Uma leitura gramsciana sobre o crime como alternativa no capitalismo tardio
Pela lente de Gramsci, o crime no capitalismo tardio é o sintoma mais agudo da falência hegemônica
Publicado 29/07/2026 22:05 | Editado 29/07/2026 22:13

“Sempre fui sonhador, é isso que me mantém vivo / Quando pivete, meu sonho era ser jogador de futebol, vai vendo! / Mas o sistema limita nossa vida de tal forma / E tive que fazer minha escolha, sonhar ou sobreviver” (Racionais MC’s, 2002).
Esses versos são um diagnóstico da hegemonia cultural no capitalismo tardio. Para o pensador marxista italiano Antonio Gramsci, a classe dominante não mantém o poder apenas pela força, mas principalmente pela conquista do consenso, ou seja, fazendo com que as classes subalternas interiorizem os valores e as aspirações da elite como se fossem seus próprios.
Gramsci diria que o capitalismo cria um “senso comum”, um conjunto de crenças dispersas e acríticas que naturalizam a desigualdade. Nesse senso comum, ser “bem-sucedido” é uma obrigação moral, e o fracasso é visto como defeito de caráter. Quando Afro-X afirma que “o capitalismo me obrigou a ser bem-sucedido”, ele expõe o caráter coercitivo do consenso. O sistema não precisa te algemar; ele te convence de que você deve vencer e que, se não vencer, a culpa é unicamente sua.
Esse é o ponto central da hegemonia. A classe dominante impõe seus valores – o consumo, a ostentação e a propriedade – como universais. O menino da periferia sonha em ser jogador de futebol ou empresário não por acaso, mas porque a indústria cultural – que Gramsci chamaria de “aparelho privado de hegemonia” – fabrica esses sonhos. A escola, a mídia e a publicidade ensinam que a riqueza é o prêmio máximo, mas escondem que os meios para alcançá-la são bloqueados por barreiras de classe e raça.
Quando o rapper diz “tive que fazer minha escolha, sonhar ou sobreviver”, ele revela o colapso da promessa hegemônica. O sistema promete que, se você se esforçar, será recompensado. Porém, ao negar consistentemente o acesso ao emprego digno, o capitalismo entra em uma crise de autoridade, e sua ideologia perde a credibilidade para grandes parcelas da juventude periférica.
Gramsci afirmava que, nesses momentos de crise, o “velho morre e o novo não pode nascer”. O velho é a promessa do “sonho americano” (no caso, o brasileiro); o novo que não consegue nascer é uma sociedade verdadeiramente justa, baseada no mérito. No vazio deixado por essa crise, o crime emerge como uma solução prática e imediata dentro do horizonte limitado que o próprio sistema oferece.
E aqui entra o elemento mais perverso, que Gramsci chamaria de “transformismo”. O sistema não precisa eliminar o crime; ele o utiliza. Ao rotular o jovem pobre como “marginal” e encarcerá-lo em massa, o Estado policial reconstrói seu consenso entre as classes médias e altas. O medo do crime justifica a vigilância, a militarização dos morros, as operações e a expansão do complexo prisional – que, para Gramsci, são aparelhos repressivos do Estado, mas que ganham legitimidade porque o “senso comum” já associou pobreza à periculosidade.
Enquanto o jovem negro é punido com violência, os “criminosos de colarinho branco”, que sonegam e exploram, são respeitados. Gramsci explicaria essa hipocrisia pela diferença de função social. O grande empresário é visto como “criador de riqueza”, mesmo que destrua vidas, enquanto o morador da periferia é visto como “ameaça”. A mídia sensacionalista atua produzindo narrativas que desviam a atenção da exploração estrutural para a violência individual.
Pela lente de Gramsci, o crime no capitalismo tardio é o sintoma mais agudo da falência hegemônica. O sistema não consegue mais convencer todos de que o esforço individual basta, mas ainda tem força para punir quem tenta burlar as regras do jogo.
Enquanto a indústria cultural vende sonhos e a indústria penal vende repressão, a periferia sobrevive num beco sem saída: ou aceita a miséria como destino, ou arrisca a morte e a prisão como “solução”. A denúncia dos Racionais é um convite à organização. Como Gramsci diria, o pessimismo da razão deve ser combinado com o otimismo da vontade.




