Corrupção, inflação e recessão desgastam Milei em pior momento do governo
Enquanto inflação volta a acelerar, presidente argentino enfrenta denúncias de corrupção, queda de popularidade e críticas até da revista liberal “The Economist”
Publicado 11/05/2026 10:40 | Editado 11/05/2026 11:30

A crise econômica na Argentina já não pode mais ser escondida atrás da retórica da “motosserra” de Javier Milei.
Com inflação em alta, queda brusca da atividade econômica, desemprego crescente e denúncias de corrupção atingindo o coração do governo, o experimento ultraliberal argentino entrou em sua fase mais desgastada — a ponto de até a revista The Economist, uma das maiores referências do pensamento liberal no mundo, afirmar que o presidente vive um momento de “sérios problemas” e vê sua credibilidade se deteriorar rapidamente.
O desgaste ocorre após meses em que parte da imprensa liberal internacional tratava o governo argentino como uma vitrine do receituário de austeridade extrema.
A desaceleração inicial da inflação, resultado do choque fiscal promovido pela chamada “motosserra” de Milei, foi apresentada por setores do mercado como prova do sucesso das políticas ultraliberais.
O que essas análises frequentemente ignoravam era o custo social do ajuste: arrocho salarial, queda do consumo, paralisação de obras públicas, retração industrial e aumento da precarização do trabalho.
Desde o início do mandato, sindicatos, movimentos populares e partidos de esquerda argentinos alertavam que o ajuste baseado em cortes radicais do Estado teria impacto direto sobre a população trabalhadora.
Agora, os próprios indicadores econômicos começam a corroer o principal ativo político de Milei: a promessa de estabilização econômica rápida.
Segundo dados oficiais citados pela revista britânica, o PIB argentino caiu 2,6% entre janeiro e fevereiro deste ano, a maior retração mensal desde 2023. A atividade industrial despencou, o comércio varejista perdeu força e a construção civil segue em crise profunda.
A inflação, que havia desacelerado no primeiro momento do ajuste, voltou a acelerar. Em março, atingiu 3,4% no mês e 33% no acumulado de 12 meses.
A própria The Economist destaca que a inflação mensal sobe há dez meses consecutivos, contrariando as previsões otimistas do governo. Milei chegou a afirmar, em março, que o índice ficaria abaixo de 1% até agosto — cenário que agora é considerado praticamente impossível até mesmo por analistas liberais.
O impacto social da política econômica também aparece no mercado de trabalho. A retração de setores intensivos em mão de obra, como indústria, comércio e construção, provocou a perda de centenas de milhares de empregos formais desde o início do governo.
Pesquisas apontam que baixos salários e desemprego passaram a ser as maiores preocupações da população argentina. Enquanto isso, os setores que continuam crescendo — petróleo, mineração e agronegócio — empregam relativamente pouco e não compensam a deterioração do restante da economia.
Escândalos de corrupção ampliam desgaste político
A crise econômica ocorre em paralelo a uma sequência de denúncias que atingem diretamente o núcleo do governo. O caso mais explosivo envolve a criptomoeda $LIBRA, promovida por Milei em suas redes sociais no ano passado.
Após a divulgação feita pelo presidente, o ativo disparou e depois despencou, gerando prejuízos milionários para investidores menores. Investigadores argentinos obtiveram registros telefônicos que mostram contatos entre Milei e empresários ligados ao projeto.
Segundo a reportagem da The Economist, investigadores encontraram ainda documentos preliminares que mencionariam pagamentos milionários relacionados à operação. Embora não exista, até o momento, prova de que Milei tenha recebido recursos ou cometido crime, o presidente passou a ser tratado formalmente como pessoa de interesse nas investigações conduzidas pela Justiça argentina.
Outro foco de desgaste envolve o porta-voz e chefe de gabinete Manuel Adorni, investigado por suspeitas de enriquecimento ilícito.
A apuração envolve viagens internacionais, uso de jatos privados e aquisição de imóveis em condições consideradas suspeitas pelos procuradores argentinos. Adorni nega irregularidades, mas o caso aprofundou a percepção pública de contradição entre o discurso anti-casta do governo e as práticas da administração.
Em vez de reduzir a tensão, Milei intensificou os ataques contra jornalistas e veículos de comunicação.
O presidente publicou dezenas de mensagens hostis à imprensa em poucos dias e restringiu temporariamente o acesso de repórteres à Casa Rosada. O episódio ampliou críticas sobre o caráter autoritário do governo e aproximou ainda mais Milei da retórica utilizada pela extrema direita internacional.
Liberalismo secm crescimento aprofunda impasse argentino
A reportagem da publicação britânica também aponta uma contradição central do modelo econômico de Milei: o governo priorizou o combate à inflação por meio de juros elevados, contração monetária e valorização artificial do peso, mas isso sufocou a atividade produtiva.
O peso forte barateou importações e atingiu a indústria argentina, que perdeu competitividade diante de produtos estrangeiros.
Ao mesmo tempo, o corte abrupto de subsídios e gastos públicos ajudou a produzir superávit fiscal, celebrado pelo mercado financeiro, mas reduziu ainda mais o dinamismo econômico.
O governo passou inclusive a atrasar pagamentos a fornecedores do setor público para preservar as contas fiscais.
Mesmo assim, setores do mercado seguem apostando que a Argentina pode voltar a crescer impulsionada pela exploração de petróleo, gás e mineração. Analistas citados pela The Economist ainda projetam crescimento superior a 3% neste ano.
Mas a própria revista alerta que Milei precisará mostrar melhora concreta em emprego, renda e inflação para evitar uma deterioração política mais profunda até as eleições presidenciais de 2027.
O fato de críticas tão duras partirem agora de uma das principais referências globais do pensamento liberal revela a dimensão da crise enfrentada pelo governo argentino.
Depois de meses tratado como símbolo do ultraliberalismo radical, Milei passa a ser visto até por setores que o apoiavam como um presidente incapaz de estabilizar a economia sem provocar deterioração social, instabilidade política e desgaste institucional.




