Papa condena diplomacia da força e pede respeito à Venezuela
Em discurso ao Corpo Diplomático, pontífice critica o uso militar como instrumento político e cobra proteção aos direitos humanos dos venezuelanos
Publicado 09/01/2026 14:51 | Editado 09/01/2026 15:04
Em um discurso anual sobre política externa marcado por tom excepcionalmente firme, o papa Leão XIV condenou nesta sexta-feira (9) o uso da força militar como meio para alcançar objetivos diplomáticos. Diante de cerca de 184 embaixadores credenciados junto à Santa Sé, o pontífice afirmou que a diplomacia do diálogo e do consenso está sendo substituída por uma “diplomacia da força”, fenômeno que, segundo ele, reacende práticas superadas após a Segunda Guerra Mundial.
“A guerra voltou a estar na moda e um fervor bélico está se espalhando”, advertiu Leão XIV, ao criticar a recorrência de ações militares unilaterais e a violação de fronteiras soberanas.
Fragilidade do multilateralismo preocupa o Vaticano
Primeiro papa dos Estados Unidos, eleito em maio do ano passado, Leão XIV apontou a fragilidade das organizações internacionais como um dos principais fatores de instabilidade global. Para o pontífice, a erosão do multilateralismo compromete o Estado de direito e enfraquece os mecanismos criados para a preservação da paz e dos direitos humanos, com destaque para o papel histórico da Organização das Nações Unidas.
Ele reiterou a condenação da Santa Sé a qualquer envolvimento de civis em operações militares e defendeu o respeito irrestrito ao direito internacional humanitário. Embora não mencione abertamente o presidente Donald Trump, o papa norte-americano referiu-se a operações militares praticadas pelos EUA e condenadas internacionalmente.
Venezuela no centro do apelo humanitário
Ao referir-se diretamente à recente captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, por ordem do presidente Donald Trump, o papa fez um apelo para que a comunidade internacional “respeite a vontade do povo venezuelano”. Segundo ele, é imprescindível salvaguardar os direitos humanos e civis da população e garantir a soberania do país no processo político que se seguirá.
Os embaixadores dos Estados Unidos e da Venezuela junto à Santa Sé estiveram presentes na audiência, tradicionalmente considerada o discurso do papa sobre o “estado do mundo”.
Liberdade de expressão e discriminação religiosa
No pronunciamento de 43 minutos, Leão XIV também alertou para o que classificou como um rápido encolhimento da liberdade de expressão em países ocidentais. Ele criticou o surgimento de uma linguagem “de estilo orwelliano” que, sob o argumento da inclusão, acaba por excluir quem não se conforma a determinadas ideologias.
O papa denunciou ainda formas sutis de discriminação religiosa contra cristãos na Europa e nas Américas, ao mesmo tempo em que reiterou a condenação ao antissemitismo e a defesa da liberdade de consciência.
Tom mais inflamado marca início do pontificado
Embora tenha adotado postura mais discreta nos primeiros meses de seu pontificado, em contraste com o estilo frequentemente improvisado do papa Francisco, Leão XIV imprimiu um tom mais contundente nesta primeira audiência com o Corpo Diplomático. Além dos conflitos armados, criticou práticas como aborto, eutanásia e a chamada gravidez por substituição, e alertou para os riscos da corrida armamentista, incluindo o uso não regulado da inteligência artificial.
Ao concluir, o pontífice afirmou que, apesar do cenário internacional marcado por tensões e guerras, a paz continua possível, desde que sustentada pela humildade, pela coragem do diálogo e pelo fortalecimento do multilateralismo.




