Economia global virá refém da escalada imperialista no Oriente Médio
Irã atinge refinaria no Bahrein e afeta o abastecimento da Quinta Frota dos EUA
Publicado 09/03/2026 14:32 | Editado 09/03/2026 14:59

O recente contra-ataque do Irã às agressões dos EUA e Israel que atingiu a refinaria de Al Ma’ameer (Bahrein) acende o sinal de emergência nos mercados globais. Os estragos levaram a companhia a suspender a produção na instalação, que havia acabado de concluir um programa de modernização no ano passado, elevando a capacidade de processamento de 265 mil para 380 mil barris por dia (bpd).
Do ponto de vista estratégico, a refinaria é um nó logístico essencial para o suporte operacional da Quinta Frota dos EUA na região. A interrupção desta unidade restringe o abastecimento de navios e aviões norte-americanos e retira do mercado um volume crítico de combustíveis médios (diesel e querosene de aviação). O episódio expôs a fragilidade da infraestrutura energética e fez o barril disparar para níveis não vistos desde 2022.
O petróleo como arma de guerra
Para o professor Euzébio Jorge Silveira de Sousa, do Instituto de Economia da UFRJ, a atual instabilidade é de “grande magnitude” e marca o retorno do petróleo como arma de guerra. Ele explica que o período mais delicado em que isso ocorreu foi no choque de 1973 (quando a OPEP reagiu ao apoio do Ocidente a Israel, durante a Guerra do Yom Kippur), “Aquele choque foi brutal para a economia global. Ele finaliza o período de ouro do capitalismo, em que havia aumento de produtividade, lucros e salários. O petróleo quadruplicou de preço e o impacto foi tão grande que os países tiveram que conter a atividade econômica e reduzir o crescimento para utilizar menos combustível”, afirma o professor.
Sousa destaca que o cenário atual no Estreito de Ormuz reproduz a lógica de incerteza que faz os preços dispararem por antecipação, antes mesmo de uma escassez física consolidada. O professor faz um paralelo com a crise de 1979, quando a queda do regime de Mohammad Reza Pahlavi — o Xá iraniano sustentado por Washington — dobrou os preços do barril. Na ocasião, a resposta dos EUA foi elevar a taxa de juros a patamares de 20% (o chamado Choque de Volcker), medida que drenou liquidez global e empurrou a América Latina para a “crise da dívida” e para a chamada década perdida. “Se existe a possibilidade de os preços subirem, quem possui petróleo tende a reter a oferta para vender mais à frente com o preço muito acima. O barril já superando os 100 dólares é um indício de que o período de grande instabilidade vai ocorrer”, alerta o professor.
Erro estratégico: a subestimação da resistência
Um ponto central da análise de Euzébio Sousa é o erro de cálculo de Washington e Tel Aviv. Segundo ele, os Estados Unidos e Israel não contavam com o potencial de resistência que o Irã constituiu. “Os Estados Unidos afirmam ter capacidade de escoltar navios petroleiros pelo Estreito de Ormuz. No entanto, qual é o capitão de navio que está disposto a correr esse risco?”, questiona o economista.
Ele ressalta que o impacto é sem precedentes: por Ormuz não passa apenas 20% do petróleo mundial, mas também o gás natural e minerais de terras raras essenciais para a indústria bélica e tecnológica. “O que se evidencia é que não só o Oriente Médio, mas o mundo, a Ásia e a Europa, encontram-se reféns de mais um conflito”, pontua.
O fim da hegemonia tecnológica e o poder das armas
A análise de especialistas aponta que a agressividade norte-americana mascara uma decadência estrutural. Sousa é enfático ao dizer que fica “cada vez mais latente” que os EUA perderam a disputa tecnológica e a capacidade de produção industrial eficiente em setores estratégicos. “O que lhes resta ainda é poder pressionar outros países pelo poder do dólar e pelo poder das armas. Mais uma vez, o mundo se encontra refém desses dois pilares dos Estados Unidos”, afirma Sousa.
No Brasil, essa pressão é sentida no bolso do consumidor, especialmente dos trabalhadores. Embora a Petrobras lucre com a exportação do óleo bruto, a dependência de derivados importados — fruto de políticas neoliberais — pressiona para a alta de 15% nos preços dos combustíveis para o transporte e para a mesa do brasileiro, via fertilizantes e frete.
Enquanto Donald Trump destila a arrogância imperialista ao exigir “aprovação” para a liderança interna iraniana, a realidade desenhada por Sousa é de uma crise profunda. A raiz do problema permanece: a insistência de Trump em manter uma hegemonia que já não se sustenta pela produtividade, mas apenas pela desestabilização militar e econômica de nações soberanas. O cenário daqui para frente, conclui o professor, é de “instabilidade e possibilidade de uma crise econômica profunda”.




