O crescimento da uberização, que Patta chama de “a organização mundial do trabalho no neoliberalismo” aconteceu, nos dois países, simultaneamente ao crescimento da taxa de desemprego. Logo, o trabalho em aplicativos começou a aparecer como alternativa viável para mais e mais pessoas: “As empresas [de entregas] se apresentam e abrem seus serviços no momento em que o desemprego começa a bater na porta das pessoas e, principalmente, no momento em que muita gente começa a desistir de apostar em planos mais concretos”. Além disso, o pesquisador ressalta: “Não é pequeno o número de entregadores que têm curso superior, por exemplo”. Para muitos, o que era para ser temporário tornou-se permanente.
Patta é categórico: “Há um elemento central no capitalismo contemporâneo: a centralidade da logística e dos transportes. A pandemia mostra, por um lado, a necessidade de garantias sociais e trabalhistas para os trabalhadores e, por outro, a necessidade de haver alguém que faça o trabalho de logística. É uma grande contradição: ao mesmo tempo em que eles são os indivíduos com menos garantias, são, também, os mais essenciais para o funcionamento da sociedade”. A greve dos entregadores da Instacart logo se expandiu para os funcionários da Amazon (entre outras empresas) que trabalham nos galpões de distribuição da multinacional em regime de contratação independente — o padrão dos aplicativos, ou seja, sem qualquer regulação pela lei — e não receberam dispensa nem mesmo quando alguns de seus colegas foram infectados pelo coronavírus.
Quanto às novas expressões de luta que vemos surgir, Patta destaca a importância de entender a atual configuração da classe trabalhadora e, a partir daí, avaliar as novas dinâmicas e possibilidades de auto-organização. Um exemplo desse novo formato fora do Brasil é o Gig Workers Collective, fundado por uma das organizadoras da greve da Instacart que pretende “trazer tempo e recursos para lutar por salários e pagamentos justos aos trabalhadores da gig economy [termo análogo à uberização do trabalho]”, além de “fornecer suporte organizacional e orientação aos trabalhadores em todas as plataformas e apoiar outros trabalhadores em seus esforços organizativos”, de acordo com informações do site do coletivo.
Dos Estados Unidos à Europa e à América Latina, milhares de trabalhadores respondem ao empobrecimento de suas condições de vida. Em 2019, motoristas dos aplicativos Uber e Lyft coordenaram um dia de greve nos EUA e na Inglaterra para reivindicar que as empresas diminuíssem a comissão que retorna para elas mesmas a cada corrida realizada e aumentassem o valor da tarifa por quilômetro ou milha rodada que vai para os motoristas. A greve dos entregadores brasileiros de 1º de julho se expandiu para Argentina, Chile, Costa Rica, Equador, Guatemala e México e as pautas se repetiram: menores jornadas de trabalho, melhores salários e garantias trabalhistas. Ainda não se sabe se a próxima greve no Brasil será dia 14 ou dia 25, o fato é que esse regime de contratação – ou melhor, de exploração – não pode continuar. Na primeira conversa que tivemos com o Galo, não ficou dúvida de que resistir à uberização do trabalho é uma tarefa urgente e coletiva.
Fonte: Carta Maior

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