Qual é o fim do poeta? É a Glória, a Glorinha e a Gloríola, que lhe esperam de braços abertos.
Não há nada mais bonito na minha vida vulgar, cantarolava Zémambembe enquanto batia as mãos e respondia com a sola dos pés nas pedras geladas, do que uma boca molhada, desenhada e caprichosa, feito os lábios de Simplicidade, que não é boca mais, mas encarnação de rebordosas.
Emoldurada em um dos janelões no longevo casarão, a menina Bagatela via o tio pular de uma pedra a outra, bater as mãos e os pés. Apurou os ouvidos, escutou os fiapos de versos de pé-quebrado, que eram os mais festejados entre todos os poemas que já foram criados e recriados pelo tio:
Não há versos mais bonitos do que os de pé-quebrado. Versos perfeitos não me cabem no cordel alumiado. Fui dormir nos braços de Simplicidade numa Sexta-Feira da Paixão, acordei carregado pelas abas do caixão. E fui displicente, mamãe falou, me abracei com uma fera, e sonhei acordar abraçado a uma flor.
A vida de Bagatela era de linha e pano. Está com frio, bonequinha? quis saber Bagatela ao sussurrar em seu único ouvido. Brincava com a boneca cujo corpo existia graças aos remendos.
Único olho que funcionava na boneca era um botão arranhado a canivete. E este caiu do capote do tio Zémambembe, quando, amarrado, foi levado na mesa do carro de boi a Olho D’Água dos Lírios. O outro olho da boneca era vazado, costurado a barbante.
Bagatela esgueirava-se pelos cômodos do longevo casarão desde o dia que foi trazida pelo tio Zémambembe. A boneca era os seus ouvidos, e um dos seus olhos.
Você é uma boneca má, sabia. Você perdeu a sua graça, sabia, e tornou-se uma desgraçada. Venha logo, venha para debaixo das cobertas.
Bagatela ergueu no espaço o amontoado de molambos:
Eu poderia te arremessar pela janela! ameaçou. Sabia?
Venha, venha. Vou aquecer entre os meus braços. Não há tempo pior do que o frio, né, bonequinha!
Deixou o silêncio e o frio entrarem pela janela.
Sabia, bonequinha, que não há fogo no inferno. Foi o que tia Simplicidade disse. O que há são geleiras.
Geleiras, é? deu voz à boneca. Uma voz esganiçada fazia Bagatela, como se imitasse a palavra dita por uma boneca de ventríloquo. Iniciou-se a conversa entre o amontoado de panos velhos remendados e a menina.
Geleira, boneca, disse Bagatela, é água congelada, é frio em toda a parte congelando os ossos.
Não sabia.
Pois ficasse sabendo. Tia Simplicidade me falou que eu tinha que manter você, bonequinha, no cabresto curto.
Por quê? reclamou.
Porque você é má!
Eu?! gemeu a boneca num lamento.
O inferno é frio, frio que dói, bonequinha. O inferno é uma geleira que lhe abraça e sufoca.
TIA SIMPLICIDADE: Vá dormir, Bagatela.
BAGATELA: Estou dormindo, tia Simplicidade.
TIA SIMPLICIDADE: Não quero ouvir nem um pio.
BAGATELA: Bênção, tia.
TIA SIMPLICIDADE: Calada!
O longevo casarão sob o sol de maio acompanhava a tia Simplicidade que vestia Bagatela qual bibelô, que saltitava, que cantarolava, que piruetava entre a calçada e o meio-fio. A Vila de São Gabriel mudou desde os anos da Baronesa Kandossephodden, quando as ruas eram de lama, o medo se chamava cangaço, e a república era velha.
TIA SIMPLICIDADE: A senhorita é osso e pele; não engorda porque não quer.
BAGATELA: Quê!
TIA SIMPLICIDADE: Come igual a uma baleia jubarte. A menina é gulosa.
A caminho da escola, o bibelô da tia piruetava, corria e pulava. E cantava a música que aprendeu nas aulas da professora Abantesma:
Quando foi que a Verdade deixou de ser verdade? perguntou a Mentira à Falsidade e esta foi à Fraude. Não sei. Nem faço ideia. Hipocrisia, acaso sabes?
TIA SIMPLICIDADE: Vou mandar você, Bagatela, para a caixa-prego.
BAGATELA: Nããão, ti...a. Eu vou à escola, eu vou à escola.
TIA SIMPLICIDADE: Vá estudar, menina, porque os seus dias para ir para a caixa-prego estão chegando. Já acertei com os que recolhem o lixo. Menina, eu estou cozinhando a senhorita com pouca água.
BAGATELA: A tia ainda vai me mandar mesmo para a caixa-prego?
TIA SIMPLICIDADE: Vá estudar, Bagatela. Se eu te ver, menina, insistindo em brincar com essa boneca, eu te mato. Vá estudar, Bagatela. Não me tire do sério, criança. Vou te furar os olhos. Larga esse molambo, maluvida!
BAGATELA: A senhora tem tanto poder, tia Simplicidade. Mesmo a gente sendo duas e a tia sendo uma, ainda assim a tia pode com a gente. A tia faz da gente o que bem quer.
TIA SIMPLICIDADE: Não seja respondona, menina! Menina respondona, Deus castiga. Deus e São Gabriel ouviram você falar. Deus pode estar longe, mas São Gabriel não está. Afinal, estamos na Vila de São Gabriel.
BAGATELA: É muito poder para uma única tia.
TIA SIMPLICIDADE: Se eu fosse você, menina, não usaria esta palavra “poder.”
BAGATELA: O poder da tia atravessa o rio a braçadas. 
TIA SIMPLICIDADE: Eu, menina, sou eu dentro de mim, me compreenda. Você é você, menina, dentro de você mesma. Considere, menina, há um núcleo dentro do núcleo onde há outro núcleo que protege o núcleo. Entendeu, né!
BAGATELA: Entendi! gaguejou enquanto desviava os olhos fixos no rabo do tatu.
TIA SIMPLICIDADE: Veja, por exemplo, minha menininha, o dínamo do aparelho administrativo controlado pela energia mecânica convertida em energia elétrica. Entendeu, né!
BAGATELA: Entendi! disse sem afastar os olhos do rabo do tatu.
TIA SIMPLICIDADE: Na vida, menina, a senhorita entenda desde já, pois não há horizontalidade. Só existe verticalidade e devorteio com uma generosa pitada de vertiginosidade e ânsia de vômito. Entendeu?
Cães na rua dispararam, como se enfrentassem Cérbero. Os latidos, que eram espaçados, ganharam corpo, e o latido solitário e distante se uniu ao latido próximo. Porque o latido só não incomoda o suficiente. Um cão carece de outro. Um recebe o latido e entrega a outro cão, como o galo que tece a manhã.
O latido do fanático sempre alcança outro fanático por latidos. Os fios de poder se encontram na trama de latidos e se entrelaçam. Feito Cérbero na Rua dos Quebraqueixos. Os latidos enredam-se em outros. Cérbero recém-nascido se recusava a guardar os portões do casarão de Hades.
TIA SIMPLICIDADE: Vá estudar, menina. Menina, vá estudar!
Bagatela viu a tia Simplicidade cercada por almas mortas, que gritam, que esbravejam.
Au, au, au... Rau, rau, rau...! as ruas eram abaladas por latidos de cães. A corrupção, no dizer do pai de Simplicidade, assolava as latitudes e longitudes. Respondia-lhe a esposa, mãe de Simplicidade, que não se podia deixar a toalha na rua, uma peça de roupa: o dono do alheio passava com a mão gatuna e levava tudo o que lhe facilitasse levar. Au, au, au...! Rau... rau... rau... rau...! anunciavam os latidos na porta. Nos fundos, Simplicidade e Abantesma se preparavam para as provas trimestrais:
A língua, Aba, é vista como um sistema de regras.
Como assim!
Pense a língua uma gramática.
Pensei. E?
Pense a língua um prédio construído sobre estruturas.
Pensei. E?
Estruturas formais. Pensou?
Pensei. E? Mas espere aí, Simplicidade. O conhecimento, Si, é construído pelo sujeito.
Sim, mas...
Si, preste atenção. Pense o texto como um amigãozão.
Pensei. E?
O conhecimento, Si, é a interação
Mas Aba...
Pense no meio físico e social.
Pensei. E?
Bem. Qual é mesmo a pergunta?
Afinal, Aba, o conteúdo é sobre a perspectiva estruturalista ou sobre a perspectiva interacionista?
Ouvi durante a aula baixarem a lenha sobre o construtivismo, Si. Você não ouviu?
Não.
Sim. Disseram coisas horríveis. 
Por exemplo?
Bem. Deixe. Bem. Deixe-me lembrar. Bem.
Ah, deixe para lá!
Não, amiga. Espere aí. Espere um pouco. Bem. 
Há um foco, não há?
Não.
Não?
Acho que há.
Então!
Vamos lá.
Até onde eu me lembro, devemos saber que o desenvolvimento cognitivo, sabe, ocorre de fora ou de dentro?
Vou saber, Si!
Não sabe, Aba?
Não, Sim.
Oxi! Até onde posso alcançar, lembro-me que um pronome é mais liso do que um jundiá. 
Espera. E se impulsionar por meio de interações?
Como assim?
Vamos tentar.
Tentar como?
Mediando.
Mediando?
O social com o cultural e este com aquele.
Oxente! Tudo te sai com cada uma...
Eu?!
Fico com a estruturalista, porque acredito que o saber de quem sabe, só se sabe, como se sabe, quando o saber é sabido, não pelo aluno, mas pelo professor que sabe e, porque sabe que sabe, o aluno também talvez saiba.
É?
Au, au, au... ru, ru, ru... rau... rau! as ruas em Olho D'água dos Lírios eram abaladas por latidos.
BAGATELA: O copo de leite, tia, vou levar ao gatinho... quê...
TIA SIMPLICIDADE: Que gatinho? Aqui, menina, não tem gatinho. Quem cria gato é bruxa. Está me chamando de bruxa, está? Não. Não? Acho bom. Você quer ser uma bruxa, é, Bagatela? Sua mãe tinha mesmo um jeito estranho. Sua mãe, igual ao seu tio Zémambembe nessa falímia, aliás, todos calçam 40. Falímia, porque não é família. Falímia é uma família falida, tinha a mesma mania de falar com espíritos e não gostar de igreja. Se fosse noutros tempos, ela seria queimada em praça pública. Mas, você, menina, se depender de mim, terá educação bem diferente. Você vai puxar a mim e não a sua mãe.
BAGATELA: Cadê mamãe?
TIA SIMPLICIDADE: Mamãe morreu. Está me vendo rir? Morreu. Ó Bagatela, ah, Bagatela! Se eu tivesse essa beleza, arrasaria quarteirões.
BAGATELA: Ma?
TIA SIMPLICIDADE: Olhe, olhe agora, olhe já pela vidraça da janela e veja a quantidade de mendigos, de bêbados, de loucos na Vila. Quando tiver idade e atravessar o rio, não verás cidade nenhuma, Bagatela. O mundo, minha filha, este mundo, meu xodó, minha pequena, respira por aparelhos já faz tempo. Há muito, minha criança, o mundo perdeu a maçaranduba do tempo. Olhe lá fora...
BAGATELA: Vai chover, tia Simplicidade?
TIA SIMPLICIDADE: Vou te ensinar já, já, minha bonequinha, a ter educação. A obedecer, ó Bagatela, a quem tem mais idade do que a senhorita. Ó Menina, ó coisa, ó coisinha mal-educada essa Bagatela. Minha educação, Bagatela, você já a conhece: é a pedagogia do rabo do tatu. Vou já, já ensinar o que é trabalho. Você quer conhecer o verdadeiro significado da palavra “trabalho” ou vamos ficar só em sua etimologia? Sabe em que ano nós estamos, menina? Diga. Sabe ou não sabe?
DONA BAGATELA: Esse mundo, Joça, não era nada até os anos 50; depois, ele pulou das trevas, alcançou a luz. Logo ficará tão, tão, tão aceso, que vai cegar o povo. A Vila de São Gabriel não era grandes coisas, quando Afável nasceu. E, agora, minha menina, essa bola de nada que vaga no nada é essa revolução por minuto. Que barulho da peste é esse?
JOÇA: É a Dra. Afável ouvindo RPM.
TIA SIMPLICIDADE: Hoje acordei ouvindo a voz de Vicente Celestino. Ah, como dormi bem!
BAGATELA: Xô, galinha!
TIA SIMPLICIDADE: Não quero ver nenhuma pena de galinha no chão, ouviu bem, Bagatela? Não quero respirar nenhuma poeira. Hoje, eu não quero ver um fio de cabelo sequer voando por aí. Como canta essa coleirinha. E o galo de campina? E o papagaio parece que não quer se dar bem com a arara. Óóóóóó minha Bagatela, aonde vai, senhorita, onde pensa...? Traga lenha para atiçar o fogo. O fogão a lenha está esfriando, Bagatela. Vou passar os dedos nos móveis, caso encontre poeira, eu vou esfregar em seu focinho, menina! Ó como são, e como são animados os meus canarinhos. Canta, meus queridos, canta.
BAGATELA: Troco água das gaiolas, tia Simplicidade?
TIA SIMPLICIDADE: Que espelho lindo eu tenho em casa. Não é à toa que sou chamada de Dona Memória. Tenho de cor as histórias da cidade. Mamãe sempre me alertou: “Filha, filha querida, filha do meu coração, nunca, jamais se esqueça de nada!” Sempre tive medo de me esquecer, por isso fico na cabeça repetindo o que ouço. Ganhei e ainda vou ganhar dinheiro lembrando de coisas que o povo se esquece. Sabia, Dona Bagatela? Vem cá, sobrinha. Ó Bagatela, com minha memória querida, vou conquistar o poder político na Vila de São Gabriel. Ainda vou unir a minha querida Olho D’Água dos Lírios à Vila de São Gabriel. Talvez, Bagatela, eu ainda privatize esse rio que nos divide. Como eu amo Olho D’Água dos Lírios, a minha terra. Como você pode ver o seu futuro? No presente, porque, como dizia o Padre Vieira, “O presente é futuro do passado e o mesmo presente é o passado do futuro.” Esse é o espelho do tempo presente: memória e história. Entendeu, Bagatela? Não. Você vai entender se eu lhe permitir que entenda.
BAGATELA: Entender o quê?
TIA SIMPLICIDADE: Com essa cara, Bagatela; ó que carinha de anjo! Eu tenho vontade de passar o dia apertando suas bochechas. Isso, isso, isso vai dar muito trabalho! Seus estudos vão ser poucos, Bagatela. Estudar para quê? Não quero você escrevendo cartinhas nem versos, feito o abilossil do seu tio Zémambembe. Serei rigorosa. Eu vou exigir que a senhorita estude só até certo ponto e, quando eu achar que passou do ponto, para não queimar o doce no fundo da panela, eu cancelarei a sua matrícula, menina. O que foi?
BAGATELA: O cachorro parece que não comeu.
TIA SIMPLICIDADE: Cachorro cego. Faça o cachorro parar de latir. Bagatela, ó menina. Olhe a autoridade máxima, aqui, quem é. Eu. Bagatela, ó menina. Faça esse cachorro calar a boca, que não aguento mais latidos. É o gato? Você pôs um gato, aqui, em casa, foi, Bagatela? Você ainda não apanhou para largar o choco. Seu ranho, sua ranhentinha, limpe logo esse catarro; não vejo motivo de choro, por causa de cascudos que nem doeu o nó dos meus dedos.
BAGATELA: Ti.
TIA SIMPLICIDADE: Agora, Bagatela, a sua tia, a mulher do seu tio, vai colher alguns tomates lá embaixo, na horta. Tomate gosta de calor, Bagatela. Esse é o tempo certo. Setembro; logo chegaremos a outubro. Eu vou comer camarão na moranga, Bagatela. Ó! Mas você irá comer pão seco.
BAGATELA: Ti.
TIA SIMPLICIDADE: Para com esse choro! Uma hora dessas, a tua mãe deve estar em um lugar bem feio, aquela feiticeira que desrespeitava os santos e tinha a mania de inventar orações; a da Cabra Rosada foi ela quem criou, sabia disso?
BAGATELA: O que é cabra rosada?
TIA SIMPLICIDADE: Não mude de assunto. Quer dar uma de joana-sem-braço? Vem para cá, Dona Inocência! Acha que estou esquecida, menina Bagatela? Eu fui ali, eu voltei aqui, mas não estou esquecida. Conte-me tudo. Não me sonegue nada. Não me esconda nada, senão vai ser levada ao castigo no porão. Jogo você no quarto escuro cheio de sapos, ratos, baratas, pulgas, e é, olhe bem, três a quatro dias sem comer nada, nem mesmo água eu vou levar.
BAGATELA: Ti.
TIA SIMPLICIDADE: Vou descobrir, Bagatela. Vou descobrir por que você tem agido assim. Levante a cabeça, Bagatela! Não encare sua tia, atrevida! Este tapa na cara é para você aprender a não me olhar desse jeito. E se chorar alto vai levar mais; o tapa, pois, não doeu nem em mim. Fale, fale, fa, fe, fi, fale!
BAGATELA: Eu não fiz nada de errado, tia Simplicidade!
TIA SIMPLICIDADE: Não grite. Não desorganize a harmonia do meu lar. Nunca mais fale com esse tom de voz. Não sou surda. Fale baixo, baixinho. Eu vejo. Seus olhos estão me revelando que você queria que eu, sua tia, morresse agora mesmo, não estão? Caísse tesa.
BAGATELA: Nãããããããããããão, tia. Não.
TIA SIMPLICIDADE: E agora, que eu te levantei pelas orelhas. Estão ou não?
BAGATELA: Vou contar... conto... onto... to.
TIA SIMPLICIDADE: Pode começar. Desembucha.
BAGATELA: Tio Zémam.
TIA SIMPLICIDADE: O quê! Zémambembe?! Du-vi-dê-ó-dó. Zémambembe está aí? Não, não. Fugiu? Vou, Bagatela, já, já mandá-lo às correntes já, já. E aquelas enfermeiras prometeram que Zémambembe não iria mais fugir. Fugiu. Fugiu? Fugiu. Essa tua cara não nega. O cachorro sentiu o cheiro de Zémambembe e não me disse nada. Eu mato esse cachorro cego!
BAGATELA: O cachorro não, tia Simplicidade.
TIA SIMPLICIDADE: Suponho que as enfermeiras estão relaxando para eu poder lhes levar mais presentinhos, mais lembrancinhas, mais tomates, quando eu for lá. Umas, são umas. Ladras! Vou denunciar ao doutor. Jamais ponho os pés, ali, naquele hospital com presentes para as enfermeiras. Bastardas! Para não lhes dizer palavra pior. Interesseiras. Onde está o meu marido, Bagatela?
BAGATELA: É o ti...o, ti...a; ele es...tava co...men...do a sua fa, a sua fa, farinha.
ZÉMAMBEMBE: Eu só voltei por amor.
TIA SIMPLICIDADE: Não me fale em amor, Zémambembe. Pensa que eu estou esquecida dos socos nos braços, nas costas e os murros na cabeça? Vivia com o corpo roxo.
ZÉMAMBEMBE: Não seja dramática, mulher.
TIA SIMPLICIDADE: A sua internação é compulsória, e por tempo indeterminado no Hospital dos Lírios, seu estúpido! Você nunca soube o que é o amor. Amar é o que eu devoto à Bagatela. Se não fosse assim, ela estaria jogada de casa em casa.
ZÉMAMBEMBE: Ouça esses versos.
TIA SIMPLICIDADE: Tire essa merda da minha cara!
ZÉMAMBEMBE: Está virada na fera que ameaçou a vida na terra.
TIA SIMPLICIDADE: E você aqui, Zémambembe, só atrapalha minhas ambições políticas. E acertei com o partido em começar como vereadora com o projeto que irei apresentar mudando o curso do rio. Presidirei, no primeiro ano do mandato, a Casa do Povo. Serei reeleita. Irei legislar na Casa-Mor. Realizarei o sonho em privatizar o rio. Você aqui só me envergonha com esses versinhos ridículos.
ZÉMAMBEMBE: Fiz-lhe versos novos, Simplicidadezinha.
TIA SIMPLICIDADE: É a minha farinha, seu desgraçado! Você sabe o preço que está essa farinha no Mercado da Farinha? Não sabe. Se quis, fui comprá-la em Olho D’Água dos Lírios. Não há terra para cultivar farinha melhor!
BAGATELA: Sua farinha, sim, tia Simplicidade. Olhe a cara dele toda suja.
TIA SIMPLICIDADE: A minha farinha açucarada dos docinhos de Natal?
BAGATELA: A farinha que a tia guardou na lata colorida.
TIA SIMPLICIDADE: Qual é o seu partido, Zémambembe?
ZÉMAMBEMBE: De todas as colorações.
TIA SIMPLICIDADE: E o que faz aqui em casa, seu colorido?
ZÉMAMBEMBE: Saudades, ó saudades pura de mel. Saudades dos seus lábios, que fazem inveja à Iracema, mulher do sapateiro Schoof.
TIA SIMPLICIDADE: Saudades têm idade. Não tens mais para ter saudades.
ZÉMAMBEMBE: Quis dialogar com as ruas. Protestar contra os cordéis certinhos e fazer a defesa pública, Simplicidade, do verso de pé-quebrado, estes que são os mais criativos da natureza humana. Sou arauto do pé-quebrado. Abaixo todo o cordão, o barbante e o cordel que defendem o verso beiço de bode.
TIA SIMPLICIDADE: Dialogar com as ruas, Zémambembe?
ZÉMAMBEMBE: Um olhar sobre a Vila de São Gabriel.
TIA SIMPLICIDADE: Um olhar sobre quem, Zémambembe?
ZÉMAMBEMBE: Chega de agressões! Sou eu: seu prisioneiro. Não admito que você machuque a nossa menina Bagatela.
TIA SIMPLICIDADE: Eu amo esta criancinha, Zémam...
ZÉMAMBEMBE: Não precisa sufocar Bagatela de beijos e abraços.
TIA SIMPLICIDADE: Amo mais Bagatela do que você a mim, Zémam...
ZÉMAMBEMBE: Mulher, tu és pior do que as costuras do alfaiate Adolfo.
TIA SIMPLICIDADE: Ninguém poderá amá-la mais do que eu, Zémam...
ZÉMAMBEMBE: Começo a acreditar que quem é louca na casa não é a poesia de cordel, mas...
TIA SIMPLICIDADE: Nenhum devoto poderá amar mais o seu santo, quanto eu.
ZÉMAMBEMBE: Ninguém pode sentir tanto ódio.
TIA SIMPLICIDADE: Esta criaturinha é uma santa de belezura.
ZÉMAMBEMBE: Eu ouvi tudo, Si.
TIA SIMPLICIDADE: Ouviu? Não ouviu nada. Ouviu o quê?
ZÉMAMBEMBE: Solte a menina Bagatela.
TIA SIMPLICIDADE: Venha mais perto da tia, Bagatela do meu coração.
ZÉMAMBEMBE: Quero passar o Natal com vocês.
TIA SIMPLICIDADE: Aqui em casa?! Desista, Zémambembe.
ZÉMAMBEMBE: Pode me levar de volta a Olho D’Água dos Lírios.
TIA SIMPLICIDADE: Agora mesmo.
ZÉMAMBEMBE: Se minha liberdade significa sacrificar essa criança...
TIA SIMPLICIDADE: Ninguém, aqui nesse casarão, Zémambembe, vai sacrificar ninguém. Nem mesmo Seu Polifemo, o vendedor de sapatos.
ZÉMAMBEMBE: Acha que prefiro morrer em Olho D’Água dos Lírios, que você espalhou pela Vila ser o meu autoexílio porque Olho D’Água é a Capital Mundial do Cordel? E foi assim que você, Simplicidade, enganou este vate poeta bardo. Garantiu-me que eu seria o tal dos versos em Olho D’Água dos Lírios, que não seria piegas, tampouco repetitivo. Depois de tudo o que você me prometeu. Fui daqui levado acorrentado, como o próprio Prometeus. Sua sem-vergonha! ...E me mandou para a baixa da égua! Para lá, não voltarei nunca mais, Simplicidade.
TIA SIMPLICIDADE: Bagatela, querida, cuide enquanto levo o seu tio de volta.
ZÉMAMBEMBE: Mas, eu sou o seu marido, Simplicidade. Natal. Me deixe ficar. É Natal. Eu não sou poeta de um único livro, Simplicidade. Respeite, mulher, a minha genialidade!
TIA SIMPLICIDADE: Seu... seu... seu poeta metido a curandeiro pelas palavras, seu louco! Tire as mãos de mim. Eu grito.
ZÉMAMBEMBE: Construí, Simplicidade, a minha casa dentro do seu coração.
TIA SIMPLICIDADE: Agradecida. Agora vamos.
ZÉMAMBEMBE: E o nosso amor foi levado pela última chuva? Me deixe ficar, Simplicidade. Veja os meus versos novos. Ouça essa oração, que lhe fiz. Deixe te falar uns versinhos escritos enquanto atravessava o rio a nado. Aquele nosso amor sob o juazeiro era água passada?
TIA SIMPLICIDADE: Nunca soube. Não demore. Alguma coisa para levar?
ZÉMAMBEMBE: Tem outro cafajeste, tem? Olhe minha cabeça. Por isso sujei.
TIA SIMPLICIDADE: Que está escondendo na cabeça com toda essa farinha?
ZÉMAMBEMBE: Chifres. Chifres, mulher perfídia! Chifres! Isso que tenho aqui.
TIA SIMPLICIDADE: Minha nossa! Credo em cruz. Você está pior do que a última vez que saiu daqui amarrado a corda na mesa do carro de boi. Zémambembe, o que é isso, homem de Deus! E está nascendo também flores. Um jarro...
ZÉMAMBEMBE: Estou usando um disfarce para não morrer de vergonha.
TIA SIMPLICIDADE: Deixe ver.
ZÉMAMBEMBE: Não venha! Tem outro homem, Simplicidade? Confesse.
TIA SIMPLICIDADE: Confesse? Era só o que me faltava.
ZÉMAMBEMBE: Tem. Eu vi.
TIA SIMPLICIDADE: Ora, Zémambembe! Dentro de minha casa?
ZÉMAMBEMBE: Faço poesia com farinha grossa, farinha fina...
TIA SIMPLICIDADE: E eu sem saber. E você, Bagatela, uma alcoviteirazinha.
ZÉMAMBEMBE: Não envolva a menina Bagatela nisso, Simplicidade.
TIA SIMPLICIDADE: Na volta, a gente conversa, Bagatela.
ZÉMAMBEMBE: Eu me entreguei, não me entreguei? Pronto. Meus versos estão entregues; jogo-os aos seus pés, Simplicidade.
TIA SIMPLICIDADE: Vamos. Feche a casa, Bagatela.
ZÉMAMBEMBE: Não me provoque, SiSim, Simplicidade, Simplicidadezinha. Por que você se repete tanto?
TIA SIMPLICIDADE: Eu nunca me repito;
Eu me repito sempre.
ZÉMAMBEMBE: Não me provoque, Simplicidade.
TIA SIMPLICIDADE: Sabe qual é o fim do poeta?
ZÉMAMBEMBE: Não fale sobre o que não compreende.
TIA SIMPLICIDADE: A palavra está cansada;
Agora chove em seus dias.
ZÉMAMBEMBE: Nunca se provoca Alguém ou Ninguém filho de sangue nobre!
TIA SIMPLICIDADE: O seu grito assustou a criança. Vou te partir em dois, seu grande vagabundo!
BAGATELA: Não faça isso com o meu tio!
ZÉMAMBEMBE: Eu conheço os segredos das raízes e a cura dos males, Si.
TIA SIMPLICIDADE: Conversa!
ZÉMAMBEMBE: Eu entendo tudo de farmácia e medicina. Conheço a serventia dos remédios. Esse eu bebo. Esse eu não quero. Aquele é bom para... versos.
TIA SIMPLICIDADE: Você sabe é conversar para boi dormir. Ouviu, Bagatela? O tio em crise. Ainda tenho forças para dominá-lo. Zémambembe é homem de poucas patacas e sem nenhum vintém. A casa que você tinha, agora é minha.
ZÉMAMBEMBE: Me solte, me solte, filha do capeta! Filha da po...lí...cia!
TIA SIMPLICIDADE: Você é a personificação do caos.
ZÉMAMBEMBE: Eu?!
TIA SIMPLICIDADE: Diversionista filadaputa! Jogando fumaça na cara da gente.
ZÉMAMBEMBE: Contenha-se, contenha-se! Contenha a língua, mulher. Eu sou apenas o homem do meu tempo.
TIA SIMPLICIDADE: Por que você mente, como mente um psicopata? Traz na mente uma nova mentira para substituir a velha mentira. Mente desmedidamente e requenta a mentira dia a dia.
ZÉMAMBEMBE: Eu não tenho nada a esconder. Nem a você nem a Deus. Aliás, você quer ser melhor do que Deus no dia do juízo final. Eu, juro, nunca menti em toda a minha existência nesse planeta.
TIA SIMPLICIDADE: Mas escondeu. Isso não é uma inconsistência factual, isso é mentira. Mentiroso sem-vergonha. Se Vovó Velha ouvisse isso, ela te mandava direto aos portões do casarão do primo Hades. Mente tão mentirosamente, que torna a mentir como se engabelasse a gente dessa vez igual a outras vezes.
ZÉMAMBEMBE: Não me chame de mentiroso. Vai saindo. Sai, sai, sai da frente, Simplicidade! Vou dormir.
TIA SIMPLICIDADE: Aqui não te cabe, homem. Vambora, vamo, vamobora, que aqui não é mais o teu lugar.
BAGATELA: Vá, tio, com a tia.
ZÉMAMBEMBE: Você está me traindo, Bagatela?
TIA SIMPLICIDADE: Deixe a menina fora disso.
BAGATELA: Não, tio.
ZÉMAMBEMBE: Eu estou com fome.
BAGATELA: Tia Simplicidade bebeu todo o leite.
ZÉMAMBEMBE: Ao menos há alguma fé no mundo, Simplicidade?
TIA SIMPLICIDADE: Habemos papa.
BAGATELA: O tio está chorando, tia.
TIA SIMPLICIDADE: E eu estou vendo.
ZÉMAMBEMBE: Quem sou eu? Vocês sabem. Onde eu estou?
BAGATELA: Por que o tio não para de chorar, tia?
TIA SIMPLICIDADE: Porque é um chorão.
BAGATELA: Ele não pode voar que nem os passarinhos, tia?
TIA SIMPLICIDADE: Pergunte a ele. Afinal, ele é o seu tio.
Houve aquele dia em que Bagatela escalou o derradeiro galho da jaqueira. Ela ouviu falar que havia ninfas, duendes, elfos e fadas naquele jardim.
Estava no olho da jaqueira a menina Bagatela. Ela escondeu-se da família por quase uma semana. Falava com as borboletas e os sapos.
Por algum motivo, Dona Bagatela revisitava aquele dia no qual viu o seu tio no pé da jaqueira a conversar com uma folha da árvore. Ele assegurava-lhe ser um poeta autor de epopeias.
Bagatela ouviu o tio dizer:
– Vou riscar em você, Jaqueira, um sinal de travessão para estabelecer a conversa necessária sobre a verdadeira epopeia na poesia de cordel.
Atravessou a tarde Zémambembe em uma narrativa extensa. Ele relatou, segundo a lembrança, feitos grandiosos. Foi herói em Olho D’Água dos Lírios e poeta na Vila de São Gabriel.
Aclamado pelas letras, que lhe ofereciam a cadeira em quaisquer dos três poderes sob a pena iluminista de Montesquieu, Zémambembe propagou versos sobre o espírito das leis. Foi à Antiguidade clássica a galope e regressou em um piscar de olhos. Foi aristotélico sem saber que o era.
Zémambembe julgava representar, na Vila de São Gabriel, cada valor, do moral ao religioso, do cultural ao profano. E narrou em versos os seus guardados com segredos entre ele e uma folha de jaqueira no jardim do longevo casarão.
Bagatela, no olho da jaqueira, idealizou o tio herói. Ele para ela um modelo ético. Girou em torno de Bagatela criações sobrenaturais: anjos, demônios, força mágica moviam a existência das vidas no jardim do longevo casarão.
Uma aranha não se movia sem a vontade das forças mágicas emanadas por Bagatela no último galho. No alto do seu poder, Bagatela divisava, não a Vila de São Gabriel, mas o país de São Gabriel. Ela própria celebrava com o tio uma vitória estrondosa, rumores de guerras, mortes, feridos, alucinados, fanáticos de toda a sorte. Todos prontos a preservarem a cultura da Vila de São Gabriel.
O solene poeta Zémambembe reverenciava à folha da jaqueira. Tratava-a quão uma partícula da força cósmica.
O poeta apresentou à folha o tema e o herói daquele enredo intitulado de Caixa-Prego. A folha era o portal entre o poeta e a invocação da força misteriosa no jardim do longevo casarão.
A sobrinha esperava do tio que lhe dedicasse o poema. Deu-se a narração com as aventuras no jardim, que pareceu mítico: reprodução do Éden. Amém.
Foram-se as batalhas, verso a verso, até o epílogo. E o encerramento da obra foi apoteótico. Ele preencheu a Vila de São Gabriel de reflexões, não como A Ilíada com a epopeia entre as batalhas das formigas e das aranhas, ou mesmo a Odisseia com o grande sorriso do tio Zémambembe a sonhar deitado no colo de Simplicidade a lhe acariciar o cabelo. Em um olho do tio Os Lusíadas, e noutro Eneida.
Qual é o fim do poeta? É a Morte, que lhe espera no beiço do rio.
Os olhos reviravam ao ver no chão úmido folhas secas da jaqueira. Ouvia-se a voz esquecida de Gilgamés. E Simplicidade não acreditou ao ouvir o cantar do marido cujos acentos invadiam cada poro seu feito um perene e doce arrepio:
Versos no corpo o tempo lança...
Zémambembe d’alma fula e trágica,
E Simplicidade pura ganância.
E ri a poesia ideofágica.
Canta à Vila, os versos galanteiam.
Zémambembe em marcha tão fatídica:
Na luta o poeta grita: Candeia!
Simplicidade o amor fati siga.
E no jardim só as mãos fustigam?
O verso – que o diga! – pura urtiga.
Ao seu enterro deseja uma figa...
TIA SIMPLICIDADE: Isso é um parnasiano tardio. Vamos, Zémambembe. E ele se diz cordelista. Isso está mais para simbolista. É um sáfico metido a heroico. Não tolero os teus versos esdrúxulos, Zémambembe. Nunca conheci alguém tão patético, tão paradoxal. É um personificador de prosopopeias. Vamos, vamos já, Seu Sinalefa duma figa!
BAGATELA: Aonde vão?
ZÉMAMBEMBE: Vamos, Simplicidade, antes que anoiteça em minha cabeça.
TIA SIMPLICIDADE: Você precisa dos versos fáceis, Zémambembe.
ZÉMAMBEMBE: Pajens, rápido, minha espada. Vou decapitar esse dragão.
BAGATELA: Tio... volte.
ZÉMAMBEMBE: Você me prende, Simplicidade, e eu me solto. Não sou um de seus pássaros. Não nasci para gaiola. Vou fugir. Eu vou procurar uma ilha para governar. Vou morar oculto. Ganhar o mar. Cultivar jardins. Plantarei sonhos em vasos de barro de louça. Beberei vinho, cachaça em copo de vidro grosso. Vou plantar jardins, cultivar ilhas magrelas nas quais o sol nunca se põe. Direi versos arrancados de minha pele. Ninguém nasceu na ilha dos ciclopes, Simplicidade; ninguém nascera pra viver a vida inteira na mesma rua...
BAGATELA: Tio... volte. Volte... tio.
ZÉMAMBEMBE: Viver com Simplicidade é muito pouco. Eu não morro, pois sou eterno dentro de mim. Como os santos foram.
SIMPLICIDADE: E o medo inventou o mal. E a insegurança pôs a culpa no diabo. ZÉMAMBEMBE: Não vivo para a morte, vivo para a vida.
BAGATELA: Volte.
ZÉMAMBEMBE: Bagatela, evite ser igual a sua tia. Ela só aprendeu a engolir orações, palavras repetidas, gestos imitados.
TIA SIMPLICIDADE: Não seja maldoso, seu maluco!
ZÉMAMBEMBE: É assim mesmo, sobrinha Bagatela. Só nos resta chorar, quando não se pode acreditar mais nem em sua própria família, quando não se pode acreditar mais em pessoas que são a semelhança umas das outras.
BAGATELA: Ti...o
ZÉMAMBEMBE: Sobrinha, aperte, aperte bem essa boneca ao peito. Bagatela, minha querida sobrinha...lem...bre...se.
AFÁVEL: Ainda com essa boneca em sua mão, mamãe?
DONA BAGATELA: Vocês vão ficar aí assistindo ao meu enterro?