Foto: Alícia Flores/CM

A campanha do Dezembro Verde acontece todos os anos, visando o combate ao abandono e aos maus-tratos contra animais. Dezembro foi o mês escolhido devido ao aumento dos casos de abandono, que se intensificam por causa das festas de fim de ano.

Em Alagoas, cerca de 25 denúncias são recebidas diariamente pela Comissão de Bem-Estar Animal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-AL), que variam entre casos de abandono e abusos diversos.  

 

Ignorância ou perversidade?

Ao CadaMinuto, Rosana Jambo, presidente da Comissão de Bem-Estar Animal da OAB, destacou que os motivos que levam as pessoas a atos cruéis contra os animais ainda são uma incógnita.  

“Em alguns casos, é ignorância, já que viram isso dos pais e, por sua vez, cresceram achando isso normal e replicam a conduta. Na grande maioria das vezes, é índole mesmo, a ação de cometer todo tipo de perversidade contra os animais”, acrescentou.  

Em Alagoas, nos últimos meses, dois casos ganharam repercussão devido à gravidade dos atos. Em outubro deste ano, um homem teve prisão preventiva decretada após agredir seu cachorro diversas vezes com um pedaço de madeira.  

Já no início de novembro, após um cachorro ser encontrado com ferimentos nos olhos, foi constatado em laudo veterinário que a perda completa da visão foi causada devido à falta de assistência veterinária ao animal, que possuía câncer nos olhos.  

“As justificativas para esses atos vão desde ‘eu não sabia’ ou ‘ele mereceu’; outros ainda negam, mas quando são confrontados com provas, assumem e não têm o que dizer”, disse a presidente da Comissão.

A Lei nº 14.064, de 29 de setembro de 2020, pune com rigor os maus tratos a cães e gatos, com sentenças que podem variar de dois a cinco anos de reclusão. Jambo garante que ainda não é o essencial em termos de punição, “contudo, já é um grande avanço, permitindo prisão em flagrante, prisão preventiva, entre outras consequências legais, pois já tem trâmite em varas criminais”.  

Todos os casos de abuso, crueldade, abandono, falta de assistência veterinária, se incluem em casos de maus tratos e são cobertos pela lei.

 

Cats Maceió

No bairro de Mangabeiras, uma praça se tornou alvo para o abandono de gatos. Mais de 80 animais vivem na área, dependendo de doações e da boa vontade de quem deseja ajudar de alguma forma.

A princípio, moradores dos prédios ao redor começaram a deixar ração no local, o que atraiu muitos animais. Depois, o abandono de animais na praça virou algo comum.

O projeto Cats Maceió, criado pelas irmãs Walma e Fernanda Gonçalves, cuida dos gatos da região, alimentando e limpando a estrutura do local, e arrecada os valores necessários para a compra dos materiais usados. Hoje, apenas cinco pessoas são membros ativos do projeto e vão diariamente à praça para fazer a manutenção.

Além dos gatos que estão na praça, há os que estão com alguma doença, que Walma leva para sua casa. “Fazemos isso para tentar salvar a vida deles. Só que, geralmente, quando tem esses surtos, é muito difícil salvar o animal”.

Ela explica que, há duas semanas, houve um surto de virose na praça, em que mais de quinze filhotes foram enterrados. Por ser um espaço aberto e público, todos os dias tem animais atropelados.

“Infelizmente, o nosso estado é muito carente de políticas públicas que tenham olhos para a causa animal. Nós somos voluntárias e protetoras independentes, e sobrevivemos pela ajuda de pessoas que gostam da causa e divulgam”, lamentou.

Walma explica que o projeto precisa de um ponto de energia para instalar uma câmera de segurança, já que conseguiram instalar no apartamento de uma voluntária, mas, devido à distância da praça, a imagem não sai nítida.

“A gente precisa de políticas públicas e apoio para tentar coibir esse crime. Muitas vezes os motoboys chegam lá com capacete, deixam a moto na rua paralela e vão lá a pé, e as pessoas estão pagando pra eles deixarem os animais”, conta.

“A situação saiu do controle, definitivamente. E todos os dias aumenta o número de animais. Já chegou num ponto em que a gente não sabe mais o que fazer, porque a demanda é muita para poucos voluntários. Nós não somos uma Organização Não Governamental (ONG), mas temos os mesmos problemas de uma”, desabafou.  

Para ajudar o projeto, basta acessar o Instagram @catsmaceio.

 

Iniciativa

A servidora pública e tutora de gatos, Ceres Mendonça, realiza o trabalho de CED. A técnica consiste em capturar os felinos em situação vulnerável, castrá-los e, na sequência, devolvê-los para as suas colônias (aglomerações em terrenos, praças, condomínios).

Segundo ela, é importante que as pessoas se preocupem em levar comida e água para os gatos em situação de rua, porém, apenas isso não resolve. Ela explica que é importante, também, ter a iniciativa de esterilizar para evitar que se reproduzam sem controle, afinal, se eles já não são desejados nas ruas, suas crias também não são.

“O fruto de todo abandono, de todo esse sofrimento de animais na rua, de filhotes atropelados, de filhotes recém nascidos sem mãe, é justamente por causa das crias indesejadas. Os animais não têm controle sobre isso, eles se reproduzem por puro instinto”, afirmou.

Ela defende que é urgente que a prefeitura efetive a política pública de controle populacional de cães e gatos, principalmente com a situação dos bairros de Maceió afetados pela mineração da Braskem, que viraram pontos de abandono de animais; e eles seguem se reproduzindo.

“Eu ainda não percebi nenhuma movimentação para buscar os recursos para o castramóvel ou qualquer política de esterilização de animais errantes. Espero que a nova gestão abra os olhos para isso”, alertou.

Ceres conta que, no momento, está cuidando e dando lar temporário para dois gatinhos, ambos encontrados no bairro Pinheiro. Pantera foi resgatada em março com uma grande ferida abaixo da orelha. Mesmo com os exames e tratamentos, o local ainda não cicatrizou.

Já o gatinho Ozzy, resgatado recentemente, foi encontrado sendo comido vivo por larvas de moscas que pousaram em uma ferida no pescoço. Ele foi atendido por um médico veterinário e está em recuperação.

“Todo dia é preciso limpar a ferida e fazer curativos. Até que ele se recupere totalmente e possa ser, finalmente, adotado por alguém”, disse a tutora.

Para que haja uma mudança desse cenário, Ceres defende que é importante a criação de um Hospital Público Veterinário, a realização de castração, para o controle da taxa de abandono, e uma educação ambiental de posse responsável, para que as pessoas tenham consciência de que criar um animal é se comprometer com o bem estar dele.

Para contribuir com o tratamento da Pantera e do Ozzy, acesse o Instagram @gatinhosdaceres.

 

Denúncias

Para denunciar o abandono ou maus-tratos, pode ligar para a Polícia Militar pelo número 190, pelo Disque Denúncia 181 ou para o Ibama pelo número 0800-618080.

 

*Estagiários sob supervisão da editoria