Fobia social: entenda as causas, os sintomas e as diferenças em relação à timidez
Imagem gerada pela IA
O influenciador digital Felca revelou, em um vídeo publicado no YouTube no dia 20 de outubro, que foi diagnosticado com fobia social. No relato, ele contou que sofreu bullying durante a adolescência, passou meses sem sair de casa e chegou a depender do álcool para enfrentar compromissos públicos.
A publicação trouxe à tona uma discussão sobre os impactos do transtorno na vida de quem convive com ele. Mas, afinal, o que é fobia social, quais são os sintomas e como diferenciá-la da timidez?
O que é fobia social?

À Eufêmea, a psicóloga Lorena Maia explica que a fobia social, também chamada de Transtorno de Ansiedade Social (TAS), é caracterizada pelo medo intenso de ser observado, julgado ou rejeitado em situações que envolvem outras pessoas. Esse receio pode surgir em atividades simples, como conversar com desconhecidos, fazer uma pergunta em sala de aula ou participar de uma reunião.
Segundo Lorena, a principal diferença entre o transtorno e a timidez está na intensidade do medo e nos prejuízos que ele provoca. Enquanto uma pessoa tímida geralmente consegue participar de situações sociais, mesmo com desconforto, quem tem fobia social pode deixar de realizar atividades importantes por medo de passar vergonha.
“Na fobia social, porém, o medo da avaliação negativa tende a ser mais intenso e persistente. A pessoa não apenas fica nervosa: ela pode antecipar que será ridicularizada, cometerá algum erro ou será rejeitada, mesmo sem evidências concretas de que isso acontecerá”, explica.
Sintomas
Os sintomas podem ser emocionais, físicos e comportamentais. Entre os mais comuns estão coração acelerado, tremores, suor excessivo, falta de ar, boca seca, náuseas e a sensação de que a mente ficou em branco. Também podem surgir pensamentos negativos constantes e preocupação excessiva com a opinião dos outros.
A psicóloga destaca que a ansiedade não acontece apenas durante uma interação social. Em alguns casos, o sofrimento começa dias antes de um compromisso e continua depois, quando a pessoa passa a analisar tudo o que disse ou fez, procurando possíveis erros.
Esse comportamento pode comprometer os estudos, o trabalho e os relacionamentos. Pessoas com o transtorno podem evitar apresentações, recusar oportunidades profissionais, deixar de conhecer alguém ou se afastar de amigos e familiares, mesmo quando desejam manter esses vínculos.
“O problema é que, quanto mais ela evita, mais sua vida pode ficar limitada”, afirma Lorena.
Causas
A especialista explica que a fobia social não tem uma causa única. O desenvolvimento do transtorno pode estar relacionado a fatores genéticos, características de personalidade e experiências de vida, como críticas excessivas, rejeição, humilhações e bullying.
No caso de Felca, o influenciador contou que sofreu agressões físicas e psicológicas durante o período escolar. Já na vida adulta, passou a consumir bebidas alcoólicas para conseguir participar de gravações e eventos, até desenvolver dependência.
Lorena alerta que o consumo de álcool como forma de enfrentar o medo pode se tornar um problema, principalmente quando a pessoa acredita que só consegue interagir com outras pessoas depois de beber.
“Como beber para perder a vergonha é algo muito naturalizado, nem sempre percebemos que essa estratégia pode estar encobrindo um sofrimento maior”, ressalta.
Para ela, o relato do influenciador também ajuda a combater a ideia de que pessoas famosas ou comunicativas não podem apresentar dificuldades de interação social.
“Ser admirado por milhões de pessoas não impede alguém de se sentir inadequado ou de não pertencer”, afirma.
Como tratar?

A psicóloga Luiza Siqueira explica que a fobia social costuma surgir entre os 8 e os 15 anos e pode acompanhar a pessoa até a vida adulta.
De acordo com os critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR), o medo geralmente persiste por pelo menos seis meses e provoca sofrimento significativo ou prejuízos na rotina.
Segundo Luiza, um dos principais problemas é que a pessoa começa a organizar a própria vida para fugir de situações que provocam ansiedade. Com o tempo, atividades comuns, como atender uma ligação, pedir informações, ir a uma consulta ou comer em público, podem se transformar em grandes obstáculos. “Pouco a pouco, a vida vai se ajustando ao medo”, explica.
A psicóloga também chama a atenção para o papel das redes sociais. Embora a comunicação digital possa facilitar o contato entre as pessoas, ela pode contribuir para o isolamento quando passa a substituir completamente os encontros presenciais.
Outro fator que mantém o transtorno é o alívio provocado pela fuga de situações desconfortáveis. “Evitar a situação traz alívio imediato, mas impede a pessoa de descobrir que seria capaz de enfrentá-la”, explica Luiza.
Apesar das dificuldades, a fobia social tem tratamento. Uma das abordagens mais indicadas é a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), que ajuda a identificar pensamentos negativos e a enfrentar gradualmente as situações que provocam ansiedade.
A Terapia do Esquema também pode ser utilizada, especialmente quando o transtorno está relacionado a experiências de rejeição, críticas ou humilhações na infância. Em casos moderados ou graves, a psicoterapia pode ser associada ao acompanhamento psiquiátrico e ao uso de medicamentos.
Luiza orienta que a ajuda profissional seja procurada quando o medo provocar isolamento, sofrimento persistente, afastamento de compromissos importantes ou quando houver necessidade de recorrer ao álcool e a outras substâncias para conseguir socializar.
Projeto #simfel
No vídeo, Felca também anunciou o projeto #simfel, um desafio de 90 dias em que pretende aceitar convites e participar de experiências sociais que normalmente evitaria. A iniciativa busca incentivar outras pessoas a enfrentar situações que provocam medo.
Para Luiza, a proposta pode estimular o debate sobre o transtorno, mas é importante que o enfrentamento dessas situações aconteça de maneira gradual, respeitando as dificuldades individuais.
“Desafios coletivos podem inspirar, mas não substituem o tratamento. A exposição funciona melhor quando é planejada e acompanhada por um profissional”, orienta.
A psicóloga destaca ainda que a exposição de experiências pessoais por influenciadores pode ajudar outras pessoas a reconhecer os próprios sintomas e procurar atendimento.
“Esse relato tem um valor social enorme. Primeiro, desfaz estereótipos: mostra que uma pessoa comunicativa, conhecida e bem-sucedida pode conviver com o transtorno, que muitas vezes é invisível para quem está de fora”, afirma.
Para quem identifica sinais de fobia social, a orientação é buscar avaliação profissional. Pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o atendimento pode começar nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), com encaminhamento para outros serviços de saúde mental conforme a necessidade.





