Comunista ganha primeiro turno no Chile e busca ampliar campanha no segundo
Ex-ministra venceu o 1º turno com 26,8%, ampliou bancada comunista no Congresso e enfrenta Kast em 14 de dezembro, em eleição marcada por mobilização e polarização
Publicado 17/11/2025 11:41 | Editado 17/11/2025 11:49
Jeannette Jara discursa em Santiago após vencer o primeiro turno da eleição presidencial chilena. Foto: ReproduçãoA candidata comunista Jeannette Jara venceu o primeiro turno da eleição presidencial no Chile, neste domingo (16), e recolocou o Partido Comunista no centro da política nacional após mais de duas décadas longe da linha de frente.
Com 26,8% dos votos, segundo o Serviço Eleitoral chileno, ela enfrentará em 14 de dezembro o ultradireitista José Antonio Kast, que alcançou 23,9% e tenta consolidar uma virada apoiado por todo o campo conservador.
A votação, que mobilizou mais de 15 milhões de eleitores habilitados, registrou participação superior a 66% — a primeira disputa presidencial desde o retorno do voto obrigatório. Além da escolha presidencial, o Chile renovou a Câmara dos Deputados e metade do Senado.
A direita avançou no Congresso, mas o Partido Comunista comemorou um crescimento expressivo. O partido passou de 10 para 11 deputados e dobrou sua presença no Senado, de duas para quatro cadeiras, consolidando-se como a segunda força do bloco governista.
A bancada passa a incluir nomes de forte projeção nacional, como Gustavo Gatica, Karol Cariola, Elisa Loncón, Irací Hassler e Marcos Barraza. O resultado indica que o desempenho de Jara se insere em um movimento mais amplo de recuperação da presença da esquerda socialista e popular.
A noite eleitoral, marcada por longas filas e atrasos no encerramento das votações, revela também um país mobilizado, polarizado e diante de dois projetos políticos claramente antagônicos.
Jara fala à “maioria” e reivindica amplitude
A candidata comunista discursou neste domingo em Santiago diante de apoiadores e enquadrou sua vitória como um chamado a reconstruir pontes nacionais.
“A maioria das chilenas e dos chilenos não votou nem por mim nem por Kast. Quem quiser governar o Chile terá que saber representar a maioria. Quem quiser governar o Chile tem que escutar todos os chilenos e chilenas, todos merecem ser escutados”, afirmou.
O tom buscou romper fronteiras tradicionais da esquerda e situar sua candidatura como alternativa para um país que enfrenta um ambiente de tensão política, desgaste institucional e sucessivas consultas eleitorais desde 2019.
Na mesma linha, convocou sua militância a intensificar o corpo a corpo político nas ruas do país. “A partir de amanhã nós temos que ir às ruas, falar com as pessoas e escutar atentamente”, disse.
A estratégia é clara e busca transformar a vitória de domingo em capital político capaz de ampliar apoios, sobretudo entre os setores independentes e de classe média que migraram para Franco Parisi.
Jara também se dirigiu diretamente ao economista liberal, que ficou em terceiro lugar com cerca de 19,5%.
“Quero felicitar a surpresa da noite, Franco Parisi, porque soube interpretar com medidas radicais e inovadoras um grande sentimento cidadão. É uma obrigação nossa escutar o povo”, afirmou, em gesto calculado a um eleitorado urbano, jovem e frequentemente refratário aos partidos tradicionais.
Disputa por segurança e economia marca segundo turno
Ao discursar, Jara reafirmou um programa centrado em desenvolvimento impulsionado pela demanda interna, em “bairros dignos” com serviços comunitários e em cidadania plena.
Ela lembrou medidas que conduziu como ministra do Trabalho de Gabriel Boric, entre elas a redução da jornada semanal de 45 para 40 horas, e deslocou o tema da segurança da retórica repressiva da direita para a vida cotidiana.
“Espero que no Chile a segurança de chegar ao fim do mês se converta em uma realidade, assim como também a segurança de viver em um bairro mais tranquilo”, disse.
A candidata também vinculou seu projeto à defesa da democracia e à memória histórica. “Sabemos que muitas gerações novas não conheceram essa história, mas foi um período muito duro, no qual quem pensava diferente era perseguido. Ninguém quer que esse destino volte a se repetir para nossa pátria”, afirmou, em referência à ditadura de Augusto Pinochet.
Em tom crítico à retórica de Kast, afirmou que “o ódio, a crítica ao outro e a exaltação do medo não significam governar um país; é preciso ter capacidade de diálogo e empatia com a população”.
Kast pede unidade da direita e mira virada
Do outro lado, José Antonio Kast tentou converter a fragmentação conservadora do primeiro turno em demonstração de força no segundo. Com apoio imediato de Evelyn Matthei (12,5%) e Johannes Kaiser (13,9%), ele argumentou que o Chile vive uma crise “econômica e social” que exige coesão entre os setores tradicionais e radicais da direita.
“É fundamental a união do nosso setor, não só para vencer nas urnas como para fazer depois as mudanças significativas que o nosso povo anseia”, declarou.
O candidato da extrema direita tem centrado sua campanha em deportações aceleradas, fortalecimento policial e um discurso que associa imigração irregular ao crescimento da violência — mesmo que os índices chilenos permaneçam abaixo da média latino-americana.
Sua narrativa mira parte dos eleitores que migraram para Parisi e uma faixa conservadora da classe média que se distanciou do governo Boric.
Parisi vira pivô da disputa e pressiona Jara e Kast
Com quase 20% dos votos, Franco Parisi se tornou peça-chave da reta final. Atacou as pesquisas — “terroristas das pesquisas” — e disse que só anunciará sua posição nos próximos dias. Também enviou recado aos dois finalistas.
“O Chile precisa de um projeto que não esteja atrelado aos ícones do passado. Chega de Allende, chega de Pinochet”, disse o isento.
A fala revela o conteúdo simbólico da disputa. Enquanto Kast remete simbolicamente à ordem autoritária, e Jara reivindica reconstrução social e direitos, Parisi tenta preservar um espaço de outsider pragmático e disputar o voto de classe média.




