Nassif: Os mecanismos de execução das políticas públicas

O Estado é basicamente um agente planejador e articulador. A Constituição dotou-o de uma série de instrumentos para fazer o plano chegar na ponta. O desafio é saber usá-los adequadamente.


Saiba Mais
0

PARCEIROS

    

PUBLICIDADE

 

 

Plantão Oxente

0

A AUTO ESCOLA ALFA-Chegou a Santana do Ipanema-AL. Localizada na Rua Manoel Matias, 53 - Bairro Camoxinga - A ALFA tem renome e tradição no que se diz respeito a Formação de Condutores em todo o Nordeste. Venha nos fazer uma visita. Abertura de turmas para todas as categorias de Motoristas.

Link


0

A AUTO ESCOLA ALFA-Chegou a Santana do Ipanema-AL. Localizada na Rua Manoel Matias, 53 - Bairro Camoxinga - A ALFA tem renome e tradição no que se diz respeito a Formação de Condutores em todo o Nordeste. Venha nos fazer uma visita. Abertura de turmas para todas as categorias de Motoristas.

Link


0

A AUTO ESCOLA ALFA-Chegou a Santana do Ipanema-AL. Localizada na Rua Manoel Matias, 53 - Bairro Camoxinga - A ALFA tem renome e tradição no que se diz respeito a Formação de Condutores em todo o Nordeste. Venha nos fazer uma visita. Abertura de turmas para todas as categorias de Motoristas.

Link


0

A AUTO ESCOLA ALFA-Chegou a Santana do Ipanema-AL. Localizada na Rua Manoel Matias, 53 - Bairro Camoxinga - A ALFA tem renome e tradição no que se diz respeito a Formação de Condutores em todo o Nordeste. Venha nos fazer uma visita. Abertura de turmas para todas as categorias de Motoristas.

Link


0

A AUTO ESCOLA ALFA-Chegou a Santana do Ipanema-AL. Localizada na Rua Manoel Matias, 53 - Bairro Camoxinga - A ALFA tem renome e tradição no que se diz respeito a Formação de Condutores em todo o Nordeste. Venha nos fazer uma visita. Abertura de turmas para todas as categorias de Motoristas.

Link


0

A AUTO ESCOLA ALFA-Chegou a Santana do Ipanema-AL. Localizada na Rua Manoel Matias, 53 - Bairro Camoxinga - A ALFA tem renome e tradição no que se diz respeito a Formação de Condutores em todo o Nordeste. Venha nos fazer uma visita. Abertura de turmas para todas as categorias de Motoristas.

Link


0

A AUTO ESCOLA ALFA-Chegou a Santana do Ipanema-AL. Localizada na Rua Manoel Matias, 53 - Bairro Camoxinga - A ALFA tem renome e tradição no que se diz respeito a Formação de Condutores em todo o Nordeste. Venha nos fazer uma visita. Abertura de turmas para todas as categorias de Motoristas.

Link


0

A AUTO ESCOLA ALFA-Chegou a Santana do Ipanema-AL. Localizada na Rua Manoel Matias, 53 - Bairro Camoxinga - A ALFA tem renome e tradição no que se diz respeito a Formação de Condutores em todo o Nordeste. Venha nos fazer uma visita. Abertura de turmas para todas as categorias de Motoristas.

Link



Rádio Santana

 

 

 

 

 

 

Santana Oxente Informa

Copa Ribeira do Ipanema começa com grande emoçõ...
03 Sep 2015 19:29Copa Ribeira do Ipanema começa com grande emoções no domingo

Copa Ribeira do Ipanema começa com grande emoções no domingo     As  [ ... ]

MunicípioSaiba mais
O CASAMENTO DE UM GALÃ COM UMA HERMAFRODITA
03 Sep 2015 19:22O CASAMENTO DE UM GALÃ COM UMA HERMAFRODITA

O CASAMENTO DE UM GALÃ COM UMA HERMAFRODITA Remi Bastos  [ ... ]

NacionalSaiba mais
Após 100 dias em greve, servidores da Ufal tentam...
03 Sep 2015 19:18Após 100 dias em greve, servidores da Ufal tentam audiência no MEC

Após 100 dias em greve, servidores da Ufal tentam audiência no MEC      [ ... ]

NacionalSaiba mais
Culminância do Projeto Valorizando Nossa Literatu...
03 Sep 2015 19:17Culminância do Projeto Valorizando Nossa Literatura reúne alunos da rede pública de Santana do Ipanema

Culminância do Projeto Valorizando Nossa Literatura reúne alunos da rede pública de Santana do [ ... ]

MunicípioSaiba mais
Concurso público de Olho D’água do Casado vai ...
27 Aug 2015 13:11Concurso público de Olho D’água do Casado vai ser realizado ainda este ano

Concurso público de Olho D’água do Casado vai ser realizado ainda este ano Prefe [ ... ]

MunicípioSaiba mais
Foragido da Justiça de Pernambuco por roubo de ca...
27 Aug 2015 13:10Foragido da Justiça de Pernambuco por roubo de cargas é recapturado em Mata Grande

Foragido da Justiça de Pernambuco por roubo de cargas é recapturado em Mata Grande  [ ... ]

MunicípioSaiba mais
Clima tenso: questionado por deputado alagoano, Yo...
27 Aug 2015 13:07Clima tenso: questionado por deputado alagoano, Youssef diz que está sendo intimidado na CPI da Petrobras

Clima tenso: questionado por deputado alagoano, Youssef diz que está sendo intimidado na CPI da  [ ... ]

NacionalSaiba mais
Collor repetiu baixarias, manobrou, tentou, mas Ja...
27 Aug 2015 13:04Collor repetiu baixarias, manobrou, tentou, mas Janot foi reconduzido

Collor repetiu baixarias, manobrou, tentou, mas Janot foi reconduzido Voto de senador alagoan [ ... ]

NacionalSaiba mais
Outros artigos

Um brasileiro chamado Garrincha

Estrela solitária: Um brasileiro chamado GARRINCHA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ruy Castro

 

 

 

 

3" reimpressão

COMPANHIA DAS LETRAS







Copyright - 1995 by Ruy Castro

Projeto gráfico: Hélio de Almeida

Capa e projeto grafico Hélio de Almeida

Foto da capa Jorge Burilem /Abril Imagens

Tratamento grafico da capa GraphBox

Foto da lombada Jader Neves / Manchete

Mapas Sino Cançado

índice remissivo Valter Ponte

Preparação Carlos Alberto Inada

Revisão Carmen Simões da Costa Isabel Cury Santana

Direitos Internacionais de Catalogação na Publicação (cbl) (Câmara
Brasileira do Livro SP Brasil)

Castro Ruy 1948

Estrela solitária um brasileiro chamado Garrincha / Rui Castro - São
Paulo Companhia das Letras 1995

Biografia - garrincha - brasil

ISBN 7164 493 4






Todos os direitos desta edição reservados à

EDITORA SCHWARCZ LTDA ,

Rua Bandeira Paulista, 702, q 72

04532-002 - São Paulo - SP

Telefone (011)866-0801

Fax (011)866-0814



Para Heloísa Seixas


ÍNDICE

1. 1865-1933: A flecha fulniô 7

2. 1933-1952 : Infância em Xangri-lá 26

3. 1952-1953: Curupira na cidade 46

4. 1953: Os fluidos vitais 65

5. 1954-1956: Troféus na cristaleira 84

6. 1956-1957: Garrincha em forma de crisálida 104

7. 1958: Chica-bon ao sol 126

8. 1958: O Sputnik fulminado 145

9. 1958: A vitória azul 166

10. 1958-1959: O busca-pé Angelita 189

11. 1959-1961: A máquina de fazer sexo 214

12. 1962: Elza 234

13. 1962: Pau Grande revelada 255

14. 1963: Fogo no coração 281

15. 1963-1964: A bruxa sobre Garrincha e Elza 305

16. 1964-1965: O joelho agônico 326

17. 1966-1967: Acabado 351

18. 1968-1969: Sangue no asfalto 374

19. 1970-1971: Guimbas romanas 398

20. 1972-1974: Uma multidão de amor 416

21. 1975-1977: Elza perde a luta 437

22. 1977-1983: Zumbi na Mangueira 453

23. Epílogo: A última garrafa 480

Agradecimentos 489

Capítulo 1

1865-1933

A FLECHA FULNIÔ

Não foi preciso nem laçá-los - e olhe que estávamos por volta de 1865.
Bastou um pouco de mímica prometendo pinga, facas, espelhos. O pequeno
grupo de índios saiu de seu esconderijo nas matas da serra da Barriga,
em Alagoas, e aproximou-se dos brancos que lhes acenavam. Trezentos anos
de história do Brasil já lhes tinham ensinado que os brancos eram
velhacos, mentirosos e mais traiçoeiros que as cobras. Mas a certas
tentações era impossível resistir. Quando os índios chegaram bem perto,
os brancos caíram sobre eles. E, aí, sim, eles foram amarrados uns aos
outros e convidados a marchar rumo à civilização, atiçados por relho no
lombo.
Em tempos mais heróicos, seus captores teriam de persegui-los pelas
florestas de pau-brasil, arriscando-se a ser vergonhosamente driblados.
Mas a arte de driblar - de iludir o perseguidor, desmoralizá-lo e
deixá-lo derrotado para trás - parecia ser já uma habilidade perdida
pelos bisavós de Garrincha em meados do século XIX.
Ou eles não se teriam deixado levar com tanta facilidade para as
fazendas e engenhos da região, atados pelo pescoço a outros de seus
irmãos fulniôs.
Teoricamente, escravizar índios era uma prática démodé no Brasil de
1865. Além disso, proibida - os índios tinham de ser mantidos nos
aldeamentos demarcados pelo governo, onde podiam pintar os corpos com
urucum ou jenipapo sem assustar ninguém e estrelar romances e poemas
lindamente estilizados, como O guarani, de José de Alencar, e Os
timbiras, de Gonçalves Dias. Ninguém era inocente para acreditar que a
proibição de escravizá-los fosse fanaticamente respeitada, e muito menos
pelos coronéis do Nordeste. Mas uma razão para a vasta preferência dos
colonizadores pelos negros - além dos lucros fáceis produzidos pelo
tráfico - era a crença de que os nativos eram uns mandriões, uns
indolentes, que não serviam para nada e que só queriam saber de beber e
fornicar.
Beber e fornicar, sem dúvida. Os primeiros portugueses, ao chegarem por
aqui em 1500, horrorizaram-se com aqueles bárbaros nus que praticavam
alegremente todas as variantes sexuais previstas no catálogo: poligamia,
incesto, sodomia, homossexualismo. (E, quinze minutos depois, logo se
juntaram aos bárbaros nessas variantes, sob o alarido dos papagaios,
araras e maritacas.) Quanto a beber, os índios já produziam uma bebida
espumante, de alto teor alcoólico, fermentada a partir de frutas e de
raízes de aipim, com a qual os homens da tribo, incluindo o pajé e o
morubixaba, embriagavam-se dias e noites nos seus feriados longos. Com o
tempo, os nativos apenas substituíram essa bebida pela aguardente de
cana que os portugueses passaram a vender-lhes.
Mas, no tópico trabalho, os índios não tinham nada de indolentes ou
incapazes. Talvez não fossem brilhantes em testes psicotécnicos - se
estes já existissem -, mas eram muito bons no que faziam. Se os
primeiros colonizadores tivessem explorado as suas grandes
especialidades - caçar, pescar, desbravar matas, abrir picadas, servir
de guia, construir choupanas -, o jovem Brasil seria um piquenique
tropical, e um mar de sangue teria sido economizado. Mas os
colonizadores tentaram obrigá-los a lavrar a terra, coisa que os
guerreiros, com toda razão, achavam sedentário e chatíssimo. E, como se
não bastasse, os jesuítas insistiam em vesti-los, alfabetizá-los e
salvar suas almas por atacado, sem perguntar se seus corpos estavam de
acordo. Donde as guerras e os massacres, em que os nativos levaram
disparado a pior.
Séculos depois, em 1800 e quebrados, já havia menos índios ao vivo que
nos quadros de Pedro Américo. Poucas tribos estavam disponíveis para
recenseamento, e quase todas confinadas nos aldeamentos - longe das
matas onde tinham conhecido o seu apogeu e, de propósito, perto das
cidades e fazendas dos brancos. Não admira que os índios não gostassem
da vizinhança. E nem ali tinham sossego. Bastava que se afastassem
alguns metros da aldeia, a fim de abater um veado ou um tatupeba para o
almoço, para que suas terras fossem invadidas pelos brancos e eles
fossem expulsos ou mortos. Alguns índios nem esperavam a invasão -
pressentiam-na pelo vento e, para evitar a matança, fugiam em bandos.
Com sorte, chegavam a caminhar incógnitos durante léguas. Mas, no
instante em que eram vistos flanando pelo mato, os brancos os
capturavam. Alguns eram exibidos em circos; as índias jovens eram
vendidas para senhores lúbricos ou, mais ou menos como hoje, diretamente
para a prostituição.
Em meio ao Segundo Reinado, com d. Pedro II ainda de barbas pretas, o
fim da escravidão negra começou a parecer fatal e a cotação dos
indígenas voltou a subir. E lá se foram eles de novo para uma espécie de
cativeiro ou semicativeiro. No Nordeste, os índios mais fortes eram
postos para trabalhar nos engenhos e criações de gado - onde, pelo
menos, recebiam funções que desempenhavam com certa tolerância: colher
cana, cortar lenha, levar e trazer animais, conduzir carros-de-boi.
Nada, é claro, que se comparasse a caçar onças ou a uma boa e sangrenta
guerra tribal, como nos velhos tempos. Mas não tinham escolha.
E nem aqueles eram os velhos tempos. Era o século xix e foi isso o que
aconteceu aos bisavós de Garrincha em Pernambuco: expulsos de seu
aldeamento fulniô, eles saíram para o mundo e, já sem a picardia de
outrora, foram apanhados e levados em coleiras para o mundo branco.
Os fulniôs viviam desde o século xviii em sua reserva na região de Águas
Belas, no vale do Ipanema, sertão baixo de Pernambuco, a poucos
quilómetros da divisa com Alagoas. Eram um dos últimos grupos indígenas
da região. Nos dois estados, não restara um único caeté para contar com
que temperos os seus ferozes antepassados haviam comido o bispo Sardinha
em 1556. E nem um ferocíssimo tupinambá para contar como eles próprios
haviam dizimado e também comido os caetés - antes de serem, por sua vez,
exterminados com ainda maior ferocidade pelos portugueses. Em muitas
ocasiões, a vida de um índio na jângal brasileira valeu pouco mais que a
de uma paca. Pensando bem, foi um milagre que alguns deles ainda
tivessem chegado vivos ao século xix.
Os fulniôs estavam entre os agentes desse milagre. Salvou-os o fato de
que, além de escapar dos arcabuzes dos primeiros brancos, eles
conseguiram ficar a salvo também dos jesuítas. Quando um português
gritava índio, nos primórdios da colonização, os fulniôs se dispersavam
e se reagrupavam em outro lugar. Os missionários não conseguiam
encurralá- los para convertê-los em coroinhas ou filhas-de-Maria. Muito
depois, mesmo no aldeamento, os fulniôs conservaram a sua identidade
religiosa. Além disso, eram isolados - ou seja, não pertenciam a nenhum
dos grandes grupos indígenas do Nordeste, como os tapuias e os cariris.
Pelo menos, não se sentiam (nem se sentem até hoje) parte deles. Sua
língua, o iate (ya-thê, aproximadamente "a boca da gente")/ era estranha
aos principais troncos lingüísticos e, sabiamente, eles não a deixaram
diluir-se na "língua geral" imposta pelos padres. Preferiram aprender o
português e, curiosamente, houve fulniôs bilíngües no aldeamento antes
que muitos brancos arranhassem rudimentos de iate.
É verdade que, sob o permanente olhar do branco, os fulniôs perderam
muitos de seus antigos costumes. Um deles, o endocanibalismo: o
primogénito de cada família era morto, assado e comido com mel pelos
avós. Acreditavam que, com isso, a estirpe se fortificava. O pai da
criança não participava do repasto, mas tinha a obrigação de ir colher o
mel. Outros costumes permaneceram, entre os quais o de se vingarem de
uma pedra em que dessem uma topada, mordendo-a. E os meninos fulniôs
nunca perderam a sua extraordinária habilidade para caçar. Eram craques
em atirar pedras a mão livre - sem bodoque, atiradeira ou qualquer arma.
Ao alcance da sua pontaria, qualquer animal menor, como um pássaro ou um
sagüi, era um animal morto.
Em 1860, os fulniôs eram cerca de setecentos indivíduos em Águas Belas,
e não era de hoje que eles farejavam no ar a cobiça dos brancos pelas
suas melhores terras. Naquele ano, com ostensiva conivência das
autoridades, as invasões começaram. Os brancos surgiam de madrugada e
punham fogo nas choças. Aldeias inteiras ardiam e as famílias tinham de
abandonálas se não quisessem morrer ou submeter-se ao novo proprietário.
Não havia como lutar e resistir. Acrescentando o insulto à injúria, mais
de cem fulniôs foram recrutados em 1865 para lutar numa guerra contra um
paraguaio chamado Solano López, de quem nunca tinham ouvido falar. Os
primeiros ainda foram "voluntários da pátria". Mas os demais tiveram de
ser arrastados a ferros para a guerra. Ao saber que os militares se
aproximavam do aldeamento, as mães fulniôs disfarçavam seus filhos
adolescentes com ornamentos femininos, para que não fossem levados.
Mesmo assim, muitos foram - e poucos voltaram.
Em conseqüência de tudo isso, dos setecentos fulniôs de 1860 quase
quinhentos tinham sido levados à emigração forçada até o fim da década.
Muitos foram parar tão longe de Águas Belas que nunca mais acharam o
caminho de volta. Aliás, nem teriam para onde voltar - porque o
aldeamento seria extinto em 1870.
A diáspora fulniô espalhou descendentes mestiços pelo Brasil inteiro. Os
bisavós de Garrincha estavam provavelmente entre os primeiros que saíram
de Águas Belas por volta de 1865, desceram 45 quilómetros seguindo o
curso do rio Ipanema e tentaram fixar-se em Santana do Ipanema, já em
Alagoas. Chegaram até a formar uma aldeia, mas, talvez por uma nova
dispersão, muitos dobraram à esquerda e atingiram as proximidades de
União dos Palmares, na serra da Barriga. Ali foram finalmente capturados
e levados para os engenhos e fazendas de um lugar vizinho, do qual não
mais saíram. A esse lugar os fulniôs deram o nome de Laí-Eefà -
significando aproximadamente "Quebro e engulo". Era como eles entendiam
o nome pelo qual os brancos o chamavam: Quebrangulo.
A dispersão só seria estancada quase cinqüenta anos depois, em 1914,
quando o governo de Pernambuco devolveu parte das terras de Águas Belas
aos fulniôs remanescentes. Mas, a essa altura, muitos daqueles primeiros
desaldeados já haviam morrido.
E os filhos deles - um dos quais José Francisco dos Santos, que viria a
ser o avô de Garrincha - já eram então fulniôs de meia-idade, nascidos
nas fazendas e, eles próprios, pais de filhos adultos e cafuzos,
distantes de sua origem.
No caso de José Francisco dos Santos e seus filhos, mais distantes do
que os meros cem quilómetros que separavam Quebrangulo de Águas Belas.
José (ou Xisê, em iate) deve ter nascido entre 1865 e 1875, talvez na
própria Quebrangulo, filho daquela primeira leva de fulniôs apanhados na
serra da Barriga. Não se conhece registro de seu nascimento ou de como
se chamavam seus pais. Sabe-se que estes ganharam como sobrenome o nome
de seu captor, Francisco dos Santos. Era de praxe dar aos índios o nome
do apresador, para mais fácil identificação em caso de extravio. O nome
branco foi apenas um dos ingredientes da receita que faria José
esquecer-se de que era índio. Outros desses ingredientes foram os
costumes da fazenda (afinal, os únicos que conheceu), o contato com os
brancos, negros, mulatos e caboclos com quem vivia e todas as
atribulações que a região estava sofrendo com os quiproquós políticos na
corte.
Como aconteceu com muitos curumins nascidos no mundo branco, ninguém se
preocupou em anotar as peripécias de José. Não se sabe que passarinhos
matou em criança, em que rios nadou ou se foi miseravelmente feliz.
Sabe-se que, no Nordeste de sua infância e adolescência, um país morreu
e outro não nasceu no lugar.
José teria de dezoito a 28 anos por volta de 1893 quando casou-se com
Antônia, filha de um negro escravo com outra índia. Não era uma grande
época para se casar, fundar uma família ou fazer planos. Os anos
pós-1889 seriam particularmente duros para o Nordeste: suas três fontes
de riqueza - a escravatura, a monarquia e o açúcar - tinham se tornado,
subitamente, fogo morto. O Brasil de então eram os imigrantes, a
República e o café, e isso queria dizer o Sul. Umas atrás das outras, as
usinas e fazendas foram quebrando nas Alagoas, e seus proprietários, tão
poderosos até pouco tempo antes, começaram a vender os pianos para
salvar os cabrioles.
Até então, José e Antônia, como milhares de outros nordestinos pobres,
eram servos de senhores ricos. Com todas aquelas transformações, seu
status em sociedade se alterou: eram agora servos de senhores pobres.
Mas sempre servos. Os filhos do fazendeiro ou do senhor de engenho iam
embora para a capital, onde tornavam-se médicos, advogados e, alguns
deles, até escritores. Mas os ex-escravos, sem nenhuma perspectiva do
mundo, ficaram mesmo por ali, adejando como grilos e esperanças pelos
canaviais abandonados de Quebrangulo e arredores. Com sorte, o
fazendeiro dava-lhes uma quadra de terra para lavrar e dividir com ele o
produto. O que lhes sobrava não era suficiente para encher panelas.
Com José e Antônia foi assim. Do alto da serra, ao contemplar o
horizonte às vésperas do século xx, o futuro que viam era nenhum.
Quebrangulo (assim mesmo, com a tónica no u), depois município, era um
distrito de Palmeira dos índios, na zona do agreste alagoano, entre o
sertão e o litoral. Era, então, quase despovoado. José e Antônia, os
futuros avós de Garrincha, estavam entre os menos de 5 mil habitantes
espalhados pelos mais de trezentos quilómetros quadrados e que só então
voltavam a viver em paz. Em 1889, às vésperas da República, quadrilhas
de ferrabrases tinham se aproveitado da crise para fazer da região uma
casa-da-mãe-Joana. Saqueavam as fazendas, roubavam gado e cavalos,
assaltavam casas e lojas, promoviam arruaças fora de horas e amargavam a
vida até dos cachorros. Eram gente de fora, precursores dos cangaceiros,
sem o duvidoso charme que a posteridade emprestaria a estes. Segundo
historiadores alagoanos, talvez com algum exagero, o fim do faroeste em
Quebrangulo só foi possível Pela ação de dois missionários capuchinhos:
o piedoso frei Caetano, usando o rosário, e o truculento frei Clemente,
que saía correndo de batina pelas ruas, desafiando os valentes com
tabefes, chicotadas e excomunhões.
José e Antônia podem não ter sido incomodados pelos bandoleiros - eram
pobres, não tinham nada que os salteadores cobiçassem -, mas, como todo
mundo ali, viviam sob permanente sobressalto. O próprio Graciliano
Ramos, que nasceria na mesma Quebrangulo em 1892, iria referir-se à ação
dos pilantras em seu livro Infância. O pai de Graciliano, Sebastião,
tinha uma pequena loja de tecidos na cidade e deve ter vendido alguns
metros de chita vermelha ou de algodão cru, pré-encardido, para os avós
de Garrincha.
A presença dos desordeiros e a ausência de futuro não impediram que José
e Antônia desovassem sua prole. O primeiro filho foi Manuel, em 1894. Em
1897, nasceu Amaro, que viria a ser o pai de Garrincha. E, a seguir,
cruzando a passagem do século, Maria, José, Isabel e João - todos
Francisco dos Santos por batismo. Nenhum deles se diria um fulniô ou
mesmo um índio. Sua própria mãe já era cafuza, e eles também. Na
verdade, eram apenas brasileiros de pele escura, num tempo e lugar
ásperos - e, como tal, candidatos ao analfabetismo, à rudeza e ao
atraso. O Brasil não os desapontou.
Até que Manuel, o filho mais velho e mais esperto, começou a procurar
maneiras de inventar aquele futuro. Por volta dos quinze anos, em 1909,
deixou a roça e foi ser biscateiro na cidade. Quebrangulo pouco podia
fazer por ele, mas, como compete aos biscateiros, Manuel fez de tudo que
a cidade lhe oferecia. Aprendeu a ler, descobriu que era bom de números
(sabia fazer de cabeça as quatro operações) e, acima da média dos
ambiciosos, cultivou boas amizades. Uma delas, com o pernambucano José
Peixoto da Silva, que tinha fumaças de poeta e jornalista - e uma filha,
Adelaide, bonita e em idade de casar. Por volta de 1915 ou 1916, Peixoto
e sua filha vieram para o Rio e trouxeram Manuel com eles, como
agregado.
Por artes de Peixoto, Manuel foi trabalhar como cozinheiro no hospital
São Sebastião, no Caju, dedicado a tuberculosos. Empenhou-se como pôde,
mas não via nenhum futuro em cozinhar para tuberculosos. Começou a
estudar à noite e conseguiu chegar ao ginásio. Enquanto isso, namorava
escondido a filha de Peixoto. O pernambucano, descendente de holandeses,
gostava de Manuel, mas não para namorar sua filha: achava-o bronzeado
demais para ser seu genro. E proibiu-o expressamente de aproximar-se de
Adelaide, tocar-lhe a mão ou dirigir-se a ela sem chamá-la de senhorita.
Pois, durante uma viagem de Peixoto ao Norte, Manuel e Adelaide se
casaram em segredo.
Quando Peixoto voltou ao Rio e descobriu que sinos haviam bimbalhado em
sua ausência, quase pôs a casa abaixo. Deserdou a filha, com marido e
tudo, e expulsou-os de seu lar. Manuel não contara com essa reação.
O futuro pareceu escapar-lhe das mãos - mas então Manuel vislumbrou que
este poderia estar a alguns quilómetros dali, na região de Magé, a 70
quilômetros do Rio
no estado do Rio Ouvira falar das fábricas de tecidos que os ingleses
haviam instalado por lá e calculou que um homem criativo e empreendedor
como ele não teria dificuldades para encontrar serviço. Calculou
corretamente Pegou sua jovem mulher e foi aventurar-se por Raiz da Serra
e Pau Grande, no município de Magé
Manuel tinha espírito de liderança e, assim que chegou, arregaçou as
mangas. Atraiu outros migrantes perdidos pela região e organizou-os em
turmas. Uma das turmas saneava nos e brejos para a gigantesca fábrica de
tecidos de Pau Grande a América Fabril. Outra turma cortava lenha para
alimentar as imensas caldeiras da fábrica. Se um de seus homens fizesse
corpo mole, Manuel cuspia nas mãos, pegava o machado e, sem lero-lero,
abatia sozinho uma árvore e a transformava numa pilha de toras Depois
dava umas chicotadas no cabra Ninguém piava em protesto
Com seus 125 quilos bem socados e distribuídos por quase 1,80 metro,
Manuel era uma figura que se notava à distância. Havia quem o detestasse
como arrogante e ríspido - e, até por seu tamanho, talvez tenha pisado
em alguns pescoços sem querer Mas os ingleses que dirigiam a América
Fabril gostaram dele Mr Smith, mestre de fiação, mr Hall, o gerente, e
mr Lindsay, o diretor industrial, todos o adotaram como o seu homem de
confiança Em Pau Grande, Manuel instalou uma olaria ao lado da fábrica
de tecidos e passou a ser o seu principal fornecedor de tijolos. Por
causa da olaria, todos esqueceram o Manuel e passaram a chamá-lo de Mané
Caleira. Mas ele não parou por aí. Expandiu suas atividades e ficou
sendo também o responsável pela faxina das ruas de Pau Grande. Depois
assumiu a conservação dos trilhos da estrada de ferro posta pelos
ingleses. Em menos de quatro anos, tinha um exército de homens a seu
serviço e se tornara indispensável à América Fabril - sem ser empregado
dela. Quando se viu estabelecido e soube da morte de seus pais em
Alagoas, Manuel achou que era hora e foi buscar seus irmãos para viver e
trabalhar com ele. Todos vieram, menos Amaro
Amaro não estava em Quebrangulo quando seus irmãos tomaram o vapor com
Manuel para o estado do Rio. Aos 26 anos, em 1923, tinha ido tentar a
vida como sapateiro em Olinda, Pernambuco. Segundo os anais, Amaro era
bom sapateiro, mas a história não costuma ser muito favorável aos
profissionais desse ofício. Além disso, ao contrário de Manuel, Amaro
não tinha um leque de opções com o qual se abanar. Sabia cortar couro,
bater pregos, aplicar os ilhoses para os cadarços das botinas e mais
nada. Nunca aprendera a ler, escrever ou contar. Sua única aproximação
com o mundo letrado eram os versos improvisados dos cantadores
repentistas. Os únicos presidentes da Republica de que ouvira falar eram
Deodoro e Floriano, e só porque eram alagoanos.
15
A natureza proporcionava parte do lazer: adultos e crianças nadavam,
pescavam e caçavam livremente pelos rios e matas de Pau Grande. Como
tudo pertencia à fábrica, não existiam cercas, mata-burros ou avisos de
entrada proibida dentro do distrito. Até pelo menos 1940, os rios da
região eram fartos de peixes, havia nuvens de pássaros à solta e
tropeçava-se em tatus, mãos-peladas, micos exóticos e outros bichos que
hoje só se conhecem pelo nome e, mesmo assim, em listas de procura-se.
Pode-se conceber isso? Uma Xangri-lá a cinco passos da Baixada
Fluminense.
O que não competisse à natureza, competia à fábrica. Ela dava o cinema,
o Carnaval e o futebol. Mas sem muita pressa para aderir às novidades.
Havia o cine Pau Grande, que, no tempo dos filmes mudos, contava com uma
dupla de piano e violino para acompanhar a ação na tela. As luzes se
acendiam para a troca dos rolos, porque o cinema só tinha um projetor.
Em 1930 os filmes já falavam pelos cotovelos por toda parte, mas os de
Pau Grande continuaram mudos até o fim da década, quando afinal se
instalou o equipamento sonoro. Os bailes de Carnaval em Pau Grande eram
animados, mas o último terminava às onze da noite de Terça-Feira Gorda -
porque a fábrica reabria apitando na manhã da Quarta-Feira de Cinzas.
E o futebol já existia ali desde 1908, quando os ingleses importaram as
primeiras bolas, ensinaram-no aos operários e fundaram o Sport Club Pau
Grande. Mas tinha de ser para todos: o campo não era cercado e não se
podia cobrar ingressos. Os jogadores eram amadores e continuariam a ser,
muito depois de o profissionalismo ser oficializado no país em 1933. Não
apenas isso: para jogar pelo Pau Grande, precisavam ser operários da
fábrica e sócios do clube - donde, de certa forma, pagavam para jogar.
A concessão para que os ingleses explorassem a fábrica esgotou-se em
vinte anos, antes do fim do século, e ela foi assumida por três grupos
nacionais: os Rocha Faria, os Seabra e os Bebiano. Mas continuaram a ser
ingleses os diretores, gerentes, mestres e todos os cargos importantes -
os brasileiros chegavam no máximo a contramestres. O espírito inglês da
América Fabril permaneceu em Pau Grande até pelo menos 1950. As únicas
atividades autônomas eram a lavoura, certos serviços e o pequeno
comércio. Autónomas, mas não independentes. Todos eram dependentes da
grande mãe, que era a fábrica.
Talvez Pau Grande só pudesse ser assim, fora do mundo, porque era um
condomínio fechado - literalmente. Até a Segunda Guerra, havia um portão
de madeira preta na entrada da cidade, controlado por sentinelas. Os
forasteiros tinham de identificar-se. E por forasteiros entendia-se a
própria prefeitura de Magé, que não interferia nos negócios de Pau
Grande - não se esperava que ela desentupisse uma bica ou trocasse uma
lâmpada.
Quando a guerra terminou e foram revelados os horrores nazistas, houve
quem comparasse o regime fechado de Pau Grande ao de um campo de
concentração. Os pau-grandenses se ofenderam: que absurdo, ninguém ali
era proibido de ir ou vir - apenas ninguém queria ir embora. Os
operários das outras unidades da América Fabril, mesmo no Rio (uma delas
no Jardim Botânico, no terreno onde hoje fica a Rede Globo), podiam
ganhar melhores salários, mas não tinham os privilégios dos operários de
Pau Grande.
As outras tecelagens da região viviam sendo sacudidas por greves (por
algum motivo, os operários da indústria têxtil sempre tiveram uma
extraordinária facilidade para aprender a cantar "A internacional").
Numa dessas greves, a de 1918, trezentos operários de Santo Aleixo,
armados de revólveres e pistolas, marcharam sobre Magé para tomar a
fábrica local. Mas já a encontraram fechada e vazia. No frigir dos ovos,
muitos sindicalistas foram presos e não se disparou um tiro, mas as
conseqüências poderiam ter sido graves. Nada disso, nem por sombra,
jamais aconteceu em Pau Grande. Havia greves uma vez ou outra na América
Fabril, mas eram brandas e rápidas. Os ingleses incutiram nos
pau-grandenses a idéia de que, de alguma forma, eles eram superiores a
seus vizinhos - donde todo mundo ali, brancos, negros e mestiços,
sentia-se com um pé, mesmo descalço, na aristocracia.
E isto se refletia tanto nas relações profissionais quanto nas pessoais.
Os pau-grandenses funcionavam como uma família, sentimento que era
cimentado pelos muitos casamentos entre primos e entre pessoas de raças
diferentes. E, a exemplo da maioria das pequenas cidades da época,
roubos, assaltos ou qualquer forma de violência eram coisas de que eles
só sabiam pelos jornais. Uma vez por ano alguém dava por falta de uma
galinha. Não fosse pelos pernilongos, ninguém se preocuparia em fechar
portas ou janelas nas noites de Pau Grande.
O que, convenientemente, facilitava o controle dos chefes da fábrica.
Através dos guardas que faziam a ronda da cidade, os capatazes sabiam o
que se passava dentro de cada casa. O grau de fiscalização era tal que
permitia ao gerente inglês imiscuir-se na intimidade profunda das
famílias e até ministrar-lhes noções básicas de higiene.
Mães eram chamadas para ouvir em português com sotaque de Oxford:
"Ter de limpar bunda de criança! Criança não andar com bunda suja por
aí!"
Se um casal discutisse e fosse dormir emburrado, marido e mulher eram
convocados pelo gerente à reconciliação na manhã seguinte. Se um
operário espancasse a mulher ou maltratasse o filho, levava uma
repreensão trovejante. Na reincidência, a sentença mais amena era a
suspensão -
mas os ingleses chegavam ao castigo físico, como a palmatória. Isso não
revoltava ninguém e havia até os que achavam bem feito quando alguém
apanhava. A idéia de ver um homem adulto e barbado estendendo a mão para
receber bolos por mau comportamento lembra as velhas escolas inglesas -
mas assim era Pau Grande.
Ou a América Fabril. O gerente era, para todos os efeitos, o prefeito, o
delegado e o juiz. Se preciso fosse, o carrasco.
Mané Caieira soube evoluir e impor-se na região. Desde cedo foi um dos
poucos de Pau Grande a ter automóvel, aparelho de rádio e todos os
confortos. Mas seus irmãos, entre os quais Amaro, com todo o impulso que
receberam, continuaram sertanejos marcando passo. Contentaram-se em
reproduzir em Pau Grande o mesmo estilo de vida que levavam nas Alagoas.
Talvez porque o cenário fosse parecido: em Quebrangulo, o horizonte era
a serra da Barriga; em Pau Grande, a serra dos Órgãos. As malas e os
sacos de aniagem que abriram ao chegar podiam conter somente as
alpercatas de couro e uma ou duas camisas de riscado. Mas eles traziam
também os invencíveis costumes do sertão: as superstições, os desafios
de viola, as redes de dormir, o sexo sempre em riste, a naturalidade com
que se produziam filhos fora do casamento - e, pendentes dos mesmos
alpendres, as garrafas com cachimbo, uma gororoba caseira que servia
para tudo.
O cachimbo era uma mistura de cachaça com mel de abelhas e canela em
pau, posta para curtir numa garrafa envolta em cortiça e pendurada numa
viga do teto. O pai se certificava antes se a cachaça era da boa. O
cachimbo não era usado para fins recreativos ou embriagantes - pelo
menos, não de propósito -, mas medicinais. As mulheres o tomavam durante
a gravidez. Depois do parto, continuavam tomando-o enquanto durasse o
resguardo. Adultos e crianças o tomavam como purgante, xarope,
fortificante e para combater gripes, lombrigas, coqueluche, asma e dor
de dentes. Aos bebés, era dado até como tranqüilizante: uma ou duas
colheres antes de dormir, para não terem sonhos agitados. Graciliano
Ramos admite em Infância ter sido embriagado muitas vezes dessa forma.
Nas Alagoas, Amaro e seus irmãos tinham sido criados a cachimbo. Em Pau
Grande, os filhos de Amaro, inclusive Garrincha, seriam criados do mesmo
jeito.
Amaro era baixo, forte, com pele de casca de árvore, nariz amassado e
cabelos grossos e ondulados. Falava errado como o camponês rústico que
era: "muié", "mais mio". Cortava as unhas e os calos com canivete, o
mesmo que usava para picar o fumo de corda - o qual enrolava num
cigarro de palha e acendia com um isqueiro Vospic. Era um homem alegre,
exuberante e, ao pé da letra, fogueteiro. Seu aniversário era em 13 de
junho, dia de santo António, pretexto que usava para passar o mês
inteiro soltando foguetes. Ele mesmo os fabricava. Armava a bateria de
rojões, acendia-os e corria, afugentando os moleques aos gritos de "Sai
da frente que lá vai fogo!". É espantoso que nunca tenha se acidentado.
Era também violeiro e repentista. Sua instrução mínima não lhe permitia
enfrentar à altura os bambas do género em Pau Grande, como Barbosa
"Ferro" (o apelido vinha das quantidades assombrosas de cachaça que
bebia) e António Pinheiro, mas Amaro não fazia feio com seus versinhos.
E sabia apreciar a superioridade dos outros: ria tanto dos repentes que
eles tinham acabado de inventar que, quando era a sua vez, não conseguia
cantar - na verdade, chegava a urinar-se através da rede. Outra de suas
habilidades era como matador de cabritos: a pedidos da vizinhança,
abatia vinte ou trinta a cada fim de semana, com uma paulada definitiva
na testa de cada bicho. Como pagamento ficava com o bucho, as tripas, o
fígado, o sangue e a cabeça do animal, com os quais preparava ciclópicas
buchadas para ele e seus amigos. O abate de um cabrito exigia quase um
ritual, e Amaro o executava entre gargalhadas e largas talagadas, como
numa cerimónia pagã.
Apesar das aparências, era um homem religioso. Seu santo era são Jorge,
talvez pelo amor comum aos cavalos. E não se limitava a acompanhar as
procissões - ajudava a carregar andores e beijava o anel de frei
Accurcio quando o encontrava. Mas, quando arreava e montava seu baio
Campeão (em homenagem ao alazão de Gene Autry, famoso caubói de
faroestes dos anos 40), Amaro não saía à cata de dragões. Seu alvo era
bem diferente: as mulheres da região.
Solteiras ou casadas, todas eram suas comadres. Ou porque Amaro as
chamava assim, por força de expressão, ou porque elas lhe tinham dado o
filho para batizar - filho que, em muitos casos, podia ser dele mesmo.
Calcula-se em Pau Grande e adjacências que Amaro teria sido autor de
pelo menos 25 filhos, sem contar os nove de seu casamento. O que
significa que Garrincha teria no mínimo trinta irmãos, em vez dos oito
oficiais.
A performance de Amaro com as comadres devia ser firme e rápida. Saía a
cavalo, de lenço no pescoço e punhal no cinto, como pedia o garbo, e
seguia em câmara lenta pela roça. Parava à porta de um casal seu
conhecido e batia palmas. Se fosse recebido pela dona da casa, sua
pergunta era se o compadre estava. Em estando, ele lhes dava as
boas-tardes e seguia em frente, sem desmontar. Mas, na ausência do
marido, aceitava o convite para um cafezinho e - nove vezes em dez,
segundo a lenda - fazia a sua própria felicidade e, talvez, a da
comadre, tudo em poucos minutos. Não era preciso tirar a roupa: para a
mulher, bastava levantar o vestido; para ele, desabotoar a braguilha. E
a cama era um luxo - podia ser em pé mesmo, contra o fogão de lenha, ou
no chão de tijolos da cozinha.
Quando os amigos lhe perguntavam se não tinha vergonha de comer as
próprias comadres, Amaro tinha uma resposta que o absolvia:
"Comadre só é comadre da cintura pra cima."
Muitos maridos sabiam ou desconfiavam das trampolinagens de Amaro com
suas mulheres. E, com sua notoriedade como garanhão em roçado alheio,
era de se esperar que vivesse na mira para ser justiçado pelos homens
que fazia de cornos. Mas, na primeira metade deste século, não se
registrou um único crime passional na área de Pau Grande. E, no caso de
Amaro, nunca houve um marido que passasse recibo. Mesmo porque, além de
irmão do influente Mané Caieira, Amaro tornara-se, em fins da década de
30, um dos guardas da América Fabril. E, pelos estatutos locais, o
guarda era uma espécie de feitor, com poderes quase militares.
De quepe e farda amarela, Amaro andava pela cidade, principalmente à
noitinha, velando pela tranqüilidade e pelos bons costumes da população.
Isso incluía apartar discussões nos lares e nos bares - e repreender os
casaizinhos afoitos que namoravam nos fundos do Sport Club Pau Grande.
Não havia hipocrisia nesse comportamento. Amaro era moralista e, se um
de seus filhos fosse longe demais com uma menor, ele o obrigaria a
casar. Já, segundo seu ponto de vista, os adultos sabiam o que faziam e
ninguém podia recriminar ninguém. Além disso, Amaro não usava sua
posição para conquistar os favores das comadres. À sua maneira
primitiva, era até galante: em voz baixa e discreta, elogiava-lhes os
cabelos, a cinturinha e a bunda, de preferência se esta fosse redonda e
fornida. Fazia isso de tal maneira que, se fosse repelido pela mulher,
dava a entender que tinha sido uma brincadeira. Se os maridos lhe tinham
medo por ele ser irmão de Mané Caieira (e, mais tarde, pai de
Garrincha), não era problema seu.
Apesar dessa involuntária impunidade que lhe permitiria escolher à
vontade, Amaro não era nada seletivo quando se tratava de mulher: "Se tá
respirando, tá bom". E talvez dispensasse até essa formalidade - porque,
em mais de um velório, foi ouvido perguntando, entre sério e brincalhão:
"A comadre já esfriou?"
Não fazia distinção de cor, aparência ou idade. Certa vez, ia de carroça
pela estrada de Cachoeira quando viu à beira do caminho uma senhora que
não conhecia, entradíssima em anos.
Ordenou ao carroceiro:
"Pára que eu vou descer."
O moleque, ignorante do seu apetite tão indiscriminado, ainda tentou
argumentar:
"Mas é uma velha, seu Amaro!"
Ele foi profundo:
"Velha também tem direito."
Caminhou até a mulher, conversaram menos de três minutos e se dirigiram
para o matinho nas proximidades. O moleque foi espiar escondido, mas não
teve tempo de ver muita coisa - porque, pouco depois, Amaro estava de
volta à carroça, abotoando as calças e se gabando:
"Eu não disse?"
Se alguém o chamasse de priápico, ele talvez puxasse a peixeira para
sangrar o cabra que o estava ofendendo. A palavra não constava dos seus
glossários. Mas, se lhe explicassem o que era, iria concordar e achar
graça - embora modestamente atribuísse parte de seus poderes românticos
a uma possante dieta matinal: mocotó, ovos de pata, água de cipó-cravo e
chá de catuaba, que o vulgo considera afrodisíacos. Resta saber até que
ponto a dita hiperatividade sexual de Amaro resistiu aos açudes de
cachaça que tomou.
Como todos os seus irmãos (menos Mané Caieira), Amaro era alcoólatra. O
consumo de cachimbo desde criança fizera crescer a sua tolerância ao
álcool e ele teve muitas ocasiões de demonstrar uma invejável
resistência - não importando quantas pingas tomasse. E era filosófico a
respeito: a cachaça servia para alegrar as pessoas, não para
degradá-las. Por isso não gostava dos bebuns que enchiam a cara em
botequins ou que caíam pelas ruas. Lugar de beber era em casa ou em casa
dos outros, ele dizia. Amaro seguia o próprio conselho à risca - só que
o dia todo.
Misturava cachaça com groselha e, amarrada a uma corda, punha-a para
refrescar no rio ou na cisterna. Sob qualquer pretexto, recolhia a corda
e se servia. Ou a tomava pura, em grandes quantidades, mesmo sem
pretexto. Era raro vê-lo embriagado, exceto nos rega- bofes das buchadas
ou durante os desafios com os cantadores - mas, naquelas horas de
saudável esbórnia, tudo era permitido. E, até nas manhãs seguintes às
noites bravas, nunca foi ouvido queixando-se de ressaca.
Quando Garrincha nasceu, em 1933, Amaro tinha 36 anos e estava em seu
apogeu sexual e alcoólico. Pode ter continuado assim por vários anos.
Mas os hectolitros que bebeu, diariamente, pela vida toda, cobraram-lhe
a conta quando ele menos esperava. Há relatos de Amaro, ao aproximar-se
dos cinqüenta anos, em fins da década de 40, sendo trazido da rua
carregado. Ou, depois de despido para dormir, saindo nu pela casa, sem
saber direito o que fazia. É quase certo que estivesse impotente antes
dos
sessenta. Do antigo e formidável Amaro, cujo folclore sexual divertia e
espantava Pau Grande, só restava agora um homem que murchava a olhos
vistos.
Aos poucos, Amaro foi saindo de cena. Mas, à sua sombra, já vingava
alguém que o suplantaria em todas aquelas capacidades - e cuja estrela
continha um brilho próprio e insuspeitado.

Capítulo 2

1933-1952

INFÂNCIA EM XANGRI-LÁ

Quando o menino Manuel nasceu, sua parteira, dona Leonor, foi a primeira
a ver que ele tinha as pernas tortas. A perna esquerda era arqueada para
fora e a direita para dentro, paralelas, como se uma rajada de vento de
desenho animado as tivesse vergado para o mesmo lado. Manuel não herdara
essas pernas de Amaro, mas da mãe, Maria Carolina, embora as dela não
fossem tão tortas quanto as dele. Se, em criança, lhe tivessem posto um
aparelho de correção ortopédica, em pouco tempo as pernas de Manuel
estariam alinhadas. Mas quem iria pensar nisso na rua do Chiqueiro, em
Pau Grande, no ano de 1933?
O registro de nascimento de Manuel foi feito com atraso e errado. Amaro
levou quase a primeira semana de novembro para ir ao cartório de Raiz da
Serra e atrapalhou-se com a data do nascimento. Disse 18 de outubro
quando deveria ter dito 28, que foi o dia em que Manuel nasceu: 28 de
outubro de 1933. O escrivão, coronel Cornélio, sempre oito ou nove canas
acima da humanidade, também não era muito minucioso quanto a nomes.
Quando perguntou como o menino se chamava e Amaro disse Manuel, lavrou
simplesmente Manuel.
Não era um procedimento incomum nos cartórios brasileiros. E nem queria
dizer que o menino não tivesse sobrenome. Ficava entendido que, sendo
filho de Amaro Francisco dos Santos e Maria Carolina dos Santos, Manuel
se chamava Manuel dos Santos. Ninguém era obrigado a saber que o
Francisco fazia parte do nome da família. Muitos anos depois, quando
Manuel já era Garrincha e trabalhava na fábrica, o chefe de sua seção,
seu Boboco, acrescentou-lhe o Francisco numa ficha, para evitar
confusões com os outros manuéis dos santos da América Fabril. Mas, em
todos os documentos oficiais que tiraria no futuro, Garrincha seria
apenas Manuel dos Santos.
Era o quinto filho de Amaro, pelo menos com Maria Carolina. Depois dele,
com longos intervalos, viriam outros quatro: Josefa, Antônia, Teresinha
e Jorge. Era natural que Amaro, para quem dois mais dois eram um enigma,
se atrapalhasse com as datas de nascimento dessa filharada. Quem não se
esquecia do aniversário de Manuel, por ser sua irmã mais velha e
madrinha de batismo, era Rosa. Quando Manuel aprendeu a falar, começou a
chamá-la de "Mó", embora Rosa tivesse apenas oito anos e dez meses a
mais que ele. Em compensação, todos os que não o chamavam de Manuel o
tratavam por "Camisinha" - por andar dia e noite com a mesma camisinha
de meia, babada pela chupeta pendurada por um barbante, as calças curtas
caindo e o umbigo de fora.
Amaro ainda não era empregado da América Fabril - só o seria por volta
de 1940. Logo, não estava sujeito ao olho do gerente no que se referia à
criação de seus filhos. Com isso, nos primeiros anos, o pequeno Manuel
cresceu em quase selvagem liberdade. Podia perambular horas pelas matas
sem que dessem por sua falta. Mas o outro nome para liberdade é
desleixo: raramente alguém lhe cortava as unhas, escovava-lhe os dentes
ou o esfregava atrás das orelhas. Ninguém o mandava assoar o nariz ou
pentear o cabelo. Seu cabelo era cortado em casa, de meses em meses,
donde os anéis pretos e grossos que lhe desciam pelo pescoço. Mas, mesmo
que deixado sozinho ao relento em noite de chuva, entregue a Tupã,
Manuel teria sobrevivido
Vivia descalço - suas solas dos pés, desde sempre, eram as de quem
andava no mato e nos calçamentos de pedra. Seu pai tinha um cavalo e
Manuel aprendeu a cavalgar em pêlo antes de ter idade para subir sem
ajuda no animal. E, longe das vistas de sua família, já se atirara ao
rio Inhomirim e saíra nadando, na companhia dos bagres e das piabas.
Quando Manuel era criança, os únicos índios em que podia espelhar-se
eram os das estampas do sabonete Eucalol. Mas não precisava espelhar-se
em estampas para ser um deles.
Todos os contemporâneos do pequeno Manuel se referem à sua meiguice. Era
um menino de uma intensa doçura, incapaz de uma resposta atravessada
para os mais velhos ou mesmo para os do seu tamanho. Falava pouco e
nunca em voz alta. Mas era também ingovernável. Quando ralhavam com ele
por roubar doces ou biscoitos na dispensa, sorria sem graça - e, na
primeira oportunidade, voltava a fazer o que lhe fora proibido. Apanhou
de vara de marmelo, mas talvez menos do que merecesse: era pequenininho,
menor do que deveria para sua idade, e inspirava pena e carinho.
Pequeno como uma garrincha. Quem primeiro notou a semelhança foi Rosa,
que passou a chamá-lo assim. Garrincha ou garricha é como no Nordeste
chamam a cambaxirra: um passarinho bobo, marrom, com o dorso listrado de
preto, comedor de minúsculos insetos e aranhas. Canta bonito, mas não se
adapta ao cativeiro. Pau Grande vivia cheio deles. O apelido pegou e,
aos quatro anos, Manuel já era Garrincha para seus pais, irmãos, amigos
e visitas.
Garrincha também não se adaptava ao cativeiro. Até os sete anos, sua
vida foi caçar passarinhos, tomar banho no rio e jogar pelada. Os
passarinhos ficariam poeticamente associados à sua futura imagem - mas,
no começo, a atitude de Garrincha para com eles podia ser tudo, menos
poética, benemérita ou contemplativa. Sua diversão era matá-los.
Em série, um atrás do outro, como se eles fossem patinhos no estande de
tiro de um mafuá. Não por maldade, mas pelo simples prazer de acertálos
com a atiradeira. A pedra saía a quatrocentos quilómetros por hora e a
força do impacto esmagava o corpo do passarinho e o fulminava no ato.
Garrincha matava de tudo: garrinchas (o fato de serem suas xarás não lhe
despertava nenhuma piedade), rolinhas, sanhaços, caga-sebos e até
valiosos gaturamos, juritis e trinca-ferros. Era também quase infalível
com uma pedra na mão, sem o bodoque. Sua mira era invejada pelos outros
meninos, não apenas quando o alvo era um ingênuo beija-flor, mas outros
pássaros mais desconfiados e ariscos. Chegou a voltar para casa com 48
passarinhos no embornal, todos mortos numa manhã.
Se, anos depois, haveria menos passarinhos em Pau Grande, boa parte
desse déficit cabe aos garotos da geração de Garrincha e ao próprio.
Para eles, nada que voava estava a salvo. O destino desses pássaros era,
depois de depenada reencarnar em forma de farofa, preparada pelas mães
dos meninos e a ser comida por eles como lanche entre as refeições.
Menos por Garrincha. Era o único a transgredir o velho mandamento do
matou, tem que comer. matava para comer, matava por matar. E nem a
farofa de passarinhos era um item favorito na sua cesta básica. Favorito
era o prato de que ele continuaria gostando até a idade adulta: arroz,
feijão e macarrão.
Matar por matar era divertido e, quando começasse a trabalhar na
fábrica, ele compraria a sua primeira espingardinha de chumbo, com a
qual ampliaria sua capacidade predatória. Mas, antes que muitas espécies
se extinguissem, Garrincha aprendeu com os maiores que, com os
passarinhos cantadores, o certo era capturá-los com a arapuca: canários,
celeiros, sabiás. Os contemporâneos contam que Garrincha imitava os
movimentos dos passarinhos, pulando agachado nos dois pés, pensando que
os atrairia com aquela mise-en-scène. Não podia funcionar, mas ele deve
ter achado outro jeito de atraí-los, porque era tão eficiente com a
arapuca quanto com a atiradeira. Antes dos dez anos, chegou a ter em
casa trinta gaiolas com os melhores passarinhos da região.
Não havia dinheiro para comprar as gaiolas de arame vendidas no
comércio. Eram os próprios meninos, inclusive Garrincha, que tinham de
fabricá-las, de madeira tosca ou com as flechas que caíam dos foguetes
estourados pelo povo de Pau Grande. Mas, depois de capturar e instalar
os passarinhos nas gaiolas, Garrincha desinteressava-se deles. Era Rosa
que tinha de limpar os forros e alimentar os bichos. Quando queria uns
trocados para comprar pirulitos ou mariolas, Garrincha saía vendendo os
passarinhos pela cidade.
Não eram apenas as aves da região que viviam em estado de sítio, mas a
fauna inteira. Enquanto os meninos ricos de Pau Grande eram obrigados a
usar sapatos, trazer um pente no bolso e contentar-se em capturar
tanajuras no verão, Garrincha e seus amigos tinham caça comparativamente
grossa à disposição o ano todo. Apanhavam coelhos, gambás, cotias e
preás, a laço ou a cacetadas. Há quem diga que Garrincha caçava até
cobras. E seu outro grande fascínio estava nas pescarias. Era um craque
com o anzol, expert em vários tipos de iscas. Mas também pescava usando
um cesto à guisa de jereré; ou então atraía com comida o peixe para fora
da toca e tentava espetá-lo pelas costas com um garfo. E não desprezava
um processo primitivo, muito popular entre os antigos indígenas: deixar
cair uma pedra grande sobre um peixe que passasse sobre outra pedra, à
flor da água. É verdade que, achatado pelo golpe, sobrava pouco do peixe
para a frigideira. Mas a graça - mais uma vez - estava em ser mais
esperto que o peixe, não no destino que se daria a ele.
E, como já estavam por ali, à beira do rio ou dos poços, havia os
mergulhos. Garrincha era bom nadador, corajoso para subir nas pedras
mais altas e atirar-se de lá de cima no poço Dove Doze. Mas, para ele, a
farra consistia em os meninos estarem todos nus, o que estimulava os
concursos para ver quem fazia xixi mais longe. Em poucos anos, esses
concursos ficariam menos inocentes. Um deles seria o de masturbação -
ganhava quem ejaculasse primeiro. Pode ter havido também uma ou outra
sessão de troca-troca - embora, diante de Garrincha, os outros garotos,
mesmo os mais velhos, certamente se vissem em desvantagem e desistissem.
Porque, segundo os relatos mais insuspeitos, antes dos dez anos
Garrincha já tinha um pênis de adulto, assustador para a sua idade.
O pequeno Garrincha não teve patinete, velocípede ou pistola d'água como
muitas crianças do seu tempo. Também nunca o obrigaram a usar roupinha
de marinheiro. Em compensação, teve todas as peladas com que sonhou e
mais algumas. Nos anos 40, em que o futebol era como uma segunda
natureza para toda a nação, o kit de sobrevivência de qualquer menino
brasileiro incluía uma bola. Mas só os meninos ricos tinham acesso às
maravilhosas bolas Superball, de couro marrom, número cinco, que eram
usadas nos jogos de verdade. Os outros precisavam improvisar. A primeira
bola que Garrincha chutou era de meia, feita com uma meia velha de seu
tio Mané Caieira, recheada com pano e papel de embrulho e costurada na
boca. Havia ainda as bolas de bexiga e Garrincha chegou a fabricar a
sua, soprando uma bexiga de cabrito e dando um nó na tripa. E também não
era de couro a primeira bola que ganhou.
Era uma bola vermelha, de borracha, que lhe foi dada por Rosa no seu
aniversário de sete anos e que custou cinco mil-réis no armarinho do
português António Barbeiro, em Pau Grande. A bola tinha uma biqueira,
que lhe doía a testa quando ele cabeceava. O ano era 1940. Mas não
precisava ser o dono da bola para garantir seu lugar nas peladas - já
era melhor que todos os moleques da rua. Ter uma bola significava apenas
que, agora, ele tinha o seu próprio brinquedo. Podia correr sozinho com
ela, driblar árvores e chutá-la contra os muros sem depender dos outros.
Depois de todos os riscos que correu no rio e no mato, com um saldo de
cabeça, tronco e membros sem um arranhão, o único acidente de sua
infância foi acontecer justamente no quintal de sua casa. E esta era a
casa para a qual tinham se mudado, na rua dos Caçadores, quando Amaro se
tornara guarda da fábrica. Ao voltar para almoçar depois de uma pelada,
Garrincha foi mordido por Leão, um dos cachorros de seu pai. Ninguém
sabia o que dera em Leão. Até então não passava de um vira-lata
especializado em dormir e coçar-se. Mas, naquele dia, ele se atirou ao
menino e quase lhe abocanhou o pescoço. Enquanto tentavam tirá-lo de
cima de Garrincha, o animal conseguiu acertar-lhe umas dentadas no
braço. Amaro não conversou: pegou sua garrucha na gaveta, carregou-a e
fuzilou Leão. No mesmo dia, a conselho de seu Walter, farmacêutico,
Amaro trouxe Garrincha ao Rio para ser examinado e tomar uma injeção
anti-rábica. Seu Walter recomendou também que cortassem a cabeça do
cachorro para exame. Rosa veio junto no trem, trazendo a cabeça de Leão
embrulhada num exemplar de A Noite. No posto médico da rua das Marrecas,
constatou-se que nem Garrincha nem o cachorro tinham nada, mas seguro
morreu de velho.
Aquilo serviu de alerta. Amaro e Maria Carolina deram-se conta de que
tinham um filho vivendo em estado quase selvagem. Seus outros irmãos não
eram ou não tinham sido assim. A partir dali, começaram a tentar
civilizá-lo. Foi quando calçaram Garrincha com o seu primeiro par de
sapatos, para fazer a primeira comunhão - e que ele descalçou assim que
terminou a cerimónia. Foi também quando o mandaram para a escola, no
começo do ano letivo de 1941. Bem, ninguém pode acusar Amaro de não ter
tentado.
Era a Escola Santana, da própria fábrica, e as professoras de Garrincha
no primeiro ano foram dona Olindina e dona Maria das Dores. Eram duas
santas: tinham por dogma aprovar a classe inteira. Por mais que
Garrincha matasse aula para caçar, pescar ou jogar pelada, elas o
passaram para o segundo ano. Neste, em 1942, a coisa foi diferente. A
nova professora era dona Santinha, em cujos rigores várias turmas de
meninos pau-grandenses já tinham esbarrado e outras iriam continuar
esbarrando. Com ela, só era aprovado quem respondesse à chamada e
estudasse. Garrincha sofreu os rigores de dona Santinha, mas ficou lhe
devendo o pouco que aprendeu a ler - o suficiente para ler gibis ou os
letreiros dos filmes, se não passassem muito depressa. O mesmo quanto
aos garranchos com que, pelo resto da vida, iria assinar seu nome.
Mas seu domínio do bê-á-bá não foi suficiente para promovê-lo ao
terceiro ano primário. Levou bomba e decidiu parar por ali - para
desgosto de Amaro que, entre muxoxos, tinha uma frase para definir o
futuro de seu filho:
"Tabacudo não vai pra frente."
Outras tentativas de incutir-lhe um mínimo senso de responsabilidade
também fracassaram. Seu pai encarregou-o de ir ao pasto cortar e trazer
capim para seu cavalo nos fins de tarde. Garrincha saía a tempo, mas, na
ida ou na volta, cruzava com uma pelada. Juntava-se a ela, a noite caía
e o cavalo de Amaro continuava em jejum. A punição eram sovas de cinto
ou de vara, todas sem efeito. O próprio Garrincha, inconscientemente,
tentou disciplinar-se - também sem sucesso. Ofereceu-se à doceira local,
dona Glorinha, para vender suas cocadas na porta da fábrica. Ao fim do
expediente, o número de cocadas ausentes não batia com o dinheiro em
caixa - Garrincha as comia por conta de sua participação nas vendas e
ficava sempre devendo. Dona Glorinha achava que ele não levava jeito
para negócios.
Mas levava jeito para outras coisas. Por passar a vida assistindo à
ciranda de galos, bodes e cavalos copulando sem a menor cerimónia, os
meninos da roça desprezam em tenra idade o mito da cegonha. Em lugar
deste, são acometidos de um cio digno dos coelhos. E Garrincha não foi
exceção. Aos dez ou onze anos, com a puberdade porejando por cada
centímetro de seu corpo, seu sexo fazia-lhe apelos de cortar o coração.
Para piorar, por mais que esses apelos chegassem ao ponto de quase
romper-lhe as calças, Garrincha era romântico e acalentava idéias de
namoro. Mas nenhuma das meninas da vizinhança parecia enxergá-lo.
Por isso, quando Garrincha, aos doze anos, em 1945, teve a primeira
experiência sexual de sua vida, não foi exatamente como ele sonhava.
Porque foi com uma cabra.
Não fique chocado. Esta é a história da vida de 99% dos meninos da roça
nos anos 40 e 50 - e deve ser até hoje, se tiver sobrado algum por lá.
Garrincha fez apenas o que tinha visto os mais velhos fazendo. Além
disso, não havia zona de prostituição em Pau Grande. Havia em
Petrópolis, mas Garrincha não tinha idade, dinheiro ou expediente para
ir até lá sozinho. Seu amigo Arlindo poderia ir com ele, mas também não
tinha um tostão no bolso das calças curtas.
Se pudesse escolher, a estréia sexual de Garrincha teria sido com Maria
Montez, a morena dos filmes corn Sabu que ele via no cinema. Ou com a
artista de nome enrolado - Maureen CXSullivan - que fazia a Jane de
Tarzan. Mas, naquele desespero, a saída era a cabra. Ou as cabras.
Dinheiro, pelo menos para eventualidades como sexo e mariolas, deixou de
ser problema para Garrincha a partir de 1947 quando ele começou a
trabalhar na fábrica. Conforme estava escrito nas estrelas (e nos
fichários da América Fabril), foi admitido um rnês e um dia depois de
completar quatorze anos (pela data da certidão): 19 de novembro de 1947.
Seu turno de trabalho ia de sete da manhã às 16h40 da tarde nos dias de
semana, com uma hora para o almoço, e de sete às onze nos sábados. Um
total de 48 horas por semana, a 61 centavos por hora.
Seu pai convenceu-o a voltar a estudar e, durante alguns meses de 1948,
Garrincha freqüentou a escola, agora no turno da noite. Iria tentar de
novo o segundo ano, desta vez com dona Pergentina como professora. Mas
dona Pergentina era ainda mais braba que dona Santinha. Garrincha nem
chegou a ser reprovado nos exames - apenas não foi fazê-los. Desistiu de
vez de estudar, no que seguiu o padrão de quase todos os operários da
América Fabril: apesar das facilidades, poucos completavam o curso
primário.
Para Garrincha, a melhor coisa da escola eram as colegas que, de
repente, pareciam descobri-lo.
Na fábrica, começou pela seção de algodão. Dito assim, parece uma coisa
delicada, algo como trabalhar na refinaria do fubá Mimoso. Mas as
condições de trabalho nas fábricas inglesas em boa parte deste século
não eram muito diferentes daquelas dos primórdios da Revolução
Industrial no século xvii. A seção de algodão da América Fabril era
exclusiva dos meninos - talvez porque só eles se sujeitassem a trabalhar
num anexo do inferno.
Era um porão onde ficavam as cortadoras - as máquinas que recebiam e
descaroçavam o algodão. Não se sabia o que era mais enlouquecedor: se o
barulho de ensurdecer, o calor de quarenta graus ou o índice
inconcebível de resíduo de algodão produzido pelas máquinas. Um canário
não sobreviveria cinco minutos ali. Esse resíduo, chamado pelos
operários de piolho, tinha de ser varrido e peneirado para ser
reaproveitado como estopa. Garrincha era varredor.
As máquinas eram perigosas e, às vezes, havia acidentes em que operários
perdiam dedos ou mãos. Mas não com Garrincha. Na verdade, tinha poucas
chances de acidentar-se. Vivia faltando ao trabalho e, quando
comparecia, seu lugar preferido no porão eram as enormes caixas de
algodão onde se escondia para tirar sonecas.
No começo era dado como faltoso, quando estava apenas dormindo - o chefe
não concebia que alguém conseguisse dormir ali, num lugar tão
irrespirável, com todas aquelas caranguejolas rangendo, batendo pinos e
se chocando. Mas, como ninguém ficava muito tempo numa seção (muito
menos aquela), Garrincha acabou sendo promovido, no ano seguinte, à
seção de fiação. Era onde se transformava o algodão em fio e, em
comparação, suas máquinas soavam como um naipe de flautas. Mas a função
de Garrincha continuava braçal: carregador de equipamento.
E que se desse por feliz porque, fosse qualquer outro, já teria sido
demitido da América Fabril assim que entrara e recomendado a ir plantar
batatas. Ou a fazer qualquer coisa, menos ser operário. Em suas
primeiríssimas semanas de trabalho, quando deveria mostrar um mínimo de
aplicação, Garrincha foi apanhado dormindo nas caixas de algodão, chegou
atrasado e faltou ao serviço, quase em dias seguidos. Nenhuma das três
infrações era muito grave, mas, em seqüência, eram caso para bilhete
azul e sem discussão. Garrincha levou apenas advertências. Como
continuasse a repetir as infrações - faltava em média uma vez por semana
-, começou a colecionar suspensões, que significavam descontos no seu
salário. Mas não a demissão pura e simples. Por quê?
Porque um dos chefes de seção, seu Boboco, também conhecido como seu
Franquelino - na verdade, Franklyn Leocornyl -, era o presidente do S.
C. Pau Grande, de cujo time juvenil Garrincha, em 1947, já era uma
promessa. Ele o protegia com sublime descaro. Seu Boboco fora um grande
jogador do Pau Grande e, como torcedor, estava habituado a ir ao Rio
assistir aos cobras: Zizinho, do Flamengo, Heleno, do Botafogo, Ademir,
então do Fluminense. Mas Garrincha era outra coisa. Como chefe na
fábrica, seu Boboco faria vista grossa a qualquer deslize do garoto,
desde que este jogasse no seu time.
Mas os chefes de seu Boboco precisavam exercer a sua autoridade e, em
1948, quando trabalhava na fiação, Garrincha foi demitido. A fábrica não
podia comportar um empregado que desse tão péssimo exemplo - e Garrincha
era candidato ao título de pior operário que já passara pela América
Fabril. Amaro quase morreu de vergonha e, como se lavasse as mãos quanto
ao futuro de seu filho, mandou-o arrumar a trouxa e botou-o também para
fora de casa.
Duplamente no olho da rua, tocado do emprego e do seu próprio lar,
Garrincha olhou em torno e não viu para onde ir. Seus limites não iam
além de Pau Grande e distritos próximos. Mas anos de vida ao ar livre o
tinham ensinado a não precisar de um teto. O coreto da igreja tinha
teto, mas era aberto pelos quatro lados e o vento da praça Montese
uivava ao passar por ele. Resolveu dormir ali mesmo, fazendo a trouxa de
travesseiro e esperando que, no dia seguinte, seu pai o recebesse de
volta. Mas Amaro enxotou-o na sua primeira e única tentativa de pedir
perdão. Então Garrincha assumiu o coreto como o seu novo lar e dormiu
nele pelo que seriam as duas semanas de seu exílio.
E nem ali soube o que era a fome. Era visitado à noite por uma menina
que o conhecera na escola e que, como muitas outras, gostara dele: Nair.
Clandestinamente, ela lhe levava um sanduíche de carne assada ou uma
coxa de galinha que fizera sobrar do jantar. De sobremesa, um pedaço de
goiabada. Esperava-o comer e voltava correndo para casa quando Garrincha
tentava retribuir seu carinho com beijos. Durante o dia, ele não se
apertava: jogava pelada e comia na casa de algum amigo.
Em quinze dias, seu Boboco convenceu a fábrica a aceitar Garrincha de
volta. Sem ser empregado, ele não poderia ser jogador do Pau Grande. Os
dirigentes, tão torcedores quanto seu Boboco, concordaram, mas impuseram
condições: ele voltaria para a pavorosa seção de algodão e tentaria não
faltar ou se atrasar todos os dias. Rebaixando-o, a fábrica dava-se por
satisfeita e o Pau Grande voltava a jogar completo.
Amaro também deu-se por satisfeito e readmitiu Garrincha em casa. Tinha
um filho tinhoso, mas achou que, com o susto, ele tomaria jeito. Mas
isso era difícil. A fábrica autorizara seu Boboco a abonar-lhe as faltas
e, em pouco tempo, Garrincha só estaria indo à fábrica para dormir
dentro das caixas de algodão.
Entre os novos colegas de Garrincha na seção estavam os irmãos Pincel e
Swing. O mais velho, Pincel, chamava-se Jorge Pedro; Swing, Sebastião;
mas ninguém os conhecia por seus nomes. Pode ter sido Garrincha quem
lhes deu esses apelidos. Os dois eram negros, moravam em Raiz da Serra,
tinham mais ou menos a sua idade e, diante de Garrincha, operário como
eles, podiam ser considerados pobres. Ou seja, não tinham um tio rico
como Mané Caieira. De resto, não havia muita diferença. Pincel era mais
moleque, Swing mais acabrunhado e Garrincha, um pouco das duas coisas.
Nenhum dos três gostava de estudar, trabalhar ou submeter-se a relógios,
de ponto ou de qualquer espécie. Pincel tinha jeito para futebol e era
lateral-esquerdo; Swing não dava no couro. Mas os três descobriram que
eram bons de copo.
O cenário da descoberta foi o bar de Heliodoro Bento, também perto da
antiga casa de Garrincha na rua do Chiqueiro, agora rua do Cruzeiro.
Heliodoro era o grande cozinheiro da cidade: os principais banquetes de
casamento em Pau Grande saíam de seu fogão. Seu filho Jorge Bento, mais
conhecido como Dódi, assumiria o bar poucos anos depois. Ali, Garrincha,
Pincel e Swing tomaram suas primeiras pingas e cervejas juntos.
Porque, separados, todos já tinham tomado seus primeiros e inocentes
porres. Nas buchadas promovidas por Amaro, ninguém proibia que Garrincha
e os outros meninos bebericassem à vontade - sem contar as muitas doses
de cachimbo que tomaram durante a chupeta.
Naquele ambiente rural, não havia nenhuma restrição a uma criança beber
e, muito menos, fumar. Considerava-se que fumar era tão natural quanto
respirar. E não somente os homens fumavam. As mulheres também pitavam
seus cigarros de palha e, às vezes, cachimbos, encostadas às soleiras
das portas. Garrincha já fumava antes de entrar para a fábrica. Na
verdade, começara antes mesmo dos dez anos e, naturalmente, cigarros de
palha. O salário permitiu-lhe começar a comprar cigarros comuns (um ou
dois de cada vez, não um maço completo) no botequim do Constâncio.
A fábrica fornecia um lanche para os meninos que não fossem almoçar em
casa. Consistia de um copo de leite e um pão sem manteiga. A mãe de
Garrincha às vezes enriquecia-lhe o farnel com um sanduíche de pão com
banana. Só que, em pouco tempo, Garrincha já não teria sua mãe para
produzir esses sanduíches - porque dona Maria Carolina morreria em junho
de 1949, aos 48 anos.
Quebrara o resguardo do parto de Jorge, seu filho temporão, ao ir tirar
os porcos da chuva poucos dias depois de dar à luz. Tivesse perguntado
ao médico local, dr. Pedro Siqueira, se não era perigoso fazer isso, ele
a teria proibido e lhe passado um pito. Mas a chuva caíra de repente e
os porcos não podiam esperar. Seria injusto, no entanto, responsabilizar
os porcos. Maria Carolina já tinha uma infecção puerperal. O esforço
físico provocoulhe uma queda de pressão e ela desmaiou. Levaram-na para
o hospital de Magé, onde a infecção foi constatada. Mas era tarde
demais. Maria Carolina agonizou durante dias no hospital e nem suas
próprias rezas conseguiram salvá-la. Garrincha tinha dezesseis anos
incompletos.
Como qualquer criança, ficou abalado pela perda da mãe. Mas o abalo foi
maior porque ela o protegia contra os maus fígados de seu pai. E esse
abalo tornou-se imenso quando, em menos de um mês - ainda com o fumo na
lapela e todos os filhos de luto -, o viúvo Amaro pôs outra mulher
dentro de casa.
Chamava-se Cecília e não era um caso antigo ou novo de Amaro. Aliás, ele
nem sequer a conhecia. Fora importada de Petrópolis, por indicação de um
amigo, quando Amaro se queixou de que estava sentindo falta de uma
mulher na cama para esquentá-lo. E que poderia ser útil para cuidar de
seus filhos menores - o recém-nascido fora entregue a outro casal para
que o criassem. O amigo sugeriu Cecília, também viúva e com filhos. Pois
assim se trouxe dona Cecília e ela foi incorporada à família, para
funções de cama
e mesa.
Era boa mulher, mas levou a sério demais a carta branca que Amaro lhe
dera para cuidar da casa: tentou aplicar uma disciplina a que nenhum dos
meninos estava acostumado, depois de anos sob a suave benevolência da
mãe. E, sem dúvida, dona Cecília não estava preparada para Garrincha.
Sua enérgica insistência em que ele não jogasse pelada de pijama ou que
guardasse as meias na gaveta certa - e só ela parecia saber qual era a
gaveta certa - começou a dar-lhe nos nervos. Garrincha saiu de casa, por
vontade própria e para sempre. Foi morar com Rosa, já casada e a quem
continuava chamando de "Vó", embora sua irmã tivesse apenas 24 anos.
Mas o sentimento de orfandade de Garrincha não durou muito. Seu Boboco
interferiu para que ele fosse transferido para a seção de pano, onde o
serviço era muito mais agradável: entregar os tecidos para a revisão.
Ali, sua alimentação voltou a melhorar, e em mais de um sentido. A seção
de pano era toda constituída por mulheres - dezenas delas, de todas os
formatos, pesos, cores, idades e origens (algumas eram até filhas de
imigrantes). Elas o adoravam e dividiam com ele suas merendas trazidas
de casa. Garrincha tinha então de dezesseis para dezessete anos e estava
com os ardores em brasa. Pelo visto, algumas delas também. Entre as
quais, Nair.
A expressão génio intuitivo não devia ser moeda corrente na serra dos
Órgãos nos anos 40. Mas era a única explicação para o futebol do jovem
Garrincha. De onde ele tirara aquele jeito de arrancar, driblar, chutar?
Não havia grandes antecedentes futebolísticos na família. Amaro, seu
pai, nunca fora do ramo. Seu tio Mané Caieira, muito menos. O único tio
que revelara intimidade com a bola tinha sido o mais novo, João,
conhecido em Pau Grande como "China" - e, para provar que ele era bom,
dizia-se com orgulho que chegara a treinar no Andaraí, um time pequeno e
já extinto do Rio. Dos irmãos de Garrincha, somente o mais velho dera no
couro e, mesmo assim, como goleiro: José, que todos chamavam de "Zé
Baleia" - nome que, com certeza, não lhe fazia justiça como atleta. Mas
Baleia nem precisaria ter sido um craque para que o futebol lhe fosse
grato: ele ensinou a Garrincha qual das pernas era a direita e qual era
a esquerda.
Aos doze anos, em 1945, Garrincha já jogara mais peladas do que fizera
qualquer outra coisa na vida. Eram no mínimo duas ou três por dia - no
futuro, ele manteria essa regularidade, só que em outro esporte. O
campinho onde jogava era a barreira perto da rua do Chiqueiro: um
descampado de 50m x 30m, forrado de barro seco, cheio de buracos, com um
ou outro solitário tufo de grama, à beira de uma ribanceira. O campinho
era chamado de Bariri, numa referência ao humilde estádio do Olaria, no
Rio. Conduzir a bola descalço, sem torcer o pé num daqueles buracos, já
seria uma façanha. Driblar perto da ribanceira sem deixar a bola
escorrer por ela, façanha maior ainda. Garrincha praticava as duas
proezas com a maior facilidade. No primeiro caso porque, de tanto topar
com os buracos, aprendera a driblá-los junto com o adversário; no
segundo, porque detestava ter de descer a pirambeira para buscar a bola
- donde tentava não perdê-la. O normal era que jogassem Garrincha e mais
dois contra sete ou oito, para a partida ficar equilibrada.
Não era o único craque da turma. Era só o melhor, embora fosse também o
menor de todos. Outros que comiam a bola no campinho eram Diquinho,
França, Arlindo, Tovar. Seu irmão Baleia, vendo aquela constelação de
garotos promissores, teve a idéia de formar um time de infantis e
preparar os moleques para que, aos poucos, eles fossem aproveitados pelo
juvenil do S. C. Pau Grande. O timinho de Baleia chamou-se Palmeiras F.
C. e insistia em ser levado a sério: Unha jogo de camisas (comprado por
oitenta cruzeiros em dez prestações), dava treinos com hora marcada e,
pelos anos de 1945 e 1946, teve Garrincha como titular. Só que na
meia-esquerda. Naquele tempo, os times brasileiros ainda não usavam
camisas numeradas. Se usassem, a de Garrincha no time de Baleia seria a
dez.
Ninguém sabe por que ele escolhera aquela posição que costuma exigir um
mínimo de ambidestreza. Não chutava com o pé esquerdo, não sabia fazer
nada com a perna esquerda e, segundo seu primo Renato Peixoto dos
Santos, nem ao menos sabia qual era a perna esquerda. E, pensando bem,
para que precisaria saber, se só driblava e chutava com a direita?
Baleia ensinou-lhe o nome das pernas e parece tê-lo aprimorado em mais
uma coisa ou outra. A ele e aos outros garotos, porque, em 1947 e 1948,
quase todo o timinho do Palmeiras tornou-se o juvenil do S. C. Pau
Grande e, a partir de 1949, o seu time titular.
Os homens das outras cidades viviam de olho nos meninos de Pau Grande. O
time da fábrica não era filiado à Liga Mageense de Futebol, donde os
clubes de fora sentiam-se no direito de ir a Pau Grande e colher os
craques que quisessem, como quem escolhe laranjas na feira. Um desses
clubes era o Cruzeiro do Sul, de Petrópolis. Numa só peneirada, levou
Garrincha, Diquinho e França para o seu juvenil. Garrincha e seus amigos
atuaram dois anos pelo Cruzeiro, em 1949 e 1950, indo a Petrópolis
apenas aos domingos na hora da partida. Mas sem abandonar o Pau Grande.
Um motorista de táxi chamado Cabinho, fã de Garrincha, encarregava-se de
buscálos em Pau Grande, levá-los para jogar pelo Cruzeiro de manhã e
trazê-los de volta - para jogar pelo Pau Grande à tarde.
Como estivesse em idade de servir ao Exército, Garrincha apresentou-se
no Primeiro Batalhão de Caçadores, em Petrópolis, para alistar-se. De
calção, diante do sargento, nem precisou entrar na fila do médico. O
sargento achou-o franzino para a sua idade e considerou que ele era
portador de "defeito físico". Garrincha foi dispensado e recebeu o
certificado de reservista de terceira categoria, número 780838 da
Primeira Região Militar. No caso de o Brasil meter-se numa guerra, seria
um dos últimos a ser convocado.
Mas, se não servia para a pátria, servia muito bem para os clubes de
Petrópolis, que começaram a disputá-lo. A essa altura já passara para a
meiadireita, e foi como meia-direita que outro clube de Petrópolis, o
Serrano, o tirou do Cruzeiro em 1951. Mais expedito, o Serrano fez o que
o Cruzeiro não tinha pensado em fazer: contratou-o de papel passado,
registrou esse contrato na Liga Petropolitana de Futebol e deu-lhe até
um salário simbólico: trinta cruzeiros por jogo e mais o almoço. Com
esse dinheiro, em 1951, comprava-se um dólar no câmbio paralelo.
Até então, Garrincha nunca pensara no futebol em termos de dinheiro. Ou
em quaisquer termos. Não gostava de conversar sobre futebol, nunca viera
ao Rio para assistir a um jogo e nem mesmo ouvia partidas pelo rádio.
Torcia vagamente pelo Flamengo - mas apenas porque, quando tinha seis
anos, em 1939, o Flamengo fora campeão carioca com Domingos da Guia,
Leônidas e Zizinho, de quem todo mundo falava. Em 1950, o Brasil perdera
a Copa do Mundo para o Uruguai, em pleno Maracanã, e ele nem se lembrara
de ouvir o jogo pelo alto-falante armado na praça. Foi pescar e, na
volta, encontrou Pau Grande inteira chorando. Quando ficou sabendo por
quê, achou uma bobagem. O futebol só era bom para jogar.
Mas o Serrano estava lhe pagando para fazer isso e, quando seus tios
fizeram as contas, descobriram que aquele salário nada tinha de
simbólico. Por uma hora e meia em campo, representava 25 vezes os Cr$
1,20 que a fábrica agora lhe pagava por hora.
Era dinheiro, mas isso não parecia importar para Garrincha. Com três
meses como profissional, cansou-se de subir aos domingos para Petrópolis
e deixou o Serrano a ver navios. Esqueceu-se de que assinara um contrato
e nunca mais apareceu no clube. Seu time era o Pau Grande, onde jogava
de graça. E, se não fosse este - mas apenas porque viviam insistindo com
ele -, seria um do Rio.
Garrincha já havia tentado uma vez. Um ano antes, em 1950, às vésperas
de seus dezessete anos, um diretor da fábrica insistira em levá-lo ao
Vasco da Gama para treinar. Ou para tentar treinar. Os grandes clubes
reservavam um ou dois dias da semana para testar os garotos que
apareciam em busca de uma chance nos juvenis. O espetáculo podia ser
dramático: quase todos esses garotos eram pobres e o futebol era a
oportunidade de se tornarem alguém. Ou cómico: por mais mascarados que
fossem em seus subúrbios, ficavam humildes e assustados quando entravam
nas dependências do time grande, com suas chuteirinhas debaixo do braço.
O encarregado da triagem podia ser um ex-jogador recém-aposentado, ainda
vagando pelo clube como um morto-vivo. Ou um associado com um olho
esperto para os meninos mais jeitosos ou bem-dotados - não
necessariamente para o futebol. Os garotos ganhavam um sanduíche de
mortadela (e alguns precisavam dele porque, nitidamente, não comiam nada
desde a véspera) e eram postos para treinar uns contra os outros.
Cada qual encarava aquele teste como a sua grande chance. Um brilhareco
ali, aos olhos do treinador, poderia significar uma contratação, uma
vaga no time de cima e, no futuro, a convocação para a seleção
brasileira - aspiração máxima de todo jogador nos anos 50. Mas esse
sonho podia ser desfeito com um simples peteleco.
Eram multidões de garotos para treinar. Um a um, eram chamados a entrar
em campo, davam um toque na bola e eram substituídos antes de ouvir a
frase que liquidava suas esperanças: "Olha, não precisa voltar, viu?"
Ao escutar isso, o garoto contemplava a idéia de matar-se, e o próximo
na fila entrava todo frajola em seu lugar, rumo ao mesmo destino. Um
menino em cada cem era convidado a voltar no dia seguinte.
Garrincha nem chegou a ouvir a tal frase. O Vasco de 1950 era o
"Expresso da Vitória", campeão carioca invicto de 1945, 1947 e 1949 e
base da seleção brasileira. É verdade que essa seleção, com seis
vascaínos entre os titulares e mais o treinador Flávio Costa, perdera a
Copa poucos meses antes para o Uruguai, em 16 de julho. Mas esse
desastre não diminuíra o prestígio do Vasco, que voltaria a ser campeão
carioca aquele ano. O sonho de todos os garotos bons de bola do Brasil
ainda era jogar no time de Ademir, Ely, Danilo, Jorge, Ipojucan,
Barbosa, Augusto. E, na manhã em que Garrincha apareceu no estádio de
São Januário, era como se todos aqueles garotos estivessem lá.
No Vasco, o encarregado da triagem era o ex-jogador Volante, um
argentino. Ao ver Garrincha descalço e de meias entre a multidão de
moleques na pista, perguntou por que não estava de chuteira. Garrincha
respondeu timidamente que a deixara em casa - não disse a Volante, mas
tivera vergonha de aparecer no Vasco com a chuteira velha e rasgada que
usava em Petrópolis. Achava que em São Januário lhe emprestariam uma.
Volante dispensou-o ali mesmo:
"Sem chuteira não treina."
Garrincha diria depois que Volante ainda olhou para suas pernas tortas e
o chamou de "aleijado". Mas ninguém, além de Garrincha, ouviu-o dizer
isso - e os que conheceram Volante garantem que ele seria incapaz de tal
grosseria.
Poucos meses depois, em 1951, por insistência de Mané Caieira, Garrincha
tentou o São Cristóvão. Era o único time pequeno que, um dia, conseguira
ser campeão carioca. Isso acontecera em 1926, mas os torcedores que
conquistara com o título tinham se mantido leais a ele - entre os quais
Caieira. Dessa vez, Garrincha não foi sozinho. Diquinho e Arlindo foram
com ele, todos levando as chuteiras, rasgadas ou não, envoltas em papel
de embrulho. Tomaram o trem em Raiz da Serra e desembarcaram perto do
campinho da rua Figueira de Melo. Entraram nos últimos dez minutos do
treino e nenhum deles viu a cor da bola. Foram dispensados e nem o
sanduíche lhes serviram.
Mané Caieira não desanimou. Ainda em 1951, ordenou que Garrincha fosse
ao Fluminense numa segunda-feira e procurasse Gradim, treinador dos
juvenis. Gradim era seu amigo, devia-lhe favores e, ao ouvir o seu nome,
dar-lhe-ia uma atenção especial. Garrincha convidou Diquinho e Arlindo a
irem com ele, mas, desta vez, Diquinho não quis saber. Foram Garrincha e
Arlindo, com as chuteiras engraxadas - afinal, iam treinar no
Fluminense. Entraram nas suntuosas instalações das Laranjeiras e
Garrincha conseguiu identificar-se para Gradim como "sobrinho de Mané
Caieira". Mas o nome não deve ter repicado campainhas na memória do
treinador, porque as horas foram se passando e eles continuaram
encostados na cerca, assistindo ao entra-e-sai dos outros meninos.
Já eram seis e meia da tarde e estava escurecendo no Rio. Garrincha
teve medo de que perdessem o último trem para Raiz da Serra e chamou
 Arlindo para irem embora. Gradim pediu-lhes que voltassem outro dia,
quem sabe. Garrincha disse sim, senhor, mas não tinha nenhuma intenção
de voltar.
Cada tentativa de treinar num time do Rio custava-lhe um dia de trabalho
na fábrica, três horas de ida e volta no trem e incontáveis lotações
pelas complicadas ruas do Rio, porque ele sempre se perdia. E
custava-lhe sobretudo a humilhação de ver-se na cerca, aos dezoito anos,
misturado a um bando de meninos mais jovens que ele, à espera de uma
oportunidade que nunca surgia. Em Pau Grande, as coisas eram diferentes.
Arlindo "Fumaça" tinha uma bomba no pé que Garrincha só iria ver em
Quarentinha, seu futuro colega no Botafogo. Daí o apelido. O chute de
Arlindo era tão forte que iria fazer um mudo falar. Um time de fora
enfrentava o Pau Grande e trouxera um goleiro mudo. Num córner, este
soltou a bola e Arlindo, de dentro da pequena área, pegou de primeira e
carimbou-o à queima-roupa, nos peitos, com a maior violência. O goleiro
encaixou a bola e, com o impacto, emitiu algo parecido com "Hmmmfff!".
Atónitos, seus companheiros correram para abraçá-lo - não pela defesa,
mas por ter produzido um som.
Mas, na visão de Carlos Duarte Pinto, treinador do Pau Grande, o craque
de seu time não era Arlindo, nem mesmo Garrincha. E sim um jogador
chamado Vu.
Por causa de Vu, que era meia-direita, Duarte Pinto passou Garrincha
para a ponta. A idéia de ver Garrincha atirado quase que para a lateral
por causa de outro jogador pode hoje parecer cómica, mas Duarte Pinto
tinha suas razões: naquela posição, achava Vu melhor que Garrincha -
mais cerebral, digamos. Se era ou não melhor, será para sempre um
mistério, porque os enciclopedistas do futebol nunca viram Vu jogar.
Com Garrincha na ponta, as bombas de Arlindo e o cérebro de Vu, o Pau
Grande passou dois anos invicto, em 1951 e 1952, enfrentando as
potências da região e dos subúrbios cariocas. O próprio Pau Grande era
uma potência: Gido Cabuqueiro, João Birruga e Nono; Jorge, Zé Pires e
Sílvio; Garrincha - guarde esse nome -, Vu, Diquinho, Arlindo "Fumaça" e
Hélio.
Se a maioria desses jogadores não chegou a estrelar times de botão ou
álbuns de figurinhas, parte da culpa foi do próprio Pau Grande, que não
concordava em murar seu campo para que o clube disputasse campeonatos
oficiais. Donde seus adversários eram, entre outros, o Andorinhas
(estréia de Garrincha na ponta, em 1951), o Restauradores, o Primeiro de
Maio, o Manufatura e diversos times de bancários ou comerciários do Rio.
A fama de invencibilidade do Pau Grande já se espalhara de tal forma
pelos tambores da Baixada Fluminense que alguns desses times iam
enfrentá-lo enxertados de jogadores do Bonsucesso ou do Madureira. Mas
não adiantava. Todos voltavam derrotados - e alguns, maus perdedores,
punham a culpa da derrota na feijoada regada a Brahma que o Pau Grande
oferecia aos adversários antes do jogo.
Naquelas tardes de domingo no estádio do Pau Grande, Garrincha recebia a
bola na ponta direita e não tinha de dividi-la com ninguém. Sem olhar
para os lados, ia driblando quem encontrasse pela frente. Deixava dois
ou três adversários sentados e, com um drible de corpo, atirava mais um
para fora de campo. Penetrava sozinho na área e, de repente, como se via
frente a frente com o goleiro, só lhe restava igualmente driblá-lo e
entrar com bola e tudo.
Mal comparando, era também o que, agora, ele estava fazendo com as moças
de Pau Grande. Havia uma passagem estreita e escura, de um metro e meio
de largura e com uma aconchegante graminha, entre os fundos da sede do
S. C. Pau Grande e a igreja. À noite, ninguém andava por ali, exceto os
rapazes e moças dispostos a ir mais longe que nos bancos da praça. E "ir
mais longe", em começos dos anos 50, significava a moça fazer sexo oral
no rapaz e, quem sabe, permitir um discreto coito anal. O ato completo,
com penetração, perda da virgindade e risco de gravidez, era uma
temeridade que costumava ser punida com o pior dos castigos: o
casamento. Só os rapazes e moças mais irresponsáveis faziam tudo.
Por exemplo: Garrincha e Nair. Ou Garrincha e Iraci. Ou Garrincha e
grande elenco.

Capítulo 3

Aos 19 anos, o primeiro contrato

1952-1953


CURUPIRA NA CIDADE

Aos doze aninhos, em 1948, Nair conhecera Garrincha na escola noturna.
Depois levara-lhe comida nas noites em que ele dormira no coreto. E
passava o dia com ele na cabeça. Era uma escurinha comum, de comovente
simplicidade. Nem bonita nem feia, estatura mediana, mais para magra,
modestamente vestida e humilde dos laçarotes às chinelas. A exemplo de
Garrincha, mostrara uma precoce alergia aos estudos. Parara no terceiro
ano primário e pouco aprendera além de assinar seu nome: Nair Marques. A
rigor, tinha de assinar-se Noir - porque fora assim que o implacável
coronel Cornélio, do cartório de Raiz da Serra, a registrara por engano
em 1936. Havia muitos que, fiéis ao registro, a chamavam de Noir.
Nair era filha de seu Alexandre Marques e dona Geraldina, um casal
querido e respeitado na comunidade pau-grandense. Ele, por sinal, também
guarda da fábrica, como Amaro - mas, ao contrário deste, um homem de
quem não se podia dizer uma unha quanto à conduta. Seu Alexandre não se
entregava às libações, não vivia atrás das comadres e nem mesmo cantava
repentes ou exterminava cabritos. Quando repreendia namorados por se
excederem no cinema ou na graminha atrás do clube, eles o levavam a
sério e, ato contínuo, recolhiam as mãos ou os outros equipamentos.
Como todas as crianças de Pau Grande, Nair fora trabalhar na fábrica ao
completar quatorze anos, em 1950. Começara pela seção de pano e depois
passara para o balcão, fazendo as entregas dos embrulhos de tecidos para
o caixa. Seu salário era pouca coisa maior que o de Garrincha. Ela podia
ter olhos somente para ele - mas era apenas uma das muitas meninas na
mira de Garrincha durante o expediente.
O ambiente na fábrica gerava um clima de flerte permanente e múltiplo
porque, pelos rígidos cânones da indústria têxtil, era proibidíssimo
namorar em horário de serviço. Os guardas rondavam as salas, desfazendo
grupinhos ou conversas a dois e mandando circular. As máquinas tinham de
rodar dia e noite e não podiam ficar paradas, para não emperrar ou
quebrar. Não que fosse proibido a um rapaz dirigir-se a uma moça e
vice-versa, mas tinha de ser de passagem e para assuntos de trabalho.
Donde cada olhar, mesmo que durasse um segundo, era aproveitado para uma
piscadela ou para uma insinuação marota e muda. Era o que Garrincha
vivia fazendo com as colegas, embora esse comportamento não fosse
privilégio seu. Todos os jovens da América Fabril faziam igual. Mas
Garrincha era mais igual que os outros.
A fábrica não impedia que casais entrassem ou saíssem juntos, formassem
rodinhas no horário de almoço ou se encontrassem fora dali - só não
queria ver a eficiência comprometida. Tanto que estimulava o convívio
entre os operários, promovendo domingueiras na sede do S. C. Pau Grande
ou na Associação dos Empregados da América Fabril. Esses bailes eram
chamados de "cabeça de porco", sabia-se lá por quê, e eram animados por
pequenas orquestras ao vivo, que tocavam foxes, boleros e sambas. Para
trequentá-los e apresentar-se mais catita aos olhos de Garrincha, Nair
pedia uma saia ou um vestido emprestado à sua amiga Glorinha, filha de
costureira.
Os bailes do Pau Grande eram asfixiantemente familiares. As bebidas eram
refrescos caseiros de coco ou groselha preparados pelas senhoras dos
associados - nada de Coca-cola, Grapete ou Guaraná Caçula, nem mesmo
água mineral. Bebida alcoólica, nem pensar. Talvez por isso fosse muito
mais animado o que acontecia no lado de fora, na graminha atrás do clube
- uma zona que o guarda, ocupado com o comportamento dentro do salão,
nem sempre podia vasculhar com o rigor exigido. Enquanto a orquestra
tocava os grandes sucessos dançantes, como "Perfídia" ou "Siboney", um
casalzinho escapava - e, quando voltava, meia hora depois, nem todos se
tinham dado conta de sua ausência. Garrincha era um dos grandes usuários
daquela região.
Talvez não devesse ter acontecido, pelo menos daquele jeito. Mas
aconteceu. Num baile de sábado, Garrincha e Nair fugiram para os fundos
e consumaram o que ele vinha tentando desde as noites no coreto. Até
então, tecnicamente falando, tinha sido um romance platónico. Mas Nair
tinha agora dezesseis anos e ela própria era afogueada pelos calores e
desejos. Não se sabe quantas vezes e em que noites (se durante os bailes
ou se em fugas avulsas durante a semana) eles deram outras escapadas
para a graminha. Mas não foram nem uma, nem duas. E, numa dessas, como
era previsível, Nair foi premiada com uma gravidez.
Semanas depois, quando ela lhe contou que estava com enjoos e com
estranhas sensações nas intimidades, Garrincha ficou assustado. Já tinha
idade suficiente para saber o que aquilo significava. Só não tinha idade
para ser pai - pois se mal conseguia ser filho! Seu irmão Zé Baleia
estava morando em Petrópolis e Garrincha subiu a serra para contar-lhe e
pedir conselho. Baleia achou que só havia uma coisa a fazer: voltarem
para Pau Grande e Garrincha entregar-se a Amaro. Este daria um murro na
mesa, ficaria tiririca e o obrigaria a casar, mas era o único remédio. O
fato de Amaro ter semeado filhos por toda a zona rural não entrava na
discussão. A palavra aborto muito menos. Além disso, seu Alexandre, pai
de Nair, não merecia passar por aquele desgosto. E então voltaram para
Pau Grande e contaram para Amaro. Este deu um murro na mesa, ficou
tiririca e obrigou Garrincha a casar:
"Filho meu tem que ter responsabilidade. Fez besteira, paga." O
casamento foi no dia 20 de outubro de 1952. Garrincha completaria
dezenove anos dali a oito dias. O noivo vestia um terno marrom, mandado
fazer às pressas num alfaiate em Piabetá e pago por uma vaquinha entre
os jogadores e dirigentes do Pau Grande. No último instante faltou
dinheiro para pagar o terno, e o novo presidente do clube, Roberto Leite
Rodrigues, completou do próprio bolso. A noiva usava um vestido comum,
feito pela mãe de Glorinha, não um vestido de noiva. O casamento se deu
na subdelegada de Raiz da Serra e os nubentes não partiram em lua-de-mel
- o noivo apenas recolheu seus tarecos e, conforme a praxe, mudou-se
para a casa do sogro, na rua Centenário. Sete meses e duas semanas
depois, nasceu Terezinha.
Nair não era a única donzela que Garrincha vinha levando para os fundos
do clube e indo até o fim da linha. Havia também Iraci, uma mulata
bonita e vistosa que, como Nair, ele conhecera na escola e que voltara a
encontrar na fábrica. Iraci e Nair eram da mesma idade, tinham a mesma
paixão por Garrincha e por ele abririam mão de tudo, desde a merenda até
a virtude. Só que Iraci, mais atenta, não se deixara flagrar por uma
gravidez indesejada, e Nair sim. Quando Garrincha comunicou a Iraci que
ia ser obrigado a casar com a outra, ela chorou e perguntou como ficava
a sua situação.
Ele tentou consolá-la:
"Não se preocupe, amor. Você é muito nova. Quando crescer, vai ficar de
novo do jeito que você nasceu."
Iraci não era trouxa para acreditar nisso, mas sabia que não tinha
alternativa. Comparada com Nair, ela também era pobre. Seu pai não era
guarda da fábrica, nem tinha as boas relações de seu Alexandre. Se
Garrincha tivesse de casar com alguém, seria com Nair, que, além disso,
falara primeiro. Mas amava Garrincha e aquele casamento não a impediria
de continuar encontrando-se e fazendo amor com ele, nem que fosse às
escondidas. O que, afinal, aconteceu por todos os anos em que Garrincha
foi casado com Nair.
Num lugar pequeno como Pau Grande, era difícil fazer muita coisa às
escondidas - principalmente Garrincha, a estrela do time da fábrica.
Seria de se supor que, até mais que os outros, ele vivesse sob a
vigilância do gerente e fosse chamado para submeter-se aos bolos de
palmatória. Mas, depois da Segunda Guerra, a América Fabril já não era
tão inglesa. Alguns dos diretores eram agora americanos e havia até
brasileiros chegando a mais que contramestre. Nos anos 50, os americanos
também iriam embora e só ficariam os brasileiros. Era inevitável que o
controle relaxasse.
Nem o casamento nem o fato de Nair estar esperando um filho alteraram um
pingo da rotina de Garrincha. Ia à fábrica quando lhe convinha,
encantava a torcida aos domingos pelo Pau Grande e, nas horas vagas ou
não vagas, jogava suas peladas e embrenhava-se no mato para pescar e
caçar. Ou sentava-se no bar de Dódi com Pincel, Swing e agora Malvino, e
juntos abatiam engradados de cerveja do estoque. E - aí, sim, quase às
escondidas - abatia também algumas mulheres dos oficiais do Exército que
serviam num pequeno contingente perto de Pau Grande.
O contingente administrava uma fábrica de pólvora e era formado por
tenentes, capitães e majores que moravam na região com suas esposas. É
possível que alguns deles dessem mais atenção à munição do que a estas.
Garrincha caiu nas graças da primeira delas e, a partir daí, a fama do
seu poder de fogo espalhou-se como um rastilho. Para chegar a essas
mulheres, pedia emprestada a bicicleta de um irmão de Nair - "para dar
umas voltas" - e pedalava até lá em horas de almoço ou no fim da tarde.
O risco de ser apanhado era explosivo. Se aqueles maridos fardados
desconfiassem de que estavam cultivando galhadas sob os bibicos,
Garrincha teria sido primeiro fuzilado e, depois, preso. É um espanto
que nunca tenham ficado sabendo - porque, embora Garrincha não fizesse
farol de suas aventuras, muitos na cidade sabiam de suas incursões pela
intimidade das forças armadas. E, como agora estava usando dinamite para
pescar, a origem desta só podia ser o galpão dos militares. Mas nem
Nair, a quem não faltavam relatórios sobre as galinhagens do marido,
acreditava em tudo que ouvia.
Podia haver vida mais perfeita para Garrincha que em Pau Grande? Não
tinham luxos e o dinheiro era magro, mas suficiente - tanto ele como
Nair ganhavam seus salários na fábrica. Além disso, moravam com o sogro,
que praticamente sustentava a casa. Garrincha tinha conforto, mulheres e
crédito no botequim. Enfim, tudo de que precisava. Com aquela oferta de
lazer, prazer e liberdade, Pau Grande era o paraíso.
Daí que, antes mesmo de seu casamento, quando um homem chamado Araty
convidou-o a ir treinar no Botafogo, esse convite significou-lhe tão
pouco que Garrincha levaria mais de um ano para aceitá-lo.
Num domingo de março de 1952, o carioca Araty, lateral-direito do
Botafogo, foi convidado a ir a Pau Grande por seu compadre Paulo
Olegário, gerente do Banco Boavista em Bonsucesso. Iriam de trem até
Raiz da Serra, onde haveria um ônibus da América Fabril para apanhá-los
e levá-los até Pau Grande. As atrações seriam uma feijoada e, a seguir,
um amistoso entre o time da fábrica local e o União dos Bancários de
Cavalcante, considerado forte no futebol amador da Zona Norte do Rio.
Araty hesitou. Em seu apogeu, já fora convidado a programas mais
empolgantes. Mas o Botafogo, do qual era titular, não jogava aquele fim
de semana e ele não tinha nada melhor a fazer. Então foi a Pau Grande,
comeu a feijoada e, talvez para digeri-la, aceitou apitar a partida.
No time da casa havia um jogador fazendo misérias: o número sete,
Garrincha. Tinha as pernas tortas, mas, com trinta minutos de jogo, já
humilhara todos os bancários de Cavalcante com dribles impossíveis. Como
se não bastasse, fizera três gols e ainda iria fazer o quarto e o
quinto.
Araty não sabia se apitava o jogo ou se corria para perto da lateral do
campo e exclamava para quem estivesse na pista:
"Esse cara é cem vezes melhor do que todos os pontas que andam pelo
Botafogo!"
Ao fim do jogo, Araty cercou Garrincha na bandeirinha de escanteio:
"Olha. Seu lugar é no Rio e no Botafogo. Lá não tem ninguém melhor que
você."
Deu-lhe um cartão onde se lia: ARATY VIANNA - BOTAFOGO DE FUTEBOL E
REGATAS, e disse a Garrincha que o procurasse no estádio do Botafogo, na
rua General Severiano. Garrincha agradeceu. Prometeu que iria, guardou o
cartão e não foi. Nem nos dias seguintes nem nos meses seguintes.
Na verdade, só apareceria no Botafogo um ano e três meses depois.
Araty, aos trinta anos em 1952, era um jogador duro. Entre suas obras
completas, contam- se entradas arrasadoras contra o grande Jair Rosa
Pinto (e não da Rosa Pinto), quando ambos jogavam no Madureira nos anos
40. Reza o folclore que, num treino, o reserva Araty vinha entrando com
tal violência em Jair que este, temendo por suas canelas de cristal,
tomara a bola nas mãos e a entregara a ele: "Toma. É tua. Leva pra
casa". Anos depois, já pelo Botafogo, Araty firmou uma tal reputação de
violento que, quando um jogador saía de maca depois de cruzar suas
tíbias com as dele, o cronista Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto)
dizia que o infeliz fora vítima de um "araticídio".
Com toda essa folha corrida, o futebol deve a Araty a descoberta de
Garrincha - embora ele não tenha sido o único responsável pela sua ida
para o Botafogo. A partida em que Araty viu Garrincha jogar aconteceu em
meados de março de 1952. Uma semana depois, o próprio Araty foi
convocado pelo treinador Zezé Moreira para a seleção brasileira que
venceria o Campeonato Pan-americano, no Chile. O Pan foi disputado em
abril e Araty chegaria a jogar a primeira partida, contra o México. Na
segunda, contra o Peru, Djalma Santos entraria em seu lugar e Araty se
tornaria seu reserva. Ou seja, mesmo que Garrincha quisesse procurá-lo
em General Severiano naquelas semanas imediatas, Araty não estaria no
Rio.
Mas, antes e depois do Pan, Araty falara maravilhas de Garrincha com
tanta gente no Botafogo que alguém ali teria de prestar atenção. O
problema era que seus hinos a Garrincha pareciam fruto de um delírio
alucinatório: segundo ele, no interior do estado do Rio havia um
ponta-direita de pernas completamente tortas, que driblava como um
demônio e era imarcável. Quem podia acreditar nisso? Era como se
estivesse recomendando ao Botafogo o curupira ou o saci-pererê. E, se o
sujeito era tão bom, por que nunca tinham ouvido falar dele? E que
história era essa de pernas tortas? Os treinadores e dirigentes
desconfiavam dessas bizarrices. Apareciam, de vez em quando, certos
jogadores que eram mais fenômenos de circo que de futebol. Não eram para
ser levados a sério.
Mas uma pessoa acreditou em Araty e resolveu conferir. Esta pessoa era
um associado que freqüentava o Botafogo com amor e discrição: Eurico
Salgado, funcionário do Lloyd Brasileiro e muito mais fanático por
futebol do que pelos fascínios da navegação de cabotagem. Assim que
pôde, o que só aconteceu meses depois, Eurico Salgado foi anonimamente a
Pau Grande para ver Garrincha.
Em fins de 1952, o Pau Grande jogou dois amistosos seguidos em seu campo
contra o Ana Nery, tricampeão do Departamento Autónomo, uma espécie de
liga amadorista do futebol do Rio. O Pau Grande ganhou as duas partidas
por 5x0 e, em ambas, Garrincha encheu os olhos de Eurico Salgado sem
saber que estava sendo observado. O Ana Nery, desabituado a derrotas,
exigiu nova revanche, só que no Rio. A terceira partida só aconteceu no
dia 7 de junho de 1953, no campo do Sampaio, no bairro do Riachuelo. E,
como nas outras vezes, lá estava Eurico Salgado na arquibancada. O Pau
Grande fez 3X0 no primeiro tempo, com outra grande atuação de Garrincha,
mas, depois de uma briga no segundo tempo, o Ana Nery virou o placar
para 5X3.
Ao fim do jogo, Salgado foi falar com Garrincha à beira do gramado:
"Você vai para o Botafogo comigo."
Garrincha, que nunca vira aquele senhor, ouviu-o com educação, mas
desconversou. Disse que já tentara outros clubes do Rio e que não queria
saber mais disso. Perdia um dia de trabalho na fábrica, não o deixavam
treinar e ainda o chamavam de aleijado.
"Desta vez vai ser diferente", afirmou Salgado. "Quem eu levo fica."
Franklyn Leocornyl, novamente presidente do Pau Grande, e Carlos Duarte
Pinto, treinador do time, estavam ouvindo a conversa. Salgado deu um
cartão com seu nome a Leocornyl, pôs uma nota de cem cruzeiros (com a
efígie de d. Pedro II) na mão de Garrincha e disse que iria esperá-lo
dali a dois dias, terça-feira ao meio-dia, na estação da Leopoldina,
para levá-lo ao Botafogo. Leocornyl garantiu a Garrincha uma licença
especial para faltar ao serviço e Duarte Pinto prometeu a Salgado que o
poria no trem.
Na terça-feira, Eurico Salgado recebeu Garrincha na Leopoldina e o levou
de táxi ao Botafogo. Lá chegando, apresentou-o a Newton Cardoso,
treinador dos juvenis e filho de Gentil Cardoso, treinador dos
profissionais. Identificou Garrincha como "o craque do Araty" e pediu a
Newton Cardoso que o experimentasse entre seus meninos. Newton Cardoso
já devia estar avisado, porque não pôs nenhuma objeção. Garrincha
perguntou-lhe por Araty e soube que os profissionais já haviam treinado
de manhã e ido embora. Mas aquele era o dia do treino coletivo dos
juvenis e, se Garrincha quisesse, podia ir ao vestiário trocar de roupa.
O juvenil do Botafogo tinha, entre outros, o quarto zagueiro Ronald, o
médio volante Aderbal e o meia armador Edson, todos com de dezesseis a
dezoito anos. O lateral-esquerdo chamava-se Tião e era gato de dois ou
três anos - ou seja, já passara dos dezoito e não era para estar ali.
Garrincha foi escalado na ponta direita do time reserva e, até começar o
treino, nenhum dos juvenis titulares lhe dera atenção. Nem sequer tinham
reparado nas suas pernas tortas.
Custou a receber o primeiro passe. Mas, quando isso aconteceu, ele já
foi sensacional. Pediu que lhe lançassem a bola e correu. A bola
chegou-lhe um pouco atrasada, cerca de um metro às suas costas. Em plena
corrida, com um toque de calcanhar, Garrincha deu um lençol em Tião,
disparou para a linha de fundo e chutou rente à trave. Os outros 21
jogadores e mais o treinador Newton Cardoso o olhavam abestalhados -
aquilo era novidade. E, pelos vinte minutos seguintes, criou outras
jogadas que deixaram Newton Cardoso sem fala.
Com meia hora de treino, Newton Cardoso apitou o fim do primeiro tempo e
perguntou-lhe seu nome de verdade e sua idade. Garrincha disse Manuel e
dezenove anos. Newton Cardoso ficou desapontado. Com aquela idade, o
garoto não podia ser juvenil. E, com aquele futebol, francamente, seu
lugar era mesmo no time de cima. Tanto que já nem o escalou para o
segundo tempo do treino. Disse-lhe que iria falar com Gentil e
perguntou-lhe se podia voltar no dia seguinte para treinar contra os
profissionais. Eurico Salgado respondeu por ele, que sim. Salgado
levou-o à cidade de táxi e Garrincha tomou o trem para Pau Grande.
Depois que Garrincha foi embora, Newton Cardoso comentou com um grupo de
jogadores reservas que chegavam para a ginástica, entre os quais o médio
volante Richard:
"Olhem. Amanhã vocês vão treinar com um garoto que o Araty descobriu.
Com aquelas pernas tortas, ninguém acredita que ele possa jogar futebol.
Mas é espetacular. Esse vai ser craque."
No dia seguinte, Garrincha chegou ao Botafogo na hora marcada, nove da
manhã. Para isso, tivera de sair de casa quase três horas antes. E não
viera sozinho. Com ele no trem até a Leopoldina e no lotação para
Botafogo estavam Wilson Duarte Pinto, diretor do Pau Grande e filho do
treinador do time; o irmão de Wilson, Camula; e Roberto Leite Rodrigues.
Mas só Garrincha entrou no gramado.
O treinador Gentil Cardoso recebeu-o já sabendo quem era ele. Seu filho
Newton passara a véspera azucrinando-o sobre o ponta-direita que
treinara com os juvenis. Talvez por isso Gentil não pudesse evitar a
pergunta maldosa:
"Você é que é o craque do Araty?"
Garrincha ficou sem jeito. Sem esperar resposta, Gentil entregou-o a seu
auxiliar, o preparador físico Paulo Amaral:
"Esse é o craque do Araty. Ponha ele contra o Nílton Santos." As lendas
sobre Garrincha incluem a história de que, naquele momento, Gentil
Cardoso se teria virado para alguém e comentado entre dentes: "Aqui dá
de tudo, até aleijado". (Ou a de que, ao perguntar a Garrincha, "Você
joga de quê, meu filho?", ele teria respondido: "De chuteiras".) As
versões sobre o que se passou nos minutos anteriores ao treino são
tantas quanto as pessoas que, no futuro, diriam que estavam no campo do
Botafogo naquele dia 10 de junho de 1953. A acreditar nelas, é como se
metade do Rio de Janeiro tivesse presenciado o histórico "primeiro
treino de Garrincha". Curiosamente, a maioria dessas pessoas não fazia a
menor idéia - até hoje - de que, na véspera, ele já fora ao Botafogo,
treinara entre os juvenis e impressionara um punhado de gente.
A suposta grosseria de Gentil - "Aqui dá de tudo, até aleijado" - seria
uma maneira de descrever o Botafogo como um pátio de milagres, infestado
de desclassificados. E que, no meio destes, surgiu um anjo salvador. A
lenda ficaria melhor se fosse assim. Mas nem o Botafogo era o dito
pátio, nem Garrincha era um desclassificado (estava até muito bem
servido de pistolões) e nem o negro Gentil disse nada no género.
Não que o ex-marinheiro Gentil não fosse um homem difícil. Era neurótico
ao cubo e tinha um invencível ressentimento do mundo. Queixava-se de que
nunca seria treinador da seleção brasileira por ser "o moço preto", como
o chamavam - a seleção só queria brancos, como Flávio Costa e, agora,
Zezé Moreira. Mas também Gentil era racista ao contrário: todo dia 13 de
maio, reunia os jogadores negros no vestiário e fazia um discurso com
odes à princesa Isabel e exortações contra o mundo branco. E, no
Botafogo, tentou instituir uma espécie de corte marcial, formada pelos
próprios jogadores, para "julgar" os companheiros que fossem expulsos de
campo. Gentil podia ser complicado - mas não hostilizou Garrincha. Ao
contrário.
Normalmente, os treinadores só punham os novatos para jogar nos últimos
dez minutos de treino, quando já não tinham tempo de mostrar muita
coisa. E, mesmo assim, só para o treinador dar uma satisfação ao cartola
que os havia indicado. Mas Gentil Cardoso mandara Paulo Amaral entregar
a camisa sete dos reservas a Garrincha para começar o treino. O que
queria dizer isso? Que Gentil levava muito a sério a recomendação de seu
filho Newton - ou que, na condição de ex-marujo da Marinha Mercante,
devia favores especiais a Eurico Salgado no Lloyd Brasileiro.
Paulo Amaral levou Garrincha para o vestiário. Araty já estava lá dentro
se trocando. Viu Garrincha e abraçou-o. Achou-o encabulado e, nada
modesto, disse:
"Jogue o seu jogo. Aqui todo mundo é igual."
Garrincha tirou a camisa bem pobrinha enquanto conversava com Araty.
Quando arriou as calças ainda mais humildes e revelou a cueca
samba-canção, os olhos dos reservas voaram em linha pontilhada para as
suas pernas. Não esperavam que elas fossem tortas daquele jeito. E ele
claudicava um pouco ao andar, gingando não para os lados, mas para a
frente. Não tiveram a menor dúvida: Araty e Newton Cardoso deviam estar
de porre se achavam que aquele sujeito podia jogar futebol.
O Botafogo de 1953 também não ia excepcionalmente bem das pernas. Seu
último título carioca fora o de 1948 e ainda havia sobreviventes daquele
time, como o zagueiro central Gérson, o meia-armador Juvenal, o
meia-direita Geninho e o ponta-esquerda Braguinha. Todos bons, mas em
final de carreira. E, claro, tinha Nílton Santos, que, aos 28 anos, já
podia dar conferências na ONU sobre a lateral esquerda - e que, embora
ninguém desconfiasse, ainda não estava no seu auge. Os outros eram o
goleiro Gilson, os zagueiros Bob e Araty, os atacantes Zezinho, Dino e
Vinícius. Nada que envergonhasse o Pato Donald, símbolo do clube, mas
estava longe de ser um escrete. Garrincha vestiu o uniforme roto dos
reservas e juntou-se a eles, vários dos quais um dia seriam titulares,
como o goleiro Amaury, os zagueiros Floriano, Haroldo e Orlando Maia e o
atacante Ariosto.
Paulo Amaral apitou o início do treino e, quase dez minutos depois,
quando finalmente lhe deram a primeira bola, Garrincha viu-se frente a
frente com um sujeito alto e forte que ele não conhecia: Nílton Santos.
Nílton Santos ainda não era "A enciclopédia do futebol" - o apelido só
lhe seria dado pelo locutor Waldir Amaral dali a cinco anos, na Copa do
Mundo de 1958. Mas já havia quem o chamasse de "o novo Da Guia", numa
referência a Domingos da Guia, o mais completo jogador de defesa que o
mundo produzira no milénio. Mas, naquela manhã em General Severiano,
Nílton Santos não se sentia nada completo. Podia-se dizer, na verdade,
que deixara a cabeça em casa, dentro de um saco de gelo.
Estava de casamento marcado para o dia 1 de julho com a srta. Abigail
Batalha, no que - coisa rara no futebol - seria um evento para as
colunas sociais. Haveria uma recepção na sede do Botafogo e ele teria
como padrinhos Carlito Rocha, ex-presidente do clube, e o jornalista
Sandro Moreyra. O famoso casal do café-society, Didu e Teresa, talvez
até comparecesse. Nílton Santos se destacava da maioria dos jogadores.
Era inteligente, articulado, amigo de cantores como Lúcio Alves e
Elizete Cardoso (com quem teve um caso) e freqüentava as boates da moda,
como o Vogue, na avenida Princesa Isabel, e o Ranchinho do Alvarenga, no
Posto 6. Poucos sabiam que, mesmo depois de famoso no Botafogo e na
seleção brasileira, ele voltara a estudar, matriculando-se no curso
noturno do Colégio Juruena para completar pelo menos o curso ginasial.
Faltando vinte dias para o casamento, Nílton Santos estava vivendo cada
segundo da sua despedida de solteiro. O campeonato carioca ainda não
começara e ele vinha dando presença assídua nos inferninhos de
Copacabana. Nílton não era de beber - preferia de longe as mulheres -,
mas, na véspera daquele treino, ficara até de madrugada no Ranchinho do
Alvarenga com o cronista esportivo Armando Nogueira, do Diário da Noite.
Os poucos uísques que tomara tinham lhe caído como se ele tivesse bebido
todo o mar da Ilha do Governador, onde nascera. Pelo menos a ressaca era
igual.
Evidentemente que isso não serve de desculpa. Os dez minutos que se
passaram entre o apito de Paulo Amaral e a bola nos pés de Garrincha
haviam bastado a Nílton para conscientizar-se de que estava no campo do
Botafogo, treinando, e não em casa, mareado. Quando aquele ponta novato
dominou a bola e parou para esperá-lo, Nílton partiu tranqüilo para
desarmá-lo. Tranqüilo até demais - porque, quando se deu conta, já havia
sido driblado por fora. Correu atrás dele e, quando emparelharam, o
ponta freou cantando os pneus. Ficaram de novo frente a frente. Nílton
entrou duro para assustá-lo e foi driblado outra vez - e do mesmo jeito.
Em outra jogada, minutos depois, o pontinha cometeu a suprema
indelicadeza e enfiou-lhe a bola entre as pernas. Até então, Nílton
Santos nunca permitira tal desfeita a ninguém.
Tudo isso é fato, mas o tempo exagerou o que aconteceu. Os relatos
futuros criaram a ilusão de um fantástico baile de Garrincha em Nílton
Santos. E não foi bem assim. Houve lances em que Nílton Santos também
desarmou Garrincha com facilidade e igualmente o driblou. Umas pelas
outras, foi um confronto igual, em que cada qual levou vantagem em
certos momentos - e isso é confirmado por vários jogadores em campo
naquele treino. O incrível era ter sido um confronto igual,
considerando-se que, de um lado, estava Nílton Santos, dezesseis jogos
pela seleção brasileira; e, do outro, um jovem desconhecido e torto, que
preferia jogar descalço em sua terra e que só calçava chuteiras
socialmente.
Gentil Cardoso não precisava ver mais nada. Tirou Garrincha ao fim do
primeiro tempo e mandou-o conversar com os homens.
Quando o treino terminou, os repórteres correram sobre Garrincha. O
veterano Geninho, capitão do time, disse ao diretor-tesoureiro Júlio de
Azevedo:
"Olha, se eu sou paredro, esse garoto não voltava para a terra dele. O
Botafogo contratava logo."
Bem, Júlio de Azevedo era paredro - uma palavra pedregosa que a imprensa
de então usava para designar um dirigente de futebol. (A alternativa não
era muito melhor: prócer. Os jogadores usavam essas palavras como se
elas fizessem parte do seu vocabulário básico.) Júlio de Azevedo nem
precisava ter ouvido a indireta de Geninho. Pegou o telefone e ligou
para Carlito Rocha na cidade. Tinham de fazer Garrincha assinar qualquer
papel rapidamente, antes que os outros clubes soubessem que ele ainda
não era de ninguém. Carlito Rocha estava a quilômetros dali e não
assistira ao treino, mas, se alguém lhe dissesse que a índia Diacuí era
uma revelação de beque central, ele mandaria o Botafogo contratá-la. Não
era mais o presidente do clube, mas continuava a ser a eminência, não
parda, mas alvinegra por excelência.
Naquele momento em General Severiano, já havia outros se movimentando
para não deixar Garrincha escapar. O primeiro a opinar fora o próprio
Nílton Santos. Esbodegado pela ressaca e pelo treino, disse a Gentil
Cardoso:
"O garoto é um monstro. Acho bom vocês o contratarem. É melhor ele
conosco do que contra nós."
Sandro Moreyra, repórter do Diário da Noite, também correra para o
telefone e ligara para o escritório de Paulo Azeredo, presidente em
exercício do Botafogo. Mas Paulo Azeredo já estava sabendo de Garrincha:
Alexandre Madureira, diretor do departamento técnico, conseguira falar
primeiro com Azeredo. A solução era fazer um contrato falso - um papel
em branco que o jogador assinasse e que os dirigentes depois redigiriam
em burocratês. Mas, para o jogador assinar, tinha de primeiro concordar
com o salário. Quando Madureira saiu do telefone, foi informado de que
um espião infiltrado nas arquibancadas botafoguenses assistira ao treino
de Garrincha.
O espião seria Edgar Freitas, o popular Freirinhas, seu equivalente no
departamento técnico do Vasco. Os clubes viviam se espionando e roubando
jogadores uns dos outros. Dois anos antes, o juvenil do Botafogo
revelara um grande ponta-direita: Joel. O Flamengo o roubara com mão de
gato e agora Joel era artilheiro pelo Flamengo. Alexandre Madureira
ficou lívido - não podia deixar que isso acontecesse com Garrincha.
Mas ainda conseguiu raciocinar. Freirinhas não teria a cara-de-pau de
aliciar Garrincha ali mesmo, sob os bigodes alvinegros. Mas não
demoraria a descobrir que o garoto morava em Pau Grande e voaria para
lá, a fim de esperá-lo e toma-lo do Botafogo. A solução era segurar
Garrincha no clube -- ou tirá-lo dali - e não deixá-lo voltar para casa
enquanto não assinasse um papel, qualquer papel. Madureira disse a
Garrincha que só podiam discutir o salário na presença de Paulo Azeredo.
O diabo era que o velho Paulo só chegaria à noite. Teria de passar o dia
no clube esperando.
"Se demorar muito, vou perder o trem para Raiz da Serra", objetou
Garrincha.
"Não tem importância. Você dorme aqui no clube." "Tá bom. Minha senhora
já está acostumada quando eu durmo fora." "Que senhora?", espantou-se
Madureira. "Nair. Eu sou casado e até vou ter um filho por esses dias."
Alexandre Madureira quase caiu das nuvens. Pelo jeito franzino e moleque
de Garrincha, achava que ele ainda não tinha dezoito anos e ia
contratá-lo como amador. Só então Gentil Cardoso disse a Madureira que
ele estava perto de fazer vinte anos. Então teria de ser contratado como
profissional. E, como já era casado, isso significava que era também
emancipado. Melhor ainda, porque não precisariam ir a Pau Grande para
que o pai assinasse por ele.
Para ganhar tempo, Madureira levou-o à cidade para tirar retrato, sem o
que não poderiam contratá-lo. A meia dúzia de 3x4s foi feita num estúdio
fotográfico na rua Sete de Setembro. Como já estavam por ali e tinham de
esperar a revelação das chapas, Madureira levou-o a almoçar no Timpanas,
um restaurante português na rua São José. O Timpanas era freqüentado
pelos escritores que não saíam dos sebos da rua, e o proprietário, o
lusitano Lino Soares de Almeida, caprichava nos polvos e bacalhaus. Seu
Lino conhecia Alexandre Madureira. Atendeu-os pessoalmente e perguntou o
que ia ser.
Garrincha examinou o cardápio fingindo lê-lo e respondeu:
"Arroz, feijão e macarrão."
Seu Lino tentou valorizar um dos itens mais disputados da ementa:
"Não prefere um bacalhau ao Zé do Pipo?"
Garrincha foi inflexível:
"Não, senhor. Prefiro arroz, feijão e macarrão."
A pureza de Garrincha era uma das características que haviam encantado
de saída o pessoal do Botafogo. Acharam graça em que, driblando daquele
jeito, ele falasse "óia" e "nóis vai". Aliás, não sabia falar direito
nem o jargão do futebol. Dizia "pênati" por pênalti e "arfe" por alfe,
half, jogador do meio-de-campo. Antes que os despeitados o tachassem de
ignorante, os paredros já argumentavam: E daí? O futebol vivia cheio de
jogadores que falavam daquele jeito e não faziam nem metade do que ele
fizera no treino.
Ao mesmo tempo que Garrincha tirava retrato e comia feijão com macarrão,
os leitores dos vespertinos O Globo e Diário da Noite estavam sendo
informados de que o Botafogo acabara de descobrir "um ponta
espetacular". As duas matérias renderam manchetinhas e eram
entusiásticas. O Globo errou na sua idade (deu-o como tendo dezoito
anos), mas contou a história direito: que Araty o descobrira ao apitar
um jogo fora do Rio, que o convidara para vir jogar no Botafogo, que
Garrincha não aparecera e que, muito depois, outro "elemento
botafoguense" (sem nome) o trouxera e o entregara a Newton Cardoso. Não
se fazia nenhuma referência a um suposto baile em Nílton Santos. Aliás,
Nílton nem sequer era citado. E, o mais importante: O Globo já o chamava
pelo nome certo - Garrincha.
A matéria do Diário da Noite o mostrava com foto e tudo, mas
simplificava a história: dava- o como tendo sido levado por Araty e indo
treinar direto entre os profissionais. Revelava o seu nome, Manuel dos
Santos - e dizia que "no Botafogo ele recebera o apelido de "Gualicho".
Por "no Botafogo", leia-se Sandro Moreyra, autor da matéria. O repórter
se esqueceu de dizer que, no caso, o Botafogo era ele, torcedor
militante e íntimo dos poderes do clube. Assim como os outros
jornalistas presentes ao treino - Canor Simões Coelho, Geraldo Escobar,
Augusto Mello Pinto, Armando Nogueira, Mário de Moraes -, Sandro ouvira
perfeitamente quando Garrincha se dissera chamar Garrincha. Mas não
gostara muito do apelido e, menos ainda, quando o jogador contara que
garrincha era um passarinho.
Sandro achou o apelido fraco e, pensando bem, até um pouco feminino.
Talvez porque já houvesse no Rio alguém chamado Garrincha: uma senhora
da sociedade, Garrincha Melo Franco Lobo. Seu nome verdadeiro era Maria
de Lourdes e ela vinha de uma família de ilustres políticos mineiros,
neta de Cesário Alvim e tia de Afonso Arinos de Melo Franco. Garrincha,
naturalmente, era o seu apelido nas colunas sociais. Sandro podia não
conhecer dona Garrincha, mas, de qualquer forma, achava que esse apelido
não fazia justiça àquele jovem que cavalgava pela ponta direita como um
potro, driblando quem tentasse tomar-lhe a bola.
De volta, ofegante, ao Diário da Noite para escrever a matéria, Sandro
falou de Garrincha para Fernando Bruce, editor de esportes do jornal.
Por razões profissionais, Bruce era obrigado a abrir manchetes para o
futebol, mas sua verdadeira paixão era o turfe. E, como todos os
turfistas da época, era fã de Gualicho, o cavalo que ganhara o Grande
Prémio Brasil do ano anterior e favorito disparado ao Grande Prémio
daquele ano, a ser corrido no dia 4 de agosto. Sandro e Bruce combinaram
que Garrincha deveria chamar-se Gualicho. O Diário da Noite bancaria o
novo apelido. Seria melhor para o jogador, que ficaria identificado ao
cavalo invencível, e melhor para o jornal, que poderia misturar futebol
e turfe no mesmo espaço.
Alexandre Madureira e Garrincha voltaram para o Botafogo no fim da
tarde. Paulo Azeredo só chegou ao clube por volta de nove da noite e,
juntamente com Madureira, Júlio de Azevedo e o diretor de futebol
Estanislau Pamplona, acertou tudo com Garrincha. Minutos depois, o
jogador e os dirigentes saíram felizes e abraçados da salinha à esquerda
do hall de entrada.
Garrincha assinara o primeiro papel em branco de sua vida - primeiro de
uma longa série -, concordando em ganhar apenas trezentos cruzeiros a
mais que recebia como operário na fábrica. E iria passar a sua primeira
noite na Cidade Maravilhosa.
Infelizmente, não num hotel na Cinelândia ou no apartamento de um
paredro na avenida Atlântica. Mas no fuleiríssimo dormitório que o
Botafogo mantinha debaixo das arquibancadas de General Severiano, com
colchões de crina cheios de percevejos, bem em frente ao hospital Pinel.
Naquele primeiro dia de Garrincha nas folhas, não foi possível impedir
que os outros jornais o chamassem de Garrincha. Mas, nos dias seguintes,
o Diário da Noite insistiu em Gualicho e o nome começou a pegar. As
colunas de turfe faziam piadas a respeito do cavalo e as ilustravam com
a fotografia de Garrincha.
Poucas semanas depois, quando Garrincha estreou no Botafogo e desandou a
fazer gols, locutores esportivos como Oduvaldo Cozzi e Waldir Amaral, da
emissora Continental, já tinham aderido ao nome de Gualicho. Um único
locutor, Luiz Mendes, da rádio Globo, preferia Garrincha - donde quem
ouvisse pelo rádio um jogo do Botafogo, passeando o dial pelas estações,
acharia que o mesmo gol tinha sido feito por dois jogadores diferentes.
Para piorar, Gualicho, o cavalo, venceu estrondosamente o Grande Prémio
Brasil montado por Olavo Rosa, nove corpos à frente do segundo colocado.
Era como se Garrincha estivesse condenado a ser Gualicho.
Não se dependesse dele. Não queria ter nome de cavalo e, aos repórteres
de campo, insinuava timidamente que preferia ser Garrincha - que era,
afinal, como todos o chamavam em Pau Grande. O eco do nome Garrincha
voltou a soar nas redações, mas só o eco. Os jornalistas começaram a se
complicar e o resultado é que, nos seus primeiros quatro ou cinco meses
de carreira, os jornais o chamaram de Gualicho, Garribo, Carriço,
Carricho, Garricho, Garricha, Carrinha, Garrincho e Garrincha. A revista
O Cruzeiro destacou-o em sua seção "ídolos do futebol brasileiro", mas,
sem saber o que fazer, chamou-o de Garri(n)cha. O próprio O Globo, que
acertara de saída, andou variando na grafia. Até que o repórter Geraldo
Romualdo da Silva, também em O Globo, encerrou o assunto com a manchete
em seis colunas: "MEU NOME É MANUEL E MEU APELIDO é GARRINCHA".
E, pensando bem, qual era o problema em ser Garrincha? Pois se o fidalgo
Fluminense tivera um alfe chamado Pé-de-Valsa e um ponta
 chamado "109"; e o pequeno Madureira, um zagueiro tão feio que fazia
rigorosamente jus ao apelido com que saía nas rádios e jornais: Medonho.
"O jogador demonstrou qualidades excepcionais. Tem um único defeito,
facilmente corrigível, que é o de driblar demais."
Se essas tivessem sido as últimas palavras do preparador físico Paulo
Amaral, sua reputação teria ficado comprometida junto à posteridade.
Porque foi assim que Paulo Amaral referiu-se a Garrincha no relatório
que apresentou ao Botafogo, na volta da excursão ao estado do Rio de um
time misto dirigido por ele, na segunda quinzena de junho. Foram os dois
primeiros jogos de Garrincha com a camisa do Botafogo, ambos amistosos
[para saber datas, locais e resultados, leia a relação completa dos
jogos de Garrincha no fim do livro].
No primeiro jogo, em 21 de junho, o misto do Botafogo derrotou o Avelar,
em Miguel Pereira, por 1X0 - gol de Garrincha. No segundo, oito dias
depois, em Cantagalo, derrotou o Cantagalo por 5x1 - num dos gols desta
partida, Garrincha driblou a defesa inteira do Cantagalo e, com o gol
vazio, deu para o meia Ariosto completar. Ariosto não entendeu nada -
por que o próprio Garrincha não fizera o gol?
Esta seria apenas a primeira das perguntas que o Botafogo começaria a
fazer sobre Garrincha. Outra: por que, depois de driblar seu marcador e
passar por ele, Garrincha esperava de propósito que ele voltasse, para
ter de driblá-lo de novo? Por que essa mania de continuar driblando,
quando toda a defesa inimiga já estava destruída?
Ninguém sabia ainda que Garrincha era o profissional mais amador que o
futebol poderia produzir. E que, para ele, a alegria do futebol não
estava em fazer gols. Nem em vencer a partida. Nem mesmo em ganhar o
bicho, que era o prémio em dinheiro pela vitória. Gols, vitórias,
bichos, tudo isso eram coisas mesquinhas da civilização.
E a civilização não era o elemento de Garrincha. A graça estava em
driblar, apenas driblar. Estava no futebol em estado selvagem e lúdico,
que era como os índios o jogariam, se soubessem.

Capítulo 4

Fuzilando o rubro-negro Garcia

1953

OS FLUIDOS VITAIS

Em março de 1950, o Bangu comprara Zizinho ao Flamengo por 600 mil
cruzeiros, equivalentes na época a 33 mil dólares. Hoje parece pouco,
mas fora a maior transação do futebol brasileiro até então. E não era
pouco. Com aquele dinheiro, comprava-se um apartamento de dois salões e
cinco quartos no Rio, com varandas debruçadas sobre o oceano Atlântico.
Em junho de 1953, para ter Garrincha, o Botafogo pagou ao Serrano de
Petrópolis, dono do seu passe, quinhentos cruzeiros, equivalentes na
época a 27 dólares. Você leu 27. Foi a menor transação do futebol
mundial em todos os tempos para um jogador da sua categoria. E não
parecia pouco - era pouco. Com esse dinheiro, comprava-se, quando muito,
uma bicicleta.
É verdade que, em 1953, o profissionalismo no futebol brasileiro tinha
apenas vinte anos de oficializado e ainda se esperava que os jogadores
conservassem um espírito "amadorista". Os símbolos do passado
continuavam presentes nos jogadores que ainda jogavam de casquete ou de
rede no cabelo, mesmo que o vento não lhes desbastasse a gaforinha. E,
no próprio Botafogo, houvera até bem pouco tempo antes um goleiro que
pagava para jogar: o milionário Ermelindo Matarazzo. Era filho do conde
Matarazzo e um dos mais ricos herdeiros brasileiros, mas, na condição de
reserva, sonhava com o dia em que substituiria Oswaldo Baliza, o goleiro
titular. Ermelindo era franco com Baliza: "Meu sonho é ser você." E
Baliza, ainda mais franco: "Pois o meu era ser filho do seu pai."
No dia 25 de junho, Garrincha sentou-se para assinar o contrato
definitivo, datado retroativamente do dia 15. Com dificuldade, garatujou
"Manuel dos Santos" num papel que lhe garantia 1500 cruzeiros por mês
durante um ano (e mais quinhentos cruzeiros por fora). O contrato tinha
o número 1769, foi assinado por Paulo Azeredo pelo Botafogo e previa
também que, se Garrincha quisesse morar no Rio, o clube lhe daria casa e
comida.
Ou seja, ele poderia ficar no dormitório sob as arquibancadas, onde
tinham residência fixa o treinador dos infantis, Neném "Prancha", e uma
plêiade de come-e-dorme sem família no Rio. Garrincha disse não,
obrigado. Sua primeira filha, Terezinha, acabara de nascer em Pau Grande
e podiam precisar dele para ferver fraldas ou ir comprar alfinetes no
armarinho. O fato de ser agora jogador do Botafogo não alterava a sua
condição de cidadão de Pau Grande. O novo gerente brasileiro da América
Fabril, Alcides de Moura Braga, fez constar da ficha de Garrincha que
ele estaria de licença por um ano na fábrica - e que, se nesse período
não desse certo no Botafogo, sua vaga continuava garantida. Não é que
eles fossem agourentos ou não quisessem que Garrincha desse certo. É que
o conheciam, talvez bem demais.
O Botafogo demorou para conhecê-lo, até clinicamente. O atleta
brasileiro de 1953 não era melhor que o brasileiro pobre daquele mesmo
ano fiscal. Os jogadores, principalmente os que vinham do interior,
chegavam aos clubes em péssimo estado. Por fora podiam parecer fortes e
atléticos, mas quase todos abrigavam uma fervilhante flora de parasitas.
Muitos eram subnutridos e anêmicos. Os sifilíticos e tuberculosos já
eram raros, mas não inéditos.
A maioria tinha na boca o que Nelson Rodrigues chamava de "uma antologia
de focos dentários". Os focos infecciosos causavam-lhes problemas
circulatórios e musculares, facilitando as entorses e distensões. Por
causa deles, qualquer contusão mais grave era uma novela - a recuperação
era demorada. Com os dentes em cacos, não mastigavam direito e viviam
tendo problemas digestivos. Alguns, com o organismo debilitado, eram
cronicamente sujeitos a doenças venéreas. A gonorréia campeava entre os
jogadores. Já existiam os antibióticos, mas a doença e o tratamento
deixavam o fulano no estaleiro três ou quatro dias.
E, fora do clube, o meio social que eles freqüentavam também não era dos
mais finos. Havia jogadores que, assim que recebiam o salário (em
dinheiro vivo), abriam as notas em forma de canastra real e anunciavam
com a boca cheia d'água: "Isto aqui é pras mulheres!", referindo-se à
baixa prostituição. Quase todos os jogadores bebiam diariamente, o que
era considerado normal, desde que não aparecessem embriagados no clube.
E fumar fazia parte da vida, inclusive no intervalo dos jogos - era uma
prática tão aceita que, quando um treinador como Gentil Cardoso resolvia
proibi-la, tinha de espalhar cartazes pelo vestiário.
Nem sempre o festival de mazelas que o jogador trazia no organismo era
percebido logo pelos médicos do clube. E não era por falta de pessoal ou
de equipamento. O Botafogo, por exemplo, tinha um departamento médico
capaz de submeter os jogadores a uma bateria de exames antes da
contratação. Mas às vezes não lhe davam tempo. Se o jogador que aparecia
no clube treinasse direito e agradasse ao treinador, era logo contratado
e posto para jogar e excursionar. No máximo era medido, pesado e
auscultado - os problemas só iam aparecer no meio do campeonato.
Os médicos faziam tsk, tsk, quando caía-lhes às mãos um craque com a
idade de Garrincha: anos preciosos da sua adolescência tinham sido
perdidos para uma preparação óssea e muscular básica. Até chegar ao
Botafogo, Garrincha não fizera dez sessões de ginástica na vida.
Eles o pesaram, mediram e auscultaram. Garrincha pesava 67 quilos, tinha
1,69 metro e nada no pulmão. Os médicos do Botafogo eram os doutores
Oscar Santamaria, clínico geral, e José Albano da Nova Monteiro,
ortopedista. Mandaram-no subir numa mesa e examinaram suas pernas:
Garrincha tinha o joelho direito em varo, virado para dentro, e o
esquerdo em valgo, virado para fora, além de um deslocamento da bacia.
Pelos cálculos, sua perna esquerda era seis centímetros mais curta que a
direita. Dependendo do ângulo, via-se que ele era também ligeiramente
estrábico. Talvez não despertasse admirações na antiga Grécia, mas nada
disso o impedia de jogar futebol.
E era bom que não impedisse, porque o Botafogo estava precisando
desesperadamente de um ponta-direita. O veterano Paraguaio, antigo
titular, ia ser vendido para o Fluminense. Para o seu lugar, Gentil
Cardoso vinha experimentando uma série de garotos, nenhum deles grande
coisa. O melhor, até Garrincha aparecer, era o jovem e rápido
Mangaratiba, recém- promovido dos aspirantes. Pois foi Mangaratiba que
Gentil escalou para a primeira partida do Botafogo no campeonato
carioca, contra o São Cristóvão, em 12 de julho. O Botafogo penou para
vencer por 1X0, com Mangaratiba jogando mal e a torcida perseguindo-o
cruelmente. Quando ele pegava a bola, os gaiatos gritavam das
arquibancadas de General Severiano:
"Olha o telefone, Mangaratiba!"
Era uma maneira de dizer para ele ir lá dentro atender e aproveitar para
sair de uma vez. Nada pessoal contra Mangaratiba. É que, naquela
partida, os torcedores já tinham com quem compará-lo. Os fanáticos que
não perdiam nem a preliminar tinham acabado de ver os aspirantes do
Botafogo surrar os do São Cristóvão por 5X0, com um ponta estreante
chamado Garrincha (ou Gualicho, segundo algumas correntes filosóficas)
fazendo um gol e contribuindo com dribles e o diabo para os outros
quatro. E Gentil Cardoso também vira.
Na verdade, Gentil cogitara de escalar Garrincha para a partida contra o
São Cristóvão. Mas, na semana do jogo, ele sumira do Botafogo.
Segundafeira não era dia de ir ao clube, e Garrincha não fora. Terça era
dia de ginástica - e ele não aparecera. Quarta era dia de coletivo - e
ele também não aparecera. A princípio, Gentil ficara preocupado. Alguma
coisa podia ter acontecido ao garoto. Mas, se fosse por isso, já
estariam sabendo. Então, só podia ser molecagem pura e simples. A fúria
de Gentil já ameaçava atravessar o suado boné xadrez que ele não tirava
da cabeça, quando soube que alguém telefonara de Pau Grande para avisar
que Garrincha extraíra um dente.
A desculpa era velha. Mas, na quinta-feira, Garrincha apareceu no
Botafogo com a bochecha inchada e uma conspícua falha onde deveria estar
o pré-molar superior esquerdo. Gentil mandou-o ficar concentrado para
fazer tratamento. Tirou-o de seus planos para o jogo contra o São
Cristóvão e escalou Mangaratiba. No domingo, quando viu que Garrincha
melhorara, recomendou a Paulo Amaral escalá-lo nos aspirantes - e ele
acabou com o jogo.
Uma semana depois, dia 19 de julho, eram 14 minutos do segundo tempo de
Botafogo x Bonsucesso, em General Severiano, e o Bonsucesso atrevia-se a
vencer por 2X1. Nos anos 50, o céu só faltava despencar quando um time
pequeno vencia um grande. Mesmo que o pequeno ficasse à frente no placar
apenas por alguns minutos, raios já despejavam chispas no horizonte. E
pior ainda quando o jogo era na casa do time grande - os associados do
Vasco rasgavam carteiras, a torcida do Fluminense atirava laranjas e a
do Flamengo ia esperar os jogadores na saída para xingá-los de
mascarados. Naquela tarde, o céu estava preto e ameaçava despencar de
verdade: chovia e ventava forte sobre o campo do Botafogo. De repente,
pênalti contra o Bonsucesso.
Quem iria cobrar? Os mais velhos e experientes foram saindo de fininho.
Geninho, Araty, Juvenal, Nílton Santos, o artilheiro Dino, todos deram
um jeito de ficar bem longe da bola. O Botafogo jogara mal contra o São
Cristóvão e agora fazia um papelão contra o Bonsucesso. Quem perdesse
aquele pênalti estaria desgraçado. Geninho viu quando Garrincha pegou a
bola e a pôs na marca da cal. Como capitão do time, Geninho olhou para
Gentil Cardoso no túnel. Gentil fez que sim.
O goleiro do Bonsucesso era Ary, que, anos depois, jogaria no Flamengo e
no América. Ary tentou confundir Garrincha para fazê-lo chutar forte e
nas nuvens:
"Capricha, garoto. Chuta no canto, que é do papai aqui." Garrincha não
começara bem a partida. Errara passes, cruzara por trás do gol, perdera
a bola para o adversário. Os críticos diriam depois que não fora por
acanhamento, mas por precipitação mesmo. Mas, aos poucos, já estava se
encontrando. O gol de Vinícius, que empatara o jogo, saíra de um córner
cobrado por ele. O Bonsucesso não tomara conhecimento do empate, fizera
2X1 e, agora, já no segundo tempo, o Botafogo tinha um pênalti a seu .
favor.
No Pau Grande, Garrincha era o batedor oficial de pênaltis. Quando viu
que ninguém do Botafogo se apresentava, achou normal ir até lá e colocar
a bola na marca. Ary continuava atazanando-o:
"Vê lá, menino. Os homens estão de olho em você. O Gentil Cardoso
não perdoa."
Garrincha tomou distância e correu. Se perdesse o pênalti, sua carreira
poderia estar indo por água abaixo, como a chuva que escorria e
penetrava pelos buracos no campo do Botafogo. E se a torcida resolvesse
chamá-lo de aleijado? E se Gentil Cardoso o barrasse? Mas ele chutou
forte, colocado, no canto - e Ary teve a honra de ser o primeiro goleiro
a tomar um gol de Garrincha numa partida oficial.
Era o novo empate e, com isso, Garrincha tomou conta do campo. Driblou,
deu bicicleta, sofreu pênaltis não marcados e fez o quarto e o sexto
gols do Botafogo - este aos 46 minutos, chutando de um ângulo impossível
da linha de fundo, com os três últimos dedos do pé direito. O Botafogo
venceu por 6X3 e um determinado setor das arquibancadas delirava. Era
para esse setor que Garrincha corria a cada gol e levantava os braços.
Terminado o jogo, dirigentes e torcedores viram-no sair de campo nos
ombros de dois jovens negros que gritavam "Garrincha!" e que vibravam
como se ele tivesse derrotado, não o Bonsucesso, mas o escrete uruguaio.
Os outros torcedores não sabiam quem eram aqueles dois rapazes. Mas os
dirigentes se lembravam de já tê-los visto em General Severiano. Eram -
eles logo saberiam - Pincel e Swing, os melhores amigos de Garrincha em
Pau Grande. À saída do estádio, sempre com Garrincha nos ombros, os dois
se juntaram a um cortejo de torcedores que desfilou fazendo carnaval
pelas ruas perto do estádio.
Pincel e Swing não tinham sido os únicos de Pau Grande a descer para o
Rio aquela tarde a fim de assistir à estréia de Garrincha como titular
do Botafogo. Uma caravana comandada por outro amigo deles, Lourenço
Quintanilha, empoleirara trinta pau-grandenses num caminhão e passara o
jogo inteiro gritando o seu nome. Ao fim da partida, depois de carregado
em triunfo pelas ruas ao redor do estádio, Garrincha também se aboletou
na caçamba do caminhão e voltaram todos para Pau Grande, soltando
foguetes pela estrada e bebendo pinga pelo gargalo.
A chegada a Pau Grande foi outra apoteose. O caminhão trazendo Garrincha
foi recebido com novo foguetório, estourado pelo povo da cidade assim
que ele despontou na curva. Poucos em Pau Grande tinham rádio, o que
obrigara Roberto Leite Rodrigues a instalar um alto-falante na praça da
igreja, como fizera nos jogos da Copa do Mundo em 1950. Mas, aquela
tarde, o principal jogo do campeonato tinha sido Flamengo x Olaria, no
Maracanã, e fora este que as rádios transmitiram. O pessoal reunido
debaixo do alto-falante tivera de contentar-se com os flashes enviados
de General Severiano, que informavam os gols, o resultado do jogo e mais
nada. Para saber tudo que Garrincha fizera em campo, tiveram de esperar
pelos conterrâneos que haviam ido ao campo do Botafogo.
Foi por isso que, nas semanas seguintes, mais e mais pau-grandenses
juntaram-se às caravanas ao Rio para ver Garrincha jogar. Era raro o
Botafogo fazer a principal partida da rodada e, em igualdade de
condições, as rádios preferiam transmitir os jogos do Vasco ou do
Flamengo, donos de maior torcida. Quem quisesse vibrar com Garrincha
tinha de ir ao campo, fosse o do Madureira, na rua Conselheiro Galvão,
ou o do Canto do Rio, em Niterói. E, quando se tratava de um Botafogo x
Vasco ou um Botafogo x Flamengo, que todas as rádios iriam transmitir,
aí é que era obrigatório ir ao Maracanã. Donde a cena repetiu-se muitas
vezes nos primeiros meses: à saída do jogo, em qualquer estádio, era
infalível ver um ou dois caminhões de Pau Grande regurgitando de gente,
com Garrincha de pé na caçamba, precariamente equilibrado, voltando
vitorioso - ou não - para sua cidade.
E não era sempre que voltava vitorioso. O Botafogo terminaria em
terceiro lugar o campeonato carioca daquele ano. Mas Garrincha voltava
invariavelmente artilheiro. Com seus vinte gols em 26 partidas, ele
seria o segundo artilheiro carioca de 1953, apenas dois gols atrás do
paraguaio Benitez, do Flamengo. E Benitez jogava no time que seria o
campeão.
A delegação de Pau Grande não se limitava a assistir aos jogos de sábado
ou domingo. Pincel e Swing matavam o trabalho na fábrica e iam com
Garrincha para o Botafogo em dias de semana para vê-lo treinar. O
pessoal do clube habituou-se à presença deles em General Severiano e
sempre os tratou com a maior deferência - os amigos de Garrincha eram
amigos do Botafogo. Assistiam ao treino, esperavam-no sair e voltavam os
três juntos para Pau Grande. Ou, então, Pincel e Swing saíam de Pau
Grande no fim da tarde, desciam na Leopoldina e ficavam horas na
estação, à espera de Garrincha, para voltar com ele no trem.
Tanto na ida quanto na volta, era uma longa jornada para Garrincha.
Quando o Botafogo treinava de manhã, ele tinha de acordar às cinco para
estar em General Severiano às oito. Saía de casa com o dia ainda escuro
e assistia ao nascer do sol pela janela do trem. Se o treino era no fim
da tarde, a volta à noite era muito pior: o último trem era o famoso
"oito e doze", que saía do Rio às 20h12 para Raiz da Serra.
O tempo de viagem variava de uma hora e quarenta minutos a duas horas e
meia, dependendo do número de paradas pelo caminho, que iam de vinte a
trinta. Não havia estação em Pau Grande. O que havia era a Viação
Pereira, composta de um velho ônibus de madeira, que fazia a linha Raiz
da Serra-Pau Grande. Mas o ônibus, com freqüência, podia estar atrasado
ou já ter saído. Garrincha então descia em Raiz da Serra, por volta de
22h, e tinha de caminhar cinco quilómetros pela estrada de terra e sem
luz até Pau Grande. Em criança, ouvira muitas histórias contadas por seu
pai, a respeito de mulas-sem-cabeça por ali. Aos vinte anos, Garrincha
não acreditava em mulas-sem-cabeça, mas sabia-se lá se elas não
existiam. Qualquer ruído na mata, no meio daquele breu, eriçava-lhe os
pêlos da nuca.
Os maquinistas já o conheciam e sabiam que ele era o Garrincha do
Botafogo - para seu alívio, ninguém mais o chamava de Gualicho. Nas
noites em que estava cansado para caminhar os cinco quilómetros,
Garrincha pedia que dessem uma meia-trava na máquina para que ele
pudesse saltar, com o trem em movimento, em algum trecho mais perto de
Pau Grande. Esse trecho era o capinzal na altura do Fragoso. Numa dessas
vezes, saltou tranqüilo, como sempre. Mas, ao levantar-se e dar um passo
na terra, tropeçou e caiu. O maquinista, olhando casualmente para trás,
viu-o caído e achou que ele fora jogado do trem. Três minutos depois, ao
chegar à estação de Raiz da Serra, avisou ao encarregado. E este fez o
que, na época, faziam todos os que se julgavam detentores de uma
informação importante: ligou para a rádio Nacional - para o Repórter
Esso.
O Repórter Esso, com aquela pressa para dar as últimas, nem sempre
checava as informações. E, ao som do prefixo composto pelo maestro
Carioca e na voz do locutor Heron Domingues, qualquer notícia retumbava
como se fosse a Terceira Guerra Mundial. Principalmente em edição
extraordinária. A notícia de que Garrincha caíra do trem perto de Pau
Grande foi ouvida por gente do Botafogo e gerou pânico: no mínimo ele
quebrara o pescoço, ou a perna, ou ambos. Paredros e técnicos trocaram
telefonemas histéricos e, em menos de meia hora, Gentil Cardoso e
Alexandre Madureira estavam num táxi rumo a Pau Grande.
O carro varou a noite pela.avenida Brasil e pelas costelas-de-vaca das
estradas de terra. Ninguém do Botafogo jamais fora a Pau Grande. O
próprio motorista não sabia direito onde ficava - sabia apenas que era
perto de Magé. Quase duas horas depois, chegaram a Pau Grande. A cidade
tinha ido dormir e o único lugar aberto era, por coincidência, a
farmácia. Ótimo
- porque, machucado como estava, Garrincha deveria ter passado por ali.
Mas seu Walter, o farmacêutico, não sabia de nenhum acidente de
Garrincha. Ouvira dizer que, mal acabara de chegar, ele fora para um
forró em Magé. Gentil e Madureira entreolharam-se e mandaram o táxi
tocar para lá.
Em Magé, perguntando aqui e ali, encontraram-no - e mais do que inteiro:
no banco traseiro de um carro, atracado a uma garrafa de cachaça
Praianinha e a uma mulher. Entre aliviados e fulos, enfiaram-no no táxi,
trouxeram-no de volta ao Rio e o trancaram no dormitório.
Com todo o estorvo daquelas idas e vindas diárias, Garrincha preferia
continuar morando em Pau Grande. E não apenas porque toda a sua família,
inclusive mulher e filha, também morava lá. É que em Pau Grande estavam
seus amigos e ele tinha uma liberdade de movimentos impossível no Rio,
sob a implicante vigilância de Gentil, Madureira e outros dirigentes. O
Botafogo não desconfiava, por exemplo, que, ao voltar para Pau Grande
depois do jogo de domingo, Garrincha nem sempre ia exatamente para casa.
Se não fosse de caminhão com os amigos, ele tomava o trem na Leopoldina,
como fazia nos dias de semana. Mas, em vez de ir a pé para Pau Grande
depois de descer em Raiz da Serra, ficava por Raiz da Serra mesmo.
Passava no bar de Osmar Abraão, na própria estação, e comprava as
fabulosas batidas que este fabricava - de coco, amendoim, maracujá,
limão - , a uma média de dez ou doze garrafas de cada vez. Ia para o
quarto de Pincel e Swing, que viviam numa república de rapazes em Raiz
da Serra, e começava a beber com eles. Viravam bebendo a noite de
domingo, o dia e a noite de segunda-feira e era impressionante que
chegassem vivos à terça de manhã. Mas as garrafas jaziam mortas pelos
cantos, entre roupas sujas, latas de banha que serviam de panelas e um
cachorro magro.
Daí porque, desde o começo, era raro vê-lo em General Severiano no
individual das terças- feiras. O Botafogo já se acostumara às suas
desculpas quando se apresentava na quarta: "Meu pai caiu do cavalo";
"Minha tia morreu"; "Tive de levar minha senhora ao médico". Dezenas de
desculpas depois, ninguém mais no Botafogo acreditava nelas - mas
imaginava-se que Garrincha pelo menos ficasse em casa com a família,
brincando de cavalinho com sua filha ou fazendo-lhe bilu-bilu. Só que
também era raro vêlo em Pau Grande com Nair. Depois de deixar Pincel e
Swing escornados em Raiz da Serra, Garrincha passava em casa apenas para
tomar banho, trocar-se - e, rapidamente, materializava-se de novo na
rua.
À sua espera, estavam Valtinho, Arlindo "Fumaça", Malvino, Albino, Ary,
Carlito, Didico, Nelson "Coreto" e Pinico (que não gostava do apelido e
preferia ser chamado de Panaco). Não eram propriamente a Câmara dos
Lordes, mas todos tinham cadeira cativa no coração de Garrincha e se
conheciam desde o primeiro estilingue. Os pontos de encontro eram os
bares de Dódi e Constâncio, além do secos-e-molhados de Nicácio, onde
servia-se
 pinga entre os sacos de mantimentos. Uma das diversões de Garrincha e
amigos era ouvir um folclórico bebum de Pau Grande, seu Constantino, que
cantava coisas antigas acompanhando-se ao reco-reco. Garrincha
pagava-lhe bebida e o fazia cantar suas favoritas. Uma dessas dizia: "Me
tira as calças/ Mas não me tira o paletó./ Hum, hum, hum/ É um índio
bororó". Ao ouvir aquilo, Garrincha esparramava-se de rir; enchia seu
copo e o de seu Constantino, e o fazia cantar de novo.
Ou ia jogar pelada no campinho. O Botafogo custou a se dar conta dos
riscos que corria, de ficar sem o seu jogador às vésperas de um clássico
ou de uma decisão. Na semana em que deveria estar se cuidando, Garrincha
desbravava descalço os buracos do terreno e as caneladas dos seus
adversários de Pau Grande, alguns dos quais jogavam de sapatos - ténis
eram artigo de luxo.
Mas, evidentemente, o grande motivo de Garrincha para ficar em Pau
Grande era a administração de suas diversas namoradas - das quais Iraci
continuava a ser a principal. Ele a via todas as semanas e lhe fazia a
mesma promessa:
"Olha, amor, eu te devo um casamento. Só que eu já casei. Mas deixa
estar que eu vou te levar pró Rio. Vou montar uma casa pra você e a
gente vai ficar sempre juntos."
Isso ainda custaria a acontecer - Garrincha só cumpriria a palavra em
1957 -, mas, enquanto não acontecia, Iraci foi-lhe fiel e apaixonada.
Ele entrava em sua casa pelos fundos, ela lhe servia mariolas e os dois
se amavam como se as paredes de Pau Grande fossem muralhas da Idade
Média, à prova de som.
Os irmãos de Nair sabiam da história, mas não podiam fazer nada.
Garrincha jogava no Botafogo, ia ficar rico, para que brigar com ele?
Enquanto não deixasse faltar nada em casa e não fizesse Nair passar
vergonha em público, não havia o que reclamar. Podia até continuar
freqüentando as mulheres dos soldados da fábrica de pólvora sem que nada
lhe acontecesse. Acreditava-se em Pau Grande que, por mais namoradas que
ele tivesse pela rua, Nair era uma espécie de primeira-dama. E isso se
manifestava nas entrevistas de Garrincha aos jornais do Rio, em que só
se referia a Nair como "minha senhora" ou "minha patroa".
Mas uma primeira-dama pressupõe a existência de outras. E, além de
Iraci, ele tinha também Alcina: uma retinta alta e vaidosa, aprumada
como um destaque de escola de samba e igualmente operária da fábrica.
Alcina poderia ter sido outro caso duradouro. Mas quando ficou grávida
dele e teve sua filha Rosângela, em 1954, Garrincha afastou-se. Alcina
nunca lhe cobrou nada, nem a paternidade, nem o sustento da criança. Se
tivesse feito isto, Garrincha se veria em dificuldades: sua fábrica de
filhas começara a funcionar e, naquele mesmo ano, ele seria pai de mais
uma menina - a segunda - com Nair.
O nascimento de Edenir em setembro fez com que a casa do sogro ficasse
pequena para eles. Como Nair continuasse trabalhando na fábrica, esta os
instalou no endereço que, em futuro próximo, seria o mais famoso de Pau
Grande: rua Demócrito Seabra, 7 - até o número pareceria mágico. Era uma
casa de três quartos, com sala, cozinha, banheiro e quintal, com uma
varandinha na frente e uma janela para o vaso de alecrim. Minimamente
adequada para o número de filhas que, apenas pelos anos seguintes,
Garrincha teria com Nair.
Sete.
Sexo era a sua principal ginástica. A outra, a oficial, ele não gostava
de fazer. E esta também não era uma grande preocupação dos clubes. Os
jogadores treinavam de manhã ou de tarde, nunca em tempo integral. Até
os anos 50, a preparação física costumava ser dada pelo próprio
treinador. Este podia ser gordo como Gentil Cardoso ou magro como Zezé
Moreira, mas de modo algum um especialista na tarefa. Limitava-se a
comandá-los nos exercícios do chamado "Regulamento n2 7". Era um
programa criado pelo exército francês na Primeira Guerra, adotado pelo
exército brasileiro e usado nas aulas de educação física dos colégios.
Consistia em correr, esticar os braços, bater palmas sobre a cabeça,
fazer algumas flexões e pular carniça, tudo isso aos gritos de
um-dois-três-quatro do preparador. Era mole. Os jogadores faziam aquilo
assoviando, aproveitando para bater papo e combinar a saída daquela
noite. E era assim em quase todos os clubes. Mas nem tanto no Botafogo -
porque o Botafogo tinha, como preparador físico, Paulo Amaral.
Em 1953, Paulo Amaral tinha trinta anos e era mais forte, mais
resistente e mais valente que todos os jogadores juntos. Quando
estudante, lutara boxe e pusera doze adversários a nocaute. Em 1951,
fora campeão carioca de levantamento de peso. E, além do futebol, era
instrutor físico da temida Polícia Especial, criada por Getúlio Vargas
no fim do Estado Novo. Seus colegas na PE eram, entre outros, o árbitro
Mário Vianna, temido até dizer chega, e o baiano Waldemar Santana, a
fera da luta livre - que tal? Pois era com este homem que Garrincha
tinha de fazer ginástica.
Garrincha chegou ao Botafogo no limite de sua fase de desenvolvimento
muscular. Com os exercícios, encorpou tudo que faltava. Nos dois
primeiros anos, não cresceu nem um centímetro em estatura, mas ganhou
dois quilos de músculos nas pernas. Em pouco tempo, o dr. Nova Monteiro
diria que elas tinham uma massa muscular "comparável à de um cavalo". E
esse era um dos segredos do equilíbrio de Garrincha - os troncos que
tinha como pernas faziam-no resistir aos piores trompaços dos
adversários sem cair. Para derrubá- lo, só com rapas e rasteiras, e,
mesmo assim, ele se levantava num instante e seguia com a bola dominada.
Isso não significava que fosse louco por ginástica ou que lhe desse
qualquer importância. Significava apenas que, se conseguia escapar da
ginástica às terças, não escapava dela às quintas - porque já estava
preso com os companheiros na concentração.
A palavra preso não era uma flor de retórica. A concentração significava
que, teoricamente, o jogador não poderia sair nem para ir à esquina
comprar fósforos. E todos os clubes faziam igual: se o time jogava no
sábado, a concentração começava na quarta-feira; se domingo, na quinta.
Havia treinadores com poderes de cardeal, como Flávio Costa, que, em
plena terça- feira, anunciavam depois do treino: "A concentração começa
hoje". E não era permitido reclamar. Mas a regra entre os clubes era a
quarta ou quinta-feira, e com um único objetivo: impedir os jogadores de
fazer sexo. Segundo a mentalidade vigente, apoiada pelos médicos e
preparadores físicos, o sexo roubava as energias dos jogadores. Fluidos
vitais, indispensáveis para triturar o adversário, perdiam-se com as
sirigaitas com quem eles andavam. E, para impedi-los de prevaricar, só
trancando-os três dias antes da partida. A partir de sexta-feira, o
suplício ainda era pior porque, depois do treino coletivo (então chamado
apronto), cessavam as corridas em volta do campo, os bate-bolas ou
qualquer exercício físico. Esperava-se que os jogadores ficassem em
repouso na concentração até a hora do jogo no domingo - como se o
organismo do atleta fosse uma bateria que ele recarregasse por não fazer
nada. O resultado era que, já na tarde de sábado, os jogadores estavam
fartos de jogar totó, sinuca ou pingue-pongue, dormir ou mesmo de olhar
uns para os outros.
Nem sempre havia televisão para distraí-los na concentração e a leitura
nunca foi um dos fortes da categoria. Eram raríssimos os jogadores que
podiam ser vistos com um livro na mão - no Botafogo as exceções eram os
zagueiros Tomé, que lia Dostoievski e Graciliano Ramos, e Ronald, que
sabia inglês. Um ou dois podiam ler Coyote (um caubói mascarado criado
pelo mexicano J. Mallorqui, cujas aventuras saíam em livrinhos de bolso)
ou revistas de detetives como x-9. Mas a maioria, como Garrincha, não
passava das páginas esportivas ou de crimes dos jornais. E havia os que
não sabiam ler, muito menos escrever. Para assinar a súmula ao entrar em
campo, desenhavam com tinta sobre seus nomes previamente escritos a
lápis por um dirigente.
A concentração tinha as crueldades típicas de um colégio interno. Os
jogadores novatos eram vítimas de trotes e humilhações para serem postos
no seu lugar. Uma das maldades era fazê-los engraxar as chuteiras dos
titulares. Garrincha escapou dessas brincadeiras porque logo se percebeu
que não era bobo como os outros. Se o mandassem engraxar uma chuteira,
seria capaz de devolvê-la reluzente - mas com um rato morto dentro.
Com poucos dias de Botafogo, já estava tão em casa entre os companheiros
como se tivesse nascido à sombra daquelas torres amarelas. Podia
permitir-se até brincadeiras de péssimo gosto, como passar por um colega
que estivesse sentado e, casualmente, soltar um peido à altura de seu
rosto - e sair correndo para evitar a represália. Ou, fingindo que não
estava fazendo nada de mais, afagar as nádegas do colega até que este se
desse conta e pulasse indignado. Ou agarrá-lo por trás, como costumava
fazer com Casado, o garçom do refeitório do Botafogo - de preferência,
quando Casado estivesse indefeso, equilibrando uma bandeja com pratos.
Numa dessas, Casado deixou cair a bandeja, provocando uma lambança.
Às vezes, Garrincha tirava a bandeja das mãos de Casado e anunciava aos
companheiros:
"Hoje quem vai servir sou eu!"
A três metros de distância, virava-se para o mais matuto, como o mineiro
Paulo Valentim, e perguntava:
"Quer carne ou frango, Paulinho?"
Paulo Valentim respondia carne. Garrincha espetava o bife com o garfo e
dizia:
"Então toma. Via aérea!", e atirava o bife pelos ares, na direção do
prato de Paulo Valentim.
Os companheiros não lhe guardavam raiva por essas brincadeiras, mesmo as
mais grosseiras, porque não viam maldade em Garrincha ao praticá-las.
Outras brincadeiras eram infantis, como a de misturar as chuteiras dos
jogadores no vestiário momentos antes de o time entrar em campo. Mas sua
infantilidade era apenas aparente e escondia uma boa dose de malícia.
Era sagaz para reconhecer os mais instruídos ou inteligentes, como
Gilson e Nílton Santos, e não se meter a gato-mestre com eles. Suas
vítimas eram os jogadores que sabia de seu nível ou abaixo dele.
Sua própria figura, sempre de chinelos e com as calças ou bermudas
caídas, à Cantinflas, era cômica. E os apelidos que distribuía eram
mortais. O atacante Carlyle, recém-comprado ao Fluminense, tinha apenas
um naco de cartilagem no lugar da orelha esquerda. Gozar Carlyle era
perigoso, porque ele era também um grande gozador. Mas Garrincha
apelidou-o de "Orelhinha" e Carlyle não se importou. Até o presidente do
clube, Paulo Azeredo, idoso e minúsculo, foi apelidado - sem saber,
claro - de "Lagarto do brejo". Sem Garrincha, a concentração seria ainda
mais insuportável.
Clubes como o Botafogo, que não tinham uma concentração própria,
hospedavam-se em hotéis ou alugavam casarões. Em 1953 e 1954, enquanto
Gentil Cardoso foi seu treinador, o Botafogo usou um casarão no Cocotá,
na Ilha do Governador. Mas apenas porque, segundo se dizia, Gentil tinha
um caso com uma mulher ali perto - e a obrigação de ficar trancado não
se estendia ao treinador. Em 1955, quando o Botafogo dispensou Gentil e
contratou Zezé Moreira, a concentração passou a ser no hotel Paysandú,
na rua Paissandu, ou no Plaza, na avenida Princesa Isabel. Os jogadores
preferiam quando o time se concentrava num hotel - porque era mais fácil
burlar a vigilância.
Dias antes, ao saber onde seria a concentração, um dos jogadores (ou um
amigo deles) alugava um apartamento no mesmo hotel, sem o conhecimento
dos dirigentes. Esse apartamento era rateado por alguns jogadores, que o
usavam para jogar cartas, beber ou levar uma mulher. Só eles tinham a
chave. Os outros que não entravam no rateio silenciavam. Fazia-se um
pequeno estoque de conhaque Três Coroas e de baralhos Copag, e os
jogadores usavam o apartamento em rodízio - afinal, não podiam
desaparecer todos de uma vez. O jogo era dadinho ou ronda, ambos a
dinheiro, e era inevitável que, numa rodada mais pesada, pelo menos um
jogador perdesse de véspera o bicho do dia seguinte. Os dirigentes
sabiam que essas coisas aconteciam e prejudicavam o rendimento dos
atletas, mas não podiam sair batendo de porta em porta procurando-os.
Garrincha não gostava de cartas, nem de dados. Achava qualquer aposta a
dinheiro coisa de otário. E, a princípio, não participava do rateio do
apartamento, porque tinha suas próprias maneiras de escapulir da
concentração. Quando o treinador era Zezé Moreira, usava a desculpa de
que precisava ir a Pau Grande por algum motivo de família. Zezé era
liberal e não via problema em deixá-lo ir, desde que voltasse logo. Além
disso, acreditava que Garrincha estivesse mesmo precisando ir à sua
casa. Deixou de acreditar no dia em que Garrincha lhe disse que
esquecera as chaves de sua mala em Pau Grande. Pouco depois de
autorizá-lo a ir buscá-las, Zezé foi dar uma voltinha nas proximidades
do hotel Paysandú.
Ao passar pelo Largo do Machado, viu Garrincha no banco traseiro de um
táxi a caminho da Zona Sul, com duas mulheres sobre as quais não restava
a menor dúvida. Muitas horas depois, quando ele voltou, Zezé o estava
esperando:
"Achou suas chaves, Garrincha?" Garrincha tirou o molho do bolso e
retiniu-o vitorioso: "Achei, seu Zezé."
"Estavam por acaso na bolsa de uma daquelas moças?" Levou uma repreensão
e, a partir dali, passou a fazer parte do rateio, para fins imorais.
Os velhinhos históricos do Botafogo que faziam ponto nas cadeiras de
vime na varanda da sede, como os sócios fundadores ou os grandes
beneméritos, nem desconfiavam dessas histórias. Eram homens austeros,
encasacados, alguns tinham perfil de efígie. Seus sobrenomes - Sodré,
Müller, Taunay, Viveiros de Castro - eram placas de ruas do Rio. Todos
vinham do tempo em que havia dois Botafogos: o das regatas e o do
futebol, filhos de pais diferentes e que se odiavam mutuamente. Mas isso
agora pertencia ao passado porque, desde 1942, o Botafogo estava
unificado e se tornara uma só família. E era isso que eles achavam que o
Botafogo devia ser - uma família.
O presidente Paulo Azeredo e sua esposa, dona Lili, davam um belo
exemplo: todos os domingos de manhã, ao sair da missa, visitavam a
concentração e levavam aos jogadores uma palavra de estímulo para o jogo
daquela tarde. Na primeira vez em que apareceram sem avisar, alguns
jogadores tiveram de sair correndo para os apartamentos a fim de vestir
uma calça sobre as cuecas com que desfilavam pelos corredores.
As instâncias superiores do Botafogo eram mesmo superiores: banqueiros,
industriais, empreiteiros, ministros - homens como Luís Aranha, Sérgio
Darcy, Ademar Bebiano, Rivadávia Corrêa Meyer e João Lyra Filho, que
participavam do dia-a-dia do clube e colaboravam com conselhos e
dinheiro. Entre os botafoguenses notáveis, contavam-se o futuro
presidente Juscelino Kubitschek, os juristas Evandro Lins e Silva e San
Thiago Dantas, o jornalista Paulo Bittencourt (dono do Correio da
Manhã), o grã-fino Didu Souza Campos, o maestro Radamés Gnattali, o
compositor ("Da cor do pecado") Bororó, o rei da noite Carlos Machado, o
poeta e diplomata Vinicius de Moraes e uma elite de outros poetas,
escritores e jornalistas: Augusto Frederico Schmidt, Paulo Mendes
Campos, Fernando Sabino, Lúcio Rangel, Maneco Müller (Jacinto de
Thormes) e, embora meio desbotados, Otto Lara Resende e Clarice
Lispector.
Todos eram influentes, respeitados, bem-sucedidos. E nenhum deles achou
graça na frase de Sérgio Porto, que fizera toda a cidade rir:
"Botafoguense é aquele que não tem coragem de ser Flamengo, nem classe
para ser Fluminense."
Quem menos rira da frase fora o tio de Sérgio Porto, Lúcio Rangel, que
teve de explicar-se nas mesas do bar Villarino pela peraltice de seu
sobrinho. Mas Sérgio era uma ovelha tricolor, desgarrada da família
botafoguense. E o Botafogo talvez não fosse muito diferente do
Fluminense quanto às raízes aristocráticas. Mesmo o jogador mais
polémico de sua história, o grande Heleno de Freitas, era uma
personalidade: chique, bonito (seu apelido era "Gilda"), arrasador com
as mulheres. É verdade que era também louco clínico e, naquele momento,
estava internado num hospício em Barbacena (MG). Mas não pensava que era
Napoleão. Pensava que ainda era Heleno de Freitas.
O que o Botafogo tinha de diferente era uma presença tão atuante na
imprensa esportiva que, mesmo sem querer, os jornais e rádios pareciam
torcer pelo Botafogo. Eram botafoguenses os jornalistas Canor Simões
Coelho, Geraldo Romualdo da Silva, Armando Nogueira, Sandro Moreyra,
Geraldo Escobar, Cláudio Mello e Souza, Augusto (Gugu) Mello Pinto, os
radialistas Luiz Mendes, Waldir Amaral, Geraldo Borges, Clóvis Filho,
Otávio Name e muitos mais. Para um clube do qual se dizia que tinha
apenas dezoito torcedores, era como se todos esses dezoito vivessem com
uma caneta ou um microfone na mão.
Para não falar na apresentadora de rádio Heloísa Helena e na cantora
Emilinha Borba, que agitavam bandeiras alvinegras pelos programas de
auditório. Sim, porque o Botafogo tinha também o seu lado emilinha - e
ninguém simbolizou melhor esse lado do que Carlos Martins da Rocha,
Carlito Rocha.
Pouco mais velho que o século, Carlito Rocha foi de tudo no Botafogo a
partir dos anos 20: jogador, treinador, diretor, presidente, capelão,
nutricionista, guia espiritual e quantas outras funções pudessem
existir. O folclore a seu respeito é o mais rico do futebol brasileiro e
talvez o único de que se possa dizer que era tudo verdade. Suas
histórias eram contadas às gargalhadas na varanda da sede. Uma delas, a
de um amistoso do Botafogo na década de 30, em que, por ingenuidade do
adversário, Carlito foi o árbitro.
O jogo estava 0X0, duríssimo e já no fim. Uma bola saçaricou na pequena
área do outro time e ninguém do Botafogo apareceu para chutá-la. Pois
Carlito, de apito na boca, não hesitou: encheu o pé, mandou-a para o
fundo das redes e correu para o centro do campo, validando seu próprio
gol. Os inimigos o cercaram e Carlito saiu-se com a maravilhosa
explicação:
"O gol valeu. O juiz é ponto neutro."
Mas a principal função de Carlito Rocha no Botafogo foi a de unificar e
sistematizar duas grandes características do clube: a fé e a
superstição. Com ele, nunca se sabia onde terminava uma e começava
outra. Em seu primeiro ano como presidente, 1948, o Botafogo foi campeão
carioca e parte dessa conquista seria atribuída às mangas que ele
distribuía pessoalmente aos jogadores na concentração. Enquanto os
obrigava a chupá-las na sua presença, Carlito rezava terços inteiros em
voz baixa e interrompia para advertir:
"Cuidado, hein? Manga com cachaça mata."
Enquanto o Botafogo continuasse chupando mangas, ninguém poderia
derrotá-lo. Mas não eram apenas as mangas que davam sorte. Carlito
distribuía também gemada e rapadura aos craques. E, toda manhã, acordava
os jogadores em seus quartos na concentração, levando- lhes leite e
biscoitos. O roupeiro Aluísio ia com os latões de leite, enchendo as
xícaras, e Carlito distribuía biscoitos Marilu a cada jogador, só
faltando servi-los na boca como se fossem hóstias consagradas. E era o
presidente do clube.
Por sua ordem, as cortinas da sede do Botafogo eram amarradas na hora do
jogo (para amarrar as pernas dos adversários); fazia os jogadores
tomarem banhos de arruda; obrigava cada um a se deitar no chão e comer
três maçãs; e recomendava que o clube sempre contratasse um ex-jogador
do Flamengo como talismã - fizera isso comprando o centro- avante Pirilo
em 1948 e dera certo. Mas, em 1948, o maior de seus talismãs não foi um
homem, nem uma folha, nem uma fruta. Foi um cachorro.
Chamava-se Biriba e era um simpático vira-lata preto e branco que Macaé,
reserva do time, achara na rua e levara para o clube. O Botafogo venceu
naquela semana, com Biriba no banco de reservas, e, a partir daí,
Carlito Rocha adotou-o como mascote. Na verdade, Biriba tornou-se muito
mais do que isso. Quando o adversário estava apertando o Botafogo,
Carlito mandava Macaé soltar Biriba em campo. O cachorro corria em
direção à bola e os jogadores do Botafogo tinham ordem de não se mexer.
Na tentativa do juiz e dos adversários de pegá-lo, o jogo parava e
esfriava. O Botafogo então reagia e vencia. Biriba tornou-se quase o
jogador número doze. Fizeram isso tantas vezes em 1948 que os dirigentes
dos outros times começaram a estrilar.
Um deles ameaçou seqüestrar Biriba. Como precaução, Carlito ordenou a
Macaé que dormisse com o cachorro numa das torres da sede. Depois
correram rumores de que iam envenenar Biriba. Macaé então tinha de
provar a comida do cachorro antes que ele a comesse.
Na véspera de um jogo importante, Biriba fizera xixi na perna de
Braguinha e o Botafogo ganhara. A partir daí, em todo jogo importante,
Carlito obrigava Braguinha a emprestar sua perna para servir de poste.
Ou então Biriba tinha de lamber as chuteiras de Otávio.
Na partida contra o Vasco, no primeiro turno, o presidente vascaíno Ciro
Aranha proibiu a entrada de Biriba em São Januário. Carlito Rocha mandou
perguntar-lhe:
"E o presidente do Botafogo, pode entrar?"
Ciro Aranha respondeu que evidente que sim. Então Carlito pegou Biriba
no colo e, impávido, entrou com ele nas sociais do Vasco.
O Botafogo foi campeão derrotando o Vasco na última rodada e Biriba
posou com os craques na foto oficial, aos pés de Pirilo e Otávio. Ganhou
uma coleira de ouro com o escudo do Botafogo, deram-lhe champanhe no
prato esmaltado e, por intermédio de Macaé, passou a ganhar até bicho. O
Botafogo só faltou registrá-lo na federação e Biriba vivia a contrafilé.
Viajava com o time para todo lado e, certa vez, Carlito afastou um
jogador da delegação para que Biriba pudesse ir em seu lugar.
Mas, nos campeonatos a partir de 1949, o Botafogo foi tão mal que nem
Biriba resolveu. A cada derrota, sua estrela ia se apagando. O Botafogo
começou a abandoná-lo e Biriba passou a viver pelos cantos do clube. As
vezes sumia durante dias e nem davam por sua ausência. Sua carreira no
futebol estava encerrada. Até que, por volta de 1953, Macaé o resgatou
do mais triste ostracismo e o levou para seu apartamento em Copacabana.
O síndico, um vascaíno amargo e vingativo, não queria saber de cachorros
no prédio - muito menos aquele. Mas teve de ceder. Macaé deu-lhe todo o
amor que podia e o levava para passear, mas Biriba acabou morrendo, por
volta de 1956, aparentemente atropelado perto da rua Miguel Lemos - nem
isso se sabe ao certo. Havia muito se tornara apenas um retrato na
narede.
A era da superstição no Botafogo não terminou com o declínio de Biriba
como talismã ou com o relativo afastamento de Carlito Rocha dos negócios
do clube em fins dos anos 50. Quem jogou a pá de cal nessa era e a
substituiu por outra - de dribles, gols e títulos que não tinham nada a
ver com o sobrenatural - foi Garrincha.

Capítulo 5

1954-1956
TROFÉUS NA CRISTALEIRA

A cachaça da moda em Pau Grande era Crioula. Tinha no rótulo uma baiana
gorda com um tabuleiro na cabeça. Aos domingos, quando o Botafogo não
jogava, Garrincha preparava uma ou mais garrafas de Crioula com extrato
de groselha, amarrava-lhes uma corda no gargalo e saía para pescar com
Pincel e Swing. Os dois não eram muito de pescaria propriamente dita.
Garrincha mergulhava as garrafas no rio para mantê-las à temperatura
ideal, como aprendera com seu pai, e os três passavam a tarde
conversando e bebendo. De tempos em tempos, Garrincha lembrava-se de
recolher a linha do anzol, para ver se algum peixe havia mordido.
O Pau Grande poderia estar jogando aquela tarde e Garrincha mantinha o
povo senhor de seu paradeiro. Se fosse caçar, pescar ou fazer coisa
publicável, avisava:
"Vou caçar tatu naquele morro. Se precisarem de mim, vão me chamar."
Queria dizer que, se o Pau Grande estivesse passando aperto com o time
visitante, que fossem buscá- lo no intervalo para que ele jogasse o
segundo tempo. O Pau Grande não se fazia de rogado - e, para susto do
visitante, Garrincha aparecia de repente no estádio, com uma pequena
fieira de peixes ou um tatu ainda morno dentro do saco. Trocava-se
assoviando dentro da casinha que servia de vestiário, entrava em campo e
empatava ou desempatava o jogo. Uma das vezes em que isso aconteceu foi
contra o time do jornal A Manhã, do Rio, que tinha como goleiro o
fotógrafo Jader Neves.
É irresistível imaginar esta cena sendo o adversário, não o time de A
Manhã, mas a seleção da Hungria na Copa do Mundo de 1954, na Suíça - com
Garrincha aparecendo no intervalo, quando o Brasil ainda perdia por 2x1,
para jogar o segundo tempo. Isto, claro, se fossem permitidas
substituições; se o pusessem para jogar; e se ele tivesse sido
convocado.
Em junho daquele ano, o Brasil estava indo bem na Copa do Mundo até
saber que seu próximo adversário dali a três dias, nas quartas-de-final,
seria a imbatível Hungria. O pânico tomou conta dos dirigentes
brasileiros na concentração perto de Berna. Era como se o Brasil já
estivesse derrotado antes do apito inicial. A minutos de entrar em
campo, eles reuniram a delegação, do goleiro Castilho ao cozinheiro
Laudelino, e a submeteram a uma ribombante sessão de lavagem
cívico-cerebral. O paredro Luiz Vinhaes desfraldou uma bandeira
brasileira e obrigou os jogadores a beijá-la. O locutor Geraldo José de
Almeida comparou-os aos pracinhas mortos na Segunda Guerra e exortou-os
a vingar os nossos rapazes enterrados em Pistóia, na Itália. E, dando o
toque sinistro que faltava à comédia patriótica, o chefe da delegação,
João Lyra Filho, disse uma frase que soou como um réquiem para onze
cadáveres presentes:
"Façam milagres, mas vençam a Hungria!"
Vencer como? - os jogadores olharam uns para os outros. E com aquele
tipo de estímulo? Ninguém ali jamais vira a Hungria jogar. O treinador
Zezé Moreira nunca fora à Europa e só conhecia os adversários pelo
CineacTrianon - quando a sessão-passatempo exibia alguns segundos de
futebol em cinejornais estrangeiros como o British News ou as
Atualidades Francesas. Em compensação, sabia-se de sobra da fama da
Hungria.
Em 1952, com aquele mesmo time, ela fora medalha de ouro na Olimpíada de
Helsinque; estava invicta havia quase trinta jogos; e, poucos meses
antes, dera uma sova na Inglaterra em pleno estádio de Wembley, nas
barbas da rainha-mãe: 6x3. Era a primeira vez que os ingleses eram
derrotados em Londres desde a invenção do futebol. Na revanche, em
Budapeste, fora pior ainda: Hungria 7X1. E, na Copa, a Hungria vinha
arrasando: 9x0 na Coréia do Sul e 8X3 na Alemanha. Seu time era um ninho
de cobras: Puskas (pronuncia-se Púshkas), Czibor (Jíbor), Kocsis
(Kóshis), Boszik (Bójik), Budai (Búdai) e Hidegkuti, todos oficiais do
exército húngaro e dex deles do Honved, considerado o maior time do
mundo. Seu treinador, Giula Mandi, devia ser um génio: em todas as
partidas, a Hungria fazia 2x0 com dez minutos de jogo, como se isso
fosse parte da regra, não importava contra quem, e só depois partia para
o massacre. Esses números soavam como gongos na cabeça dos brasileiros
antes do jogo.
Brasil e Hungria entraram em campo no estádio de Berna naquele dia 27 de
junho de 1954 e, segundo todos os relatos, o Brasil tremeu. Não
adiantaram o beijo na bandeira, os mortos de Pistóia e o apelo a um
milagre. Os dirigentes haviam conseguido reduzir a zero o moral dos
jogadores. Como de hábito, os húngaros fizeram 2x0 em sete minutos - e
olhe que estavam sem Puskas, machucado. Alguns jogadores brasileiros mal
conseguiam ficar em pé - suas pernas tremiam como se eles estivessem
dançando charleston. A única maneira de parar os húngaros era aos
pontapés. Estes aceitaram as provocações. E o jogo, que poderia ter
ficado para a eternidade do futebol, transformou-se numa batalha de
botinadas e pescoções, com a bola relegada a terceiro plano. O juiz
inglês Arthur Ellis marcou um pênalti contra cada um e expulsou Nílton
Santos e Humberto, pelo Brasil, e Boszik, pela Hungria. A Hungria venceu
merecidamente por 4 x 2 e, assim que a partida terminou, o arranca-rabo
recomeçou nos vestiários.
Quando os jogadores dos dois países iam entrando juntos, Czibor estendeu
a mão para Maurinho, que atuara na ponta esquerda. Maurinho aceitou o
cumprimento e Czibor retirou a mão. Maurinho deu-lhe um sopapo na
barriga e os húngaros partiram sobre ele. Zezé Moreira afastou seu
jogador do bolo, mas os húngaros pronunciaram o seu nome - "Moreira!" -
e cuspiram no ladrilho. Zezé estava com uma chuteira de Didi na mão.
Atirou-a contra os inimigos e acertou o rosto do vice-ministro de
Esportes da Hungria, Gustav Sebes. A trava de madeira fez um talho no
rosto de Sebes e o sangue do vice- ministro esguichou. Em represália,
Puskas deu uma garrafada na testa do zagueiro Pinheiro. Todo mundo
entrou na briga. A polícia suíça interveio e o jornalista Paulo Planet
Buarque deu uma rasteira num policial, que se estabacou. O árbitro Mário
Vianna, que apitara um dos jogos da Copa, foi ao microfone de uma rádio
brasileira e acusou o juiz Ellis de fazer parte de um complô comunista
para classificar a Hungria. Gritava tanto que podia ser ouvido fora do
estádio. Para oficializar o vexame, João Lyra Filho protestou por
escrito à FIFA, acusando a arbitragem de estar a soldo do Kremlin.
O Brasil voltou mais cedo para casa e os jogadores, mesmo derrotados,
foram recebidos como heróis no Galeão. Tinham provado que eram machos.
Antes da Copa, alguns poucos já queriam Garrincha na seleção. É verdade
que esses queremistas eram botafoguenses. Um deles era o poeta e
cronista Paulo Mendes Campos, num artigo para a Revista da Semana. Mas
talvez nem Paulinho Mendes Campos desse a vida por suas convicções,
porque assinara o artigo com pseudônimo. E o Brasil não estava
exatamente carente de pontas. O titular absoluto da posição era Julinho,
da Portuguesa de Desportos, que, apesar do fiasco brasileiro, seria
eleito o maior ponta-direita da Copa. Seu reserva, Maurinho, do São
Paulo, também era bom. Contra Garrincha, então com vinte anos e menos de
um como profissional, podia-se argumentar que era imaturo e, como dizia
o rubro-negro Ary Barroso, "jogador de uma jogada só". Sua ausência da
seleção foi lamentada por aqueles poucos, mas não indignou ninguém.
Acontece que, na lista oficial de quarenta jogadores que a CBD
(Confederação Brasileira de Desportos) mandara para a FIFA antes da Copa
(da qual saíram os 22 que efetivamente embarcaram), já constava o nome
de Garrincha. E não apenas o dele, como também o de Joel, do Flamengo.
Ou seja: se Julinho ou Maurinho se contundisse e não pudesse viajar, um
dos dois seria chamado para o lugar. Pelo que depois se aprendeu de
Garrincha, ele teria jogado contra qualquer time da Copa como se este
fosse o Royal de Barra do Piraí - e, quem sabe, 1958 poderia ter
acontecido em 1954. Mas, da maneira como aconteceu, Garrincha e Joel não
foram nem chamados para os treinamentos.
A depender de muitos em 1954, Garrincha não seria convocado nunca. Todos
os domingos ele cometia o pior pecado que se podia atribuir a um ponta:
driblava demais, queria jogar sozinho. Passava por um ou dois
adversários com a maior facilidade e perdia a bola para o terceiro ou
quarto, quando podia tê-la soltado antes para um companheiro. Uma
crítica quase infalível às atuações de Garrincha pelo Botafogo era:
"Mais uma demonstração estéril de seus talentos indiscutíveis como
driblador". E essa crítica começava a ficar contagiosa. Seus
companheiros de time já estavam rugindo com ele. A torcida também
passara a ter reações contraditórias: se o Botafogo ganhava, Garrincha
saía consagrado por seus dribles; se perdia, o culpado era ele por
driblar demais.
E, em 1954, o Botafogo perdeu muito mais do que ganhou. Terminou o
campeonato carioca em sexto lugar - foi o último dos grandes, atrás do
América e do Bangu. Ele próprio, Garrincha, fez apenas oito gols em 28
jogos. Enquanto isso, o Flamengo tornava-se bicampeão numa big festa no
Maracanã, com a Mangueira inteira no gramado e com os rubro-negros
recebendo as faixas das mãos da nova miss Brasil, Marta Rocha, e da
estrela Ginger Rogers.
O Botafogo resolveu tomar providências para a temporada de 1955.
Aposentou metade do time, reformou o elenco e trocou Gentil Cardoso por
Zezé Moreira. Primeira providência de Zezé: ensinar Garrincha a não
driblar.
Zezé apanhou uma cadeira da Brahma na pista do Botafogo, colocou-a no
bico da grande área e chamou Garrincha. Tentou ser tão paciente e
didático quanto se falasse com Pinduca, o herói infantil do gibi:
"Garrincha, faça de conta que esta cadeira é o seu adversário. Como você
está vendo, só tem uma cadeira aqui. É como se não houvesse mais ninguém
depois dela. Pois eu quero que, a partir de agora, você faça o seguinte:
durante o jogo, quando você passar pelo seu marcador aqui no bico da
grande área, faça de conta que não há mais ninguém à sua frente para
você driblar. Cruze direto para dentro da área. Entendeu?"
Garrincha teve vontade de rir, mas respondeu:
"Entendi."
"Então vamos experimentar. Venha com a bola, passe pela cadeira e cruze
para dentro da área."
Garrincha veio com a bola, enfiou-a entre as pernas da cadeira, pegou-a
do outro lado e cruzou para dentro da área. Zezé desistiu de continuar
ensinando.
Zezé alimentara também a ilusão de instruir Garrincha a recuar para
receber a bola e, se possível, dar o primeiro combate ao adversário que
passasse por aquela zona - como ensinara Telê a fazer no Fluminense.
Mas, se pensara em transformar Garrincha num novo Telê - generoso,
solidário, altruísta -, Zezé também desistiu. Depois do episódio da
cadeira, concluiu que Garrincha era à prova de instruções.
Em maio de 1955, o empresário português José da Gama, havia muito
radicado no Rio, levou o Botafogo para uma longa excursão à Europa. Com
as dificuldades para se viajar naquele tempo, um time só saía de casa se
fosse para jogar de quinze a vinte partidas. Isso significava passar
quase três meses fora, com cerca de quarenta aeroportos no caminho. A
bagagem da delegação - além dos sacos contendo uniformes, bolas,
chuteiras e material de sapateiro - incluía feijão, farinha, café e
cigarros, para que os jogadores não suspirassem pelo produto nacional.
Alguns, mesmo que estivessem indo para Paris, levavam seus próprios
sabonetes Vale Quanto Pesa. Marcado o jogo de estréia, o time tinha de
viajar uma semana antes, com o Constellation da Panair fazendo as
escalas Rio-Recife-Dakar- Lisboa-Madri e pernoitando em cada escala.
Era a primeira vez que Garrincha ia à Europa - e estava plenamente
ciente de que, nas estranjas, as pessoas falavam línguas diferentes da
sua. Na escala em Recife, viu um papagaio à venda no aeroporto e queria
comprá-lo para levá-lo na viagem. Disseram-lhe que não podia. Garrincha
insistiu com um bom argumento, mas que não convenceu:
"Com quem mais eu vou falar português se ele não for?"
As excursões à Europa eram equivalentes a uma expedição a Marte. Só se
saberia o que aconteceu ao clube se houvesse sobreviventes. Seus jogos
não eram transmitidos pelo rádio e muito menos pela televisão. Não havia
equipes de cinegrafistas filmando-os para passar no cinema. Os jornais
não mandavam repórteres e fotógrafos para acompanhá-lo - contentavam-se
com os telegramas das agências internacionais e com aquelas radiofotos
em que os jogadores pareciam envolvidos por uma nuvem de gafanhotos. Não
fosse uma determinação do CND (Conselho Nacional de Desportos), que
obrigava o clube a incluir um jornalista na delegação, seriam excursões
sem testemunhas. E era quase como se fossem: o jornalista convidado era
sempre um amigo do clube e recebia bichos e diárias como se fosse
jogador. Além disso, sentia-se tão grato ao clube pela oportunidade de
viajar que, mesmo que o goleiro fosse flagrado aos beijos com o
massagista na torre Eiffel, ele não veria nada.
Aquela não era a primeira viagem internacional de Garrincha. Um ano
antes, em julho de 1954, o Botafogo passara um mês na Colômbia e no
Equador. Jogara sete partidas, vencera as sete e Garrincha não achara
Bogotá ou Guaiaquil muito diferente de Belém do Pará, aonde já tinha ido
com o Botafogo em fevereiro. O futebol no Pará era até melhor. A viagem
ao Norte do Brasil tinha sido também a primeira vez em que entrara num
avião. Do Rio a Belém eram dez horas de vôo no bimotor da Aerovias
Brasil, com inúmeros sobes e desces. Quando o bicho decolarA no Rio ele
sentira um pouco de enjôo, assim como quando entrara em seu primeiro
elevador, mais ou menos na mesma época. Mas, com poucos minutos de vôo,
sentira-se em casa e não demorara a estrear uma de suas clássicas
brincadeiras em aviões: pedir um copo d'água à aeromoça e servi-la a
quem estivesse dormindo com a boca aberta ao seu lado.
Os jogos na Europa em 1955 não eram a valer pontos para o campeonato
carioca e não tinham a torcida do Botafogo a gritar para que ele
passasse a bola. Além disso, o jornalista da delegação era Sandro
Moreyra - e, para Sandro, já antevendo as manchetes que despacharia por
cabograma, o Botafogo deveria dar espetáculo e ir à forra do desastre do
Brasil na Copa do Mundo. Por isso Garrincha pôde jogar à sua maneira,
sob as bênçãos de Zezé Moreira - e, como os adversários ainda não o
conheciam, pintou os canecos em todas as partidas. Os primeiros
zagueiros louros, atléticos e dolicocéfalos que riram de suas pernas
tortas tiveram a maior surpresa de suas vidas.
Em Paris, contra o Reims, no dia 2 de junho, Garrincha pode ter
inventado o olé de um homem só. O jogo estava 5X1 para o Botafogo e
faltavam pouco mais de cinco minutos para terminar. Zezé soprou a Nílton
Santos, na lateral, para o time prender a bola e se poupar. Era para
começar a brincadeira de "urso" com que eles se divertiam nos
aquecimentos em General Severiano: a bola indo de pé em pé, fazendo de
bobo o jogador que tentava roubá-la. Mas, quando o recado chegou a
Garrincha, ele o entendeu ao pé da letra:
"Ah, é para prender a bola?"
Começou a driblar sem soltar a bola para ninguém, a enfiá-la entre as
pernas dos beques e a fazê-los trombar uns nos outros, como se estivesse
'nas peladas de Pau Grande. Ficou tantos minutos com a bola que os
adversários já não se atreviam a ir tentar tomá-la. O estádio inteiro
levantou-se para aplaudir. E, talvez por ser um amistoso, não ocorria a
ninguém dar-lhe um pontapé. Garrincha então partia para cima deles e, às
vezes, voltava para driblar em direção ao gol do próprio Botafogo. O
jogo terminou com a bola aos seus pés.
O português Zé da Gama, empresário do time, não tinha nada de parvo. Ele
fora junto com a delegação e, ao ver que o Botafogo estava se tornando
uma atração na Europa, começou a alterar o roteiro para conseguir mais
jogos. Isso fez com que o Botafogo fosse de Paris a Copenhague para
depois voltar a Roma e outros trajetos desconexos. Ou que ficasse oito
dias parado em Amsterdã, esperando por um jogo em Zurique, ali pertinho.
Não surpreende que, na volta ao Brasil, Garrincha identificasse Roma
como "aquela cidade em que o seu Zezé escorregou". A maioria dos
jogadores (e dos dirigentes) naquela excursão também não sabia qual era
Praga e qual era Bratislava. E por que deveriam saber? Se um dirigente
não os levasse a visitar ao vivo os cartões-postais, era comum que os
jogadores só conhecessem quatro atrações de cada cidade que visitavam: o
aeroporto, o hotel, o estádio e a zona boémia.
Em Amsterdã, o Botafogo ficou hospedado numa rua paralela à da zona
local. Com a inatividade do time, Garrincha praticamente mudou-se para
lá. Subia e descia a rua divertindo-se com as mulheres que ficavam
expostas dentro de vitrines, de ligas, meias e com os seios nus,
placidamente tricotando entre um cliente e outro. Garrincha achava uma
graça imensa de ver as moças tricotando - porque, para ele, tricô era
coisa de vovós. Só que aquelas holandesas não tinham nada de vovós.
Garrincha passava o dia mergulhado em seus seios róseos e gigantescos.
Mas os jogadores, se preferissem, nem precisavam sair do hotel para se
desafogar sexualmente. Em duplas nos quartos, era só pedir um sanduíche
ao room service e se postar nus sob os lençóis. Se o empregado que
viesse trazer o pedido fosse uma mulher, um dos jogadores afastava o
lençol com vagarosa luxúria, exibia um membro escandalosamente viril e
uma nota de um dólar. Se a moça topasse, ótimo. Se não, comia-se o
sanduíche. E eles logo aprenderam que não havia risco de escândalo.
Mesmo que não aceitassem a oferta, as camareiras ou garçonetes européias
nunca se ofendiam. No máximo, riam e se retiravam. Mas era difícil não
se impressionarem com Garrincha.
Nessa excursão aconteceu a história de Garrincha que todo mundo pensa
que sabe e adora repetir: a do rádio que ele teria comprado na Europa e
vendido por um ou dois dólares a um colega, ao ser informado de que
seria besteira trazê-lo para o Brasil porque não entenderia o que ele
estivesse falando. Com essa história, estaria caracterizada a
ingenuidade e o atraso de Garrincha. Mas ninguém parece chegar a um
acordo sobre onde esse rádio teria sido comprado (em Berlim, Estocolmo,
Oslo, Helsinque, Reykjavik) e a quem teria sido vendido (a Nílton
Santos, Didi, João Saldanha, Quarentinha, Manga). Bem, estas são as
versões. O fato, porém, é outro.
Rádios-transistores eram uma grande novidade em 1955, inclusive entre os
europeus. Os jogadores brasileiros compravam estoques deles nas
excursões, para presentear suas famílias ou namoradas no Brasil.
Garrincha, mais do que todos, tinha várias famílias e namoradas a
presentear. E já era, desde sempre, o rei do rádio. Antes mesmo de
viajar, dera um Grimfeld tradicional, de válvulas, a seu amigo Dódi,
para que ele o pusesse no bar em Pau Grande e todos pudessem escutar os
seus jogos, narrados por Oduvaldo Cozzi.
Mas o Botafogo tinha realmente um jogador de tocante ingenuidade: o
ponta-esquerda reserva Hélio, codinome "Boca de Sandália". Foi Hélio
quem comprou o tal rádio numa loja em Copenhague e, ao ligá-lo no hotel,
ouviu de Garrincha:
"Mas sua família fala essa língua, Hélio?"
Hélio não entendeu a pergunta. Garrincha, sério, explicou:
"Se você não trocar as válvulas quando chegar ao Brasil, ninguém vai
entender o que o locutor está falando. E lá não tem pra vender dessas
válvulas."
Hélio ficou desapontado e disse que ia à loja devolver o rádio. Não se
sabe se efetivamente foi ou se conseguiu devolvê-lo - mas Garrincha não
o comprou, nem o vendeu, nem precisava disso. E não se sabe também como
essa brincadeira típica de Garrincha foi distorcida de forma a pô-lo
como o otário da história. Principalmente porque, na volta da excursão,
não faltaram rádios europeus para Nair, Iraci e diversas namoradinhas de
ocasião.
Hélio "Boca de Sandália" pôde exercitar seu poderoso intelecto em outro
episódio da excursão. Perto do fim da viagem, o Botafogo jogou em Turim
contra um combinado Torino-Juventus. Depois do jogo, o cônsul brasileiro
na Itália levou a delegação a visitar o monte Superga, onde, seis anos
antes, em 1949, o avião levando o time do Torino, base da seleção
italiana, chocara-se contra a torre da basílica matando todos os
jogadores e tripulantes. Bem à italiana, o lugar fora transformado num
santuário em que se podiam comprar pedaços da fuselagem retorcida do
avião, restos de poltronas chamuscadas, fotos dos jogadores mortos e
outros itens macabros. Os jogadores do Botafogo gelaram e temeram por
sua sorte nas dezenas de aviões que estavam tomando na Europa. Alguns já
se viam sendo visitados por turistas comprando suas fotos como souvemrs.
Mas isto não os impediria de continuar voando.
Um dos jogadores, no entanto, ficou aterrorizado: Hélio "Boca de
Sandália". O jogo seguinte do Botafogo seria em Roma, para onde foram de
trem. Depois dessa partida iriam de avião para Paris e, de lá, para
Praga, onde enfrentariam o Dínamo. Hélio não disse nada a ninguém.
Simplesmente escafedeu-se em Roma e faltou ao embarque para Paris.
Talvez imaginasse voltar ao Brasil a nado. O avião estava para sair e
Hélio não aparecia. Sandro Moreyra sugeriu que a delegação embarcasse e
ficou em Roma para localizar Hélio. Achou- o naquela mesma noite. Hélio,
chorando de medo, jurou que nada o faria entrar de novo num avião.
Sandro passou-lhe uma descompostura e foram de trem para Paris. Mas,
mesmo que tenha sido arrastado a cordas, Hélio ainda teve de tomar no
mínimo mais um avião: de Praga a Génova, onde o Botafogo embarcaria de
volta para o Brasil - felizmente para ele, de navio.
A volta ao Rio no Conte Grande foi um prêmio de Zé da Gama ao Botafogo
pelo sucesso da excursão. Jogara dezoito partidas, com onze vitórias,
cinco empates e duas derrotas - sendo os empates e as derrotas bem no
começo da viagem, quando o time ainda não sabia se estava em Dakar ou em
Tenerife. Dera goleadas memoráveis, como a de 6X0 sobre a seleção da
Holanda, e arrombara o ferrolho do Grasshopper da Suíça aplicando-lhe
6X2. A honra do futebol brasileiro fora lavada e a Europa queria ver de
novo o Botafogo em 1956 - pelo menos dez jogos já estavam contratados. E
Zé da Gama tinha outro motivo para dar cambalhotas. Por causa das
goleadas, vendera dois botafoguenses para o futebol italiano: os
artilheiros Vinícius, para o Napoli, e Dino, para o Juventus de Turim,
por 5 milhões de cruzeiros cada, cerca de 50 mil dólares, levando gordas
comissões.
Mas, se Zé da Gama fosse justo, teria reservado parte de sua euforia
para Garrincha - em espécie. Porque foram de seus pés que saíram os
muitos gols de Vinícius e Dino na excursão.
A caminho do Rio no Conte Grande, saindo do porto de Gênova, o Botafogo
ficaria mais de dez dias no mar. Contando o tempo a bordo, os jogadores
completariam oitenta dias viajando. E, mal desembarcassem na praça Mauá,
já iriam entrar em campo contra o São Cristóvão pelo campeonato carioca.
Zezé Moreira ficou preocupado com a inatividade forçada no navio e
conseguiu que os jogadores tivessem autorização para correr e bater bola
no convés. Seria também uma forma de distraí-los e impedir que se
excedessem na bebida. Mesmo assim, resolveu ficar alerta.
Zezé já percebera que Garrincha tomava muita água tônica. Resolveu ir à
sua mesa conferir.
"Bebendo sua água tônica, Garrincha?"
"É isso mesmo, seu Zezé."
"Me dá um pouquinho, estou com sede", pediu o treinador.
"Mas eu já bebi pelo gargalo, seu Zezé."
"Não tem importância, Garrincha. Você não é tuberculoso."
E estendeu a mão para recebê-la.
Garrincha passou-lhe temeroso a garrafinha. Zezé bebeu e a água tônica
queimou-lhe a boca. Cuspiu fora. Gim puro.
Antes mesmo da chegada do Botafogo ao Rio, já se sabia que Dino e
Vinícius tinham sido vendidos para a Itália. Mas apenas porque eles não
esperaram pelo Conte Grande. Anteciparam-se à delegação e vieram de
avião para fazer as malas, beijar os parentes e voar de volta para o
Eldorado europeu. Foi quando se soube que o Juventus, que comprara Dino,
quisera também Garrincha.
Ainda na Europa, Zé da Gama telegrafara para o Rio consultando o
Botafogo. Não há registro da oferta do Juventus, mas sabe-se quanto o
Botafogo pediu para vender Garrincha: 15 milhões de cruzeiros - uma
fortuna equivalente a 150 mil dólares de 1955 (não esquecer que os
dólares dos anos 50 valiam mais de dez vezes os de 1995). Seria a
transação recorde do futebol brasileiro, se concretizada. Naquele mesmo
mês, a Portuguesa de Desportos estava vendendo Julinho para a
Fiorentina, de Florença, por 9 milhões de cruzeiros, ou 90 mil dólares -
e Julinho era o maior ponta do mundo. O Juventus insistiu por alguns
dias, mas o Botafogo fez pé firme: 15 milhões na mão ou nada de
Garrincha. Os italianos desistiram - por alguns anos.
Garrincha estava em alto-mar quando ficou sabendo da proposta do
Juventus e de como o Botafogo pedira uma fortuna por ele. Não tinha a
menor noção dos valores, mas via naquilo um sinal de que o achavam
importante. Se o Botafogo não quisera vendê-lo, tanto melhor, porque não
queria sair mesmo do Brasil. E, quando o navio chegasse ao Rio, estariam
às vésperas de agosto, que era a sua época de renovar contrato. Sandro
Moreyra,
já funcionando extra-oficialmente como uma espécie de seu procurador,
alertou-o de que devería aproveitar e pedir um bom aumento para renovar.
Quando Sandro vira Garrincha pela primeira vez, naquele dia 10 de junho
de 1953, sua vida se transformara. Estava então com 35 anos, metade dos
quais passados no Botafogo - a outra metade passada na areia, jogando
futebol de praia em Copacabana. Era íntimo de Nílton Santos e amigo
particular de todos os figurões do clube, pelo qual circulava com a
desenvoltura de um cartola sem pasta. Seus pais Álvaro e Eugênia Álvaro
Moreyra (ele, escritor; ela, revolucionária) tinham sido o casal mais
fascinante do Rio na primeira metade do século. O próprio Sandro era
jornalista esportivo desde 1946, mas nunca se considerara estritamente
um repórter. Era, para ser mais exato, um repórter do Botafogo.
Garrincha teve para ele a luminosidade de uma epifania. Até então, sua
maior admiração na vida tinha sido Nílton Santos. Mas Nílton era um
sujeito tão sério, adulto e ministerial em campo quanto na vida real.
Ficaria bem em qualquer papel para o seu tipo: modelo da Ducal, deputado
pelo PTB, vilão de filme nacional. Era como se fosse seu irmão.
Garrincha era diferente - Sandro achou-o "chaplinesco". Podia ser seu
filho ou seu irmão caçula. Quando Sandro convenceu-se de que Garrincha
deveria ter mesmo aquele apelido, foi o primeiro a enxergar nele uma
alma de passarinho. Não era possível que alguém, com um futebol daquele
tamanho, pudesse ser tão simples. Sandro sentiu-se com a missão de
protegê-lo contra as maldades do mundo, que ele conhecia bem.
Isso significava tentar orientá-lo a respeito de seus contratos e a não
deixar que o explorassem - se possível, sem ferir os interesses do
Botafogo. Significava também encobrir tudo que ele fizesse de errado e
que pudesse turvar a sua política externa. Foi o primeiro a conhecer
Garrincha na intimidade de Pau Grande e, durante anos, o único. Assim,
por exemplo, quando o Diário da Noite publicava que Garrincha não
treinara aquele dia porque estava "repousando em Pau Grande", apenas
Sandro, entre os jornalistas, sabia o verdadeiro motivo pelo qual ele
não aparecera no clube. Devia estar saindo de um pileque com Pincel e
Swing.
Quando renovara contrato pela primeira vez, em agosto de 1954, Garrincha
passara de 2 mil para 10 mil cruzeiros mensais - um aumento de 500%, mas
sobre quase nada. Talvez sentindo-se culpado, o Botafogo dera-lhe uma
"gratificação" de 40 mil cruzeiros - que Garrincha, seguindo os
conselhos de seu tio Mané Caieira, aplicara em terrenos no Fragoso. Mas,
agora, na volta da excursão, ele iria pedir 20 mil cruzeiros para
renovar. O Botafogo contrapropôs 16 mil e nem um centavo a mais. Disse
que aquele era o salário-teto do clube. Garrincha sabia que não era
verdade. O salárioteto era o de Nílton Santos: 22 mil cruzeiros. Até o
zagueiro Gérson ganhava mais do que o Botafogo lhe estava oferecendo: 17
mil. E Gérson, um dos poucos remanescentes do time campeão de 1948,
ainda tinha manias de jogador antigo: em vez de usar caneleira, fazia um
canudo com um exemplar do Jornal do Brasil e o enfiava por dentro da
meia. Depois pedia que lhe dessem bicos na canela para ver se estava OK.
O Botafogo estava regateando em quatro mil-réis com um jogador que,
segundo o próprio clube, valia 15 milhões. Garrincha disse de novo que
queria 20 mil cruzeiros. O Botafogo anunciou pelos jornais que não
arredava pé de sua proposta e que, se Garrincha continuasse
intransigente, seu contrato seria suspenso. Era a primeira vez que
alguém o tratava
 publicamente com rispidez.
Garrincha ficou magoado e fez a única coisa a seu alcance: escondeu-se
em Pau Grande durante toda a primeira semana do campeonato e não
apareceu no clube para jogar contra o São Cristóvão.
Mas alguém deve tê-lo convencido a transigir. Pode ter sido Nair ou
algum dirigente do Pau Grande. Ou até mesmo Sandro, que não contava com
a reação do clube. Podem tê-lo advertido de que não ficava bem brigar
com o Botafogo. E Garrincha, que, no fundo, prestava tanta atenção aos
zeros numa cédula quanto aos bigodes e barbaças estampados nela,
preferiu ceder. No dia seguinte ao jogo do São Cristóvão, segunda-feira,
apareceu sorridente em General Severiano e assinou o novo contrato -
sempre em branco, aceitando os números que depois seriam acrescentados
ao papel: 16 mil cruzeiros.
Não era um dinheiro insignificante para 1955. Equivalia a 160 dólares. O
jogador mais bem pago do futebol brasileiro era Zizinho, que recebia 30
mil cruzeiros mensais do Bangu. Um senador da República ganhava 36 mil;
um advogado ou médico, 20 mil. E os jogadores ainda tinham os bichos -
que, num mês de muitas vitórias, podiam dar a ilusão de uma vida
confortável. Mas, como sempre, a maioria ganhava mal e mesmo os maiores
nomes estavam a anos-luz dos contratos milionários, dos carros
importados e do sucesso social de que gozam hoje.
Os jogadores dos anos 50, não importava o cartaz que tivessem, levavam
vida comparativamente modesta. Zizinho, por exemplo, minutos depois de
protagonizar a maior transação do futebol brasileiro - sem receber um
centavo por ela -, tomou um lotação na Gávea até a estação das barcas na
praça Quinze. Atravessou a baía, chegou a Niterói e tomou outro lotação
para casa. Mais modesto, impossível - nem um fordeco tinha.
A esmagadora maioria dos jogadores morava na Zona Norte, na Ilha do
Governador ou em Niterói. Alguns, como Didi, moravam na praia do
Russell. E pouquíssimos em Copacabana. Em suas casas, além de aparelhos
como uma enceradeira ou um liqüidificador, os objetos de maior valor
eram os trofeus na cristaleira. A decoração típica da sala eram suas
faixas de campeão, espetadas na parede ao lado das flâmulas dos clubes
que enfrentavam no interior.
Um dos raros a ter carro era Ademir Marques de Menezes, mas nem tanto
por causa do futebol - Ademir era dono de uma fábrica de cimento, em
sociedade com um dos portugueses ricos do Vasco. Poucos jogadores tinham
conta em banco: recebiam o salário em dinheiro e o entregavam
integralmente à patroa, ficando com os bichos para suas despesas de
transporte, cigarros e birita. O ideal de muitos era comprar uma casa
para a mãe no Norte ou no subúrbio. Quando um craque se consagrava nas
manchetes e nas rádios, surgiam parentes de todo lado para tomar-lhe
dinheiro.
A profissão de jogador de futebol não era regulamentada. Não tinham
carteira profissional assinada, nem direito a férias ou a 13 salário. Os
jogadores mais previdentes procuravam uma segunda profissão além do
futebol. E sobrava tempo para isso porque eles passavam poucas horas por
dia no clube. Alguns, como o goleiro Oswaldo Baliza, abriam um armazém
de secos e molhados; outros, como Pinheiro, iam ser corretores de
imóveis. O zagueiro Píndaro, do Fluminense, tinha uma farmácia na praça
do Jóquei. Bellini, do Vasco, abriria uma sapataria em Copacabana. Havia
os jogadores que guardavam cada tostão, como Telê. Mas eram exceções.
Quase todos queimavam o que tinham e o que não tinham. O atacante Gato,
do Botafogo, fazia vales no clube para comprar vitrola, discos,
televisor - em pouco tempo teve de vender tudo para comer. Poucos
jogadores continuavam estudando: as exceções eram o zagueiro Caca, do
América, que se tornaria engenheiro, Ronald, do Botafogo, que seria
dentista, e Richard, também do Botafogo, que seria advogado.
Os 16 mil cruzeiros de Garrincha podiam ser dinheiro para um casal e
duas filhas. Mas ele tinha agora a seu encargo dois ou três irmãos,
outros tantos de Nair, tios, primos e sobrinhos dos dois lados e uma
multidão de agregados, amigos e conhecidos em Pau Grande - todos vivendo
às suas custas. Faziam de sua casa um ponto de encontro (estivesse ele
lá ou não), zeravam sua despensa, pediam-lhe dinheiro emprestado e até
bebiam no Dódi ou no Constâncio por sua conta. Quando Sandro lhe
perguntava se não o estavam explorando, Garrincha dizia que estava "tudo
certo, tudo ótimo". Sua carteira era do tamanho de seu coração.
Onde as coisas não andavam certas e muito menos ótimas era no Botafogo,
que parecia ter esquecido o seu futebol na Europa. Já não havia Dino e
Vinícius para fazer os gols. Zezé Moreira vivia às turras com Nílton
Santos ("Pare com essa mania de querer bancar o figurão!", dizia Zezé).
E Garrincha, obrigado a passar a bola para que João Carlos e Mário a
perdessem, marcara apenas três gols em 21 partidas do campeonato carioca
de 1955.
Superando o fracasso do ano anterior, o Botafogo terminou o campeonato
em sétimo lugar - atrás, agora, até do Bonsucesso!
E o Flamengo chegou ao tricampeonato, depois de uma melhor-de-três
contra o América que sacudiu o país. O Botafogo concluiu que, agora,
tinha realmente de tomar providências se não quisesse ser o lanterninha
de 1956.
E desta vez tomou mesmo: contratou Didi.
Enquanto o Botafogo caía pelas tabelas no campeonato carioca, a seleção
brasileira voltara a jogar em setembro de 1955, um ano e três meses
deNpois da derrota para a Hungria. O adversário foi o Chile, em duas
partidas pela disputa da taça O'Higgins: a primeira no Maracanã, a
segunda no Pacaembu. E, de acordo com a mentalidade jeca dos dirigentes,
a camisa podia ser uma só, a amarela, mas a seleção teve apenas
jogadores cariocas no Maracanã e paulistas no Pacaembu. Até os
treinadores foram diferentes: Zezé Moreira no Rio, Vicente Feola em São
Paulo. E Zezé convocou Garrincha para o jogo do Maracanã.
Bem ou mal, foi sua primeira convocação para a seleção - e em tudo ele
se comportou como se estivesse no Botafogo. Pensando bem, por que não? O
treinador era o mesmo do seu clube; seu colega Nílton Santos também iria
jogar; e a concentração era no mesmo hotel do Botafogo, o Paysandú. A
dois dias do jogo, quando se instalaram no hotel, Garrincha convidou o
lateral-esquerdo Jordan, do Flamengo, convocado para a reserva de Nílton
Santos, a irem tomar uma água no botequim da esquina. A esquina era a
das ruas Paissandu com Senador Vergueiro. Ao chegar, Garrincha foi
recebido pelos empregados do balcão como se eles o vissem todo dia.
"Bota duas águas aí, nossa amizade", disse Garrincha.
O empregado encheu dois copos normais para se servir água - só que com
cachaça.
Jordan não era inocente. Em todo Carnaval, saía na Mangueira. Mesmo
assim, arregalou os olhos:
"Mas isso é cachaça, Garrincha!"
Garrincha riu:
"O que você pensou que fosse?"
"Água. Cachaça eu não gosto."
"Pois eu gosto às pampas. Deixa que eu tomo a sua. Salta uma São
Lourenço aí pró meu amigo Jordan!"
Os dois voltaram para o hotel, com Jordan impressionadíssimo. Em todos
os times havia um jogador que bebia mais que os outros. No Flamengo, era
o meia-esquerda Rubens - apesar de o treinador, o paraguaio Fleitas
Solich, viver fiscalizando. Don Fleitas não gostava nem que eles
fumassem.
Rubens, aliás, começara a perder o lugar no time porque don Fleitas o
mandara apagar um cigarro e ele se recusara - e era o "doutor Rubis",
xodó da torcida do Flamengo. No Fluminense, o bebum era o goleiro
Veludo. No Vasco, o ponta-direita Sabará. Mas Jordan não sabia que, no
Botafogo, era Garrincha. Ninguém podia beber dois copos de cachaça
daquele tamanho e voltar andando para o hotel, como se tivesse tomado
Crush. Mas foi o que aconteceu.
Na estréia de Garrincha na seleção, no dia 18 de setembro, o Brasil
empatou em 1 x 1 e o gol brasileiro foi de Pinheiro, de pênalti. Para um
time que entrara em campo sem um único treino, não estava mal. Garrincha
driblou chilenos por atacado; cruzou uma bola que estranhamente rolou
sobre o travessão; e, no segundo tempo, galopou pela direita e disparou
um foguete que o grande goleiro Escutti defendeu de susto. No dia
seguinte, os jornais, como sempre, reclamaram que ele prendeu demais a
bola.
Os 16 mil cruzeiros mensais de Garrincha foram reduzidos às suas devidas
dimensões em fevereiro de 1956, quando o Botafogo comprou Didi ao
Fluminense por l milhão e 800 mil cruzeiros - 15 mil dólares. O novo
diretor de futebol do Botafogo, Renato Estelita, levou o dinheiro às
Laranjeiras numa mala estourando de abobrinhas (notas de mil cruzeiros,
o maior valor da época). Apesar da carreira de zeros, o preço do passe
de Didi saíra bem em conta para o clube, porque o Fluminense estava
louco para livrarse dele. O que deixou o Brasil pasmo foi o salário que
Didi pediu e que o Botafogo lhe deu: 70 mil cruzeiros - cerca de 650
dólares. Dinheiro à beça em qualquer parte do mundo. Fora os bichos.
Ninguém achava que Didi merecesse menos. Mas ele era problemático, pelo
menos para o Fluminense. Em 1952, um ano depois de ser campeão pelo
tricolor, largara mulher e filho para casar-se com a morena Guiomar, uma
baiana escultural, ex-cantora de rádio e por quem dizia-se que Ary
Barroso era apaixonado. Dizia-se também que Ary escrevera o samba
"Risque", grande sucesso daquele ano ("Risque/ Meu nome do teu
caderno..."), quando Guiomar fora viver com Didi. Se é verdade que eles
competiram por ela, Ary não tinha a mínima chance: podia ser o génio de
"Aquarela do Brasil", mas era velho, feio e ranzinza. Ao passo que Didi
era bonito como Billy Eckstine e charmoso como Nat "King" Cole, além de,
aos 24 anos, já ser o grande Didi - e saber disso. Houve escândalo em
torno da pensão que Didi se recusava a pagar à ex-mulher, com advogados
estrilando de parte a parte e manchetes nas páginas policiais. O
Fluminense não gostava dessas coisas sob o querido pavilhão.
Os torcedores do Fluminense admiravam Didi, mas não o amavam. O tricolor
fora campeão carioca em 1951 graças aos seus gols e aos seus passes, mas
a torcida só tinha olhos para Castilho, Telê, Carlyle e Orlando "Pingo
de Ouro". E nem imaginava que o sonho de Didi era ser aceito pelo
Fluminense. Para isso, até passava talco no rosto - para ficar menos
azul. E todos os jogadores tinham o direito de errar, menos ele. Num
incrível Fluminense x Madureira em Álvaro Chaves, o Fluminense estava
ganhando por 3X0, deixou que o Madureira chegasse a 3X3 e Didi perdeu
dois pênaltis. Ouviu-se o rumor de facas entre os torcedores que queriam
entrar em campo para justiçá-lo.
Didi vivia às turras com o clube. Um dos motivos era a pensão de sua
ex-mulher, que o Fluminense descontava direto do seu salário, como
mandava a lei. Outro motivo era o de que Didi fazia questão de entrar
pelo portão social do clube, vedado aos atletas, brancos ou negros. E,
finalmente, o Fluminense não deixava que os jogadores telefonassem da
concentração - onde, como era de praxe na época, só havia um número e um
aparelho. Se quisessem telefonar, que fossem ao botequim do português
ali perto. Mas, como não podiam sair da concentração, também não podiam
telefonar. Certo dia de 1955, em que Guiomar estava para ter neném,
impediram que Didi ligasse para casa. Ele saiu para telefonar da rua e
não voltou.
No campeonato carioca daquele ano, o Fluminense foi surrado pelo
Flamengo por 6X1, num jogo em que se dizia que o goleiro Veludo tomara
algumas a mais pouco antes. Didi saiu revoltado dizendo, "Eu não sou
palhaço". Queria ir embora do clube e ameaçou que, se o Fluminense não o
liberasse, fugiria com Guiomar para a Bahia, iria plantar cacau e
abandonaria o futebol. Por sorte, isto não precisou acontecer: o
Botafogo bateu às portas de seu grande benemérito Ademar Bebiano e,
graças ao seu aval e fundos no banco, levou Didi para General Severiano.
Era o único jogador brasileiro cuja vida particular era tão pública
tanto o que ele fazia em campo. Todos sabiam que se chamava Waldir
Pereira, que sua mulher era Guiomar, e até o nome de sua filhinha,
Rebecca. Sabiam também que Guiomar interferia no rendimento de Didi. Se
o clube o tratasse bem, estava tudo azul com bolinhas cor-de-rosa. Mas,
se ela sentisse que o prejudicavam, enchia-lhe tanto a cabeça que ele
sumia em campo. Se havia um jogador que precisava estar com a psique em
ordem era Didi, porque seus pés jogavam a serviço de seu cérebro. No
Botafogo, Didi esperava ter paz para mostrar que não havia ninguém como
ele.
Com sua voz bonita, parecida com a do locutor Luiz Jatobá e levemente
pachola, ele caprichava na escolha das palavras. Não chamava a bola de
bola, mas de "menina". Orgulhava-se de nunca ter pisado nela com as
travas da chuteira - era como se jogasse de polainas. Quando entrava em
campo, observava como este ou aquele adversário suspirava de admiração e
o namorava com os olhos. Didi decidia: "Esse é meu fã. É para cima dele
que eu vou". Reinava no gramado com seu porte alto, ereto, os olhos à
altura da linha do horizonte. Nunca punha a cabeça na bola - a cabeça
fora feita para pensar, não para dar marradas. E, embora fosse um mestre
do drible, só driblava em último recurso. Seu forte eram os passes de
quarenta metros, de curva, que pareciam ir em direção à cabeça do
adversário e se desviavam, caindo de colher para o companheiro.
Didi aplicava o mesmo princípio na sua grande especialidade: as faltas
de fora da área, que ele batia com afolha-seca. O nome provinha do jeito
de a bola parecer ir na direção do goleiro e, de repente, mudar de
trajetória e 'descair mansamente na rede, como uma folha seca caindo da
árvore. Para Didi, cobrar uma falta era resolver um problema de
geometria ou física: às vezes batia em cima do goleiro, para que a bola
fizesse a curva um metro antes de chegar a ele. Ou, depois de observar a
força e a direção do vento, batia a um metro do gol, sabendo que o vento
levaria a bola para dentro.
Nada disso era fruto exclusivo de um dom divino. Assim como um pianista
ensaia todo dia, Didi ficava treinando passes e cobranças muito depois
que seus colegas já tinham ido embora. Fazia uma alça de arame num
paralelepípedo e passava uma hora levantando-o com o pé, para fortalecer
o tornozelo. E, pela sua maneira de bater na bola, mudava a unha do
dedão do pé direito a cada 45 dias - a unha velha ficava roxa, caía e
nascia uma nova por baixo.
Calçava 41, mas, no pé direito, usava uma chuteira velha, tamanho 40,
que tivesse pertencido a um jogador canhoto. Depois de usada pelo
companheiro, essa chuteira estaria macia e pouco machucada. No pé de
Didi, ficava aderente como uma luva, realçando a unha que ele usava para
cortar a bola, chutando como se lhe desse uma navalhada bem no gomo
central. Podia também bater "de calo" ou "de joanete", como dizia. Só o
destino da bola era quase infalível: o pé do companheiro ou a rede do
adversário. E, de passagem, fora ele também o inventor da paradinha ao
cobrar um pênalti.
Antes de comprar Didi, o Botafogo dispunha de um craque, Nílton Santos,
e de um jogador doidinho, que era Garrincha. Os vexames sucessivos em
todos os campeonatos desde 1948 tinham levado Nílton Santos a
classificar o Botafogo como "o time que Deus esqueceu". Para Carlito
Rocha essa frase era a de um herege - mas ninguém mais que Nílton Santos
estava farto daquela história de amarrar cortinas ou comer rapaduras
para ganhar jogos. Tais superstições ofendiam a sua inteligência. E sua
impaciência começava a ficar evidente.
No campeonato de 1955, no vestiário, depois de mais uma derrota, Zezé
Moreira estava dando a habitual bronca no time. Nílton Santos, já de
banho tomado e calçando as meias, assoviava baixinho. Um novato ousou
repreendê-lo, cochichando:
"O que é isso? Seu Zezé está falando!"
E Nílton Santos, passando o pente no cabelo e sem se importar se o
estavam ouvindo ou deixando de ouvir:
"Ah, todo domingo é essa xaropada!"
Mesmo com Didi, o Botafogo não foi o campeão carioca de 1956 - que seria
o Vasco, impedindo o tetra do Flamengo. Mas terminaria o campeonato em
terceiro lugar, boa colocação se comparada com as anteriores. E
aproveitaria aquele ano para, aos poucos, armar o esquadrão que, a
partir de 1957, seria a base da seleção brasileira.
A conseqüência mais imediata da contratação de Didi foi que, com seus 70
mil cruzeiros por mês, os salários de Nílton Santos e Garrincha
pareceram humilhantemente mixos. O Botafogo teve de reajustá-los. Nílton
Santos saltou para quase 30 mil.
E Garrincha passou de 16 mil para 18 mil.
Passarinhos em pânico

Capítulo 6

1956-1957

GARRINCHA EM FORMA DE CRISÁLIDA

Assim que o Botafogo chegou ao hotel em Antuérpia, na Bélgica, para o
primeiro jogo da excursão de 1956, Garrincha foi tomar um banho. Levou
para o banheiro sua vitrolinha Bel-Air portátil e discos de Ângela Maria
e Xavier Cugat. Gostava de cantar com os discos ao ensaboar-se. Encheu a
banheira e, enquanto entrava na água aos pouquinhos para acostumar-se à
temperatura, pôs para tocar o disco de "Babalu", com Ângela Maria. De
repente, em vez de "Babalu", Garrincha sentiu cheiro de queimado e ouviu
ruídos de estalos, como se alguém estivesse fritando baratas. Um rolo de
fumaça preta saía da vitrolinha. Quase teve uma coisa. Emergiu de um
salto, arrancou a Bel-Air da tomada e atirou-a dentro da banheira,
"Babalu" e Ângela Maria inclusive. Ninguém lhe informara que a voltagem
costuma ser diferente em certos países. E, com isso, ficou sem seus
sambas e mambos pelo resto da viagem.
Era a segunda grande temporada consecutiva do Botafogo na Europa. Dessa
vez foram três meses completos fora do Brasil, de fins de março a fins
de junho de 1956. O Botafogo jogou 22 partidas na Bélgica, Inglaterra,
França, Espanha, Holanda e Hungria, vencendo dezesseis, empatando três e
perdendo três. Os resultados em campo foram sensacionais, porque o
Botafogo enfrentou times de primeira, como o Fulham United de Londres, o
Racing de Paris, o Honved (para o qual perdeu) e o Barcelona, entre
outros.
Mas o mais impressionante da excursão foi a própria maratona: em noventa
dias, o Botafogo fez e desfez malas em 45 cidades, quatro ou cinco vezes
em algumas delas, como Paris, Madri e Barcelona, num total de quase
sessenta hotéis, aeroportos, gares e portos. Os jogadores mal tinham
tempo de tirar "A furiosa" para vestir o uniforme do jogo.
"A furiosa" era como os jogadores chamavam o uniforme civil. Era um
terno azul-marinho com calça escura, o escudo com a estrela costurado ao
bolso do paletó e as palavras BOTAFOGO F. R. - BRASIL bordadas em cima e
embaixo do escudo. Quando um jogador se extraviava nas ruas de Nuremberg
ou Düsseldorf, era fácil capturá-lo de volta por causa da "Furiosa". O
Botafogo só não contava com o frio da primavera européia e não levou
camisas de mangas compridas para jogar. Com isso, o dirigente Renato
Estelita, que viajara com o time, teve de improvisar: comprou ceroulas
brancas para os jogadores, sobre as quais eles vestiram o velho uniforme
alvinegro de gola em v e mangas curtas. Podia não fazer o gosto do
príncipe de Gales, mas impedia o time de tiritar.
O histórico policial do time na Europa ia muito bem - até o último jogo.
Botafogo 2X0 Barcelona, no dia 23 de junho, foi palco de uma das maiores
brigas já vistas na Catalunha desde a guerra civil. Os 22 jogadores,
mais os reservas, técnicos, massagistas e dirigentes dos dois clubes se
pegaram em campo e foram todos expulsos e presos por provocar
"distúrbio". O chefe da delegação do Botafogo, o empresário João Citro,
dono das Óticas Lux, correu à delegacia para protestar em portunhol e
foi também prontamente engaiolado. O time passou algumas horas no
cárcere até ser libertado pela intervenção do cônsul brasileiro em
Barcelona, Lauro Muller, botafoguense histórico e ex-craque do clube.
As excursões à Europa na segunda metade dos anos 50 foram decisivas para
civilizar muitos jogadores brasileiros. Até então, eles davam
gargalhadas quando viam em Manchete Esportiva as fotos de jogadores
russos ou tchecos nus, no chuveiro, beijando-se na boca para comemorar
uma vitória. E não adiantava dizer-lhes que era um costume local, tão
inocente quanto a pirâmide humana que os nossos faziam depois de um gol.
Ao ver aqueles chupões entre barbados, o comentário era inevitável:
"Fanchonos!"
Tempos depois, ao enfrentar os fanchonos na casa deles, ficavam muito
surpresos ao descobrir que os ditos eram tão machos e viris quanto o
 regulamento exigia. Talvez mais - porque jogavam no inverno,
chapinhando na neve e na lama sob a tolerante arbitragem européia, a
qual deixava passar trancos e esbarrões que, aqui, eram apitados como
faltas.
A ignorância do brasileiro sobre o futebol europeu era completa. Não
havia intercâmbio. Era raríssimo que um time espanhol, italiano ou
inglês viesse jogar no Maracanã ou no Pacaembu. Os de primeira linha,
como o Real Madrid, a Fiorentina ou o Manchester United, esses é que não
vinham nunca. E, até então, os times brasileiros pouco excursionavam,
exceto pelo quintal latino-americano. Quanto à seleção brasileira,
acredite ou não: em quarenta anos de existência, nunca tinha ido à
Europa que não fosse para a Copa do Mundo.
Em abril de 1956, o Brasil quebrou esse jejum e partiu, pela primeira
vez, para uma temporada de amistosos contra seleções européias. O
treinador era Flávio Costa, exumado especialmente para a ocasião. Foi
quase um calvário bíblico: em trinta dias a seleção venceu três partidas
jogando mal (Portugal, Áustria e Turquia); empatou duas (Suíça e
Tchecoslováquia); e sofreu as acachapantes derrotas de 3X0 para a Itália
e 4X2 para a Inglaterra. Nesta última, em Wembley, Gilmar defendeu dois
pênaltis e Nílton Santos, no vigor de seus 31 anos, perdeu o duelo para
o lendário ponta inglês Stanley Matthews - de 41!
Na volta da seleção, houve quem apostasse o emprego, a casa e a sogra em
que o Brasil jamais seria campeão do mundo. A velha desculpa dos
paredros, indefectível na volta das Copas, "Fomos para aprender", não
convenceu ninguém. O Brasil não aprenderia nunca - éramos uns
vira-latas, tínhamos medo dos europeus e até dos argentinos e uruguaios.
Garrincha não estava naquela seleção de 1956. Para a ponta direita,
Flávio Costa convocara Paulinho, do Flamengo, que jogava em várias
posições do ataque, e Sabará, do Vasco. Mas Sabará caíra em desgraça
junto à seleção durante a viagem. Em Londres, às vésperas do jogo contra
a Inglaterra, o Brasil voltava de um treino em Wembley quando todo mundo
foi ordenado a descer do ônibus: a seleção iria participar de uma
homenagem ao soldado desconhecido, ao lado de diplomatas ingleses e
brasileiros. Sabará, como os outros jogadores, estava suado, sujo e de
macacão de treinamento. Mas, pelo visto, era o único de chinelos. Teve
de descer assim mesmo. As autoridades britânicas tossiram discretamente
ao ver aquele homem postar-se sobre os túmulos dos heróis sem o calçado
protocolar. Os homens da seleção perceberam a gafe e Sabará acabou
marginalizado por violar a etiqueta do soldado desconhecido. Nem jogou
contra a Inglaterra.
Garrincha estava na Europa naquela mesma época, mas com o Botafogo na
excursão. Quando a seleção tomou o avião de volta para o Brasil, Didi e
Nílton Santos desgarraram-se dela e foram juntar-se ao Botafogo na
Espanha. Didi, recém-comprado, já fizera alguns amistosos pelo time no
Brasil. Mas seria ali, na Europa, que ele conheceria as venturas e
desventuras de ter Garrincha como companheiro de clube.
No primeiro jogo, contra o Rott Weiss, em Essen, na Alemanha, Didi
esticou uma bola limpa para Garrincha, quase na linha de fundo.
Garrincha não tinha ninguém para combatê- lo. Era só cruzar ou, se
quisesse, desfilar sozinho até a área, jogando beijos para a torcida.
Mas, de propósito, pisou na bola e esperou seu marcador chegar - apenas
para ter o prazer de driblá-lo. E, quando cruzou, a área já se tornara
um bunker, com mais alemães por metro quadrado que na Alexanderplatz, em
Berlim. Didi sabia que Garrincha tinha essa mania, porque já o
enfrentara algumas vezes quando jogava pelo Fluminense. Mas não sabia o
grau daquela obsessão. Em vários momentos do jogo, gritou com ele para
soltar a "menina". Garrincha fingia não escutá-lo e continuava
driblando. Soltava a bola apenas quando se dava por satisfeito, e só
então perguntava a Didi:
"O que você estava dizendo?"
Fora de campo, Garrincha tomava liberdades com Didi que nunca tomaria
com Nílton Santos. Beliscava suas bochechas com as duas mãos e as
sacudia, ou avançava com a mão sobre sua calça para tentar tocar em seu
pênis. Nesses momentos Didi fechava-se como um canivete e se irritava
com Garrincha.
"Pára com isso, Mané. Eu não sou moleque", dizia com sua voz de Luiz
Jatobá.
Garrincha pedia desculpa e, quando Didi se distraía, investia de novo
sobre suas bochechas e virilhas. Didi acabava achando graça. Alguns
jogadores não sabiam o que dizer. No começo, tinham tanto respeito por
Didi que só faltavam chamá-lo de senhor. E Garrincha o tratava com a
maior jovialidade por "Crioulo" - como se intuísse que, por trás daquele
porte de senador, a seriedade grave de Didi não era nem tão séria, nem
tão grave. Para Garrincha, o mundo tinha um furo nas calças e não
percebia.
Didi também aprendeu cedo a lidar com Garrincha. Observou que seu
rendimento nos jogos era irregular: tanto podia ganhar um jogo sozinho
quanto ausentar-se da partida. Havia jogos em que Garrincha não se mexia
em campo e fixava um olhar zen em direção ao espaço, como se sua cabeça
estivesse a quilómetros de suas pernas. Didi percebeu que era possível
saber no vestiário, antes do jogo, como Garrincha se comportaria. Se
estivesse dando umas corridinhas para lá e para cá a fim de aquecer-se,
era sinal de que estava com a cachorra e ia jogar tudo que sabia. Mas se
se deixasse ficar no banco pensando na morte da bezerra, tirasse
pachorrentamente um sapato e, muito depois, uma meia, era porque não ia
querer nada com a bola.
Didi então o provocava:
"Já ouviu o que os homens estão dizendo, Mané?"
"Não, crioulo. [Bocejo] O que é?"
"Que você já foi bom, mas hoje é bananeira que já deu cacho. E que, se
não fosse a chegada do Waldir Pereira ao Botafogo para fazer aqueles
lançamentos, os outros não iam ver a bola."
"Ah, é? Tão dizendo isso? Quem tá dizendo?"
"Quem não interessa. Eu, se fosse você, calava a boca do povo."
"Deixa estar. Hoje vai ser aquela água."
Vestia logo o uniforme, dava as corridinhas pelo túnel, entrava em campo
e era aquela água.
Aos 21 minutos do primeiro tempo, na noite de 7 de fevereiro de 1957,
Garrincha, na ponta esquerda, recebeu um cruzamento de Evaristo. Deixou
dois húngaros sentados, entrou na área do Honved, trocou do pé esquerdo
para o direito e fuzilou o goleiro Farago. No instante em que a torcida
explodiu o grito de gol e o juiz Mário Vianna apontou o centro do campo,
todas as luzes do Maracanã se apagaram. E assim ficaram durante nove
minutos.
O gol de Garrincha seria o primeiro da goleada de 6X2 que um combinado
Botafogo-Flamengo - escalado às pressas no vestiário pelo novo treinador
botafoguense Geninho e pelo rubro-negro Eleitas Solich - aplicaria no
Honved. O qual ainda era um dos dois ou três maiores times do mundo (os
outros sendo o Real Madrid e o argentino Ri ver Plate). Foi simbólico
que um curto-circuito mergulhasse o estádio na escuridão depois do gol
de Garrincha. Era o fim de uma era. Ao terminar aquela partida, que
seria a última da temporada do Honved no Brasil, simplesmente não
haveria mais Honved. Pelo menos, não o Honved de Puskas, Boszik, Kocsis,
Czibor, Budai, Sandor, sinónimos do grande escrete húngaro. O futebol
húngaro também nunca mais seria o mesmo - até hoje.
O Honved era, naquele momento, um time de futebol envolvido num drama
político que comovia o mundo. Começara poucos meses antes, em outubro de
1956, quando uma revolta popular balançara o regime comunista na
Hungria. O líder liberal Imre Nagy tomara o poder, dera uma banana para
a URSS e retirara o país do Pacto de Varsóvia. O povo cantava nas ruas.
A URSS, naturalmente, não gostou nem um pouco. Em novembro, assim que se
recuperou do choque, entrou de sola sobre o seu satélite. Seus tanques
invadiram Budapeste, Nagy foi preso (depois enforcado) e começou a
repressão. Os democratas húngaros resistiram durante semanas até serem
esmagados. O Honved estava excursionando pela Europa durante a confusão.
Na própria noite da invasão soviética, jogava na Suíça contra um clube
espanhol.
O Honved era, supostamente, o time do exército húngaro (honved significa
"exército"). Puskas, Bozsik e Kocsis eram majores, Czibor capitão e os
outros também eram oficiais - todos de araque, porque mal sabiam bater
continência. Eram os maiores craques de seu tempo, mas, na condição de
militares, tinham de continuar amadores. Enquanto o Honved cobrava 10
mil dólares por partida, cada jogador recebia míseros oito dólares por
vitória. E os clubes europeus viviam fazendo-lhes propostas milionárias
para contratá-los. Na noite da invasão, os jogadores comunicaram a seu
empresário, o também húngaro Emil Osterreicher, que não voltariam para
Budapeste. Tornaram-se refugiados políticos. Osterreicher estava na
mesma situação. Com seus contatos na Europa, o Honved seria um time
errante, tendo todos os gramados do Ocidente como pátria.
A Federação Húngara exigiu da FIFA que proibisse o Honved de jogar e
que, em caso de desrespeito, punisse quem jogasse contra ele. Acontece
que o Honved já tinha um contrato assinado com o Flamengo para uma série
de jogos no Brasil e queria cumpri-lo. O Flamengo também queria.
Os húngaros desembarcaram no Rio no dia 14 de janeiro de 1957. A FIFA,
presidida pelo inglês Arthur Drewry, avisou que, se Flamengo e Honved
entrassem em campo, o Brasil estaria fora da Copa do Mundo de 1958 na
Suécia e o Flamengo banido do futebol. Enquanto isso, os soviéticos
ameaçavam os jogadores de que, se não voltassem para a Hungria, seus
pais e esposas em Budapeste teriam as unhas arrancadas. Houve pressões
de todos os lados, inclusive da CBD, presidida por Sílvio Pacheco, para
que o Flamengo rasgasse o contrato. O Flamengo disse nada feito e
convidou seus co-irmãos a também enfrentar o Honved, para criar uma
situação de fato. Mas o Vasco, o Santos e os outros não foram
solidários. Só o Botafogo aceitou.
Acabou prevalecendo a noção, defendida pelo presidente rubro-negro José
Alves de Moraes, de que a CBD não era responsável pelos atos do Flamengo
e que o contrato fora assinado antes que a FIFA pusesse o Honved na
ilegalidade. A FIFA reconsiderou - aliás, estava louca para fazer isso -
e, assim, os húngaros jogaram cinco partidas contra o Flamengo e o
Botafogo nos 26 dias que passaram aqui - das quais saiu uma enxurrada de
gols que já não se julgava possível no futebol.
Os escores eram uma festa: Flamengo 6X4 Honved (19/1/1957), Honved 4X2
Botafogo (23/1), Honved 6X4 Flamengo (27/1), Honved 3X2 Flamengo (2/2) e
combinado Botafogo-Flamengo 6X2 Honved (7/2) - todos os jogos no
Maracanã, exceto o terceiro, que foi no Pacaembu. Nos cinco jogos foram
marcados 41 gols. O Honved tomou 22, mas fez dezenove. Média de gols por
jogo: 8,2!
Dias depois, o Honved despediu-se do Rio e reuniu-se com o ministro de
Esportes da Hungria em Viena, Áustria. O ministro prometeu-lhes que, se
voltassem para Budapeste, "nada lhes aconteceria". Mas a maioria dos
jogadores preferiu o exílio, juntando-se aos outros 160 mil húngaros que
já tinham fugido do país. Puskas, Czibor e Kocsis, todos com cerca de
trinta anos, foram alguns deles. A FIFA suspendeu-os por um ano. Eles
cumpriram a pena - e, em 1958, Puskas foi para a galáxia do Real Madrid,
Czibor e Kocsis para a do Barcelona.
O combinado Botafogo-Flamengo, de camisa vermelha e gola branca, era, a
rigor, o Botafogo enxertado por quatro jogadores do Flamengo. Mas o
ataque armado por Geninho e Solich fora um dos maiores que o Rio já vira
jogar: Paulinho (do Flamengo), Didi, Evaristo, Dida e Garrincha. Sem um
único treino, esses homens entenderam-se em campo como os próprios
húngaros faziam no tempo em que assombravam o planeta. Em termos de
futebol mundial, era um indício - depois da desastrosa excursão da
seleção à Europa em 1956 - de que o Brasil não precisava temer
bichos-papões. E, de certa forma, estava vingada a derrota para a
Hungria em 1954.
Como sempre, os ressentidos procuraram diminuir as vitórias brasileiras.
Disseram que aquele não era o verdadeiro Honved, mas um Honved no
bagaço, uma caricatura do grande escrete húngaro. Disseram que Puskas
era sósia de Shemp, um dos Três Patetas (realmente eram parecidos). Que
os húngaros, hospedados no hotel Glória, tinham se esbaldado em noitadas
de samba, cerveja e mulatas desde que puseram os pés no Rio. E que até o
Canto do Rio ganharia deles.
Será? Bem, o Honved vencera três das cinco partidas. E os ressentidos
esqueciam-se de que, no combinado Botafogo-Flamengo - praticamente
laçado na rua para entrar em campo aquela noite -, a população boémia
não era muito menor. Só no ataque havia três que, quando soltos, garrafa
cheia não queriam ver sobrar: Paulinho, Dida e Garrincha. Geninho, o
principal treinador do combinado, sabia disso. E sabia também que não se
escala um time pelos critérios do Exército da Salvação.
Geninho era um homem do mundo. Lutara na guerra com a FEB (Força
Expedicionária Brasileira) e dizia-se que, quando um teco-teco
sobrevoava o céu de General Severiano, atirava-se ao chão e cobria a
cabeça pensando estar de novo na batalha de monte Castelo. É verdade que
ninguém nunca vira Geninho fazer isso. Mas ficava bem ao folclore do
Botafogo ter um treinador neurótico de guerra. Na carteira de
identidade, chamava-se Ephygenio de Freitas Bahiense. Depois de
dezesseis anos como meia-armador do Botafogo, pendurara as chuteiras em
1955, diplomara-se como treinador e começara sua nova carreira nos
juvenis do próprio Botafogo. Com a saída de Zezé Moreira em meio ao
campeonato carioca de 1956, assumira o time principal. Os velhos
botafoguenses viam-no passar e comentavam com admiração: "É um baluarte
do clube".
Na sua condição de ex-jogador até outro dia, Geninho devia conhecer
todos os truques de Garrincha para não aparecer no clube ou biritar
durante a concentração. Principalmente porque, com Juvenal, Carlyle,
Araty e outros, ele próprio fora companheiro e cúmplice das primeiras
escapadas boémias de Garrincha no Botafogo. Além disso, era investigador
da Polícia Civil. Sabia, por exemplo, que, quando Garrincha perdia o
último trem para Raiz da Serra, ficava bebericando na Leopoldina até ser
apanhado por Cabrita, um chofer de táxi ligado ao bicheiro Raul
"Capitão". Cabrita fazia ponto ali e o levava para Pau Grande, a mil
cruzeiros a corrida. Geninho sabia também que, quando Cabrita não
aparecia, Garrincha passava a noite no Rio mesmo - só não se sabia onde
- e, no dia seguinte, dizia que havia dormido no apartamento de
Neivaldo. Mas Geninho, como Gentil e Zezé, também era fácil de tapear.
Mesmo porque, às vezes, Garrincha dormia de fato no apartamento de
Neivaldo, no Leme. Neivaldo era seu reserva na ponta direita. Tinha
futebol para ser titular na maioria dos outros clubes, mas preferia ser
reserva de Garrincha - o que efetivamente foi, do dia em que chegou ao
Botafogo, em março de 1954, até quando pediu para ser vendido, nove anos
depois. Apesar disso, os dois jogaram muitas vezes no mesmo ataque:
Neivaldo na ponta e Garrincha deslocado para a meia, substituindo algum
companheiro.
Neivaldo morava com a mãe e as irmãs num apartamento térreo na rua
Anchieta, 16, ao lado do Leme Palace. Gostava de cantar e tocar violão,
mas era de dormir cedo e se cuidar. Garrincha aparecia de madrugada e,
da calçada, dava umas pancadinhas na janela para acordar Neivaldo. Na
primeira vez, Neivaldo ainda se assustou:
"Ué, Mané, que que houve?"
"Nada, Neivaldo. Perdi o trem. Tem uma cama sobrando aí?"
Das vezes seguintes, que foram muitas, Garrincha apenas dava as
pancadinhas na janela. Neivaldo a abria e Garrincha entrava pela janela
mesmo - quase sempre carregando uma garrafa de vinho tinto Telefone já
pela metade. Neivaldo puxava um colchão de debaixo da cama e o instalava
em seu quarto. Garrincha acabava de drenar o pavoroso vinho e dormia
pesado, de cueca. Na manhã seguinte, acordava em grande forma.
Sentava-se à mesa com Neivaldo e suas irmãs e devorava o mingau de fubá
com gema de ovo preparado pela mãe de Neivaldo, dona Brasilina, que ele
chamava de dona Brasa.
Até essa época, Garrincha raramente trazia Nair ao Rio. Não tinha o que
fazer com ela aqui, não sabia aonde levá-la e ele próprio preferia
passar em Pau Grande as suas horas fora do Botafogo. Mas, a partir de
1957, algo começou a acontecer. Tomar aquele trem todas as noites estava
se tornando um suplício.
Garrincha começou a arrastar Nair ao Rio e entregá-la à mãe e às irmãs
de Neivaldo para que a levassem a fazer compras - panelas no Dragão da
rua Larga, sapatos na Insinuante, quinquilharias nas Lojas Americanas,
tudo que havia de fino no Rio e que não existia em Pau Grande. E mais de
uma vez comentou com Neivaldo que, por ele, Nair e suas filhas sairiam
da roça e viriam morar no Rio. Ele alugaria um apartamento perto do
Botafogo e de um bom colégio para que, quando chegasse a época, as
meninas estudassem e virassem gente.
Meninas que, aliás, já eram quatro: Marinete nascera em 1956 e, agora,
Juraciara acabara de chegar. Nair até pedira demissão da fábrica para
ser mãe em tempo integral. Garrincha não estava sonhando no vazio. O
Botafogo não lhe pagava grande coisa - 30 mil cruzeiros, pelo último
contrato -, mas, com os bichos, que eram muitos, nada os impediria de
levar uma boa vida no Rio. Ao trazer Nair para passear queria que ela
fosse se acostumando à cidade grande.
Se Garrincha chegou a insistir sobre esse assunto com Nair, Neivaldo
nunca ficou sabendo. Mas era evidente que ela nunca sairia de Pau
Grande. Carros, elevadores, lojas iluminadas, tudo a assustava e a
confundia. Quando um balconista de gravata e fita métrica ao pescoço
dirigia-se a ela, percebia-se o seu rubor sob a pele cor de chocolate.
Nair sentia-se tão à vontade no Rio quanto Luz dei Fuego sentir-se-ia
como modelo da Socila.
E, assim, Nair não veio morar no Rio. Pode não ter havido nenhuma
relação entre as duas coisas - mas, se Nair não quis vir, Garrincha
trouxe sua outra namorada de juventude: Iraci.
A larva Garrincha já estava em forma de crisálida. Ou talvez ele
quisesse apenas manter uma espécie de segundo lar no Rio, com uma
mulherzinha bonita e carinhosa para acariciar-lhe os pés depois de uma
partida. Talvez não quisesse voltar todas as noites para Pau Grande.
Seja como for, Garrincha estava cumprindo a promessa que fizera a Iraci
cinco anos antes: se não podia casar com ela, daria um jeito de ficarem
juntos.
Durante todo esse tempo, Garrincha continuara a ver Iraci em Pau Grande
e ela nunca se queixara por ser a outra em sua vida. Mas ele sentia que
a situação estava ficando esquerda para Iraci num lugar tão pequeno. As
amigas de Nair olhavam-na com desprezo e ele não achava aquilo justo. Em
fins de 1957, Garrincha mandou Iraci sair da fábrica e a trouxe para
o Rio.
Instalou-a num apartamento que alugou na rua Gomes Carneiro, 84, em
Ipanema: um sala- e-dois-quartos num edifício novo, que equipou com
telefone, fogão, geladeira, radiovitrola, móveis da rua do Catete, tudo
de que ela precisava. Garantiu-lhe que ela não precisaria trabalhar e
que nada lhe faltaria. E não faltou mesmo. Tudo era pago com o dinheiro
que ele trazia do Botafogo dentro de um saco de padaria.
Garrincha despejava o saco na mesa, separava um bolo de notas e
perguntava:
"Amor, você acha que isso dá?"
Era o dinheiro para o aluguel, gás, luz, água, telefone e Peg-Pag. Iraci
era organizada: sabia por alto a quanto montavam suas despesas. Tirava o
suficiente e procurava não abusar. Quando o dinheiro se espalhava sobre
a mesa, ela via as notas que pareciam dólar e outras moedas esquisitas
misturadas aos cruzeiros. Comentou sobre isso com sua vizinha de
apartamento, Linda Batista, a grande cantora de "Vingança", "Risque" e
outros clássicos da dor-de-cotovelo. Linda foi direta:
"Você é uma pamonha. Precisa aprender a ter malícia. Um dia ele vai
embora e te deixa na mão. É preciso aproveitar agora."
Linda devia saber. Em seu apogeu, nos anos 40, tivera casos com Getúlio
Vargas, Orson Welles e o príncipe Ali Kahn. Não soubera guardar dinheiro
e agora estava ali, num dois- quartos parecido com o de Iraci.
Mas Iraci sentia que não precisava abusar. Garrincha deixava-lhe o
dinheiro das despesas e esquecia outro tanto pela casa. Visitava-a duas
ou três vezes por semana, às vezes mais, e dormia lá, dependendo dos
jogos. Quando sabia que o Botafogo ia partir numa excursão e ficar dois
meses fora, deixava-lhe ainda mais dinheiro. E, se ela ficasse doente ou
precisasse de alguma coisa na ausência dele, instruía-a a que fosse ao
Botafogo e procurasse o dr. Renê Mendonça, médico do clube. Na volta da
excursão, Garrincha trazia-lhe o rádio e os perfumes de sempre, daqueles
bem fortes e doces, de difícil convivência em elevadores. Se a excursão
tivesse sido pela Europa, o perfume era o francês Ma Griffe; se pelas
Américas, o argentino Chambre. Para ele, trazia Lancaster, também
argentino.
Iraci era incomparavelmente mais despachada que Nair, mas Garrincha
achava que ela ainda precisava evoluir. Ensinou-a a fumar, argumentando:
"Mulher, pra ser charmosa, tem de fumar."
Como ele fumava Continental, ela adotou essa marca. Garrincha não a
deixava cozinhar para ele. Quando ia para o apartamento depois do
treino, saíam para jantar em algum restaurante mais obscuro no Arpoador.
Ou pegavam um táxi e iam bem longe, ao Bar dos Pescadores, na Barra. Mas
Garrincha sempre tomava cuidado para não ser visto em público com ela.
E não era por causa de Nair - porque Nair sabia do que estava
acontecendo. Quando descobriu que Iraci fora embora de Pau Grande e
quando viu que Garrincha já não voltava toda noite para casa, não lhe
foi difícil deduzir que ele a estava sustentando no Rio.
Nair o interpelou e ele confirmou:
"Você não quis me acompanhar. Agora agüente."
Mas tranqüilizou-a prometendo que não sairia de casa, nem de Pau Grande.
Se ela o deixasse viver sua vida, tudo continuaria bem. Nair, sem opção,
teve de concordar.
A preocupação de Garrincha em ser visto com Iraci era a imprensa. Achava
que, se os jornais descobrissem, poderiam explorar o caso e ninguém
tinha nada com aquilo. Iraci, às vezes, ia esperá-lo na porta do
Botafogo, mas isso não chamava a atenção - quase todos os jogadores
tinham um elenco de fãs, fixas ou rotativas, a postos na saída do clube.
Iraci não levava uma vida das mais emocionantes no Rio. Seu dia
consistia em ir à feira ou ao mercadinho, conversar com Linda Batista,
ouvir as novelas da rádio Nacional e esperar de baby-doll pela chegada
de Garrincha. Nem à praia se aventurava, embora morasse a dois
quarteirões do Castelinho.
Em maio de 1957, quando o Botafogo anunciou que seu novo treinador
chamava-se João Saldanha, houve quem perguntasse: "Qual João Saldanha?".
Não que houvesse uma multidão de joões saldanhas na praça do Rio de
Janeiro. Mas, para as pessoas que só acompanhavam o futebol pelos
jornais, seu nome era tão popular quanto o de Giorgy Valentinovich
Plekhanov, um teórico marxista russo de quem nunca tinham ouvido falar.
O gaúcho Saldanha só era conhecido em certas rodas selecionadas: no
botequim do Osmar, na rua Miguel Lemos, onde se discutia futebol e de
onde saíam as piadas políticas que depois corriam o Brasil; na areia do
Posto 4, em Copacabana, onde fora um dos primeiros craques do futebol de
praia ao lado de Heleno de Freitas; e, obviamente, dentro do Botafogo,
que freqüentava como sócio desde que viera para o Rio com sua família em
1931.
Seu pai, Gaspar Saldanha, deputado e fazendeiro rico no Rio Grande do
Sul, fora um dos articuladores militares de Getúlio Vargas na Revolução
de 1930. Getúlio ficara tão grato a Gaspar que o premiara com
apartamentos no Rio e um cartório em Copacabana. Não um cartório
qualquer, mas o maior da Zona Sul - e, se você é dono de um cartório,
sabe o que isso significa. Com essas facilidades, o jovem João, nascido
em Alegrete, RS, em 1918, nunca precisara trabalhar. Nem mesmo no
cartório da família, a cargo de seu irmão Aristides.
Magro, alto, charmoso e com o cabelo à prova de pente, seu apelido
poderia ser aquele que gostava de aplicar a outros homens magros e
altos: "Mapa do Chile". Melhor do que o apelido que lhe fora dado dentro
do Botafogo: "Lingüiça". Saldanha tinha sido uma espécie de playboy na
Copacabana dos anos 40. Fora também um dos primeiros no Rio a ter carro
conversível. Ao mesmo tempo, era militante do Partido Comunista e dizia
ter lutado com Mao Tsé-tung na Revolução Chinesa em 1949. As histórias
contadas por Saldanha no botequim da Miguel Lemos faziam dele um
personagem como Rocambole ou Miguel Strogoff. Todas o mostravam na fila
do gargarejo dos grandes eventos do século, quando não
protagonizando-os.
A cada história, Saldanha virava-se para Sandro Moreyra, a quem fazia de
escudeiro, e perguntava: "Não foi, Sandro?"
E Sandro, com um zíper nos lábios para não rir: "Foi."
Que Saldanha sempre pertencera ao Partido e que vivia pelo estrangeiro,
nenhuma dúvida. Mas seus amigos juravam que, da China, ele só conhecia a
Vista Chinesa, no alto da Gávea.
Quando não estava na Manchúria, marchando com Mão, ou desembarcando com
os aliados na Normandia em 1944, dando instruções ao general Montgomery,
Saldanha estava no botequim do Osmar ou no campo do Botafogo,
dedicando-lhe tempo e amor de graça. Em 1956, o diretor de futebol
Renato Estelita, seu velho amigo, tornara-o auxiliar do departamento
técnico. Zezé Moreira ainda era o treinador. Zezé saíra e entrara
Geninho, mas Saldanha continuara. Meses depois Geninho pedira aumento, o
Botafogo negara e Geninho pedira as contas. À falta de opção, Estelita
convidou Saldanha a "tomar conta do time" interinamente. Foi uma idéia
revolucionária de Estelita: era inédito que pessoas como Saldanha, sem
passado como jogador profissional, se tornassem treinadores de futebol.
E muito menos de um time grande como o Botafogo.
Saldanha aceitou o desafio, com uma condição: não queria receber
salário, queria continuar amador. O presidente Paulo Azeredo estranhou
essa exigência, mas, se alguém quisesse trabalhar de graça para o
Botafogo, ele achava que esse alguém não fazia mais que sua obrigação.
Principalmente sendo dono de cartório. E assim, aos 39 anos, no dia 10
de junho de 1957, Saldanha estreou no cargo empatando no Pacaembu com o
Palmeiras em 2X2 pelo torneio Rio-São Paulo. Dali o Botafogo partiu para
uma excursão de doze jogos no Nordeste e na Venezuela. Ganhou seis,
empatou cinco e perdeu um.
Os outros clubes não viam motivo para levar Saldanha a sério. Suas doze
primeiras partidas como treinador tinham sido fora do Rio - logo, não
valiam. E essa história de ser amador não entrava na cabeça de ninguém.
Onde já se vira um treinador trabalhar de graça? O campeonato carioca
estava para começar, e agora é que os outros queriam ver.
Saldanha não estava nem um pouco preocupado. Podia não ter sido um
jogador de verdade, mas nada nas proximidades de um gramado lhe era
estranho. Afinal, levara a vida à beira deles. Em seus anos de Botafogo,
observara os grandes treinadores que haviam passado pelo clube - o
húngaro Dori Krushner, o uruguaio Ondino Viera, os brasileiros Zezé
Moreira e Gentil Cardoso - e concluíra que o futebol não tinha mistério.
Bastava entender os jogadores. Saldanha era um sujeito lido, vivido,
viajado e capaz de discorrer horas sobre qualquer assunto, de Spartacus
ao Sputnik. E falava várias línguas, fluentemente mal. Talvez nada disso
o tornasse um treinador de futebol. Mas havia duas línguas que ele
falava bem: a dos jogadores e a das ruas. Não podia falhar.
E não falhou. Sem jamais ter sido visto de calção junto aos jogadores,
talvez por pudor das canelas finas, Saldanha fez do Botafogo o campeão
carioca de 1957.
Para isso, ele e Estelita haviam armado quase um novo Botafogo. Para o
gol já tinham Amaury e foram buscar no Santos o ex-tricolor Adalberto.
Para a zaga, pegaram Beto no Vasco, Servílio no Flamengo e promoveram o
reserva Tomé. Para o ataque trouxeram de volta o ex-aspirante
Quarentinha, que tinha ido fazer pelo Bonsucesso os gols que faltavam ao
Botafogo. O centroavante Paulo Valentim, que também andara pelo clube e
fora mandado embora, voltou como titular. E o eficiente meia Edson, que
se julgava espertíssimo por ter nascido e sido criado na praça Mauá,
também foi promovido. Os outros já estavam no Botafogo. E que outros:
Nílton Santos, Garrincha, Didi e o médio apoiador Pampollini. Até o
ataque reserva era forte: Neivaldo, Rossi, Amoroso, China e Òthon
Valentim.
O novo Botafogo não era o Honved, e Saldanha sabia disso. Mas, pela
primeira vez em anos, dava para competir. Quem não fosse cobra teria de
jogar duro. O problema era que todos os times do Rio em 1957 eram muito
bons. É só ver a escalação dos ataques. O do Flamengo era Joel, Moacir,
Henrique, Dida e Zagalo. O do Fluminense era Telê, Léo, Valdo, Robson e
Escurinho. O do Vasco era Sabará, Almir, Vavá, Rubens e Pinga. O do
América era Canário, Romeiro, Leônidas, Alarcón e Ferreira. O campeonato
era por pontos corridos, com turno e returno, e vencia o que chegasse
com
 menos pontos perdidos, sem lero-leros outros. Cada ponto perdido era
irrecuperável, donde os times davam o sangue em cada jogo. E o suor, nem
se fala, porque os jogos começavam às 15H15, a uma temperatura de quase
quarenta graus no gramado do Maracanã.
O Botafogo passou quase todo o campeonato de 1957 em segundo ou terceiro
lugar, nunca em primeiro, sempre um ou dois pontos atrás dos líderes. Os
quais eram ora o Fluminense, ora o Flamengo. Na metade do segundo turno
o panorama começou a se definir. O Vasco foi despachado. A duas semanas
da reta final, o Flamengo também despediu-se do título. Na 22 e última
rodada, o Fluminense era o líder, com um ponto perdido a menos que o seu
adversário daquele domingo - justamente o Botafogo.
Estava tudo preparado para o Fluminense ser campeão. Tinha sido o mais
regular do campeonato, era o favorito na partida e jogava pelo empate. O
Fluminense sairia de faixa do Maracanã. Seus jogadores passariam em casa
para pegar as malas e, ainda com restos do pó-de-arroz da comemoração,
partiriam para uma longa excursão pela América do Sul, México e
Antilhas. Só faltava o empresário Cacildo Osés mandar as passagens e os
passaportes para as Laranjeiras, num envelope fechado com um lacre
verde, grená e branco. Mas o Botafogo tinha outros planos. Estragou a
festa do Fluminense goleando-o por 6X2, com cinco gols de Paulo Valentim
e um de Garrincha, e foi o campeão.
Na semana do jogo, Jesus Cristo materializara-se em pessoa na casa de
Carlito Rocha, na rua Cinco de Julho, em Copacabana. Sentara-se, cruzara
as pernas e lhe dissera:
"Fique sossegado, Carlito. O Botafogo será o campeão."
Foi o que Carlito Rocha contou para todo mundo, dentro e fora do
Botafogo, às vésperas do clássico. Acreditou quem quis. João Saldanha
não desprezou essa informação, textualmente de cocheira. Mas não deixou
de advertir seus jogadores no vestiário:
"Não se esqueçam. Só a vitória interessa. Já vamos entrar em campo
perdendo de 0X0."
Botafoguenses e tricolores nunca se esqueceriam daquele dia 22 de
dezembro de 1957. O primeiro gol de Paulo Valentim foi aos três minutos
de jogo. Jesus Cristo podia ter aparecido para Carlito, mas quem se
apresentara para jogar fora o demónio - e com o número sete às costas.
Aos quarenta do primeiro tempo, o Botafogo já vencia por 3x0. O
Fluminense não se sentia no Maracanã, mas num cenário preto, branco e
cinza de pesadelo. A cada bola que recebia de Didi, Garrincha passava
por seu marcador Altair. O zagueiro Clóvis saía da área para combatê-lo
e também era driblado. Depois de abrir a defesa do Fluminense como se
esta fosse uma lata, Garrincha cruzava para os arremates, as cabeçadas e
as bicicletas de Paulo valentim. Alguns gols do centroavante foram
espíritas: até as bolas que chutava errado, com o joelho, venciam
Castilho.
Aos oito minutos do segundo tempo, quando o Botafogo fez 4X1, Telê disse
a Didi:
"Vocês já são campeões. Diga ao Garrincha para parar de desmoralizar o
Clóvis e o Altair. Vamos ficar por aqui."
Telê temia que a goleada chegasse a sete, oito - e, pelo andar da
carruagem, o impossível era que não chegasse. Aos doze minutos,
Garrincha fez o quinto gol, depois de driblar meio Fluminense. Quando
viu que seu apelo não seria atendido, o disciplinadíssimo Telê trocou
pontapés com seu amigo Didi. O árbitro Alberto da Gama Malcher não viu,
ou fez que não viu. O Botafogo só ficou nos seis porque seus jogadores
perderam um mundo de gols. Não houve baile, mas toda sorte de
provocações.
No sexto gol, Paulo Valentim, com Castilho à sua mercê, perguntoulhe:
"Em que canto ocê quer, seu filho de uma égua?"
Tomé combinara com Nílton Santos antes do jogo: se o Botafogo estivesse
vencendo, eles rasgariam um pouco a camisa a cada gol, abrindo-a pelo
decote da gola com um puxão. Mas, no quarto gol, Tomé não suportou a
emoção e, com um puxão forte, rasgou-a quase até embaixo. Nílton Santos
viu aquilo e fez o mesmo. No futuro, atitudes como essas não seriam
permitidas pelo árbitro. Mas, em 1957, não soavam como uma afronta.
Mesmo assim, serviram para que, depois do jogo, alguns tricolores
pusessem em dúvida a lisura da vitória alvinegra. Correram rumores de
que o Botafogo jogara dopado.
Os estimulantes da época eram Exedrin, Pervitin, Preludin, Estelamina,
Dexamil. Eram as bolinhas, vendidas livremente nas farmácias. Seus
clássicos usuários eram os estudantes em vésperas de vestibular. No
futebol, alguns médicos eram suspeitos de dar bolinha aos jogadores. Um
deles era o dr. Newton Paes Barreto, médico do Flamengo nos anos 40 e
agora no Fluminense. Zizinho o acusara de ter feito isso no Flamengo.
Paes Barreto negara, alegando que as cápsulas que dava aos jogadores
antes da partida eram de cloreto de sódio - sal de cozinha -, para
evitar a perda de água pelo organismo. Parecia doping, porque aumentava
a resistência do atleta, mas não era. O próprio médico do Botafogo, dr.
Carlos Carvalho Leite, dava cloreto de sódio a seus jogadores - e
Carvalho Leite, ex-jogador da seleção brasileira e o maior artilheiro da
história do Botafogo, não faria nada que prejudicasse um atleta.
Mas os médicos não podiam impedir que alguns jogadores, na ânsia de
ganhar o bicho ou o prémio pelo campeonato, tomassem bolinhas (que eles
chamavam de pimenta) por conta própria - e aqueles eram tempos sem exame
anti-doping. Apenas seis anos depois, em seu livro Subterrâneos do
futebol, Saldanha insinuaria que alguns jogadores do Botafogo teriam
tomado bolinha aquele dia - e alguns do Fluminense também. Mas, como não
deu os nomes e ninguém vestiu a carapuça, sua insinuação passou em
branco. Seja como for, se os dois times tomaram bolinha e o Botafogo
venceu por 6X2, das duas, uma: a do Botafogo era melhor - ou ninguém
ganharia do Botafogo aquela tarde.
A segunda hipótese é, provavelmente, a verdadeira. O "estimulante" do
Botafogo na decisão foi Garrincha. Sílvio Pirilo, treinador do
Fluminense, mandara Altair adiantar-se para marcá- lo assim que a bola
lhe fosse lançada. Ou seja, Altair não deveria deixar que Garrincha
dominasse a bola. Mas Pirilo não contava com os lançamentos de curva de
Didi, nas costas de Altair, para a corrida de Garrincha. E Saldanha
instruíra seus jogadores:
"Saiam do caminho do Mané. A ponta direita deve ser um corredor
exclusivo para ele. Quando ele partir para a linha de fundo, quero ver
todo mundo correndo para a área."
Castilho, o último obstáculo daqueles homens de listras pretas e brancas
que, de repente, povoavam sua área, diria depois que nem cinco Altaíres
marcariam Garrincha naquele jogo.
A Copa do Mundo seria dali a seis meses. Se ainda havia dúvida de que
Garrincha tinha um lugar na seleção que iria à Suécia, ela se desfez no
jogo dos 6X2.
E, como o Botafogo fora o campeão, o empresário Cacildo Osés pediu
desculpas ao Fluminense pelo mau jeito, providenciou correndo 22 novos
passaportes e, três dias depois do jogo, numa noite de Natal, embarcou o
Botafogo na excursão pelas Américas.
Garrincha tornara-se Mané no Botafogo. Em Pau Grande ninguém o chamava
assim, só de Garrincha. Nair é que o chamava de Manuel. Mesmo no
Botafogo, havia os que se dirigiam a ele como Manei, à lusitana, ou como
"Torto". Mas, em 1957, a imprensa adotou o nome Mané e acoplou-o tão
repetidamente a Garrincha que, de repente, "Mané Garrincha" tornou-se
uma marca com vida própria, onipresente nas rodas dos botequins, na
narração dos locutores e no título das reportagens.
Foi também no campeonato de 1957 que a campanha do Botafogo e as
atuações de Garrincha atraíram as primeiras revistas ilustradas a Pau
Grande. As fotos começaram a estampar a "vida simples" de Garrincha
naquela cidade de nome maroto - que seus habitantes tentavam disfarçar,
preferindo dizer que moravam "em Raiz da Serra". Garrincha foi
repetidamente fotografado caçando coelhos, andando a cavalo, jogando
peladas
121
com crianças, brincando com as quatro filhas, conversando com Nair.
Todas as reportagens contrastavam o herói dos estádios com o homem
simples e provinciano, a quem as luzes do Rio de Janeiro pareciam não
atrair.
Para realçar sua simplicidade, inventou-se que ele chamava seus
marcadores de "João". O autor da piada foi Sandro Moreyra. Mário Filho,
ainda o mais influente cronista esportivo, adorou a história e começou a
repeti-la. Em pouco tempo todo mundo acreditou que Garrincha realmente
chamasse os adversários de "João". Mas Garrincha não fazia essa idéia
invencível de si mesmo: ao se olhar no espelho, o génio via um homem
simples.
E Garrincha justificava esse jogo de espelhos. Na excursão do Botafogo à
Venezuela em julho, antes do campeonato, outro sururu em campo
confirmara o seu temperamento doce, não violento. Foi logo no primeiro
jogo da excursão, em Caracas, contra o Sevilha da Espanha. O Botafogo
vencia por 2X0. Quarentinha e um espanhol se estranharam, partiram para
os socos e as duas delegações foram para a briga no gramado. Em
instantes, eram cinquenta homens engalfinhando-se aos murros e pontapés.
A briga espalhou-se pelas arquibancadas, divididas entre as colónias
portuguesa e espanhola de Caracas. Vista do alto, devia parecer uma
guerra civil em que os dois lados tivessem combinado enfrentar-se num
estádio. A polícia ficou quieta no seu canto, apenas espiando - como se,
para a Venezuela, fosse normal fornecer seu território para dois países
estrangeiros se pegarem. A briga durou 25 minutos e só terminou pelo
cansaço.
Apenas dois homens não brigaram: Garrincha e um espanhol, o sevilhano
Pepillo. Quando começara o rififi, eles caminharam até a bandeirinha do
córner, sentaram-se no chão e ficaram proseando e rindo, enquanto o pau
comia entre seus companheiros.
Quando se tratava de brigar em campo, o Botafogo de Saldanha tinha uma
respeitável comissão de frente: o preparador físico Paulo Amaral, o
zagueiro Tomé, o goleiro Amaury e o próprio Saldanha. Na excursão pelas
Américas, que começou no Natal de 1957, logo depois do campeonato, e
estendeu-se ao Carnaval de 1958, o Botafogo enfrentou o Saprisa, de São
José da Costa Rica. Nesse jogo, Saldanha superou-se: por causa de um gol
anulado, estalou uma bofetada no árbitro da partida. E, quando os
guardas o abotoaram, ainda acertou um tabefe no próprio chefe da polícia
- equivalente ao secretário de Segurança local. Saldanha levou uma
coronhada no nariz e foi preso. Paulo Amaral, que pusera meia dúzia a
nocaute, também foi rebocado à força para o camburão. Mais uma vez,
todos os jogadores brigaram. E, mais uma vez, Garrincha foi dos poucos -
ou o único - a não
se meter.
122
Tocaia:
imprensa alimenta o
mito de Pau Grande
como Xangn-Lá
Na confusão de pé com cabeça no centro do gramado, Edson "Praça Mauá",
perseguido por dois, passou correndo por Garrincha e perguntoulhe:
"Você não vai brigar?"
E Garrincha, com transcendental placidez:
"Com quem? Ninguém veio me bater."
O Botafogo nunca contou com Garrincha pá a resolver querelas a muque, e
nunca achou que ele não se envolvesse nelas por covardia. Ele
simplesmente tinha mais o que fazer. Naquela mesma excursão, no jogo
contra o Toluca, na Cidade do México - Botafogo 4x3 -, Garrincha marcou
dois gols, um dos quais de curva, como os de Didi. Só que da linha de
fundo, cercado pelos adversários e com a bola em movimento. Depois do
jogo, Camacho, o goleiro do Toluca, comentou:
"Vi quando ele chutou e não me preocupei. Dali não dava para fazer o
gol. Quando ouvi o grito da torcida, vi a bola dentro da rede."
E foi também no México, naquela excursão, que, segundo Saldanha, nasceu
o olé. O jogo foi Botafogo x River Plate, a 20 de fevereiro de 1958. O
River era a própria seleção argentina, com dez de seus titulares, entre
os quais o goleiro Carrizo, o volante Nestor Rossi, o atacante Labruna e
o lateral-esquerdo Vairo. Seu cachê era de 10 mil dólares por partida -
o do Botafogo, 2 mil. Mas a disparidade desses valores não se refletiu
em campo: com Garrincha, Didi e Nílton Santos, o futebol do Botafogo já
era igual ou maior que o de River. Tanto que a partida, duríssima,
terminou em 1x1. Mas o que os outros vinte homens fizeram em campo foi
irrelevante - para a torcida mexicana, o jogo consistiu no inacreditável
e indescritível baile de Garrincha em Vairo.
Já desde os primeiros dribles, o estádio Universitário começou a gritar
"Olé!", como nas touradas, quando Vairo partia para o desarme e
Garrincha, com um jogo de pernas ou quadris, deixava-o sentado. Para os
mexicanos, os dribles de Garrincha eram uma saraivada de faenas e
verónicas, com Vairo no papel de um touro sob o jugo de Ordonez ou
Dominguín, os grandes espanhóis da época. E foram dezenas e dezenas
desses dribles. O "Olé!", gritado por milhares de bocas em uníssono,
transformava-se numa gargalhada quando Garrincha esquecia a bola e
continuava correndo, com Vairo no seu ercalço sem perceber que a bola
ficara para trás. Ou quando suas freadas bruscas faziam Vairo esquecer-
se de que o campo acabara e esborrachar-se na pista de carvão.
O treinado- argentino Minella achou melhor tirar seu jogador. Mais um
pouco e Garrircha faria Vairo ajoelhar-se para atravessar sua aorta com
uma muleta imaginária. Se isso acontecesse, não seria injusto que,
também como nas touradas, cortassem a orelha de Vairo e a oferecessem a
Garrincha como troféu.
Vairo ficou feliz por ser substituído. Com os fundilhos sujos de carvão,
caminhou rindo em direção ao banco de reservas e comentou com Minella,
ao alcance dos ouvidos de Saldanha:
"Não há nada a fazer. É impossível."
Rapidamente, os ecos do olé mexicano chegariam ao Rio e se espalhariam
também pelo Maracanã. Todas as torcidas passariam a gritar "Olé!".
Mas, nos estádios em que, poucos meses depois, ele mais mereceria ser
gritado, a platéia era loura, gelada e contentava-se em bater palmas
educadas, como num concerto: os da Suécia, durante a Copa do Mundo de
1958.
Pensando bem, aquele seria o concerto de uma orquestra, regida por um
extraordinário maestro - Didi -, mas em que todos os olhos da platéia
estariam postos no solista.
a seleção examina Garrincha

Capítulo 7

1958

CHICA-BON AO SOL

Nos anos 50, quando se via um jogador à paisana andando pela rua com o
passo característico - pisando primeiro com a ponta do sapato, como se
escolhesse cada pedra da calçada, e só depois pousando cuidadosamente os
calcanhares e gingando em câmara lenta os ombros e os quadris -,
podia-se apostar: o fulano tinha sido convocado para a seleção
brasileira. Ou estava mascarado. Às vezes ambos.
A seleção era o primeiro e último sonho dos jogadores. Significava, como
hoje, pertencer a uma elite. Só que muito mais: o Brasil jogava somente
de vez em quando e um jogador podia passar a vida sendo convocado e
custar a atingir sua qüinquagésima partida internacional. Zizinho, que
estreara na seleção em 1942, aos vinte anos, só atingira essa marca em
1957, aos 35. Jogar mais de uma vez na seleção era uma garantia de que
se teria algo para contar aos netos.
Em termos profissionais, a seleção valorizava o jogador dentro do seu
clube: os paredros davam-lhe mais e melhores tapinhas nas costas e o
chamavam de "meu craque". Mas isso não queria dizer obrigatoriamente um
aumento de salário. E disputar uma Copa do Mundo talvez atraísse o
interesse de um clube espanhol ou italiano - mas alguns jogadores tinham
tanto medo de sair do Brasil que seriam capazes de esconder-se debaixo
da cama se o empresário fosse procurá-los. Seja como for, não era a
volúpia dos dólares que os fazia sonhar com a seleção. Talvez a seleção
fosse um fim em si.
Para Garrincha, nem isso ela era. Ser convocado, ou deixar de ser, não o
alterava nem um pouco. Seu avoamento em relação às coisas da profissão
era absoluto. A Copa do Mundo de 1958 na Suécia estava às portas e não
há registro, oral ou escrito, de que ele se considerasse sequer
convocável, quanto mais o bamba da posição. E nunca se ouviu dele uma
vírgula contra o rodízio de jogadores com a camisa sete da seleção,
desde que Julinho, o titular absoluto, fora vendido para a Itália em
1955.
Nos três anos seguintes à ida de Julinho, a seleção só faltara laçar
pontas-direitas nas esquinas, esperando que um deles se apoderasse da
vaga: Maurinho, Sabará, Canário, Paulinho, Joel e ele próprio,
Garrincha, todos foram testados. Todos eram grandes jogadores em seus
clubes, mas, até então, nenhum se revelara excepcional na seleção - nem
mesmo Garrincha. E nem havia um consenso entre os jornalistas sobre quem
deveria ser o ponta titular. Se fosse possível silenciar os
botafoguenses, um dos poucos a favor de Garrincha seria o tricolor
Albert Laurence, da Última Hora, francês de Marselha e carioca de
adoção. E, mesmo assim, havia quem suspeitasse que Laurence era
Botafogo.
O que havia, em todo o país, era uma decidida nostalgia por Julinho. E
com justiça. Era o maior ponta-direita já surgido no Brasil: infernal na
velocidade, no drible e na precisão dos chutes. Fora também um dos
poucos a se salvar do desastre da Copa de 1954. Era dele que o Brasil
precisava na Suécia.
Mas Julinho jogava agora na Itália. Os italianos tinham lhe dado tudo:
casa, carro, dinheiro a rodo, até amor. Não podia pôr os pés numa piazza
sem ser cercado pelo povo. Não o deixavam pagar uma conta. A Fiorentina,
graças a ele, fora, pela primeira vez em sua história, campeã italiana.
E os italianos ofereciam-lhe fortunas para naturalizar-se a fim de poder
jogar pela squadra azurra. O paulistano Julinho era filho de
portugueses, não de italianos, mas estes queriam crer que seu sobrenome,
Botelho, se escrevia Boteglio. Mas Julinho não trocaria sua cidadania
brasileira nem por todos os tesouros de Florença. Aplicava todo o
dinheiro que ganhava em terrenos no bairro da Penha, onde nascera. Já
era dono de metade da região. E sua única idéia fixa, desde que chegara
à Itália, era voltar para o Brasil ao fim de seu contrato. Tinha
saudades da mãe.
Seu apelido na Itália era "Signore Tristezza", e ponha zês nisto. Em
campo arrasava os adversários, mas, assim que voltava para o vestiário,
ficava jururu pelos cantos, pensando na mãe. Os italianos, grandes
especialistas em mães, entendiam muito bem o problema, enterneciam-se e
o cumulavam de ainda mais gentilezas para agradá-lo. Sem efeito.
Em princípios de 1958, o novo presidente da CBD, João Havelange,
escreveu uma carta a Julinho perguntando quando terminaria seu contrato
com a Fiorentina e se estaria apto a ser convocado para disputar a Copa
do Mundo em junho. Pela programação já acertada, dizia Havelange, o
Brasil passaria pela Itália a caminho da Copa e jogaria um amistoso
contra a própria Fiorentina no dia 29 de maio. Julinho não precisaria
vir ao Brasil para ser convocado. Poderia juntar-se à delegação na
Itália e seguir com ela para a Suécia.
Julinho respondeu que seu contrato terminava no dia seguinte ao jogo, 30
de maio; que estava em forma física e técnica para integrar-se à
seleção; e que nada o emocionava mais que jogar por seu país - mas não
achava justo tomar o lugar de companheiros que tinham ficado no Brasil e
há três anos vinham lutando pela ponta direita. Donde agradecia e
recusava o convite. Sem mais, atenciosamente, Júlio Botelho.
A carta chegou à sede da CBD na rua da Quitanda, no Rio, e ninguém
entendeu nada. Não se usava convocar para a seleção jogadores que
estivessem atuando no exterior. O caso de Julinho seria uma brilhante
exceção. Mas, se essa convocação era inédita, a recusa mais ainda. E não
houve jeito de convencê-lo a aceitar.
A atitude de Julinho acabou produzindo um surpreendente desfecho. É
apenas um jogo de hipóteses, mas vejamos. Se Julinho aceitasse a
convocação, era certo que seria o titular. Joel, titular até então,
provavelmente seria seu reserva.
E, em isso acontecendo, Garrincha teria ficado de fora da Suécia.
Os profetas da derrota já estavam agourando a seleção brasileira de 1958
em pleno ovo. Ninguém se esquecia dos fracassos na Europa em 1956 e,
mais recentemente, da pífia campanha brasileira no Sul-americano de
Lima, em março de 1957: o Brasil goleará times marca-barbante como o
Equador por 7X1 e a Colômbia por 9x0 - mas, quando se tratara de pegar
os grandes do continente, perdera do Uruguai por 3X2 e da Argentina por
3X0. Nas eliminatórias da Copa do Mundo, um mês depois, o Brasil tivera
de enfrentar apenas o Peru e sabe Deus como conseguira a vaga: empatando
em Lima em 1x1 e vencendo no Rio por um reles 1 x 0, graças a uma
folha-seca de Didi no segundo tempo.
O ânimo nacional, que já andava baixo, caía a zero quando se sabia que,
em fevereiro de 1958, a quatro meses da Copa, a seleção ainda nem tinha
treinador. Falava-se em Fleitas Solich e Flávio Costa para o cargo. Mas
Solich era paraguaio - o Paraguai ia disputar a Copa e imagine se, por
um cataclisma, desse Brasil x Paraguai na finalíssima? Com quem ficaria
o coração solichiano? Evidente que não foi por isso, mas Solich acabou
vetado. Outros nomes foram soprados pela CBD para fazer espuma. E houve
um momento em que a escolha de Flávio Costa parecia certa.
Em fins de fevereiro, Flávio estava tão convencido de que seria chamado
que convidou a imprensa a um coquetel em seu apartamento no morro da
Viúva. Serviu canapés da Colombo, liberou o fluxo de uísque Old Parr
para os repórteres e, fumando cachimbo, falou extra-oficialmente como
treinador da seleção. Mas falou antes da hora. Nos primeiros dias de
março, a CBD anunciou que o escolhido chamava-se Vicente Feola.
Vicente o quê? Feola, 48 anos, 105 quilos, fora várias vezes campeão
como treinador pelo São Paulo e pela seleção paulista. Era respeitado
dentro do futebol, mas, àquela altura, estava quase aposentado da função
por problemas cardíacos. No São Paulo, tornara-se diretor do
departamento técnico - o treinador de campo era o húngaro Bela Gutman. O
São Paulo fora o campeão paulista de 1957 com um timaço que incluía
Zizinho, De Sordi, Mauro, Dino Sani, Maurinho, Gino e Canhoteiro. Como
Gutman não falava português, ali devia haver o gordo dedo de Feola. Mas,
que era estranho, era: como podia ser treinador da seleção um homem que
não tinha saúde para treinar seu próprio clube?
Daquela seleção, podia. E este fora o principal motivo do veto a Solich
e Flávio. Eram vedetes e independentes demais, não se enquadrariam no
tipo de trabalho que, pela primeira vez, seria adotado por uma seleção
brasileira: o trabalho em equipe.
O treinador seria apenas um dos membros dessa equipe, já escolhida e
composta por um supervisor (Carlos Nascimento, do Bangu), um preparador
físico (Paulo Amaral, do Botafogo), um médico (Hilton Gosling, também do
Bangu), um administrador (José de Almeida, do Fluminense) e um
tesoureiro (Adolpho Marques, também do Fluminense). Nessa equipe, o
treinador teria de ser um homem flexível, capaz de ouvir e acatar as
decisões da maioria. Em compensação, não precisaria cuidar de distribuir
as duplas de jogadores nos quartos dos hotéis, contá-los periodicamente
para ver se algum fugira, certificar-se de que a bóia continha feijão,
desembaraçar bagagens em aeroportos, encher as bolas do treino, dar a
ginástica e meter o bedelho em tudo, como os treinadores tinham de fazer
nos clubes. Haveria gente para isso. Sua função seria tratar apenas da
parte técnica e tática. E nem mesmo a escalação do time seria seu
exclusivo privilégio.
Pela primeira vez o Brasil iria para a Copa do Mundo com um plano de
trabalho neuroticamente detalhista. Foram previstos todos os passos da
seleção nos 75 dias em que ela estaria reunida: de 7 de abril (data da
apresentação dos convocados) a 29 de junho (jogo final da Copa - se o
Brasil chegasse lá). O plano incluía desde o organograma de viagens,
transportes e treinamentos no Brasil e na Suécia - dia, hora e local de
tudo - até o número de gramas e o teor de gordura dos bifes em cada
refeição. Para isso já havia gente trabalhando há meses, desde a
presidência de Sílvio Pacheco na CBD.
Em meados de 1957, por exemplo, o médico Hilton Gosling visitara as
cidades-sede da Copa para escolher o hotel mais adequado em todas elas.
Os critérios eram o conforto das acomodações, a proximidade de um campo
de treinamento e uma certa distância em relação ao centro da cidade.
Tudo isso era novidade para a seleção - nas Copas anteriores, o Brasil
embarcava e era um milagre que encontrasse o hotel que um burocrata da
FIFA lhe destinara. Gosling procurara saber até a temperatura esperada
no momento em que o Brasil entrasse em campo em cada cidade da Suécia.
Já haviam sido feitas reservas até para o vôo de volta, prevendo-se três
hipóteses: o Brasil ser eliminado nas oitavas-de-final (regresso em 16
de junho), o Brasil ser eliminado nas quartas-de-final (regresso em 20
de junho) e - não custava sonhar - o Brasil chegar à partida final
(regresso em 12 de julho). A CBD, desta vez, não deixaria fios soltos.
Os responsáveis de honra por essa organização eram João Havelange,
recém-eleito presidente da CBD (derrotando Carlito Rocha por 185 votos a
dezenove) e seu vice-presidente, Paulo Machado de Carvalho. O poderoso
"dr. Paulo", patrono do São Paulo e ex-presidente da Federação Paulista,
levava uma grande vantagem sobre a maioria dos cartolas: não precisava
do futebol para enriquecer (já era rico) e não tinha intenções de
eleger-se deputado - era proprietário da TV Record, das rádios Record e
Panamericana de São Paulo e de uma imensa cadeia de rádio. Aceitara ser
o chefe da delegação na Suécia, mas já avisara que não era homem de
aventuras. O futebol tendia a ser uma bagunça e, na seleção, ele queria
ver tudo funcionando direito, como em suas empresas. Aos 57 anos, "dr.
Paulo" era um homem jovial, conversador, de fácil trato. Se entrasse
numa sala povoada por cinqüenta desconhecidos, em meia hora todos já
estariam abrindo os peitos como um jornal e lhe contando suas vidas.
Carlos Nascimento, o homem escolhido por Havelange e Paulo de Carvalho
para ser o supervisor da seleção, era o contrário: como Buster Keaton,
mantinha o mundo a um braço de distância. O mundo, em troca, o achava um
dos sujeitos mais antipáticos que já usara terno e gravata. Nascimento,
então dirigente do Bangu, era ligado a Havelange pelo Fluminense, do
qual fora jogador e treinador. Tinha 54 anos e seu fanatismo pela
eficiência era do tamanho de sua vivência no futebol. O plano de
trabalho da seleção era a sua cara: rígido e amarrado em cada item.
A seleção treinaria durante quarenta dias em Poços de Caldas (MG), Araxá
(MG) e no Rio, e jogaria dois amistosos contra o Paraguai e dois contra
a Bulgária, no Maracanã e no Pacaembu. Os amistosos não serviriam apenas
para afinar a parte técnica, mas para a CBD fazer caixa para manter os
jogadores na Suécia enquanto não saísse o adiantamento da FIFA aos
países que disputariam a Copa. As despesas da seleção no Brasil seriam
cobertas por um crédito do governo Juscelino, de 12 milhões de cruzeiros
(80 mil dólares), e pelos recursos da própria CBD.
Entre essas despesas, havia os salários dos jogadores: na seleção eles
receberiam exatamente o que ganhavam nos clubes, mais os bichos. Isso
significava, por exemplo, que Didi custaria mensalmente à CBD o que
passara a custar ao Botafogo: 120 mil cruzeiros. E Pele, o que custava
ao Santos: 6 mil cruzeiros.
Dias depois, a "comissão técnica" - composta por Feola, Nascimento,
Gosling e Paulo Amaral, responsáveis diretos pelo time - convocou 33
jogadores, onze dos quais seriam cortados até o dia do embarque para a
Europa. Os convocados se apresentaram no dia 7 de abril, mas, em vez de
pôlos para treinar, a CBD primeiro encaminhou-os à Santa Casa de
Misericórdia, na rua Santa Luzia, no Rio. Iriam submeter-se a um
check-up como nunca se vira no futebol brasileiro. Durante uma semana,
eles foram virados pelo avesso por clínicos, traumatologistas,
neurologistas, radiologistas, cardiologistas, dentistas, oftalmos,
otorrinos e até calistas.
Os exames de Garrincha paralisaram o serviço na Santa Casa: os médicos
saíam de todas as salas para vir admirar suas pernas.
"Estou me sentindo a Lollobrigida...", ele disse, referindo-se à
italiana Gina Lollobrigida, dona de um dos imortais pares de pernas do
cinema.
Os exames revelaram que, apesar de grotescamente valgo e varo, Garrincha
pisava com uma perfeição de anjo. Hilton Gosling tirara impressões dos
pés dos jogadores e os de Garrincha eram os que tinham os dedos, o arco
e o calcanhar mais lindamente delineados. Em compensação, tinha o olho
direito fora de centro, com a íris deslocada para a direita - às vezes,
de frente, parecia olhar com o rabo do olho. Mas o que chamou a atenção
no dia do exame foram as cicatrizes em suas pernas, esculpidas pelas
travas (de madeira, afixadas com pregos) das chuteiras inimigas. Cada
franzido em alto relevo era o souvenir de uma tentativa dos beques de
tomar-lhe a bola - e alguns desses franzidos eram tão nítidos quanto uma
assinatura.
O médico Pedro Cunha, da Santa Casa, apontou para as cicatrizes de
Garrincha e perguntou ao vascaíno Bellini, que esperava a vez:
"Quantas dessas assinaturas são suas, Bellini?"
Garrincha achou graça; Bellini nem tanto.
Uma montanha de material produzido pelos jogadores foi enviada aos
laboratórios para análise e o resultado assustou os homens da CBD. Ali
estava o creme do futebol brasileiro: os maiores talentos, os maiores
salários - e, fisicamente, aqueles homens pareciam ter acabado de chegar
do mato com uma trouxa às costas e um talo de capim entre os dentes. Era
como se os clubes só se preocupassem com a parte óssea e muscular de
seus atletas.
A maioria tinha vermes e lombrigas para dar e vender; muitos
apresentavam anemia; um deles, sífilis. Havia vesículas precárias,
amígdalas implorando para ser extraídas e jogadores com problemas
crónicos de digestão e circulação. Mas o pior era o estado dentário de
quase todos: Oreco, lateral-esquerdo do Corinthians, teve de arrancar
sete dentes - ou os cacos que restavam deles; Gilmar, galã e goleiro do
Corinthians, quatro; Pepe, ponta-esquerda do Santos, três, além de
passar por uma cirurgia geral das gengivas; o próprio Garrincha deu
adeus a mais um dente - já perdera quase metade do teclado superior
esquerdo.
Os dentistas se atropelavam na Faculdade de Odontologia para dar conta
do trabalho. Entre os 33 jogadores, havia 470 dentes com problemas - uma
média de quase quinze por jogador! O total de extrações chegou a 32,
perfazendo uma dentadura completa. E não porque a CBD quisesse que eles
sorrissem bonito na fotografia. As seleções do passado nunca haviam
tomado essa precaução - e os focos infecciosos iam doer na Europa.
O dentista da seleção, o dr. Mário Trigo Loureiro, sofria de uma
incurável joie de vime. Contava uma média de trinta piadas por hora,
incluindo as gargalhadas, e tornava um tratamento de canal mais
hilariante que a "PRK-30". Os jogadores não paravam de rir, mesmo com a
boca cheia de ferrinhos. Quando a seleção viajou para Poços de Caldas e
Araxá, Trigo seguiu com ela, levando o boticão e as piadas. O único a
encontrar uma explicação para a inestancável alegria do dentista foi
Garrincha:
"Claro. Não é ele que senta na cadeira."
Orlando, zagueiro do Vasco, e Garrincha não foram com os companheiros
para Poços de Caldas. Ficaram no Rio, extraindo as amígdalas na
Policlínica de Copacabana. As de Garrincha eram do tamanho de bolas de
gude e já deveriam ter sido operadas pelo Botafogo dois anos antes,
desde que o dr. Santamaria diagnosticara os focos. Mas Garrincha sempre
conseguira deixar para outro dia e, no dia marcado, não aparecia. Se
fosse por medo, ninguém o censuraria - uma extração de amígdalas nos
anos 50 produzia tanto sangue quanto se o paciente tivesse sido operado
por Jack, o Estripador. E o Botafogo, que precisava dele nos
campeonatos, nos amistosos e nas excursões, também não o obrigava a
operar-se.
Mas, na seleção, o médico da Policlínica, dr. António da Costa Cruz,
falou grosso:
"Ou opera ou não joga."
Pela primeira vez, Garrincha curvou-se a um poder maior e abriu a boca
para receber a assustadora agulha da anestesia. Surpreendentemente, não
teve medo. Submeteu-se com indiferença à agulhada na garganta e ao
estrangulamento da primeira amígdala. O sangue esguichou como um
chafariz da praça Paris e ele nem piscou. Com a segunda amígdala, a
mesma coisa. Depois divertiu-se com uma pilha de potinhos de sorvete de
creme. Os médicos do Botafogo tinham motivo para ficar irritados: se não
era por medo, por que preferira sofrer com os bolsões de pus na garganta
durante todo aquele tempo? Jogara inúmeras vezes sem condições - na
partida do combinado Botafogo-Flamengo contra o Honved, um ano antes,
estava com 39 graus de febre.
Os repórteres foram ouvi-lo na Policlínica. O médico proibira Garrincha
de falar nas horas seguintes, mas autorizou que o entrevistassem se ele
se limitasse a fazer que sim ou que não com a cabeça.
Enquanto as perguntas foram as óbvias, Garrincha seguiu a instrução.
Mas, quando um repórter perguntou por que finalmente aceitara operar-se,
Garrincha esqueceu-se e produziu um som que parecia saído de uma
perereca:
"O doutor me marcou firme." A enfermeira Maria Emília, desesperada,
baliu: "Ele falou! Não pode falar!"
Garrincha perdeu muito sangue na operação, emagreceu quatro quilos e só
se apresentou dias depois no Grande Hotel de Araxá, com uma palidez de
necrotério. Mas até brincou:
"Realizei um sonho de criança - tomar sorvete depois de operar a
garganta."
A minitemporada em Poços de Caldas e Araxá fora planejada para
desintoxicar os músculos dos jogadores, apresentar os paulistas aos
cariocas - como se eles não se cruzassem todo ano no torneio Rio-São
Paulo - e começar a preparação física. As atrações nas duas cidades eram
as saunas e os passeios de charrete puxada a bode nas proximidades do
hotel. O único exercício a ser praticado na horizontal era dormir.
Em Poços de Caldas, essa programação sofrera um abalo sísmico com a
chegada de duas beldades regionais, uma morena e uma loura, que também
se hospedaram no Palace Hotel e no mesmo andar que os jogadores. A olho
nu, poderiam ser duas normalistas de férias, embora fosse abril e todos
os colégios estivessem abertos. Mas, assim que apareceu no jardim do
hotel, de óculos gatinho e maio, a morena ostentou sua espetacular
silhueta de sereia.
"Olha que boa, rapaz!", gemeu um jogador.
"Boa é apelido!", secundaram vários outros.
A loura também era de fechar o comércio. As duas provocaram uma sinfonia
de fiu-fius em surdina, mas apenas um jogador teria sido agraciado por
uma delas, a morena. A loura ficou desapontada ao saber que seu favorito
ainda não havia chegado e se manteve à distância dos trinta pares de
olhos assestados sobre suas curvas.
O jogador premiado encontrava-se discretamente com a morena no próprio
hotel, no apartamento dela. Havia jornalistas cariocas e paulistas no
hotel, mas, por eles, a notícia ficaria inédita. Muitos eram íntimos dos
jogadores, batiam bola com eles e alguns, como Arnaldo Niskier e Jader
Neves, da Manchete, até entravam nos coletivos para completar o time.
Mas os repórteres da região não eram tão íntimos e, por vingança ou
falta de notícia, vazaram a história das moças no hotel - como se
campeasse a esbórnia na delegação.
Só isso já seria um escândalo. Mas, como não deram o nome do jogador
premiado - nem contaram que ele era solteiro -, todos os jogadores
ficaram sob suspeita. A notícia chegou ao Rio e a São Paulo e, num
instante, as mulheres dos jogadores casados, ciosas da fidelidade de
seus maridos, fuzilaram Poços de Caldas com telefonemas.
Um suspeito habitual entre os casados era Didi. Não porque vivesse atrás
de rabos-de-saia. Mas porque sua mulher Guiomar se convencera de que,
sempre que não estava treinando, Didi estava prevaricando. Didi
cuidava-se para não incorrer nas desconfianças de Guiomar, mas costumava
ser traído pelo destino. Um ano antes, no Sul-americano de Lima, sua
aliança caíra no gramado durante um treino da seleção. Didi fizera parar
o treino e, de repente, eram vários jogadores de gatinhas à procura da
aliança entre os tufos de grama. Para sua sorte, a aliança foi
encontrada - porque, com o dedo nu, Didi não se atreveria a desembarcar
no Rio. Guiomar nunca acreditaria em sua explicação.
Quando a crise das boas estourou, a seleção estava de malas prontas para
Araxá, que seria a segunda etapa da preparação. Pensou-se que as moças
ficariam para trás e o assunto se encerraria por ali. Mas elas seguiram
a seleção até o Grande Hotel de Araxá e tentaram novamente hospedar-se
perto dos jogadores. Já desconfiando de que seriam barradas, pediram ao
empresário Horácio Lafer, que casualmente chegava ao hotel e que tinham
acabado de conhecer, que as apresentasse como suas secretárias. Carlos
Nascimento soube da história. Entrou marchando no hall e ameaçou o
gerente: se as moças fossem admitidas, a seleção nem desfaria as malas.
Iria direto para o Rio. O gerente cedeu à ira de Nascimento e as moças
não ficaram no hotel. Não naquele. Mas ninguém podia impedi-las de
hospedar-se no hotel Colombo, bem perto dali. E só então a loura
sucumbiu.
No episódio das sereias, Didi e os outros jogadores eram perfeitamente
inocentes. A morena teria sido de Gilmar. E a loura, do recém-chegado
Garrincha.
Até 1958, era voz corrente nos botequins que, quando se tratava de Copa
do Mundo, o jogador brasileiro era frouxo. As derrotas para o Uruguai em
1950 e para a Hungria em 1954 pareciam justificar essa crença: não
tínhamos "fibra" para jogos decisivos. O curioso era que, quando
excursionavam com seus clubes, os jogadores não tremiam - talvez porque
os jogos fossem amistosos e as excursões, quase clandestinas. Mas a Copa
do Mundo era a valer dois pontos e toda a nação ficava ao pé do rádio.
Talvez por isso, assim que vestia a camisa nacional, o jogador
brasileiro derretia-se diante do europeu como um Chica-bon ao sol.
Alguns passavam mal de véspera, com dor de barriga; outros sentiam frio;
e ainda outros, para provar que não tremiam, descontrolavam-se na
violência em campo.
Um mal disfarçado racismo atribuía essa falta de "fibra" ao coquetel
racial brasileiro - como se só os jogadores negros e mulatos tremessem.
Para prevenir-se desse problema na Suécia, o plano de trabalho da CBD em
1958 incluiu, desde o começo, uma figura inusitada na seleção: um
psicólogo.
Chamava-se João Carvalhaes, tinha quarenta anos e não era exatamente um
psicólogo, mas um sociólogo licenciado em psicologia - um psicotécnico.
Sua função seria submeter os jogadores a testes de "avaliação de
inteligência e equilíbrio psicológico", como fazia com os candidatos a
motorista e cobrador dos ônibus e bondes da CMTC (Companhia Municipal de
Transportes Coletivos) de São Paulo, da qual era funcionário. Apesar
desses antecedentes, Carvalhaes não era de todo estranho ao futebol. Em
1954, Paulo Machado de Carvalho levara-o para aplicar os mesmos testes
nos jogadores do São Paulo e, depois, nos candidatos a árbitros e
bandeirinhas da Federação Paulista. Havia um je-ne-sais-quoi de artista
em Carvalhaes: estava sempre com uma barba de dois dias e, embora fosse
um enviado especial de Freud à seleção, fisicamente lembrava o
ex-governador paulista Jânio Quadros, só que sem caspa.
Nominalmente, os testes serviriam para medir o "nível cultural, índices
de tensão, reflexos e coordenação motora e níveis de impulsividade e
agressividade" dos jogadores. Em 1958, esse vocabulário impressionava
pela complexidade e exigia várias idas ao dicionário. Os psicólogos em
geral ainda eram vistos como médicos para birutas ou coisa pior. Mas,
por trás do psicólogo. os testes encomendados pela CBD destinavam-se a
uma coisa simples: sondar quais jogadores poderiam tremer na Copa -
embora tenha ficado combinado que esses testes serviriam apenas como
indicadores para a comissão técnica. Não teriam poder de guilhotina
sobre nenhum jogador.
Os testes foram aplicados na Santa Casa, no Rio, e na CMTC, em São
Paulo. Alguns exercícios consistiam em o jogador completar figuras pela
metade ou desenhar o que lhe viesse à cabeça e dizer a Carvalhaes o que
o desenho significava. Garrincha foi mal em todos. Já fracassou ao
preencher a ficha: na linha onde deveria escrever sua profissão,
classificou-se como atreta. Os testes o deram como de instrução
primária, inteligência abaixo da média e grau de agressividade zero. Num
máximo de 123 pontos, fez somente 38, segundo Carvalhaes. Não poderia
ser motorista de ônibus.
Quando circularam rumores de que seu teste não fora dos mais brilhantes,
um repórter perguntou a Garrincha se ele se considerava burro. Sua
resposta foi definitiva:
"Bem, eu não sou um Rui Barbosa. Mas também não sou nenhum Mazzola."
Nunca se divulgou o resultado dos testes de Mazzola, jovem centroavante
do Palmeiras - mas o de Pelé também foi ruim. Pelé mostrou grande
habilidade motora, mas Carvalhaes atribuiu-lhe apenas 68 pontos -
implicou com sua letrinha desenhada, tipo caderno de caligrafia - e o
definiu assim: "Pelé é obviamente infantil. Falta-lhe o necessário
espírito de luta. É jovem demais para sentir as agressões e reagir com a
força adequada. Além disso, não tem o senso de responsabilidade
necessário ao espírito de equipe". Fugindo à recomendação de não dar
palpites diretos, Carvalhaes fechou seu parecer sobre Pelé com uma
conclusão ousada: "Não acho aconselhável o seu aproveitamento".
Pelé falava com voz grossa para sua idade, mas tinha de ser infantil -
estava com dezessete anos e ainda era barrado pelo porteiro em filmes
franceses e italianos. As calças compridas com que chegara ao Santos em
1956, aos quinze anos, tinham sido as primeiras de sua vida, compradas
em Bauru especialmente para a ocasião. Em Poços de Caldas, numa
brincadeira com os colegas de seleção, pediram-lhe o nome de uma fruta
que começasse por M, e Pelé disse sério: "Minduim". Os jogadores viviam
perguntando-lhe maldosamente se já se acostumara a viajar de avião,
apenas para ouvilo responder: "Não. Eu não me adapito". Ainda levaria
algum tempo para que relaxasse e começasse sua brincadeira favorita nos
vôos: guerra de travesseiros com os colegas. Era natural que Carvalhaes,
confiante no rigor cientifico de seus psicotestes, desconfiasse da
maturidade de Pelé.
Mas a comissão técnica não precisava de desconfianças, e sim de
certezas. E uma certeza ela já parecia ter desde a convocação: a ponta
direita. Para todas as outras posições do ataque, haviam sido convocados
três jogadores: os meias Didi, Moacir e Roberto Belangero, os
centroavantes Vavá, Mazzola e Gino, os pontas-de-lança Pelé, Dida e
Almir e os pontas- esquerdas Zagalo, Pepe e Canhoteiro. Um de cada
posição seria cortado ao fim dos treinamentos. Mas, para a ponta
direita, apenas dois jogadores tinham sido chamados: Joel e Garrincha.
Era como se, para a comissão técnica, não houvesse discussão: se não
podia contar com Julinho, eram eles e não tinha conversa. A dúvida, se
havia, era sobre quem seria o titular. E esta também parecia não
existir: seria Joel.
Aos olhos de hoje, pode parecer absurdo que, tendo Garrincha à mão, um
treinador preferisse Joel. Mas não era o que parecia na época - pelo
simples fato de que, embora não fosse cinematográfico como Garrincha,
Joel também era grande jogador. Era sisudo e driblava estritamente o
essencial, mas ia em velocidade à linha de fundo dez ou doze vezes por
partida e cruzava com grande precisão. O Flamengo o surrupiara do
juvenil do Botafogo aos dezessete anos, em 1951, e Carlito Rocha ficara
tão indignado que o Botafogo quase rompera relações com o Flamengo. O
crime rubro-negro compensara porque, desde então, os cruzamentos de Joel
haviam produzido centenas de gols para índio, Benitez, Evaristo e Dida.
E o próprio Joel era um goleador, além de ter outras qualidades que os
treinadores valorizam: ia e vinha para marcar, corria os noventa minutos
e, numa partida normal, perdia três de seus 61 quilos.
Desde sua primeira convocação, no Sul-americano de Lima em 1957, Joel
fora titular da seleção em onze partidas - em duas delas (contra o Peru,
nas eliminatórias) deslocado para a ponta esquerda, com Garrincha na
direita. De todos os candidatos à vaga de Julinho, era o que vinha tendo
mais oportunidades. E, pelo visto, continuaria sendo.
O jornalista esportivo francês Gabriel Hannot, que viera assuntar a
preparação brasileira para o seu jornal L'Équipe, pensava diferente.
Para ele, Garrincha seria titular não só do Brasil, mas de qualquer
seleção do mundo. Quando lhe perguntaram o que descobrira em suas
andanças por aqui, respondeu brincando:
"Maracujá e Garrincha."
Na verdade, Hannot já tinha sido apresentado a ambos. Poucos meses
antes, tomara suco de maracujá na embaixada do Brasil em Londres,
servida pelo próprio embaixador Assis Chateaubriand. E, como muitos
jornalistas europeus, Hannot descobrira Garrincha nas duas excursões do
Botafogo à Europa, em 1955 e 1956. Ficara atónito e, agora, dizia a seus
colegas brasileiros o que esses não se atreviam nem a pensar:
"É um dos maiores pontas do mundo. Maior que Julinho."
Na seleção, não pareciam muito convencidos disso. Era só acompanhar a
escalação dos coletivos. Supondo que o time que tivesse Nílton Santos
fosse o titular, então Garrincha estava treinando entre os reservas -
por estar treinando contra Nílton Santos. Para que não se anulassem
mutuamente, os dois tinham estabelecido uma tácita cumplicidade: sempre
que se viam frente a frente, cada um ganhava uma disputa de bola e
ninguém saía perdendo. Mas, se Garrincha não se importava em ser
reserva, Nílton Santos não queria arriscar-se a perder a posição.
Aos 33 anos, ele era o jogador mais velho da seleção e tudo indicava que
aquela seria a sua última Copa. Até então, era o único do grupo que
podia considerar-se titular absoluto. O próprio Didi estava com sua
camisa a perigo, pela campanha da imprensa rubro-negra a favor do jovem
Moacir, que vinha dando tudo nos treinos. Mas Nílton Santos não contava
com que houvesse um dirigente cabalando votos para barrá-lo do time: o
folclórico presidente da Federação Paulista, João Mendonça Falcão.
Mendonça Falcão era o tipo do dirigente que começava a parecer jurássico
nos novos tempos de João Havelange: era jeca, quase analfabeto e, nas
vitórias, abraçava-se de paletó e chapéu aos jogadores debaixo do
chuveiro. Além disso, era anacronicamente bairrista: se pudesse,
formaria o escrete somente com os jogadores de São Paulo. A simples
visão do Pão de Açúcar e de tudo que se referisse ao Rio provocava-lhe
azia, mas tinha uma especial aversão a Nílton Santos. Como não podia
revelar o verdadeiro motivo dessa aversão (uma mulher de suas relações
cobiçava Nílton), usava o fácil argumento da idade: Nílton Santos estava
velho e o titular deveria ser Oreco, do Corinthians. E, de fato, nos
dois amistosos que o Brasil disputou contra o Paraguai, Oreco foi o
titular.
Nílton Santos viu-se ameaçado e resolveu treinar a sério contra
Garrincha. De tanto jogar a seu lado, pensara ter descoberto a maneira
de marcálo. Era só não aceitar a bola que Garrincha parecia oferecer ao
marcador. Porque, no instante em que tentasse toma-la, perdia o pé de
apoio - e era aquela fração de segundo que Garrincha aproveitava para
jogar a bola à frente e passar por ele. Portanto, o segredo era marchar
sem sair do lugar, para não perder o pé de apoio, e esperar que
Garrincha tomasse a iniciativa. Nílton Santos fazia isso - e Garrincha
passava por ele do mesmo jeito.
No terceiro ou quarto drible que tomou de Garrincha num treino, Nílton
Santos foi pedir socorro a Didi:
"Didi, fala com ele para não fazer isso!"
Didi aproveitou que a bola estava no outro lado e sussurrou para
Garrincha:
"Poxa, Mané, não faz isso. O Nílton é do Botafogo e é teu chapa."
Garrincha deu-se conta de que estava pondo em risco o companheiro e
maneirou. Mas, uma ou duas bolas depois, fez Nílton Santos novamente de
peteca. Nílton Santos então começou a marcá-lo na violência, dando-lhe
discretos socos na barriga com o braço retesado. Ao fim do treino,
Garrincha levantou a camisa e reclamou com ele:
"O que deu em você? Olha a minha barriga. Está toda vermelha."
"Ou você sossega ou eu não jogo essa Copa do Mundo", disse Nílton. "Os
homens estão querendo me botar na cerca. Vamos com calma."
Nílton Santos acabaria reassumindo sua cátedra - para sempre - nos dois
amistosos contra a Bulgária, no Maracanã e no Pacaembu. Mas Garrincha só
foi ter sua primeira chance nesta última partida, em que Feola escalou
oito dos até então considerados reservas. Entre os quais, Pelé.
Brasil 3x1 Bulgária, no dia 18 de maio, no Pacaembu, foi a primeira vez
que Garrincha e Pelé jogaram juntos no mesmo ataque. Ninguém poderia
adivinhar, mas aquela tarde de domingo era o começo de uma longa e
maravilhosa escrita:
A seleção brasileira jamais perderia uma partida com os dois em campo.
A três dias do embarque do Brasil para a Europa, Ari Clemente, zagueiro
do Corinthians, largou a bola e acertou um pontapé arrasador em Pelé.
Não era a sua primeira tentativa de esquartejamento. Pelé rolou em campo
com as duas mãos no joelho direito. Seu grito de dor foi ouvido no
túnel. Mário Américo, massagista da seleção, nem olhou para o juiz João
Etzel. Invadiu correndo o campo para socorrer Pelé e, de passagem,
berrou para Ari Clemente, à sua maneira de gago:
"Por-por que v-v-você f-f-fez isto, seu fiii-lho da-da puta???"
Ao ver Pelé sendo carregado chorando, Ari Clemente procurou no gramado
um buraco onde esconder a cara. Carlos Nascimento estava possesso. A
seleção despedia-se rumo à Copa do Mundo com um amistoso caça-níqueis no
Pacaembu e era só o que faltava, perder um jogador.
O jogo Brasil x Corinthians tinha sido acertado em cima da hora, não
estava na programação de Nascimento. Fora uma decisão temerária da CBD e
ela devia saber que teria uma imensa torcida contra: entre o clube e a
seleção, o torcedor fica sempre com o clube - principalmente se um de
seus jogadores mais queridos tiver ficado de fora. E Luizinho, o jogador
mais querido do Corinthians, não havia sido convocado.
Luizinho era magro e baixinho, mas um espeto para o adversário. Os
locutores o chamavam de "Pequeno Polegar". Driblava como um capeta e,
para humilhar seu marcador, sentava-se na bola e ria exibindo as
gengivas
- antes de entrar em campo guardava a dentadura no vestiário, enrolada
numa toalha. O Corinthians não se conformava por ele ter sido deixado de
fora. Mas Luizinho, aos 28 anos, já tivera várias chances na seleção. E
agora, por sua causa, o Brasil jogava sob uma das maiores vaias da
história. Infelizmente, na noite em que deveria provar que a seleção não
poderia viver sem ele, Luizinho foi facilmente anulado por Orlando, e o
Brasil, indiferente às vaias, venceu por 5X0.
No vestiário do Pacaembu, Mário Américo e o roupeiro Francisco de Assis
escaldavam toalhas para aplicar sobre o joelho de Pelé. Hilton Gosling o
examinara e vira que era grave - Pelé talvez não se recuperasse para
jogar a Copa. Mas, na sua idade, havia uma chance. Foi o que Gosling
disse a Nascimento quando este lhe perguntou pela décima vez sobre o
jogador. Chamaram Feola e decidiu- se ali mesmo que Pelé não seria
cortado - por enquanto - e que esperariam uma semana, até o dia 30, data
da inscrição definitiva dos 22 jogadores na FIFA. Naquele dia a seleção
estaria na Itália, às vésperas de seguir para a Suécia. Se então se
comprovasse que Pelé tão cedo não teria condições de jogo, seu
substituto já estava escolhido. E não seria Luizinho, mas o
pernambuquinho Almir, do Vasco, cortado dias antes.
Na partida contra o Corinthians, sua segunda consecutiva, Garrincha
fizera dois gols e parecia firmar-se na posição. Mas podia ser apenas a
sua vez de jogar um pouco, enquanto a comissão técnica não se
convencesse de que seria melhor continuar com Joel. A quinze dias da
Copa, apostar em qualquer dos dois como titular ainda era uma loteria -
e um risco.
Aquela semana no Rio, na Resenha Esportiva fadi, da TV Rio, o
apresentador Luiz Mendes estava dizendo candidamente que, "em sua
seleção, Garrincha e Pelé seriam titulares". Ao pronunciar a penúltima
sílaba, contemplou a plateia, deu-se conta da gafe e arrastou a voz para
não completar a frase. Tarde demais. O programa era ao vivo, na presença
de um auditório maciçamente flamengo - e ali estava ele, o gaúcho e
botafoguense Luiz Mendes, escalando dois jogadores para entrar nos
lugares de Joel e Dida, heróis da Gávea. O programa continuou, mas
debaixo de uma vaia comparável à de Brasil x Corinthians no Pacaembu.
Nenhuma das duas facções - pró e contra Garrincha - esperava que essa
definição partisse de Vicente Feola. O torcedor brasileiro, habituado a
treinadores com a língua entalhada à faca como Flávio Costa ou Zezé
Moreira, não engolia com facilidade um homem discreto e sereno como
Feola. Além disso, gordo. Quando se espalhou a história de que ele
cochilava no banco dos reservas durante os treinos, 60 milhões de
torcedores embarcaram resignadamente nessa crença. Para que ninguém
duvidasse, havia fotos de Feola com os olhos cerrados enquanto os
jogadores corriam em campo. O que se podia esperar de um treinador que
dormia e até roncava em serviço?
Mas seus colegas na comissão técnica sabiam que era uma injustiça. Feola
sofria das coronárias. Às vezes, durante uma reunião ou um treinamento,
era acometido de uma dor no peito, que o atravessava como uma facada e
se irradiava para o braço esquerdo - isquemia do miocárdio, mais
conhecida como angina do peito. Quando isso acontecia, ele baixava a
cabeça, fechava os olhos e esperava a dor passar. Podia levar de dez a
quinze segundos. Pouco tempo, mas o suficiente para que o fotografassem
"dormindo". Uma legenda insinuante reforçava essa impressão. E a
imaginação do leitor fazia o resto.
Curiosamente, Feola não se defendia dessas insinuações. Nem precisava,
porque Havelange e Paulo de Carvalho estavam cansados de conhecê-lo. E
Nascimento, Gosling e Paulo Amaral também sabiam: bobo era quem pensava
que Feola fosse bobo. Na verdade, para a imprensa e a torcida, seria
melhor acreditar que a seleção tinha um treinador dorminhoco que um
treinador cardíaco.
A seleção desembarcou em Roma no dia 25 de maio, depois de vinte horas
de vôo no DC-7 da Panair, com as cansativas escalas em Recife, Dakar e
Lisboa. E, ao contrário do que pretendia, não foi recebida pelo papa.
Pio xii estava ocupado na janela, abençoando a turba sob o azul pintado
de azul. O Brasil juntou-se à multidão na praça, contentou-se com a
bênção por atacado e viajou três horas de trem até Florença. Dois dias
depois, enfrentou a poderosa Fiorentina (contendo seis titulares da
seleção italiana) e meteu-lhe 4X0 no famoso jogo em que Garrincha entrou
com bola e tudo.
O ponta-direita da Fiorentina era Julinho, despedindo-se de seu time e
da Itália. Na véspera do jogo, enxugara as lágrimas e fora ao hotel
Mediterrâneo pedir permissão a Paulo Machado de Carvalho para jogar
contra o Brasil. Ninguém mandara Julinho fazer aquilo, mas ele achara
que, como brasileiro e patriota, era sua obrigação.
Em campo, antes do jogo, ao ouvir o Hino Nacional, sentiu as pernas
bambas e escorou-se em seu companheiro Magnini:
"Me segura, Magnini, que eu vou cair."
"Seja bravo, Giulio", cantarolou Magnini.
Julinho jogou chorando. A idéia de driblar um patrício e atirar contra o
gol do Brasil era-lhe intolerável. Tanto que, em poucos minutos, Nílton
Santos despreocupou-se com ele e foi apoiar o ataque. Enquanto isso, no
outro lado do campo, na ponta direita do Brasil, Garrincha fazia seu
marcador Robotti arrepender-se de ter nascido.
O Brasil já ganhava por 3x0, mas o quarto gol, que foi o de Garrincha,
aos trinta minutos do segundo tempo, sangrou a Fiorentina até a morte.
Garrincha transformou os italianos em soldadinhos de cartas, um
derrubando o outro à sua passagem. Robotti foi o primeiro que ele
driblou. Magnini apareceu para ajudar Robotti e também foi driblado.
Cervato veio ajudar Magnini e foi igualmente driblado. O goleiro Sarti
abandonou a meta para enfrentar Garrincha e também foi fintado. Com o
gol vazio, Garrincha poderia ter chutado, mas Robotti conseguira voltar
para combatê-lo. Garrincha tirou-o da jogada com um drible de corpo e
Robotti teve de segurarse na trave para não cair. Garrincha, então,
apenas caminhou com a bola até dentro do gol. Já no fundo das redes,
deu-lhe um peteleco para pegá-la com as mãos, enfiou-a debaixo do braço
e começou a voltar, frio, devagar e mudo, para o centro do campo.
Não houve pirâmide humana sobre Garrincha. Nem mesmo um montinho. Apenas
gritos dos outros jogadores contra ele. Com o silêncio no estádio, os
italianos, estupefatos pelo gol, devem ter imaginado que os gritos para
Garrincha eram de vibração. Se entendessem português, saberiam que era o
contrário: quase todo o time estava fulo com ele.
Bellini, por exemplo:
"Isso é Copa do Mundo, porra!"
Garrincha olhou para Bellini. Por que a irritação? Na verdade, ainda não
era a Copa do Mundo - mas um simples amistoso, quase um jogotreino. Nem
era contra a seleção de outro país, mas contra um clube. E já estava 3x0
aos trinta do segundo tempo.
Mas a revolta dos companheiros era explicável. Tinham medo de que, em
plena Copa, quando fosse para valer, brincadeiras como essa fizessem o
Brasil perder um jogo. Depois da partida, já no vestiário, Carlos
Nascimento completou a bronca:
"Foi uma molecagem."
Garrincha apenas abaixou os olhos. Seu gol de placa contra a Fiorentina
não lhe rendera grande ibope. Mas, ao contrário do que se escreveria
anos depois, sua permanência na seleção não foi abalada por causa
daquilo. A ira de Nascimento e dos jogadores fora coisa de momento, no
calor do jogo.
Porque, se não fosse, teria sido facílimo desligá-lo da delegação
naquele mesmo dia e chamar um substituto no Brasil - ainda havia tempo.
Como, aliás, quase tinham feito com Pelé.
A vida de Pelé na seleção estivera por um fio a poucas horas do jogo com
a Fiorentina. Hilton Gosling fizera um teste com ele, e seu joelho,
atingido uma semana antes, continuava impraticável. O administrador José
de Almeida sugerira que o devolvessem ao Brasil e que Almir, já
excursionando pela Europa com o Vasco, viesse juntar-se ao time. E o
próprio Pelé pedira para ser mandado de volta. Mas Gosling garantira
que, com mais dez dias de tratamento, ele ainda teria condições de jogar
na Copa. Isso o deixaria fora das duas primeiras partidas da seleção,
contra a Áustria e a Inglaterra - mas Feola só não o escalaria no
terceiro jogo, contra a URSS, se não quisesse.
Garrincha não esteve ameaçado nem por um minuto, mas isso não o impediu
de magoar-se com Nascimento por ter sido chamado de moleque. E de
inventar-lhe um apelido que só não vingou pelo medo que todos tinham do
supervisor: "Prisão de ventre."

Capítulo 8

O Brasil na Suécia

1958

O SPUTNIK FULMINADO

Paulo Machado de Carvalho contava com o cachê dos dois jogos na Itália,
contra a Fiorentina e o Internazionale de Milão (15 mil dólares cada),
para respirar na Suécia, enquanto a FIFA não depositasse o dinheiro para
as primeiras despesas da delegação. Fora combinado que, ao tomar o trem
de Florença para Milão, a seleção já levaria no bolso o pagamento da
Fiorentina. Mas a Fiorentina se complicara ao converter em dólares
aqueles trilhões de liras e não comparecera ao embarque com o dinheiro.
A seleção chegara a Milão contando os tostões e Paulo Machado de
Carvalho estava furioso. Ameaçou que, sem o pagamento da Fiorentina, o
Brasil não entraria em campo contra o Internazionale. A Federação
Italiana teve de correr aos próprios cofres e adiantar o dinheiro,
ficando de cobrar depois da Fiorentina. E, assim, o Brasil entrou em
campo contra o Internazionale e, com Joel no lugar de Garrincha,
sapecou-lhe também um 4x0.
Ao contrário do que se diz, a ausência de Garrincha contra o
Internazionale não teve nada a ver com o gol de bola e tudo. Nem foi ele
o único a ser substituído em relação ao jogo com a Fiorentina: Gilmar
também cedeu a vez a Castilho, De Sordi a Djalma Santos, Nílton Santos a
Oreco, Dida a Vavá, Pepe a Zagalo. A seleção não estava pronta e Feola e
Nascimento ainda tinham dúvidas. O único que não podia sair do time em
Milão, se quisessem ver o estádio de San Siro cheio, era Mazzola. E isso
porque, em junho de 1958, havia dois fenómenos de popularidade na
Itália: Domenico Modugno - com a canção "Volare (Nei blu di pinto di
blu)" - e o brasileiro Mazzola.
Havia meses que os times italianos o vinham cobiçando apenas por ouvir
cantar o galo. Mas agora, com Mazzola ao vivo na Itália e fazendo gols,
o leilão por ele prometia ficar incendiário. Contra a Fiorentina,
Mazzola fizera dois gols. Contra o Internazionale, apenas um, mas de
bicicleta. Se ele cantasse "Volare" num microfone, Mussolini sairia da
tumba e dançaria uma tarantela.
Quem não estava gostando nada daquele funiculi ao redor de Mazzola era a
comissão técnica. Uma das funções de Carlos Nascimento era manter os
jogadores bem longe dos empresários italianos e espanhóis que iriam
rondar as concentrações da Copa. Na Suécia, Nascimento daria conta do
recado, rosnando para os empresários à simples aproximação. Mas o
assédio a Mazzola começara no Brasil, quando a seleção ainda nem tinha
sido convocada. E, na Itália, só fizera piorar: os jornais punham o seu
nome nas manchetes e falavam em cifras siderais. Era inevitável que
Mazzola, dezenove anos, ficasse com a cabeça cheia de vento - o que
parecia já'estar acontecendo. Para cada gol que fazia, perdia dez. Como
seria quando, mesmo sem querer, resolvesse se poupar e não entrar nas
bolas divididas?
E, a partir de agora, era tudo ou nada. De Milão, a seleção partiu no
dia 2 de junho, num Convair da linha escandinava SÃS para Gotemburgo, na
Suécia. No Brasil, 60 milhões de torcedores, ligados a 8 milhões de
aparelhos de rádio, já sentiam as mãos encharcadas. Mas, prevenindo-se
contra a frustração, rosnavam pelas esquinas que seria mais um fracasso
e que o Brasil não passaria da primeira etapa, que eram as
oitavas-de-final.
Se, em condições normais, já não haveria muitas esperanças, desta vez
ainda seria mais difícil, porque o Brasil caíra no pior grupo da Copa, o
mais duro e injusto: Áustria, Inglaterra e URSS. A Áustria não era boba,
sabia jogar; a Inglaterra era temível, tremíamos diante dela; e a URSS
tinha o "futebol científico", que vinha ganhando de todo mundo. A
derrota, a eliminação e a vergonha poderiam estar em qualquer um desses
jogos, se não nos três.
Os jogadores tinham sido proibidos de embarcar levando pandeiros,
cuícas, reco-recos. O que estava indo para a Suécia era a seleção
brasileira, não uma escola de samba. O regulamento disciplinar da
seleção era pior que o de um quartel. Continha quarenta itens e Carlos
Nascimento obrigara todos os jogadores a lê-lo e assiná-lo - para que,
depois, ninguém dissesse que "não sabia".
Era proibido descer para o café da manhã sem estar barbeado. Proibido
andar de cueca, toalha, pijama, sandália ou tamanco pelos corredores dos
hotéis. Proibido fumar quando se estivesse vestido com uniforme de
atleta - um item particularmente cruel, porque o próprio médico da
seleção, dr. Gosling, fumava um maço por hora. Os uniformes de jogo ou
de passeio deviam ser seguidos à risca, para evitar que uns e outros
levassem no enxoval óculos de "Ronaldo" ou chapéus xadrezinhos de Nat
"King" Cole. E, em campo, as camisas tinham de estar para dentro dos
calções - nem em treinos era permitida a moda saco.
Em Milão, Garrincha comprara um chapéu para Pincel e um guardachuva para
Swing, e eles não couberam em sua mala. Não podendo guardálos onde
deveria, pôs 'o chapéu na cabeça e o guarda- chuva no braço. O uniforme
da seleção não previa esses adereços. Nascimento reclamou, Garrincha
explicou-se - e embarcou para Gotemburgo com os adereços. Foi até
fotografado com eles, no que parecia uma perfeita imitação de
Cantinflas. No futuro, esse pequeno episódio ganharia uma relevância quê
nunca teve: a ele seria atribuído o fato de Garrincha não ter jogado as
duas primeiras partidas da Copa. Como se fosse corriqueiro, às vésperas
da Copa, um jogador ser barrado por um guarda-chuva - ainda mais na
seleção de Paulo Machado de Carvalho e Carlos Nascimento.
O regulamento continuava: era proibido falar com a imprensa sobre
assuntos internos da seleção. Ou sobre qualquer assunto fora dos
horários estipulados para atender os repórteres: de onze ao meio-dia e
logo depois dos jogos e treinos. Nascimento não queria saber de fuxicos
fora de hora de jornalistas paulistas com jogadores paulistas e de
jornalistas cariocas com jogadores cariocas - e eram mais de setenta
repórteres, fotógrafos e radialistas brasileiros na Suécia. Exemplares
de jornais e revistas brasileiros na concentração, nem em sonho.
Havia dia marcado para se telefonar para o Brasil (uma vez por semana,
três minutos por jogador) e era proibido falar com a família através das
rádios brasileiras. Não se dizia com todas as letras, mas as cartas que
viessem do Brasil seriam abertas e lidas pela chefia da delegação. O
objetivo era evitar que pequenas hecatombes domésticas, como a asma do
caçula ("Ele ficou azulzinho, pensei que fosse morrer!") ou a conta da
costureira ("Um roubo!"), interferissem na cabeça dos craques. Evidente
que, se algo grave acontecesse, o jogador seria comunicado. A maior
preocupação era com Didi, cérebro e tronco do time e justamente o que
tinha a mulher mais ciumenta e complicada. Já fora difícil, aliás,
proibi-lo de levar Guiomar e Rebecca à Suécia, mesmo que do seu bolso.
A concentração era o Tourist Hotel, em Hindas, um lindo balneário entre
Gotemburgo e Boras. O hotel, escolhido um ano antes pelo dr. Gosling,
tinha dois campos de treino: um nas próprias dependências e outro a
cinco quilómetros, ao qual se chegava por uma estrada através de um
bosque em glorioso Agfacolor. A frente do hotel tinha janelões de vidro
nos dois andares e a paisagem de lagos e pinheirais abria-se dia e noite
à admiração dos jogadores. A paisagem humana também se abria às vezes,
na forma de louras altas e sardentas, algumas espetaculares, que viviam
pelas proximidades.
Antes da chegada da seleção, Gosling pedira ao hotel que substituísse as
28 empregadas (camareiras, garçonetes, cozinheiras) por 28 empregados.
Foi atendido. Mas havia uma ilha de nudismo num dos lagos próximos ao
hotel. Gosling solicitara que, enquanto o Brasil estivesse em Hindas, os
habitantes da ilha usassem roupa. Em nome dos sadios princípios
naturistas, não foi possível atendê-lo. A ilha nudista podia ser vista
das janelas, mas de muito longe - donde, no primeiro passeio a
Gotemburgo, alguns jogadores mais expeditos voltaram com binóculos. No
primeiro dia em Hindas, Paulo Amaral ordenara que, depois do treino, os
jogadores completassem o esforço voltando em marcha acelerada para o
hotel. Todos reclamaram. No segundo dia, deu a mesma ordem e ninguém
reclamou. No terceiro dia, descobriu por quê: os jogadores erravam o
caminho e corriam até o lago para ver de perto os brotos pelados. Paulo
Amaral sentiu-se traído e tirou a marcha acelerada da programação. Daí
os binóculos.
Durante o ano, Hindas tinha uma população de cerca de quinhentas
famílias, mas, no verão, o lugar fervia de rapazes e moças alojados em
acampamentos mistos. E era verão em Hindas, com um clima de Sorrisos de
uma noite de amor, filme do então quase desconhecido Ingmar Bergman - um
hino à alegre liberdade sexual dos suecos. Na Suécia de 1958, uma virgem
de mais de dezenove anos era um problema para sua família. Os vizinhos
perguntavam se ela estava doente ou coisa assim. Os acampamentos de
verão serviam para resolver o problema - e Hindas era um deles.
Acrescente a essa paisagem uma ou duas dúzias de rapazes brasileiros no
seu máximo esplendor atlético.
A chefia da delegação adotou uma atitude em relação a sexo que nenhum
clube brasileiro usara até então: liberal, com reservas. Os jogadores
não seriam proibidos de fazer sexo, desde que se limitassem ao dia de
folga, que era o dia seguinte às partidas. A folga ia de uma da tarde às
7h30 da noite, tempo em que podiam passear por onde quisessem, desde que
"sem excessos". Entre esses excessos, não se contavam os de Feola, que
entrava nas confeitarias suecas, contemplava a enorme variedade do
balcão de doces e dizia - em espanhol, para ser entendido:
"Uno de cada."
A maioria dos jogadores casados tomava o trem para Gotemburgo, a trinta
quilómetros, para andar na montanha-russa do Tivoli, o parque de
diversões. Mas os solteiros preferiam outros programas. Bem ali, ao lado
do hotel, eles já tinham toda a excitação de que precisavam.
As moças suecas circulavam pelos arredores sacudindo suas tranças e
rabos-de-cavalo. Algumas iam para os fundos do hotel e atiravam
pedrinhas nas janelas do segundo andar, onde sabiam que ficava esse ou
aquele jogador. Por intermédio de gestos e sinais, marcavam local e hora
do encontro - geralmente o bosque ou o lago perto do hotel - e, depois
do ato con-" sumado, levavam os jogadores a conhecer sua família. Podia
acontecer que a moça levasse o jogador para apresentá-lo à família antes
de consumado o ato. E nada impedia que este se desse na própria casa da
moça, sob as bênçãos de seu pai, mãe, irmãos ou irmãs.
O jogador era muito bem recebido. Serviam-lhe aquavit (a aguardente
escandinava) ou Coca-cola, a moça dizia tchauzinho à família e, tomando
o jogador pela mão, levava-o rindo para dentro do quarto. Horas depois,
o jogador era convidado a tomar uma sauna com o pai, mãe, irmãos e irmãs
da moça, todos nus na nuvem de vapor.
Era 1958, não se esqueça. Muitos daqueles jogadores, principalmente os
mais novos, tinham viajado pouco com seus clubes. Podiam jogar em times
grandes, mas seus lugares de origem eram os subúrbios ou as cidades do
interior. A maioria só fazia sexo com a patroa ou com profissionais. Os
cariocas, mais safos e viajados, ainda arranjavam alguma coisa no Rio
com as vedetes e estreletes do teatro rebolado, mas nem eles tinham
visto nada parecido com a liberdade da Suécia. O que mais os
impressionava era que o pai e os irmãos da moça "não se importassem" com
que um sujeito - ainda por cima, um estranho - fosse com ela.
Alguns jogadores, por não saber conjugar em inglês nem o verbo to bé,
podem ter perdido algumas oportunidades. Um deles, Pelé. Na primeira
semana em Hindas, ele passeava com o tesoureiro Adolpho Marques pelo
bosque, perto do hotel, quando uma jovem valquíria lhe fez sinais. Pelé
olhou para os lados para certificar-se de que não era com outro. Ao ver
que era mesmo com ele, ainda espetou o dedo na medalhinha com um ar de
ponto de interrogação. A moça balançava a cabeça que sim.
Aproximaram-se, ela recitou um incomunicável discurso em sueco e o
idílio poderia ter morrido ali. Mas Adolpho Marques, um dos poucos da
delegação a falar inglês, perguntou-lhe o que ela queria. A garota foi
direta: um encontro a sós com Pelé. Marques perguntou rindo a Pelé se
ele estava de acordo e marcou para dali a dois dias, que era o dia da
folga, um encontro entre eles.
Pelé ainda não era Pelé, mas isso não fazia diferença. O zagueiro Zózimo
e o meia Moacir também não eram Pelé, mas, como todos os jogadores
negros da seleção, faziam um enorme sucesso com as suecas - muitas nunca
tinham visto um negro na vida, exceto em filme ou fotografia. Didi e
Djalma Santos também tinham o seu eleitorado, mas eram mais velhos e
casados - e Didi, mais que todos, não podia arriscar-se a um passo em
falso. Certa tarde, deu esse passo em falso num barco a remos e caiu
dentro do lago perto do hotel. Não sabia nadar e foi um custo para que o
içassem da água. Sorte que estava acompanhado de alguém que nadava bem -
ou Guiomar seria, subitamente, viúva.
Apesar da liberalidade com que o assunto estava sendo tratado (a própria
chefia da delegação referia-se às transas dos jogadores como "troca de
óleo"), Carlos Nascimento não abria mão do cumprimento dos horários. O
que os jogadores fizessem no dia de folga era da conta deles - mas, nos
demais dias, era da conta da seleção. Tanto que, julgando-se
pessoalmente responsável, quase não dormia. Todas as noites fazia a
ronda da madrugada. À meia-noite, às três e às cinco da manhã, afivelava
a carantonha de Buster Keaton e saía com suas silenciosas chinelas pelo
corredor, abrindo devagar a porta de cada quarto para conferir se, em
cada um, havia dois jogadores dormindo.
As poucas transgressões ao regulamento aconteciam depois do jantar,
quando se entendia que os jogadores podiam dar um passeio a pé pelo
bosque, desde que não fossem muito longe. A dois dias da primeira
partida, um dos jogadores que sabia rudimentos de inglês marcara um
encontro para aquela noite com duas suecas, para ele e um companheiro -
o qual era Garrincha.
O diálogo fora simples. À tarde, as moças haviam jogado as pedrinhas na
janela. O jogador atendeu, viu logo do que se tratava e, mostrando o
relógio de pulso, sussurrou: "Nine o'clock? Nine o'clock?". Depois
apontou para si mesmo, abriu os dedos em forma de V dizendo, "Two!
Two!", e mostrou uma árvore a certa distância. As moças fizeram sinais
de que tinham entendido - elas eram duas, eles seriam dois e se
encontrariam às nove da noite perto da árvore. Na hora marcada,
Garrincha e o outro jogador esgueiraram-se do hotel para o encontro.
Ao ver as garotas, Garrincha deu a primazia ao companheiro:
"Qual delas você quer?"
"Não sei", respondeu o outro. "As duas são um estouro."
"Você escolhe", disse Garrincha. "Eu fico com a que você não quiser. E,
se não quiser nenhuma, eu fico com as duas."
O outro enfim decidiu-se e, enquanto caminhavam de mãos dadas, dois a
dois, em direção ao lago, Garrincha tentou pratear aquele momento com um
toque de romantismo.
Apontava para o céu e dizia em português para sua eleita:
"Céu!" - "Lua!" - "Estrela!".
Perto do lago, o outro jogador foi com sua loura para um matinho jeitoso
e começaram os trabalhos. Quanto a Garrincha, entrou com sua respectiva
num barquinho a remos preso à margem. Desamarrou-o, remou um pouco e
deixou que o barco deslizasse à deriva pelo lago. Minutos depois, apesar
de muito ocupado, seu colega ouviu uivos que vinham do lago. Eram os
uivos de entusiasmo da loura de Garrincha.
 Antes das dez voltaram felizes para o hotel e nem Nascimento suspeitou.
A única transgressão grave se deu com um membro da delegação que pulou a
janela de madrugada e só retornou de manhã. Ao levar um pito de
Nascimento, justificou-se: fora atender ao convite para tomar uma sauna
com uma família da vizinhança. Nascimento deixou passar. Por sorte não
era um jogador - mas o preparador físico Paulo Amaral.
Em todos os jogos, momentos antes de o time entrar em campo, Paulo
Machado de Carvalho comandava uma espécie de oração no vestiário:
"Meus irmãos da Copa. Viemos aqui para ganhar e vamos ganhar. Estou com
vocês para o que der e vier."
Fazia o sinal-da-cruz com o dedo polegar e os jogadores o imitavam.
Todos estavam ali para o que desse e viesse, a começar pelo alto
comando. Paulo Machado de Carvalho era o chefe oficial da delegação, mas
o executivo em ação era Nascimento. Era a ele que os abacaxis eram
reportados; Nascimento os descascava e ia dar ciência a Paulo Machado de
Carvalho. Era também quem mais influía junto a Feola na escalação do
time. Já o dr. Hilton Gosling não se limitava a ser o médico. Falava
inglês e francês e era quem se entendia com os nativos. Quando o caso
parecia complicado, tinha a assistência extra-oficial dos suecos Gunnar
Goransson e Sven Lindquist. Goransson era diretor da Facit no Brasil,
havia séculos que morava no Rio e, àquela altura, era mais Flamengo que
sueco.
O administrador José de Almeida cuidava dos hotéis, aeroportos e
alfândegas, de mandar uniformes para a lavanderia, pedir bolas para os
treinamentos e outras funções práticas. O tesoureiro Adolpho Marques
examinava os borderôs da FIFA, assinava as contas nos hotéis e pagava
semanalmente os jogadores e demais membros da delegação - os quais
recebiam salário e bichos iguais aos dos jogadores. Inclusive os dois
cuja presença era única na Copa do Mundo: o quase psicólogo João
Carvalhaes e o dentista Mário Trigo.
Nenhum outro país entre os dezesseis litigantes trouxera um psicólogo e
um dentista na delegação - supunha-se que seus jogadores já tivessem
saído de casa com a alma e as cáries em dia. Carvalhaes viera à Suécia
por insistência de Paulo Machado de Carvalho. Seus psicotestes não
tinham servido para nada, mas podiam precisar dele no caso de alguém
tremer - o argumento era duvidoso, mas prevaleceu. Quanto a Mário Trigo,
nenhuma dúvida: viera para contar piadas. Já extraíra todos os dentes
possíveis e nem pusera o boticão na mala. Mas, ao contrário de
Carvalhaes, era adorado pelos jogadores. Trigo fazia rir e topava
qualquer brincadeira, até mesmo uma, brutal, a que eles o submetiam:
atravessar o corredor polonês - duas fileiras de jogadores açoitando-o
para valer com as camisetas.
À sua maneira de clown, com uma imaginária bola vermelha no nariz, Trigo
estava fazendo o que competia a Carvalhaes: tranqüilizar os jogadores.
Uma importante figura do Brasil naquela Copa não fazia parte da
delegação. Não se misturava aos jogadores e nem mesmo assistia aos jogos
da seleção - porque estava assistindo aos jogos dos outros: o professor
Ernesto Santos, 52 anos, também ex-treinador do Fluminense. Sua função
na folha de pagamento era a de "observador". Mas, com seus cabelos
brancos e grande visão do futebol, era o espião de Feola e Nascimento.
Um ano antes da Copa, Ernesto Santos já estava na Europa a cargo da CBD.
Assistira às eliminatórias e, depois que as chaves foram definidas, vira
os jogos de Áustria, Inglaterra e URSS, os primeiros países que, pela
ordem, cruzariam os caminhos do Brasil. Suas observações se
transformavam num bolo de papéis amarrotados, contendo o esquema tático
dos adversários, as improvisações, as jogadas ensaiadas e os jogadores
mais perigosos. Numa época sem videoteipe, os papéis amarrotados de
Ernesto Santos eram os filmes com que contavam Feola e Nascimento.
Às vésperas de cada jogo do Brasil, ele se trancava com Feola,
Nascimento, Gosling e Paulo Amaral numa sala e lhes passava o que sabia.
Às vezes ia ao quadro-negro e repetia a giz as triangulações dos
inimigos. Acrescentava alertas específicos:
"Mandem Gilmar abrir o olho com o número três da Áustria. Bate faltas
muito bem, com força e colocação."
Os quatro lhe faziam perguntas. Depois de tudo respondido, Ernesto
Santos retirava-se e deixava a eles a tarefa de escalar o time, E só
estes e mais ninguém - nem mesmo Paulo Machado de Carvalho - tinham
poder de voto e veto na escalação do Brasil.
O grande fantasma para a comissão técnica seria uma derrota no jogo
contra a Áustria aquele domingo. Se o Brasil perdesse logo na estréia,
um ano de trabalho teria ido por água abaixo. Não apenas as chances de
classificação ficariam mínimas (classificavam-se dois dos quatro países
para a etapa seguinte), como o abalo nos jogadores poderia ser fatal -
todos sabiam que, no Brasil, quase ninguém acreditava neles. Por causa
disso, Feola pensava armar o time com três homens no meio-campo: Dino
Sani, Didi e Zagalo. O usual, naquela época de futebol franco e
ofensivo, eram dois. Mas as informações de Ernesto Santos sobre a
Áustria o alarmaram e fizeram, sem querer, com que Garrincha fosse
barrado. Porque, nos treinos da semana, ele se tornara o titular.
A Áustria fechava o meio-campo com quatro jogadores, dissera Ernesto
Santos. Seria suicídio ter apenas três homens contra eles. Feola então
propôs instruir Garrincha a recuar para combater pelo lado direito, como
Zagalo faria pelo lado esquerdo. Nascimento não viu objeção e Gosling
disse que Garrincha estava fisicamente preparado para isso. Uma voz foi
contra: a de Paulo Amaral.
"Não vai dar certo", disse Paulo Amaral. "Garrincha não seguirá a sua
instrução. No Botafogo, durante a preleção tática, nós o mandamos ir
jogar pingue-pongue ou fazer qualquer outra coisa. É imprevisível em
campo. Se tem o gol aberto à sua frente, é capaz de passar a bola a um
companheiro. Ou, então, completamente sem ângulo, resolve chutar. Só faz
o que lhe dá na cabeça no momento. Não é jogador de seguir instruções."
Feola e Nascimento ponderaram a observação de Paulo Amaral. Sabiam que,
como botafoguense, ele gostaria de ver Garrincha no time - mas não
naquele jogo. E assim Joel, taticamente disciplinado e habituado a
atacar e defender, foi escalado contra a Áustria. Houve o jogo e ficou
provado que, sem um meio-campo reforçado, com Dino, Joel, Didi e Zagalo,
a seleção teria se dado mal.
O Brasil estava uma pilha. A Áustria não era um Sonho de Valsa e só não
marcou duas vezes, quando o placar estava ainda em 0X0, porque Gilmar
fechara o gol. Os 3X0 a favor do Brasil não contam direito a história da
partida. Não fosse o gol de Nílton Santos, o resultado poderia ter sido
outro.
Eram cinco minutos do segundo tempo e o Brasil segurava-se num tímido
1X0. Nílton Santos dominou a bola em seu campo e partiu com ela. Na
intermediária da Áustria, soltou-a para Mazzola e pediu de volta.
Recebeu a devolução na frente e, da entrada da área, encobriu o goleiro
Szanwald com grande classe. Era o segundo gol. Diz a lenda que, na
jogada em que Nílton Santos dera a bola a Mazzola e continuara
avançando, Feola, do banco de reservas do Brasil, teria ficado
apoplético e gritado:
"Volta, Nílton! Volta!"
Não era comum em 1958 que os laterais abandonassem a defesa e partissem
para o ataque - e Feola temia que um contra-ataque austríaco pegasse de
cuecas a defesa do Brasil. A maldosa lenda acrescenta que, depois do
jogo, Feola abraçou hipocritamente Nílton Santos, mimoseando-o com
servis elogios de "Muito bem, meu craque".
Nada disso jamais aconteceu. O banco brasileiro ficava do outro lado do
campo, a sessenta metros de distância. Não éra do estilo de Feola gritar
durante o jogo, nem ele tinha pulmões para tanto. Muito menos sabendo
que não seria ouvido. E, se havia um lateral pioneiro na arte de atacar,
era Nílton Santos - vivia fazendo gols pelo Botafogo. Além disso, quando
ele partira com a bola, já escutara Zagalo dizer às suas costas:
"Vai que eu fico!"
Avançara tranqüilo, sabendo que o Brasil não estaria desprotegido, e
fizera o gol. Feola realmente abraçou-o no vestiário, assim como abraçou
todos os outros, e Nílton recebeu feliz o abraço.
"Teje preso! Teje solto! Teje preso! Teje solto!"
Nos primeiros dias em Hindas, Garrincha era um dos mais alegres da
concentração. Aproximava-se por trás de um companheiro ou dirigente e
agarrava e soltava o braço deste, gritando o "Teje preso! Teje solto!".
Ninguém enxergava a graça louca que Garrincha sentia nessa brincadeira
boba, mas ele fazia isso dez vezes por dia com cada um. Alguns, como
Adolpho Marques, já não suportavam serem presos e soltos por Garrincha.
Quanto aos apelidos que ele distribuía pela delegação, ninguém se
ofendia e até se chamavam mutuamente por eles. Bellini era o "Boi" ou
"Marta Rocha". De Sordi, "Mister Magoo" (o herói míope do desenho
animado). Zito, "Chulé". Zagalo, "Caspinha". Castilho, "Boris Karloff"
(ou "Buris", como ele o pronunciava). Pelé, "Elisa" - por Garrincha
achá-lo parecido com a torcedora número um do Corinthians.
Outra brincadeira envolvia seu concorrente direto na ponta direita -
Joel -, e devia ser enervante para a vítima. Joel tinha um defeito na
fala: era quase fanho e Garrincha o apelidara de "Fon-fon". Sempre que
Joel abria a boca para dizer qualquer coisa, Garrincha buzinava,
"Fon-fon!". Era a senha para que os jogadores por perto explodissem num
"Parabéns pra você", embora Joel só fizesse aniversário em novembro.
Joel passava dias compulsoriamente mudo, mas levava a brincadeira na
esportiva.
Joel era inteligente, estudara até o segundo grau e, se havia uma
palavra para defini-lo, era "ajuizado". Com os salários e bichos que
ganhara no tricampeonato do Flamengo, construíra com seu pai um prédio
de dezessete apartamentos na rua Andrade Pertence, na Glória. Poucos
jogadores tinham um património igual. Aos 24 anos, poderia até parar de
jogar se quisesse. E, fora de campo, era um monge ou quase. Não bebia
nem fumava e, quando uma fã mais dadivosa ia esperá-lo à saída do clube,
Joel consultava a folhinha: se o Flamengo jogasse no sábado, ele só
faria sexo até terça- feira; se no domingo, até quarta. Guardava suas
energias para o jogo - e, se necessário, usava todas elas para que o
respeitassem. Um de seus truques era uma meia-bicicleta em que, com o
peito da chuteira, acertava o pescoço do lateral que o estivesse
marcando com violência. Fizera isso num Flamengo x Botafogo adivinhe com
quem - Nílton Santos.
Para Nílton, Garrincha já deveria ter entrado contra a Áustria. Seria
loucura se não o escalassem no jogo seguinte, contra a Inglaterra, na
quartafeira. Mas, pelas irradiações que seu radar estava captando da
comissão técnica, sabia que isso não iria acontecer.
Garrincha também sabia que iria continuar de fora e perdera o ânimo para
as brincadeiras. Fartara-se do teje preso e teje solto. Estava comendo
pouco e era sempre o primeiro a deixar a mesa. Já não se juntava muito
aos outros. Preferia passar horas dentro de seu quarto em Hindas, lendo
revistas suecas e tocando discos como "Maracangalha", com Dorival
Caymmi, em sua vitrolinha. Ou pescando sozinho no lago com os caniços
que os empregados deixavam preparados para os hóspedes. E ninguém o vira
fazer isso, mas não é impossível que, aos pouquinhos, se servisse de uma
ou mais garrafinhas de aquavit que tivesse contrabandeado de Gotemburgo
e escondido por ali.
Estava engolindo com fel a condição de reserva. Não porque se achasse o
dono da posição, mas porque o estavam privando do seu prazer de jogar.
Ao convencer-se de que continuaria de fora contra a Inglaterra, disse a
Hilton Gosling:
"Doutor Hilton, não seria melhor me mandar de volta?"
Gosling pediu-lhe que tivesse paciência e garantiu que sua hora
chegaria. Garrincha não ficou convencido. A dois quartos do seu, o
titular Joel também não estava muito seguro de sua própria situação. Às
vésperas de Brasil x Inglaterra, Joel comentou com Zagalo, seu
companheiro de quarto em Hindas:
"Preciso caprichar. Se o Mané entra no time, não sai nunca mais."
Garrincha não jogou contra a Inglaterra e, mais uma vez, o responsável
indireto por isso foi Ernesto Santos. Dias antes, em sua preleção
reservada à comissão técnica, ele advertira sobre o lateral- esquerdo
inglês Slater - segundo ele, o jogador mais perverso que já vira atuar.
Ernesto Santos não sabia, mas, por coincidência, slater, em inglês, é
aquele que pune severamente, que aplica castigos físicos. Nas partidas
da Inglaterra a que ele assistira aquele ano, Slater quebrara um ponta
por jogo. Sua jogada, deslealíssima, consistia em pisar com força o
calcanhar do adversário na corrida, prender-lhe o pé e embolar- se com
ele na queda. O juiz nem sequer marcava falta contra a Inglaterra. O
ponta, no entanto, passava o resto do jogo fazendo número ou saía de
campo para não voltar.
Feola queria o Brasil ofensivo. Já não precisava de quatro no meiocampo,
porque a Inglaterra continuava praticando o mesmo futebol dos tempos de
Charles Dickens: chuveirinhos sobre a grande área para as cabeçadas de
seus atacantes. Se a defesa brasileira suportasse a pressão, o ataque
poderia mexer-se à vontade lá na frente. Portanto, era a vez de
Garrincha. Mas, com o relatório de Ernesto Santos, Feola resolvera
pensar duas vezes.
Na reunião a portas fechadas para escalar o time, o único voto a favor
de Garrincha contra a Inglaterra foi o de Carlos Nascimento. Seu
argumento era o de que bastava instruí-lo a livrar-se logo da bola e não
enfrentar Slater no mano-a-mano. Mas Feola e Paulo Amaral sabiam que
Garrincha não obedeceria e, na primeira vez que passasse por Slater,
este o quebraria. Logo, vetavam sua presença no jogo. E Hilton Gosling
fez 3X1 contra Garrincha, sob o argumento de que, se o lançassem contra
a Inglaterra, podiam perdê-lo para o resto da Copa. Joel foi então
novamente escalado, com a advertência de que tabelasse com Didi e se
enfiasse pelo meio para evitar Slater.
Veio o jogo e, no primeiro tempo, Joel seguiu as instruções. Atuou mais
pelo meio e quase marcou um gol, salvo em cima da linha pelo zagueiro
Billy Wright com o goleiro McDonald batido. No fim do segundo tempo,
Joel empolgou-se, foi ciscar na ponta direita, enfrentou Slater - e
Slater o acertou feio.
O Brasil empatou em 0x0 com a Inglaterra jogando melhor que na vitória
sobre a Áustria, mas o desânimo se abateu sobre os jogadores. De
repente, Hindas pareceu povoada pelo fantasma que sempre assombrara o
Brasil nas Copas do Mundo: o medo diante do jogo decisivo. E o jogo
seguinte, contra a URSS, no domingo, seria mais que decisivo.
Ou o Brasil ganhava e seguia em frente - ou voltava de novo mais cedo
para casa, confirmando a opinião nacional de que, no fundo, éramos um
país de vira-latas.
Havia dois anos que só se falava no futebol russo. E mais ainda depois
que a URSS lançara o primeiro satélite artificial - o Sputnik, em 1957
-, embora não se soubesse o que uma coisa tinha a ver com a outra. Como
tudo que parecia vir da URSS, seu futebol também tinha uma aura de
modernidade e mistério que dava medo. Era o "futebol científico", em que
os jogadores estavam preparados para correr 180 minutos e, depois,
sapatear balalaikas sobre os bofes dos adversários. Dizia-se que, em dia
de jogo, eles faziam quatro horas de ginástica pela manhã. Dizia-se
também que a KGB espalhara espiões pelo mundo, filmando partidas, e que
seus computadores - então chamados "cérebros eletrônicos" - haviam
produzido um sistema perfeito para derrotar qualquer equipe. A URSS
seria campeã mundial e o título de campeã olímpica, conquistado em 1956
em Melbourne, na Austrália, teria sido uma amostra para o Ocidente.
Muito dessa propaganda era apenas parte da Guerra Fria. Na vida real, a
URSS não jogava tanto quanto nas páginas do Pravda ou do Izvestia, os
jornais oficiais soviéticos. Tinha dois grandes jogadores: o quíper Lev
Yashin, quase inexpugnável, e o meia Igor Netto, uma espécie de Didi
russo. Dos outros sabia-se pouco, a não ser que eram comunistas, ateus,
comiam criancinhas com caviar e, como todos os russos, beijavam-se na
boca depois de um gol.
As delegações de Brasil e URSS estavam a cem metros uma da outra em
Hindas. Seus hotéis eram vizinhos, embora o dos russos ficasse numa
pequena elevação, o que lhes permitia ter uma visão privilegiada dos
treinamentos do Brasil: bastava-lhes sentar no cocuruto do morro e olhar
para baixo. Quanto aos brasileiros, o máximo que podiam ver eram as
silhuetas dos russos em contraluz no alto do morro, fazendo ginástica. E
era mesmo apavorante, porque eles pareciam exercitar-se dia e noite.
É verdade que, para um time de super-homens, sua campanha até agora não
tinha sido melhor que a do Brasil: também haviam empatado com a
Inglaterra (2x2) e derrotado a Áustria (mas apenas por 2x0). Só que Igor
Netto não jogara nas duas partidas - e, contra o Brasil, ele finalmente
estrearia na Copa. Além disso, o jogo seria decisivo para os dois. Para
piorar as coisas, o treinador russo Gavrin Katchalin ousara fazer uma
visita "de cortesia" à seleção brasileira na semana do jogo e espionar
pessoalmente um treinamento. Quando um repórter brasileiro pediu-lhe
para escalar o ataque ideal do Brasil, Katchalin falou sem hesitar:
Garrincha, Didi, Mazzola, Pelé e Zagalo. O olho de Moscou conseguira
penetrar na cabeça da comissão técnica.
A entrada de Garrincha vinha sendo pedida por muita gente. Havia no
máximo trezentos torcedores brasileiros na Suécia, mas um grupo deles
seguia a seleção e dedicava-se a vaiar Joel e exigir Garrincha. Separado
destes, um homem era o "torcedor-símbolo" do Brasil: o jovem advogado
carioca Cristiano Lacorte, botafoguense, grande gozador e histórico
freqüentador do botequim da Miguel Lemos. Lacorte pagara sua passagem do
próprio bolso, mas juntara-se à delegação como se pertencesse a ela. Era
paraplégico e sua cadeira de rodas era empurrada por Bellini ou Mário
Américo. Sua condição de deficiente era um exemplo para os jogadores:
assistia aos jogos ao lado da comissão técnica e quase voava da cadeira
a cada gol do Brasil. Como os outros torcedores, Lacorte também queria
Garrincha no time.
Sem saber o que se passava nas entranhas da comissão técnica, Didi e
Nílton Santos não se conformavam com a ausência de Garrincha. Para Didi,
não se ganhava uma Copa do Mundo com apenas dois homens na frente. No
dia seguinte ao jogo contra a Inglaterra, Nílton Santos escrevera uma
carta a Sandro Moreyra, que ficara no Rio, falando de sua "desilusão"
com a seleção brasileira e de seu desapontamento pela não-escalação de
Garrincha.
Em torno desse clima, criou-se uma das mais fantásticas lendas do
futebol brasileiro: a de que, na véspera do jogo contra a URSS, uma
comissão formada por Bellini, como capitão do time, e Didi e Nílton
Santos, como os mais velhos, teria pressionado Feola e Paulo Machado de
Carvalho para que Garrincha fosse escalado.
Diversas variantes foram acrescentadas. Uma delas, a de que Hilton
Gosling simularia uma contusão em Joel para obrigar Feola a escalar
Garrincha. Mas, para isso, Joel teria de topar - donde ele teria sido
conversado por Paulo Machado de Carvalho para ficar de fora. Outra
versão, que contradiz a anterior, mostra Paulo de Carvalho
aconselhando-se com Didi:
"Didi, nós somos de São Paulo. Não conhecemos direito o Garrincha. Você
garante por ele?"
E Didi, enfático, teria respondido:
"Escale o homem, doutor Paulo. Escale o homem."
Uma terceira versão diz que Joel - que realmente se machucara contra a
Inglaterra, mas que poderia jogar contra a URSS se fosse poupado nos
treinos - teria sido de propósito autorizado a treinar para sentir a
contusão e ficar de fora.
Todas essas histórias têm sido insistentemente contadas na imprensa
brasileira. E todas elas foram desmentidas pelos jogadores da seleção de
1958 ouvidos neste livro, inclusive os seus protagonistas: Bellini, Didi
e Nílton Santos.
A seleção de 1958 sempre foi considerada um modelo de organização e
disciplina. O respeito dos jogadores pela hierarquia era absoluto e o
coleguismo entre eles, nem se fala. Uma campanha de três jogadores a
favor de um colega, em detrimento de outro, era inconcebível. Feola
podia ser maleável e estar sempre pronto a escutar, mas Carlos
Nascimento não - e sua voz tinha o mesmo peso na comissão técnica que a
de Feola. Jamais admitiria pressões de ninguém. Quanto a Paulo Machado
de Carvalho não conhecer Garrincha por ser "de São Paulo", isso
contraria frontalmente a decantada organização daquela seleção, aliás
atribuída a ele. Como podiam não conhecer Garrincha se a seleção já
vinha treinando e jogando havia dois meses? E para que tinham servido
todos os jogos de Garrincha pelo Botafogo contra times paulistas nos
últimos cinco anos? Pois se até os russos conheciam Garrincha!
Didi e Nílton Santos, na condição de mais velhos e experientes, eram
interlocutores de Feola e Nascimento. Nunca esconderam sua convicção de
que o Brasil deveria jogar ofensivamente, donde sua preferência por
Garrincha. Mas a opinião dos jogadores era apenas um item a ser
discutido nas reuniões da comissão técnica - às quais eles, os
jogadores, não tinham acesso (e muito menos os jornalistas). E, como não
tinham acesso, não podiam saber que Garrincha só não entrara contra a
Áustria e a Inglaterra por questões táticas e estratégicas. E que sua
presença contra a URSS era certa - mas deveria ser mantida em segredo
até, se possível, a hora do jogo.
A prova disso é que, na quinta-feira, a comissão técnica comunicou à
imprensa que a seleção faria um coletivo no dia seguinte às três horas
da tarde, no campinho perto do hotel. Foi pedido sigilo: a comissão
técnica não queria que os jornalistas estrangeiros e, principalmente, os
russos ficassem sabendo e fossem lá espiar. Na hora marcada, os
jornalistas brasileiros - mais os jornalistas estrangeiros e os espiões
russos - estavam no alto do morro, todos com seus blocos, canetas e
câmaras. E nenhum jogador à vista. A seleção já havia treinado de manhã.
Quem os esperava era Carlos Nascimento, que olhou feio para os
repórteres brasileiros. Apontou para os estrangeiros e espiões russos, e
perguntou:
"Qual de vocês deu com a língua nos dentes?"
Ninguém se apresentou.
Naquela manhã bem cedo, Paulo Amaral reunira os jogadores no saguão do
hotel e dissera:
"Peguem o material e entrem no ônibus. Vamos sair daqui."
Ninguém sabia para onde. A antecipação do treino para aquela manhã, no
campinho a cinco quilómetros do hotel, fora mantida em segredo até dos
jogadores. No campinho, Feola escalara inicialmente o time A com Joel,
Mazzola e Dida no ataque, e o B com Garrincha, Vavá e Pelé. Meia hora
depois, quando certificara-se de que não estavam sendo observados,
mandou os seis jogadores trocarem de camisa. A nenhum deles foi dito
que, a partir daquele momento, Garrincha, Vavá e Pelé eram os titulares.
A entrada de Vavá e Pelé contra a URSS só foi decidida naquele treino -
Mazzola e Dida estavam mal fisicamente e não tinham aprovado. Mas a
escalação de Garrincha já estava garantida desde a véspera: Dino Sani
sofrera distensão muscular na virilha contra a Inglaterra na
quinta-feira e estava fora da Copa. O novo titular do meio-campo seria
Zito, mais marcador que Dino Sani. Com Zito protegendo a defesa, não
precisariam de um quarto homem para combater o adversário.
Mas o principal motivo para a entrada de Garrincha era o medo da
comissão técnica quanto ao preparo físico dos russos.
Se era verdade que eles seriam capazes de agüentar 180 minutos, o
essencial era assustá-los desde o começo - se possível, marcando um gol
nos primeiros minutos. Para isso, o Brasil deveria partir maciçamente
para o ataque assim que a bola rolasse.
No sábado, Garrincha perguntou a Nílton Santos:
"Estão falando que eu vou jogar. Mas só acredito se você me disser. É
verdade?"
"Parece que é", respondeu Nílton.
Didi animou-o:
"É amanhã que você vai botar os russos pra jambrar, Mané."
E Garrincha:
"Será que esses caras são de bola?"
Os jornais brasileiros daquele dia deram o provável time do Brasil
contra a URSS com Zito no meio-campo e Garrincha, Vavá e Pelé no ataque.
Mas ninguém tinha certeza de nada. Estavam se baseando apenas no que
alguns jogadores haviam contado aos jornalistas depois do falso treino
na sextafeira à tarde. A comissão técnica não queria dar a menor
oportunidade aos russos. Se ficassem na dúvida até a entrada dos times
em campo, melhor para o Brasil.
O único que não tinha dúvidas de que estava barrado era Joel. Soubera
disso no exato momento em que Feola o mandara trocar de camisa com
Garrincha. E, desde então, ninguém da comissão técnica lhe falara mais
nada. Horas depois, Paulo Machado de Carvalho aproximara-se de Joel e
lhe fizera festinhas no rosto, como que para consolá-lo, mas sem dizer o
motivo. Nem precisava. No domingo de manhã, Feola chamou os jogadores no
saguão do hotel e apenas formalizou a nova escalação. E, como compete
aos treinadores, não deu explicações sobre o porquê da saída de uns e da
entrada de outros.
Os jogadores pegaram suas bolsas com o material e a seleção tomou o
ônibus para o estádio Nya Ullevi, em Gotemburgo. A poucos minutos da
partida, enquanto os jogadores eram massageados por Mário Américo,
Carlos Nascimento resolveu retribuir a "cortesia" dos russos e foi
xeretá-los no seu próprio vestiário. Muniu-se de flâmulas da CBD e foi
oferecê-las aos adversários.
Voltou poucos minutos depois, com a mesma cara fechada, mas com um
brilho nos olhos:
"Eles estão apavorados!"
Quando a seleção reuniu-se ao redor de Feola para as últimas instruções,
todos escutaram quando ele virou-se para Didi:
"E não se esqueça, Didi. A primeira bola é para o Garrincha."
E para Garrincha:
"Tente descadeirá-los de saída."
"Monsieur Guigue, gendarme nas horas vagas, ordena o começo da partida.
Didi centra rápido para a direita: 15 segundos de jogo. Garrincha escora
a bola com o peito do pé: 20 segundos. Kuznetzov parte sobre ele.
Garrincha faz que vai para a esquerda, não vai, sai pela direita.
Kuznetzov cai e fica sendo o primeiro João da Copa do Mundo: 25
segundos. Garrincha dá outro drible em Kuznetzov: 27 segundos. Mais
outro: 30 segundos. Outro. Todo o estádio levanta-se. Kuznetzov está
sentado, espantado: 32 segundos. Garrincha parte para a linha de fundo.
Kuznetzov arremete outra vez, agora ajudado por Voinov e Krijveski: 34
segundos. Garrincha faz assim com a perna. Puxa a bola para cá, para lá
e sai de novo pela direita. Os três russos estão esparramados na grama,
Voinov com o assento empinado para o céu. O estádio estoura de riso: 38
segundos. Garrincha chuta violentamente, cruzado, sem ângulo. A bola
explode no poste esquerdo da baliza de Yashin e sai pela linha de fundo:
40 segundos. A plateia delira. Garrincha volta para o meio do campo,
sempre desengonçado. Agora é aplaudido.
"A torcida fica de pé outra vez. Garrincha avança com a bola. João
Kuznetzov cai novamente. Didi pede a bola: 45 segundos. Chuta de curva,
com a parte de dentro do pé. A bola faz a volta ao lado de Igor Netto e
cai nos pés de Pelé. Pelé dá a Vavá: 48 segundos. Vavá a Didi, a
Garrincha, outra vez a Pelé, Pelé chuta, a bola bate no travessão e
sobe: 55 segundos. O ritmo do time é alucinante. É a cadência de
Garrincha. Yashin tem a camisa empapada de suor, como se já jogasse há
várias horas. A avalanche continua. Segundo após segundo, Garrincha
dizima os russos. A histeria domina o estádio. E a explosão vem com o
gol de Vavá, exatamente aos três minutos."
Foi assim que o repórter Ney Bianchi reproduziu em Manchete Esportiva
aquele começo de jogo, como se tivesse um olho na bola e outro no
cronometro. Mas não estava longe da verdade. Outro jornalista, Gabriel
Hannot, diria que aqueles foram os maiores três minutos da história do
futebol - e, com mais de setenta anos, ele fora testemunha ocular dessa
história. A avalanche fora tão impressionante que, assim que se viu
vazado, Iashin cumprimentou o primeiro brasileiro que lhe passou por
perto - por acaso, Pelé.
E ainda faltavam 87 minutos para o jogo acabar! A continuar daquele
jeito, já havia russos contemplando uma temporada na Sibéria. Nunca o
orgulho do "científico" futebol soviético fora tão desmoralizado, e pelo
mais improvável dos seres: um camponês brasileiro, mestiço, franzino,
estrábico e com as pernas absurdamente tortas. A anticiência por
excelência o antiSputnik, o anticérebro eletrônico ou qualquer cérebro.
Kessarev, Krijveski, Voinov, Tsarev e, mais que os outros, Kuznetzov,
todos os zagueiros russos foram driblados por Garrincha em algum momento
do jogo: um de cada vez, dois, três ou, em fila, todos ao mesmo tempo.
Garrincha deixava um russo sentado e dizia, como se ele pudesse
entendê-lo:
"Conheceu, papudo?"
No começo do jogo, depois da saraivada inicial de dribles, os russos
ainda pensaram que fosse um problema de marcação. Começaram a gritar e a
discutir entre si. Mas, se acertaram a marcação, não se ficou sabendo,
porque Garrincha continuou a driblá-los do mesmo jeito. Os russos
apelaram para a violência, mas apenas uma vez o acertaram feio. Houve um
lance em que, depois de fazer um russo cair, Garrincha pôs o pé sobre a
bola e, de costas para o adversário, estendeu-lhe a mão para que se
levantasse. E seguiu com a jogada, como se fosse a coisa mais natural do
mundo.
No Rio, grudado ao rádio, com lágrimas nos olhos, o botafoguense Paulo
Mendes Campos, que sempre considerara Garrincha um deus entre os
mortais, via enfim que sua fé não fora um delírio: Garrincha era a prova
de que "a mágica pode ganhar da lógica".
O Brasil faria apenas mais um gol, também de Vavá, aos 31 minutos do
segundo tempo. Mas parecia a maior goleada da história das Copas do
Mundo. Em nenhum momento a URSS ameaçara - Gilmar fez somente uma defesa
no jogo. Do outro lado, no entanto, Iashin evitou uma catástrofe
numérica. O Brasil atacou 36 vezes, dezoito das quais com perigo e ainda
disparou aquelas duas bolas na trave. Garrincha nascia ali, não apenas
para o mundo, mas para o próprio Brasil.
A partir daquele dia, deixaram de existir botafoguenses, tricolores,
rubro-negros, gremistas ou corintianos puros. Todos passariam a ser
Garrincha, mesmo quando ele jogasse contra seus clubes.
No vestiário, depois do jogo contra a URSS, Garrincha não sabia quem o
havia marcado. E por que deveria saber? Não tinha sido marcado por um,
mas por muitos, e todos tinham aqueles nomes terminados em ev ou ov. De
que lhe interessava?
Sua única frase, que resumia tudo o que sentia, era:
"Eu tava com fome de bola."
Garrincha nina a Juks Rimet

Capítulo 9

1958

A VITÓRIA AZUL

Garrincha não sabia cantar o Hino Nacional. Sua postura, durante a
execução do virundu, era a pior do time: troncho, ligeiramente
encurvado, mãos em invisíveis bolsos traseiros, pernas abertas em dez
pras duas. Seu perfil era quase um S - o menos marcial possível. Mas,
assim que ele recebera a primeira bola, um bailarino saltara de seu
corpo e - como foi mesmo que os jornais disseram? - arrombara a Cortina
de Ferro. Nos dias seguintes à partida contra a URSS, a Europa já não
sabia o que escrever a seu respeito. Um jornal de Estocolmo deu em
manchete: "PARABÉNS, GOTEMBURGO. NA QUINTA-FEIRA VOCÊS VERÃO GARRINCHA
OUTRA VEZ!". Referia- se ao jogo seguinte do Brasil, agora pelas
quartas-definal, contra o País de Gales. E, quando diziam Garrincha, não
queriam dizer o Brasil, mas Garrincha mesmo, o homem-show.
Um jornalista francês classificou-o como "o maior reserva do mundo". Um
inglês se perguntava por que ele não entrara antes: "Garrincha teria
derrotado sozinho a Inglaterra". E outro sueco, seguramente mal
informado, arriscou: "Não há dinheiro nos clubes europeus que possa
pagar um jogador tão formidável". Será? No dia seguinte ao jogo contra a
URSS, Garrincha recebeu o bicho das mãos de Adolpho Marques: cinqüenta
dólares. E, no Brasil, anunciou-se que ele fora eleito o "desportista da
semana" - prémio: uma bicicleta Gulliver.
No sábado, véspera do jogo, o professor Carvalhaes chamara os jogadores
de volta aos psicotestes. Queria ter certeza de que todos estavam em
condições psicológicas de enfrentar a URSS. Dos onze que jogariam,
reprovou nove. Gilmar, porque não conseguia traçar duas linhas paralelas
- isso queria dizer que estava nervoso. Didi, ao lhe ser pedido que
desenhasse o que lhe viesse à cabeça, fez uma casinha com chaminé.
Quando Carvalhaes perguntou-lhe o que significava, Didi respondeu: "É a
casinha que vou comprar com o dinheiro que pretendo ganhar na Copa" -
por isso, Carvalhaes considerou-o mercenário, pouco patriota. Garrincha
desenhoxi um círculo do qual saíam alguns traços. Podia ser o sol, uma
bola, qualquer coisa. Garrincha disse que era a cabeça de Quarentinha,
seu colega do Botafogo. Por isso também foi considerado inapto.
Carvalhaes levou o resultado dos testes a Feola. Apenas Pelé e Nílton
Santos tinham sido aprovados. Entre o bom senso e a psicologia, Feola
ficou com o bom senso. E, com o aval de Paulo Machado de Carvalho, gelou
Carvalhaes pelo resto da Copa.
Aquele tinha sido o primeiro Brasil x URSS de todos os tempos. Na semana
do jogo, Luís Carlos Prestes, secretário-geral do clandestino Partido
Comunista Brasileiro, mandara uma mensagem à seleção na Suécia torcendo
para que o Brasil "derrotasse os soviéticos". Vindo de Prestes, velho
inquilino da URSS, era um apoio sensacional. Mas O Globo não o perdoou.
Em editorial de primeira página, desancou-o como demagogo e acusou-o de,
com isso, tentar apagar sua infeliz declaração no Senado, em 1946, de
que, no caso de uma guerra entre o Brasil e a Rússia, ficaria com a
Rússia. Só faltava agora o almirante Pena Boto, chefe da Liga
Anticomunista, ter torcido pela URSS. Depois da vitória os jornais foram
ouvi-lo, mas o minúsculo e elétrico Pena Boto desapontou-os: não ouvira
o jogo porque tinha mais o que fazer. Devia ser o único no Brasil a
estar ocupado àquela hora.
Pela primeira vez desde 1950, a Copa saía de cada casa brasileira e se
espalhava pelas ruas, pelos bares e em torno dos alto-falantes. No Rio,
depois da vitória contra a URSS, carros e lambretas desfilaram do Leme
ao Leblon agitando bandeiras e misturando-se às escolas de samba que
desceram dos morros. Em São Paulo, a concentração foi no vale do
Anhangabaú. Pela primeira vez desde 1950, havia esperança. Garrincha
tornara a Copa possível.
O vencedor de Brasil x País de Gales já estaria entre os quatro
finalistas da Copa. Quem perdesse, adeus - mais uma vez, o esforço de um
ano seria decidido em noventa minutos. Para o País de Gales, aquele
seria o terceiro jogo em cinco dias: no domingo, empatara com a Suécia
em 0x0; na terça-feira, vencera a Hungria por 2x1, num duríssimo
jogo-desempate pela segunda vaga em seu grupo; e agora, na quinta,
enfrentava a nova sensação da Copa, o Brasil, num jogo de vida ou morte.
O Brasil tivera esses mesmos cinco dias para descansar, namorar as
suecas, fazer compras em Gotemburgo e preparar planos de jogo. E, mesmo
assim, Gales seria a sua pior parada: um ferrolho medieval, com os onze
jogadores na defesa.
Didi declararia depois que sua atuação contra o País de Gales tinha sido
a maior de sua vida. E Pelé fez um dos gols mais deslumbrantes dos mil e
tantos que ainda iria marcar: recebeu de Didi na marca do pênalti, de
costas para o gol; deu um lençol em Williams, virou-se, petequeou com a
esquerda e, sem deixar a bola cair, fulminou o goleiro Kelsey com a
direita. Em seguida, foi beijar a bola ajoelhado dentro do gol, com
quatro ou cinco companheiros espremendo-o contra as redes. Mesmo que não
fosse um gol de antologia, foi o mais importante de sua carreira:
garantiu a vitória por 1x0 e a passagem do Brasil às semifinais da Copa.
Mas esse gol só saiu aos 28 minutos do segundo tempo, depois de mais de
uma hora de bombardeio.
Garrincha, caçado em campo por três galeses ao mesmo tempo, não repetiu
o seu carnaval. Uma única vez o lateral-esquerdo Hopkins ousou
enfrentá-lo sozinho. Pois foi nessa vez que Garrincha o driblou e deu o
passe a Didi, que resultou no gol de Pelé.
Enquanto o Brasil martelava a muralha de Gales, dois corações palpitavam
no palácio do Catete, no Rio, sede do governo federal: o do presidente
Juscelino Kubitschek e o de seu convidado especial - Amaro, pai de
Garrincha. Na manhã do jogo, dois oficiais de gabinete de JK tinham ido
a Pau Grande convidá-lo a ouvir o jogo com o presidente da República.
Amaro, meio zonzo, aceitara. Obrigara seu compadre Nico Cozzolino a ir
com ele e vestira sua melhor roupa de missa: terno caqui peço-a-palavra
e encolhido nas mangas, chapéu com a fita manchada de suor, guarda-chuva
desbotado, meias brancas e sapatos Tank pretos.
Por estar na presença de Juscelino, Amaro teve de controlar-se. Em Pau
Grande, quando ouvia que Garrincha estava levando pontapés como um
cachorro, puxava o punhal e ameaçava estripar o rádio. Ou então dava-lhe
uns tapas, com o que queimava algumas válvulas e o rádio saía do ar. Mas
ali, em palácio, com a sala cheia de homens que não conhecia, Amaro
tinha vergonha - embora estivesse com o punhal na bainha sob o paletó.
Quando Pelé fez o gol, Amaro mal conseguiu engolir o palavrão que esteve
a ponto de explodir. Juscelino abriu o seu melhor sorriso chinês e disse
o palavrão por ele. Amaro regou o jogo com cerveja, porque não lhe
ofereceram pinga e ele recusara o uísque. Na saída, Juscelino deu-lhe
uma nota de duzentos cruzeiros, agradeceu-lhe por tudo que seu filho
vinha fazendo pelo Brasil e mandou um carro preto de chapa branca
levá-lo de volta a Pau Grande.
Com aquela vitória, o Brasil já era, na pior das hipóteses, o quarto
time do mundo. Na opinião deste mesmo mundo, merecia ser o primeiro.
Deixara de ser apenas uma constelação de estrelas egoístas, como no
passado, e tornara-se um conjunto, uma equipe - tão eficiente que,
quando uma delas, Garrincha, resolvia brilhar por conta própria, seus
companheiros descansavam e as arquibancadas se iluminavam de sorrisos.
Para Feola e Nascimento, o grande adversário do Brasil na semifinal não
era exatamente a França, mas o clima de já-ganhou entre os jornalistas e
torcedores brasileiros na Suécia. A comissão técnica temia que isso
pudesse contagiar os jogadores. Os estádios não tinham alambrados e,
quando as partidas terminavam, brasileiros enrolados em bandeiras iam
abraçar-se aos jogadores no vestiário. O próprio povo sueco, sem querer,
fermentava esse clima de euforia. Quando a seleção despediu-se de Hindas
e tomou o trem de Gotemburgo para Estocolmo, palco das duas partidas
finais, uma multidão de cabeças louras postou-se ao longo da linha
férrea, agitando bandeirinhas e gritando os nomes de Didi, Garrincha e
Gilmar. A seleção soubera cativar o povo de Gotemburgo: ao fim do jogo
contra Gales, Bellini comandara uma volta olímpica com os jogadores
carregando a bandeira da Suécia em adeus à cidade.
Em Estocolmo, a comissão trancou os jogadores na concentração de
Lillswed e só os tirou dali para os bate-bolas no estádio de Solna, onde
seria o jogo contra a França. Os franceses não tiveram essa preocupação:
dias antes, os jogadores mandaram buscar suas mulheres em Paris. Seus
dirigentes haviam sido contra, mas os jogadores insistiram e elas
aterrissaram em Estocolmo na véspera da partida - e foram direto para a
concentração. Os repórteres as entrevistaram no aeroporto. Nenhuma era
de se atirar no Sena, mas a mais bonita - uma uva estilo Mylène
Démongeot, loura, certinha e com o que lhes pareceu uma boca de beijos -
era a mulher de Just Fontaine, o artilheiro da França e da Copa.
A França marcara quinze gols em suas quatro partidas, oito deles por
Fontaine. Era o ataque mais positivo do campeonato, tendo como mola o
meia Raymond Kopa, também considerado o Didi francês. É verdade que sua
defesa sofrera sete gols. O Brasil, por sua vez, fizera apenas seis gols
nas quatro partidas, mas não sofrera nenhum. E, a cada jogo, a
invencibilidade de Gilmar ficava mais preocupante. Feola e Nascimento
queriam saber como os nervos do time reagiriam quando Gilmar tivesse de
ir buscar a primeira bola no fundo das redes e o placar marcasse 1X0
para o adversário. Os jogadores precisavam convencer-se de que o
importante não era Gilmar voltar invicto, mas o Brasil campeão.
Como parecia certo que o ataque francês faria um gol em Gilmar, o
importante, para Feola e Nascimento, era que o Brasil marcasse logo o
seu, como no jogo da URSS. E foi o que aconteceu na terça-feira, 24 de
junho: a França deu a saída, o Brasil tomou a bola e, aos trinta
segundos, Didi atirou contra o gol de Abbes, por cima do travessão. A
França bateu o tiro de meta, ô Brasil retomou a bola, Garrincha driblou
três adversários, deu a Zito, este a Didi e Didi a Vavá, que fez 1x0. Os
franceses se entreolharam e disseram: "Parbleu!"'. Um minuto e meio de
jogo.
Mas os franceses limitaram-se àquela interjeição de espanto e, aos oito
minutos, empataram a partida com Fontaine - pelo visto, Mylène Démongeot
lhe fizera bem na noite anterior. Então aconteceu o que a comissão
técnica antevia em seus pesadelos. Ao sofrer o seu primeiro gol na Copa,
o Brasil passou os dez ou quinze minutos seguintes desarvorado. A grande
área brasileira parecia um boudoir de comédia de Feydeau, com amantes
entrando e saindo dos armários. A França cansou-se de perder gols. E
tudo porque a bola não chegava ao único brasileiro para quem tanto fazia
estar enfrentando a França ou o Rosita Sofia: Garrincha.
Foi preciso que Didi recobrasse o pulso do time e voltasse a lançá-lo.
Quando isso aconteceu, Garrincha tirou seu marcador Lerond para dançar.
Os outros jogadores desencabularam, o Brasil ganhou moral e Didi
desempatou com uma folha-seca aos 39 minutos. Pelé marcou três grandes
gols no segundo tempo, fazendo a Bastilha em cacos, e a França, quase no
fim, conseguiu reduzir para 5x2. Todo o segundo tempo foi um olé do
Brasil, estimulado pelas palmas e gargalhadas da torcida sueca.
O bravo Lerond, driblado tantas vezes por Garrincha, levaria anos para
ver o filme do jogo. Algo lhe dizia que não iria gostar. E, quando o
viu, não gostou mesmo:
"Só então compreendi como fui ridículo."
No Catete, desta vez, Juscelino não chamara Amaro. Convidara a sra.
Didi, Guiomar, e a futura sra. Vavá, Miriam, a ouvir o jogo com ele e
dona Sara.
Os jogos contra Gales e a França tinham sido em dias de semana. O
comércio fechara às 15 horas e cada gol era saudado com tempestades de
papéis picados caindo dos escritórios da avenida Rio Branco. Em seguida,
os cortejos, blocos e escolas de samba saíam às ruas e era pleno
Carnaval em junho. O Brasil estava na final - contra a Suécia, que
também derrotara a outra semifinalista, a Alemanha. Nunca a Copa do
Mundo parecera tão ao alcance da mão.
Alheio a tudo isso, Garrincha perguntou a Nílton Santos no vestiário
qual seria o próximo adversário.
"Parece que é a Suécia, Mané. Será o último jogo."
"Já?", espantou-se Garrincha. "Mas que torneio mixo! O campeonato
carioca é muito melhor, que tem turno e returno."
Na véspera de Brasil x Suécia, na hora reservada aos contatos dos
jornalistas com os jogadores, Feola chegou à concentração e encontrou
uma hiléia de microfones instalados sobre uma mesa.
"Para que tudo isso?", perguntou a um dos radialistas.
O rapaz balbuciou:
"É para os jogadores falarem pelo rádio com suas famílias no Brasil."
Feola ficou vermelho. Deu um rapa com o braço em todos os microfones de
uma vez, atirando-os no chão, e trovejou:
"Não vão, não. Isso aqui não é 1954!"
Ninguém nunca o vira ter um repente daqueles.
Os jornalistas estavam cansados de saber que esse tipo de apelo
sentimental fazia mal aos jogadores - como o promovido na Copa anterior
pelo chefe da delegação, João Lyra Filho, antes do jogo contra a
Hungria. Além disso, constava do manual de comportamento da delegação:
ninguém podia falar pelo rádio com a família. Alguém devia ter mandado
abrir uma exceção. Entre os microfones derrubados por Feola estavam os
das rádios Record e Panamericana, de propriedade de seu chefe no São
Paulo e na delegação brasileira, Paulo Machado de Carvalho. Mas Feola
não quis nem saber.
"A imprensa vinha tão bem até agora", suspirou.
A Copa já não era um sonho. Dependia apenas de mais uma vitória, e a
comissão técnica não queria vê-la escapar por nenhum dos vícios antigos
que derrotavam a seleção na hora H. O episódio das camisas, no dia
anterior, já fora o suficiente para irritar Feola.
Brasil e Suécia jogavam com as mesmas camisas amarelas. Quando se
definiu que os dois países fariam a partida final, a comissão
organizadora da Copa comunicou à delegação brasileira que haveria um
sorteio para decidir quem trocaria de uniforme. Paulo Machado de
Carvalho viu nisso uma descortesia dos suecos - a primeira, até então.
Foi à comissão e pleiteou que, em vez do sorteio, a equipe da casa
seguisse a praxe internacional e cedesse ao visitante o direito de jogar
com seu uniforme. A comissão não atendeu ao apelo e insistiu no sorteio.
O qual se realizou na tarde de sexta-feira - ou não, porque o Brasil, em
protesto, não mandou o seu representante. Seja como for, ganhou a
Suécia. O Brasil não poderia jogar de amarelo.
As opções eram o branco, o verde e o azul, também cores oficiais da
seleção. A primeira idéia foi a de usar o branco. Quando isso foi
sugerido aos jogadores, a comissão técnica percebeu uma reação que a
deixou horrorizada: vários deles, principalmente os mais velhos,
abaixaram a cabeça. A camisa branca era a de 1950 - a da derrota.
Feola e Nascimento viram naquilo a vitória da superstição sobre todo o,
trabalho racional e elaborado que se estava fazendo. Por causa de uma
cor besta de camisa, homens que vinham superando tudo e todos no campo
de jogo poderiam até tremer na hora da decisão.
Mas não ficava bem argumentar contra esse sentimento - porque toda a
seleção era supersticiosa, a começar pela chefia. Paulo Machado de
Carvalho embarcara no Brasil com um terno marrom. A seleção começara a
ganhar e, desde então, ele só o tirava do corpo para dormir. Às vezes os
jogadores pensavam ver o terno andando sozinho nas madrugadas de Hindas.
Paulo de Carvalho trouxera também uma imagem de Nossa Senhora Aparecida,
promovida a padroeira da seleção, e à qual se agarrava nos dias de jogo.
Nesses dias, a delegação era escrava de pequenos rituais. Os jogadores e
dirigentes obedeciam a determinadas seqüências para descer para o café
da manhã, entrar no ônibus que os levaria ao estádio, sair do ônibus e
entrar em campo. Se a escrita vinha regulando, para que contrariá-la?
Não que eles achassem que aquilo ganharia o jogo. Mas alguns, como
Zagalo, jogavam com uma medalhinha dentro da meia, e outros só faltavam
esfregar-se com pés-de-coelho. Até o dr. Carvalhaes, o homem a quem
competia desacreditar essas tolices, já se preocupava se Gilmar tinha
sido o último a entrar no ônibus, como mandava a escrita. O espírito de
Carlito Rocha pertencia ao futebol, não havia jeito.
No caso das camisas, foi o próprio dr. Paulo o autor da idéia salvadora:
"O Brasil jogará de azul. A cor do manto de Nossa Senhora Aparecida."
Para reforçar a idéia, José de Almeida lembrou que, das cinco Copas
anteriores, quatro tinham sido ganhas por times que jogaram de azul na
final: Uruguai e Itália, duas vezes cada.
O azul foi aprovado, só faltavam as camisas. O Brasil trouxera quase mil
quilos de material, incluindo centenas de camisas amarelas, brancas,
verdes e até azuis. Mas estas já tinham sido suadas nos treinamentos, e
não ficava bem jogar uma final de Copa do Mundo com camisas usadas.
Mário Trigo e Adolpho Marques ofereceram-se para ir comprá-las no
comércio de Estocolmo - Trigo, para escolher a cor certa e o modelo;
Marques, para enfiar a mão no bolso e pagar. As camisas foram
encontradas e Mário Américo e Assis passaram a manhã de sábado
arrancando os escudos e os números das camisas amarelas e costurando-os
nas azuis.
Se alguém ali deveria preocupar-se com a escrita era a Suécia.
Enfrentara duas vezes o Brasil em Copas do Mundo e perdera as duas: em
'1938, na França, por 4x2, e, em 1950, no Maracanã, por 7X1. Eram
fregueses tão simpáticos que, nos anos 50, quando um clube brasileiro
queria faturar uns cobres na Europa e voltar invicto, arranjava uma
excursão à Suécia - principalmente o Flamengo, por intermédio de Gunnar
Goransson. Os suecos só exigiam que os clubes brasileiros levassem
muitos jogadores negros, para garantir a renda. E times suecos, como o
AIK e o Malmoe, vinham ano sim, ano não ao Brasil. Os placares nunca
eram abaixo de cinco ou seis - contra eles.
Ernesto Santos já vira a Suécia jogar e passara seus papéis amarrotados
a Feola e Nascimento. Era um time rápido, habilidoso e, para chegar à
final, deixara para trás o México, a Hungria, o País de Gales, a URSS e
a Alemanha. Mas os suecos jogavam abertos, não eram de dar pontapé e
seus jogadores mais perigosos eram os pontas Hamrin e Skoglund. O cabeça
do time, o grande meia Gunnar Gren, já tinha 38 anos - era quase tão
velho quanto o rei Gustavo Adolfo, não agüentaria o ritmo de Zito. E
Garrincha não precisaria perder o sono por causa do lateral Parling -
como se Garrincha perdesse o sono por algum lateral.
O problema do Brasil, concluíram Feola e Nascimento, seriam, mais uma
vez, os nervos. Por exemplo: se a Suécia, empurrada por sua torcida,
marcasse o primeiro gol.
E não é que marcou? O Brasil começou mal: os jogadores, desabituados ao
azul, davam passes aos suecos, de amarelo. Aos quatro minutos de jogo,
num lance em que meio time sueco trocou passes sem nenhum brasileiro
tocar na bola, Liedholm, 36 anos, fez Suécia 1x0.
Dois dias antes, quando já se sabia que o francês Maurice Guigue seria o
árbitro da final, o representante brasileiro na FIFA, Mozart di Giorgio,
fora visitá-lo para "desejar felicidades". Guigue já apitara dois jogos
do Brasil na Copa: contra a Áustria e a URSS. Deste último, dissera que
fora o maior jogo em que atuara e que o futebol e a disciplina dos
brasileiros o encantaram.
Era, portanto, simpático ao Brasil. Com isso, Di Giorgio sentiu-se à
vontade para convidá-lo a que, depois da Copa, viesse passar suas férias
no Rio trazendo a família - por conta da CBD. Guigue apenas sorriu
diante da proposta imoral e disse merci.
Di Giorgio explicaria depois a um membro da comissão técnica que não
quisera subornar Guigue para que ele roubasse a favor do Brasil - mas
apenas sugestioná-lo a não roubar contra o Brasil. Havia o temor de que,
sendo europeu, o esprit de corps o fizesse favorecer a Suécia. E Di
Giorgio sabia que o convite era tentador: com seu salário de policial em
Marselha, Guigue nunca poderia vir ao Rio a passeio, muito menos com
mulher e filhos.
Guigue apitou bem - cometeu somente um erro - e não influiu no
resultado. Mas, aquela tarde, no estádio de Rasunda, em Estocolmo, o
Brasil teria vencido mesmo que o time adversário fosse substituído por
onze árbitros. Quando a Suécia abriu o placar e, pela primeira vez, a
seleção viu-se atrás no marcador, nenhum jogador brasileiro se assustou.
Ao contrário, o gol os despertou.
Bellini recolheu a bola no fundo do gol e a deu a Didi. Didi segurou-a
contra o quadril e voltou caminhando com ela para o centro do campo.
Veio devagar de propósito, para tranqüilizar os companheiros, dizendo:
"Não foi nada, pessoal. Vamos encher esses gringos."
Dentro do grande círculo, entregou a bola a Vavá para que ele a pusesse
na marca. Guigue apitou o reinicio do jogo e, quatro minutos depois, o
Brasil empatou: lançado por Zito, Garrincha passou por Parling e Axbom
como se eles fossem miragens, driblou Bergmark na linha de fundo e
cruzou para Vavá escorar de carrinho.
As humilhações de 1950 e 1954 pareciam ter acontecido com outro time,
outro povo, outro país. Aquela seleção não se deixaria assombrar por
nenhum fantasma. A torcida sueca, que sonhara com a vitória quando seu
time fizera 1X0, agora esperava apenas vê-lo cair de pé. Aos 32 minutos,
repetiu-se a jogada do primeiro gol. Garrincha, irresistível, aniquilou
três suecos, foi à linha de fundo e cruzou novamente para Vavá: 2x1.
Garrincha foi à linha de fundo quinze vezes nesta partida e em todas
elas instaurou o pânico no Valhala. Nas ruas do Brasil, a cada gol da
seleção no segundo tempo - de Pelé, Zagalo e Pelé -, o povo morria um
pouco. Ninguém parecia acreditar que o Brasil ia ser, já estava sendo,
campeão do mundo. No bar Zeppelim, em Ipanema, Lúcio Rangel e Darwin
Brandão não se conformavam com que tudo na vida fosse passageiro.
Começaram a parar os bondes que desciam a rua Visconde de Pirajá e a
oferecer bebida aos condutores e motorneiros. Todos tinham de brindar.
Houve brindes até ao segundo gol da Suécia, marcado a dez minutos do
fim, quando o placar estava em 4X1 e o Brasil dava um olé. Talvez por
que o gol tivesse sido em off-side, segundo as 50 mil testemunhas em
Rasunda. Foi o único erro do árbitro Guigue - e contra o Brasil. O que
não impediu que a CBD honrasse o convite e que, no fim do ano, Guigue e
sua família viessem passar o verão no Rio, hospedando-se no hotel
Glória.
Poucas horas antes do jogo, Paulo Machado de Carvalho chamara Mário
Américo a um canto:
"Mário Américo, daqui a pouco o Brasil vai ser campeão do mundo.
Precisamos da bola do jogo. Como se fosse um trofeu. Você fica
responsável por isso."
No campo, tudo aconteceu em segundos. O placar marcava Brasil 4x2 e o
jogo já ia terminar. Mário Américo pôs-se em alerta para invadir e pegar
a bola assim que Guigue apitasse. Todo o estádio estava de pé. Guigue
levou o apito à boca, Nílton Santos cruzou, Pelé subiu e cabeceou. Fez o
quinto gol e caiu desmaiado. Eram 45 minutos cravados e Guigue apitou o
fim da Copa do Mundo.
Mário Américo entrou correndo, mas ficou sem saber se atendia Pelé ou se
capturava a bola. Na corrida, gaguejou para Bellini:
"Pe-pega a bola, Boi!"
Antes que Bellini tivesse a chance, Guigue apanhou a bola, enlaçou-a com
o braço e caminhou para o centro do gramado. Mário Américo deixou Pelé
de lado e correu pelas costas de Guigue. Deu um tapinha na bola, pegou-a
quando ela quicou no chão e disparou em direção ao vestiário, driblando
como se fosse um jogador de rugby e gaguejando que precisava esconder a
bola. O campo, num instante, tornara-se um pandemônio: os jornalistas se
abraçavam chorando aos jogadores, Feola, Zagalo e Gilmar choravam, todo
mundo chorava. Joel, também chorando, fora o primeiro a pular a cerca
para abraçar Garrincha - e Garrincha era o único que não chorava.
Bellini enxugou as lágrimas e comandou:
"Vamos dar a volta olímpica!"
Surgiu uma imensa bandeira da Suécia. Gilmar segurou uma ponta, Paulo
Amaral a outra, com Garrincha abraçado a Joel na primeira fila, e
correram pelo gramado seguidos pelos outros. Os suecos gritavam e
aplaudiam como se fosse a Suécia a campeã, não o Brasil.
O rei Gustavo Adolfo vi foi ao gramado cumprimentar os jogadores
brasileiros, sem saber onde estava se metendo. Apertou as mãos suadas e
enlameadas dos campeões e, na barafunda, os dirigentes entraram na fila
para o cumprimento real. Quando se deu conta, o rei estava sendo puxado
pela manga do paletó pelo sorridente Mário Trigo:
"Vem cá, kingl Vem cumprimentar o nosso chiefl"
Trigo referia-se a Paulo Machado de Carvalho, que Gustavo Adolfo saltara
na confusão. O próprio Gustavo Adolfo ria da sem-cerimônia. Nunca um rei
descera tanto do protocolo - nem se submetera tão gostosamente a isso.
A taça Jules Rimet, símbolo da Copa do Mundo, foi entregue a Bellini na
tribuna de honra. Ele diria depois que, naquele momento - uma e meia da
tarde, hora Rio, do dia 29 de junho de 1958 -, só pensava em seu pai,
que sofrera um derrame pouco antes do seu embarque para a Suécia. Teve
vontade de chorar de novo, mas decidiu, "Não vou chorar" - e não chorou.
Levantou a taça com um braço, como se fosse acenar com ela. Estava
cercado por dezenas de fotógrafos. Os fotógrafos brasileiros, mais
baixos ou porque estivessem atrás, começaram a gritar:
"Levanta mais! Levanta mais!"
Bellini então levantou a Jules Rimet com as duas mãos - e inventou o
gesto que, a partir dali, todos os esportistas do mundo iriam imitar.
A noite da vitória seria uma longa noite de loucuras. A FIFA ofereceu um
jantar e um baile no hotel Estocolmo para as quatro delegações
finalistas. Uísque e champanhe rolaram em catadupas, juntamente com um
perfumado estoque de suecas e francesas. O ibope dos brasileiros era,
compreensivelmente, o mais alto. Moacir, reserva de Didi, pedia aos
jornalistas que o chamassem de Pelé. Pouco depois foi visto, do alto de
seu 1,63 metro, com uma loura de quase 1,90 e, num piscar de olhos,
sumiram. O próprio Pelé - que, então, já era Pelé - insistia em ser
chamado de Pelé. Os jogadores brancos fingiam irritar-se com o sucesso
dos negros junto às louras, mas ninguém pôde se queixar. A maioria foi
esticar avec na Voland e na Lorensberg, as principais boates de
Estocolmo. Ninguém viu Garrincha por muito tempo no jantar. Durante o
baile, já havia sumido - não por falta de companhia.
Nos dois dias seguintes, a seleção recompôs-se, arrumou as malas e, bem
cedo na manhã de 1 de julho, começou a longa viagem de volta no DC-7 da
Panair, sob o mesmo comandante, Guilherme Bungner, que fizera o vôo de
ida. As primeiras escalas foram em Londres e Paris, com os jogadores
descendo do avião para coquetéis e discursos nos aeroportos. Quando
chegaram a Lisboa, à noite, houve desfile pela cidade e recepção nos
estádios do Benfica e do Sporting. O roupeiro Assis, eboxeur de 31 anos,
foi levantado em triunfo pelos portugueses, que o confundiram com Pelé.
Até que um deles olhou bem para Assis e exclamou:
"O, pá, este gajo está um tanto velhusco para ser o Pelé!" Soltaram-no
no chão e tentaram levantar Feola, sem sucesso.
De Lisboa, a seleção partiu de madrugada para o Recife. Quando
sobrevoaram o aeroporto de Guararapes ao meio-dia seguinte, Recife
estava sob uma das piores tempestades da década. Por duas vezes o avião
embicou, planou rente ao solo e teve de subir de novo - só na terceira
vez conseguiu pousar. Os jogadores estavam estressados, já com quase
trinta horas de viagem, mas milhares de pernambucanos os esperavam nas
ruas para o desfile da vitória. O cortejo no carro dos bombeiros levou
horas. Ouviram discursos no palácio das Princesas, o pernambucano Vavá
teve lançada sua candidatura a deputado federal e voltaram para o
aeroporto. A próxima parada seria o Rio, onde Juscelino os esperava no
Catete.
JK mandara o Viscount presidencial ir apanhá-los no Recife. Quando o
avião se aproximou do Rio, a Esquadrilha da Fumaça decolou para
escoltálo. No Galeão, enquanto suas bagagens eram liberadas sem ser
abertas, os jogadores subiram de novo ao carro dos bombeiros e começaram
o longo trajeto pela avenida Brasil apinhada de gente. Eram quase oito
horas da noite e a viagem já durava 36 horas, com quatro de diferença de
fuso horário - 36 horas sem banho, os ternos amarrotados de tantos
abraços, o escudo da CBD querendo despregar-se do bolso dos paletós e as
mãos cansadas de autografar papeluchos, fotos, flâmulas, bolas e até
braços.
Os braços de Bellini doíam de tanto levantar a taça para a multidão. Era
uma sensação embriagadora, mas os jogadores só queriam chegar em casa e
atirar-se aos beijos de suas famílias. O trajeto no carro dos bombeiros
parecia sem fim e, para muitos, a vontade de urinar era quase
insuportável. E, quando se pensava que o Catete seria a última escala, o
carro dos jogadores foi encurralado num cruzamento armado na Saúde e
desviado para o prédio da revista O Cruzeiro, na rua do Livramento.
Era um autêntico sequestro. O Catete ia ter de esperar, porque os
Diários Associados haviam preparado uma festa para os campeões do mundo
- e, sem que esses soubessem, trazido suas famílias para recebê-los. Os
pais, irmãos, mulheres e noivas dos jogadores, não importava se de São
Paulo, Bauru ou Pau Grande, já estavam ali, esperando-os havia horas.
Os parentes dos jogadores paulistas, gaúchos e mineiros já estavam no
Rio desde a véspera. O Cruzeiro os hospedara no hotel Paysandú e, em
grupos, fora buscando-os de ônibus e os desovando no salão de festas da
revista. As famílias dos cariocas foram se juntando a eles durante o
dia. Menos, é claro, a delegação de Pau Grande.
Amaro, Mané Caieira, Pincel, Swing e dezenas de amigos de Garrincha já
haviam chegado ao prédio de O Cruzeiro desde nove da manhã. Àquela hora
só estavam os jornalistas e funcionários. Mas, horas depois, com a
chegada dos convidados especiais, Amaro começou a ficar atarantado:
nunca vira tanta mulher bonita à luz dos candelabros. Eram a miss
Brasil, Adalgisa Colombo, e as outras misses daquele ano. Algumas delas,
sabendo que aquele era o pai de Garrincha, faziam-lhe afagos no queixo e
só faltavam sentar-se no seu colo. À noite, apesar do banquete que se
esparramava pelas mesas desde a tarde, os pau-grandenses já estavam num
porre federal.
Amaro chegara pedindo pinga. Mas, como sempre, só havia uísque (com
guaraná), champanhe nacional e cerveja.
"Não bebo esses troços cheios de nove-horas", ele esbravejara, engessado
no jaquetão que pedira emprestado para o grande dia.
O diretor de arte de A Cigarra, Ziraldo, saíra pelo prédio à procura de
cachaça para Amaro. Não encontrou. Durante algum tempo, Amaro
contentou-se com a cerveja. Mas, precisando de emoções mais fortes,
desceu várias vezes à rua para beber pinga no botequim - pelas escadas,
porque tinha medo de elevador. Para não perder a viagem, engolia três ou
quatro copos de uma vez e se arrastava de novo pelas escadas até o salão
de festas, três andares acima - Garrincha podia estar chegando.
Na redação, em meio à balbúrdia, Assis Chateaubriand fazia as honras ao
vice-presidente João Goulart, à bailarina Margot Fonteyn e aos
empresários, escritores, senhoras da sociedade, anunciantes, políticos e
penetras. Eram centenas e centenas de pessoas. Ninguém queria perder a
chance de pegar uma carona no prestígio da seleção. Relógios de ouro,
diplomas e medalhas seriam presenteados aos jogadores. A banda da Velha
Guarda, comandada por Pixinguinha, Donga e João da Bahiana,
interromperia "Gavião calçudo", ou o que estivesse tocando, e atacaria
"Cidade maravilhosa" assim que os campeões do mundo entrassem no salão.
Finalmente chegaram. Houve uma chuva de confete e de vivas. Pixinguinha
atacou "Cidade maravilhosa". Os fotógrafos de O Cruzeiro atropelaram-se
e treparam nas mesas para captar as expressões de surpresa e emoção dos
campeões quando eles entrassem e vissem suas famílias. E eles não os
decepcionaram: os beijos e abraços mais sentidos de suas vidas
aconteceram ali, naquele momento. Zagalo, abraçado à mulher, era o que
mais chorava. Eram como soldados que estivessem voltando, vivos e
vitoriosos, da guerra da Coréia.
Bellini entrou com a taça Jules Rimet e os gritos sacudiram o prédio dos
Associados. Os fotógrafos assestaram suas Leicas e Rolleiflexes. Ziraldo
empurrou Adalgisa Colombo:
"Vai beijar o capitão da seleção, vai!"
A botafoguense Adalgisa protestou:
"Não vou beijar jogador de futebol, não!"
"Mas é o Bellini!", suplicou Ziraldo - e apontou para o jogador.
Adalgisa olhou para o belo Bellini e se entusiasmou:
"Ah, se é aquele eu beijo!"
E fez-se a foto.
A Jules Rimet foi desfilada em triunfo por Bellini e Paulo Machado de
Carvalho. Houve instantes em que a taça se perdeu e passou de mão em
mão. Todos queriam tocá-la, beijá-la e tomar champanhe em sua copa.
Conseguiram. Só que aquela não era a autêntica Jules Rimet, mas uma
cópia.
Os dirigentes uruguaios, que a haviam ganho em 1950 no Maracanã, tinham
feito por segurança uma réplica da taça e foram oferecê-la a Paulo
Machado de Carvalho no avião, assim que este descera no Galeão.
Argumentaram que, diante da exuberância brasileira, era aconselhável
esconder a original e exibir a imitação. Avisaram que a base era de
madeira e não de bronze, e que estava meio solta. Bellini teria de
segurá-la com as duas mãos, para que ela não se desprendesse quando
quisessem agarrá-la. Milagrosamente, a taça circulou pela festa, a base
não descolou e ninguém percebeu que era falsa.
A verdadeira Jules Rimet viajara do Galeão para o aeroporto Santos
Dumont e só reapareceria, horas depois, no Catete. Juscelino foi o único
a tomar champanhe na taça de ouro. E talvez nem ele tenha percebido a
importância daquele momento. Já era presidente havia dois anos, mas toda
a aura de euforia que no futuro se atribuiria a seu governo só contaria
a partir da epopéia na Suécia. Na verdade, seu governo começava ali.
Eram quase duas da manhã do dia 3 quando a seleção deixou o Catete 42
horas depois de ter partido de Estocolmo. Quase nas últimas, os
jogadores cariocas foram para suas casas, mas os paulistas foram para o
hotel e, no dia seguinte, viajaram para São Paulo, onde repetiram tudo
de novo: desfile no carro dos bombeiros (uma torcedora conseguiu escalar
o carro e agarrar-se a Gilmar), recepções em palácio e a homenagem que
lhes foi prestada no Pacaembu pelo governador Adhemar de Barros.
Em cada jogador, Adhemar espetou uma medalha com a sua própria efígie,
advertindo:
"Guarda bem que é de ouro. Aqui tem muito ladrão." Para Pelé, Zito e
Pepe, a maratona das homenagens prosseguiu em Santos, onde eles jogavam.
E, para Pelé, só foi terminar quatro dias depois, em Bauru, de onde ele
saíra para a glória. Desfilaram-no para cima e para baixo, inauguraram
uma rua com seu nome e lhe deram um carro que era o orgulho da indústria
nacional: uma Romi-Isetta - um carrinho de três rodas, pouco maior que
um velocípede. E que, de qualquer maneira, Pelé não poderia dirigir, por
ainda ser menor de idade.
Do Catete, Garrincha e seus amigos passaram de madrugada pelo
apartamento de Sandro Moreyra, na rua Pompeu Loureiro, em Copacabana, e,
de lá, saíram em cortejo para Pau Grande. Eram agora mais de cinqüenta
carros e caminhões, um deles comandado pelo deputado Tenório Cavalcanti,
alagoano e antigo protegido de seu tio Mané Caieira. Foi como nos dias
dos grandes jogos, só que multiplicado por cem.
A caravana entrou em Pau Grande com o nascer do sol, soltando foguetes e
acordando a região inteira. O velho frei Accurcio - que costumava
interromper o sermão da missa para perguntar ao coroinha a marcha do
placar nos jogos do Flamengo - despiu-se de suas convicções
rubro-negras, abriu a igreja e mandou tocar o sino. Esperava que
Garrincha fosse visitá-lo para agradecer a Deus pelo título. Mas
Garrincha passou direto pela igreja e não quis entrar, para tristeza de
frei Accurcio.
Os bares e botequins já estavam abertos. Garrincha autorizou a
distribuição de cachaça, cerveja e guaraná para o povo, tudo na sua
conta. A multidão carregou-o nos braços e um afoito lançou a sua
candidatura a prefeito. Ele achou graça. Agora já eram oito da manhã 48
horas depois do embarque na Suécia. Começando a demonstrar cansaço,
Garrincha finalmente livrou-se da turma e foi para casa ver sua mulher e
filhas e tentar dormir.
Antes do meio-dia, já estava novamente de pé, de banho tomado e na rua.
Pagou em dólares a monumental despesa da manhã, foi ao armazém de
Nicácio e liquidou os penduras de seus amigos. Entrou na igreja para
pedir desculpas a frei Accurcio, que o perdoou ("Você não fez por mal"),
e foi receber uma vaca que lhe deram de presente. Com tudo acertado,
muniu-se de pinga, subiu o morro até o campinho e jogou uma pelada
descalço com os amigos até a noite cair.
Nos dias seguintes, sua região, agradecida, cumulou-o de regalos. A
América Fabril lhe faria a entrega simbólica das chaves da sua própria
casa, na rua Demócrito Seabra, 7. Simbólica, mesmo - porque as chaves
não foram acompanhadas da escritura. Mas, a partir de agora, era como se
a casa fosse sua. Na mesma cerimónia, a América Fabril deu-lhe um
caixotão de tecidos. Os ricos da região deram-lhe uma pequena chácara em
Piabetá. O S. C. Pau Grande inaugurou mais uma foto sua na sede.
As homenagens não paravam. O presidente do Petrópolis Esporte Clube
convidou-o a um baile em sua homenagem naquele sábado. Haveria uma mesa
para ele e para quem mais ele quisesse levar, com comida e bebida de
graça. O Petrópolis lhe pagaria um cachê equivalente ao seu salário no
Botafogo - 30 mil cruzeiros -, apenas para que comparecesse e todos
pudessem vê-lo e brindá-lo.
Garrincha garantiu:
"Estou nessa boca."
O Petrópolis contratou a orquestra, vendeu os convites e lotou o clube
com o fino da sociedade local. Nove entre os dez mais elegantes da
cidade estavam loucos para vê-lo. Mas Garrincha não apareceu. Nem mandou
avisar que não ia. Apenas sumiu.
No fim do dia seguinte, foi encontrado no cubículo de Pincel e Swing em
Raiz da Serra - os três em quase coma alcoólico, velados por litros
vazios das celebradas batidas de amendoim, coco e groselha de Osmar
Abraão.
As cartas chegavam de toda parte - Austrália, Congo Belga,
Liechtenstein. Muitas diziam apenas GARRINCHA - RIO DE JANEIRO - BRAZIL
no envelope. O correio mandava entregá-las no Botafogo, juntamente com
os sacos de cartas do interior do Brasil pedindo-lhe dinheiro, emprego
ou dentaduras.
O nome de Pau Grande começou a sair nos grandes jornais do mundo. Um
deles, francês, fez a blague: "Brésil, capitule Pão Grande". Os
pau-grandenses se empertigaram. Como se sabe, até então, quando tinham
de dizer de onde eram, preferiam dizer-se de Raiz da Serra. O nome Pau
Grande soava esquisito para quem não fosse da terra. De repente, ficara
chique ser de Pau Grande - o jogador mais famoso do planeta nascera lá.
A assembléia legislativa do estado do Rio propôs a mudança do nome de
Pau Grande para Garrincha. Mas ele foi o primeiro a dizer que não
queria:
"Onde já se viu? Pau Grande é um nome tão bonito."
Mundos e fundos tinham sido prometidos aos jogadores enquanto eles
desembarcavam no Galeão: casa própria, empregos públicos, carros,
geladeiras, máquinas de lavar, fogões e passe livre nos ônibus, nos
cinemas e nos estádios, além de máquinas de costura, abajures,
guarda-chuvas, barbeadores elétricos, filtros e toda espécie de
badulaque. E, naturalmente, "dinheiro.
Algumas empresas se associaram a bancos e fizeram "subscrições populares
para os campeões do mundo". O dinheiro - "qualquer quantia" - deveria
ser depositado no banco xis (um deles, o Banco Operador S/A), numa conta
em nome de "Copa do Mundo", "Seleção brasileira" ou outras. Mas nenhum
dos jogadores se recorda de ter recebido esse dinheiro.
A indústria e o comércio aproveitaram-se ao máximo da vitória. Os
sofás-cama Drago mandaram um sofá-cama para cada jogador, como se
estivessem oferecendo um trono de rei aos campeões. A General Electric
presenteou-os com televisores pintados de verde e amarelo. As bicicletas
Clulliver premiaram-nos com um pequeno love de ações e ofereceram-lhes
empregos de promotores de vendas. Com isso, tais empresas julgavam-se no
direito de anunciar os seus produtos com a foto da seleção brasileira,
como se esta os endossasse. Um fabricante de fósforos lançou uma coleção
de caixinhas com os seus rostos. A Sudan soltou os cigarros Olympicos,
com o 3X4 e a biografia de cada campeão no verso do maço. Mas justiça
seja feita: não seria por falta de relógios que, a partir dali, os
jogadores se atrasariam para seus encontros - porque a maioria ganhou,
sem exagero, grosas de relógios de pulsos.
Garrincha quis saber dos carros que lhes tinham sido prometidos. Nílton
Santos perguntou-lhe:
"Para que você quer carro, Mané? Você não sabe dirigir."
Garrincha respondeu, enigmático:
"Ah, é? Você é que pensa!"
Mas nenhum deles ganhou carro algum. Nílton Santos, aliás, só teria o
seu primeiro carro muito depois, um Fusca, aos 35 anos de idade - e
comprado por ele.
O total em dinheiro que cada jogador recebeu, pago pela CBD, foi
equivalente a pouco mais que um salário de seu clube. Durante semanas,
empresas e bancos de outros estados convidaram a CBD para que esta
desfilasse a Jules Rimet por suas capitais. A CBD fechava um contrato em
dinheiro com eles e convocava um campeão mundial, geralmente Bellini,
para viajar com a taça - sem pagar-lhe nada por isso. Para o capitão da
seleção, o título mundial não representou sequer um aumento salarial.
Alguns clubes, como o Vasco, foram espertos e insistiram em renovar
antes da Copa os contratos de seus jogadores de seleção - e um deles foi
Bellini. Com o resultado de que, agora valorizadíssimo, Bellini ainda
tinha um ano de contrato a cumprir, com base no que ganhava antes de ser
campeão mundial.
No entusiasmo da recepção no Catete, Juscelino prometera uma casa e um
emprego público a cada jogador. Os empregos públicos saíram, mas eram
tão insignificantes que poucos se animaram a tomar posse neles - Zagalo
foi um, mas Garrincha ignorou-o. E a promessa das casas já ia caindo no
esquecimento quando - um ano depois da Copa -, numa cerimónia na CBD, o
repórter Geraldo Romualdo da Silva perguntou a João Havelange, na
presença de Juscelino, em que pé estavam "as casas dos campeões
mundiais". Havelange embatucou e Juscelino ficou perplexo ao saber que
essas casas não existiam.
Juscelino deu ordens para que, através da Caixa Económica, os jogadores
levantassem financiamentos para comprar suas casas, a seis por cento de
juros ao ano e tendo vinte anos para pagar. Mas a Câmara dos Deputados
precisava aprovar esse financiamento - e a coisa parou de novo. Uma
comissão dos jogadores, com Bellini, Nílton Santos, Didi e Castilho, foi
ao líder da maioria na Câmara, Armando Falcão. Afinal, a verba fora
recomendada pelo presidente, que diacho.
Armando Falcão teve, então, algo a declarar. Explicou que ela não saíra
porque, ao saber que o governo ia premiar os jogadores, os pracinhas
tinham se queixado aos deputados: os jogadores eram ricos, os pracinhas
eram pobres, a guerra acabara havia mais de vinte anos e eles ainda não
tinham suas casas.
E só por isso as casas dos jogadores não saíram.
Aliás, as dos pracinhas também não.

Capítulo 10

Angehta Martinez - resistir, quem havia de?

1958-1959

O BUSCA-PÉ ANGELITA

Você pode ser campeão do mundo pras suas negras da Suécia. Mas, aqui no
Piauí, não vai levar boa vida, não." Em seguida à ameaça, um pé 44 -
ferrado com uma chanca quase avó das modernas e flexíveis chuteiras
européias que Garrincha usara na Copa - atirava-se à sua tíbia e
Garrincha tinha de pular miudinho para sobreviver.
Esta era a atitude-padrão dos zagueiros que Garrincha estava enfrentando
nos amistosos do Botafogo pelo Brasil na volta da Suécia. Nesses
amistosos (de que o Botafogo precisava para equilibrar seu caixa,
quebrado desde a Copa), não foram poucas as entradas homicidas que ele
sofreu dos seus marcadores. Todos queriam ficar famosos por fazer o que
os russos e franceses não tinham conseguido: para-lo. Mas também não
conseguiam. Garrincha tinha todas as torcidas a seu favor e estas riam
dos dribles que ele lhes aplicava. O único jogador que conseguiu
imprimir a sola em sua perna foi o lateral-esquerdo do Bahia, por sinal
chamado Pezão.
Os campeões mundiais mal puderam relaxar nos seus novos sofáscama Drago.
Os clubes precisavam deles para jogar. Quatorze dias depois de vencer a
Suécia, e ainda com os perfumes de Estocolmo nas narinas, Garrincha,
Didi e Nílton Santos já estavam em campo contra o Fluminense, na
abertura do campeonato carioca de 1958. Mas os clubes que tinham muitos
campeões do mundo não podiam limitar-se ao campeonato da cidade. Todo o
país queria vê-los. Principalmente o Botafogo, que agora tinha quatro
estrelas da seleção: comprara Zagalo ao Flamengo por 100 mil cruzeiros -
7 mil dólares. Os torcedores referiam-se a eles pelas imagens que Waldir
Amaral estava criando ao microfone da Continental: Garrincha era "o
demónio das pernas tortas"; Didi, "o termómetro da Copa"; Nílton Santos,
"a enciclopédia do futebol"; e Zagalo, "a formiguinha".
O Botafogo jogava aos sábados ou domingos pelo campeonato carioca e, nos
dias da semana, ia a Fortaleza, São Luís, Teresina, Salvador, Vitória,
Uberaba, Porto Alegre ou Buenos Aires. Fazia às vezes três amistosos em
cinco dias, voltava ao Rio, jogava contra o Bonsucesso e saía do
Maracanã quase que direto para o Santos Dumont. Em cada cidade do Norte
ou Nordeste, os jogadores eram recebidos por uma multidão no aeroporto,
saudados pelo prefeito, empoleirados num caminhão e desfilados pelas
ruas. À noite, tinham de comparecer a um banquete do Rotary ou a um
comício político - era ano eleitoral e todos os seus anfitriões eram
candidatos a alguma coisa -, submeter- se a um farto cardápio de
discursos e, ainda por cima, jogar futebol.
Com o tempo, os jogadores aperfeiçoaram uma maneira de livrar-se de pelo
menos parte das homenagens. Assim que o avião da Real Aerovias pousava
no pequeno aeroporto, um deles ordenava:
"Vai, Mané, sai na frente!"
Garrincha descia primeiro e a multidão o seguia, deixando a pista livre
para os outros irem para o hotel. Meia hora depois, João Saldanha pedia
desculpas ao prefeito, alegava que Garrincha precisava descansar e o
resgatava dos braços do povo.
Mas Garrincha voltava triunfante para o hotel, sussurrando para os mais
íntimos:
"Já sei onde fica a casa da Maroca!" - a zona local.
Saldanha não se opunha a que os jogadores dessem suas voltas, desde que
dormissem cedo. E sua maior preocupação era Garrincha: sabia que ele não
precisava de muito tempo para dar um pulo à "casa da Maroca" e voltar
para o hotel, mas não queria que isso acontecesse à noite. Assim,
Saldanha dava incertas no quarto de Garrincha durante a madrugada,
entreabrindo a porta para conferir se ele não havia fugido. Enquanto foi
treinador do Botafogo, Saldanha julgou-se dono da situação: sempre que
espiava pela fresta via-o dormindo pesado, com seu tradicional
calçãozinho xadrez e o rosto enfiado no travesseiro. Anos depois, quando
Saldanha já não era seu treinador, Garrincha contou-lhe que pagava ao
zagueiro reserva Domício para vestir o calçãozinho xadrez, enquanto ele
escapulia pela janela.
Os amistosos estavam interferindo na produção do Botafogo no campeonato
carioca. O Vasco e o Flamengo, embalados e também cheios de campeões
mundiais, vinham dando prioridade ao campeonato e liderando-o. O
Botafogo estava nas últimas, não apenas pelas viagens, pelos jogos e
pelos discursos dos prefeitos. A alimentação e o peso dos jogadores
também estavam fora de controle porque, em cada cidade, os locais
insistiam em oferecer-lhes os seus pratos típicos. Até Garrincha, que
parecia à prova de torpedos indigestos, começou a ser afetado.
Depois de um jogo contra o Bahia, em Salvador, ele foi levado a um
restaurante e servido de moquecas contendo dendê em quantidade para
transbordar a lagoa do Abaete. A comida não lhe deve ter caído bem
porque, quando um dos dirigentes do Bahia, mais solícito, perguntou-lhe:
"O que vai ser de sobremesa, Mané?", Garrincha respondeu:
"Sonrisal."
O Botafogo resolveu parar no Rio no segundo turno do campeonato.
Recuperou parte do terreno perdido e voltou a ser candidato ao título. E
foi a sua volta à disputa que tornou o campeonato carioca de 1958 um dos
maiores de todos os tempos.
Faltando duas rodadas para terminar, o Vasco tinha quatro pontos de
vantagem sobre Botafogo e Flamengo, que seriam os seus dois últimos
adversários. Bastava ao Vasco vencer ou empatar um desses jogos para ser
o campeão. Mas os dois conseguiram derrotá-lo: o Botafogo por 2x0, com
grande atuação de Garrincha, e o Flamengo por 3X1. Os três clubes
chegaram ao final com o mesmo número de pontos e tiveram de partir para
um supercampeonato entre eles. Cada qual jogaria uma vez contra os
outros dois e, ao fim dos três jogos, sairia o campeão.
Mas não saiu. No supercampeonato, o Flamengo derrotou o Botafogo por
2x1, o Botafogo derrotou o Vasco por 1X0 e o Vasco derrotou o Flamengo
por 2X0. Os três continuaram empatados. Seria preciso mais uma rodada de
jogos - que se chamou de super-supercampeonato. Aquela altura, o
campeonato já atravessara o Natal e o Ano Novo e se estendia por janeiro
de 1959. Era como se não fosse terminar nunca, nem os torcedores queriam
que terminasse. Os espíritos-de-porco falavam em marmelada, mas cada
jogo era um novo recorde de renda. E, no super-super, a história foi
diferente: o Botafogo empatou com o Flamengo (2X2) e perdeu para o Vasco
(2X1), sendo alijado do título. E o Flamengo, que precisava da vitória
no jogo final, apenas empatou (l XI) com o Vasco, o qual foi o
supersupercampeão.
Na última partida, em que o 1X1 dava o título ao Vasco, o Flamengo
massacrou nos cinco minutos finais, com a dupla Dida e Babá várias vezes
a ponto de marcar. O gol do desempate e do título poderia sair a
qualquer momento. Mas não saiu e, aos 45 minutos, o juiz Eunápio de
Queiroz encerrou o jogo. Naquele exato momento, ouvindo a transmissão de
Jorge Curi pela rádio Nacional, o operário e boémio Avelino Gomes,
torcedor do Flamengo, sofreu um infarto em sua casa no Engenho de Dentro
e morreu.
Sua filha não pôde ajudá-lo. Estava muito longe dali, cantando na
Argentina - Elza Soares.
O Botafogo estava em vigília no casarão do alto da Gávea, rilhando os
dentes para o jogo contra o Flamengo pelo supercampeonato - menos
Garrincha. O clube liberara os jogadores para passar o Natal com suas
famílias, desde que voltassem à concentração na noite de 25 de dezembro.
Todos atenderam. Mas, na manhã do dia seguinte, Garrincha ainda não
aparecera.
Saldanha, em meio a um violento ataque de tosse - reminiscente, sem
dúvida, das granadas na batalha de Stalingrado -, virou bicho:
"Se este filho da puta não me aparecer até as quatro da tarde, não joga
amanhã. Está barrado!"
O dr. Nova Monteiro, médico do Botafogo, ouviu aquilo e ficou
preocupado. Onde já se vira barrar Garrincha? Chamou seu filho Francisco
Eduardo, entraram em seu Ford 41 creme e tocaram para Pau Grande.
Garrincha estava em casa - ele, Pincel, Swing e pelo menos outros dez
rapazes da cidade, rindo, cantando e falando alto, no maior pileque
coletivo que Nova Monteiro já havia presenciado.
Nova Monteiro surgiu na soleira da porta e disse apenas: "Garrincha,
temos jogo amanhã. Você vem comigo." Garrincha precisou apurar o foco de
seus olhos e ouvidos para entender quem estava falando e o quê. Quando
decifrou a mensagem, respondeu
mansamente:
"Sim, senhor."
Deixou-se levar até o carro e seguiu para o Rio com o médico, que o
entregou na concentração. No dia seguinte, jogou (mal) e o Botafogo
perdeu.
O Botafogo de Saldanha era liberal com os jogadores no quesito álcool.
Só não queria que abusassem. Saldanha sabia que, se os trancasse na
concentração, eles dariam um jeito de contrabandear as garrafas para
dentro do hotel, como faziam os do Flamengo. O melhor era deixá-los sair
para beber e controlar seu estado quando voltassem da rua.
Uma das concentrações do Botafogo em 1958 era o hotel Ipanema, que,
apesar do nome, ficava no Leblon, do outro lado do Jardim de Alah. O
Flamengo também se concentrava nele e a pinga entrava em garrafas de
guaraná que um funcionário do hotel, um espanhol apelidado "Brancura
Rinso", ia buscar no bar Vinte. Mas o Botafogo não precisava disso. Uma
ou duas vezes por dia, Garrincha, Didi, Paulo Valentim e Quarentinha -
todo o ataque, menos Zagalo - davam um pulo ao bar.
Saldanha os via sair e comentava, resignado, com quem estivesse por
perto:
"Lá vão eles tomar uma."
Meia hora e duas cachaças Correinha depois, estavam de volta, alegres e
tranqüilos. Mas, fora do clube, Garrincha passava da conta e envolvia os
companheiros em seus excessos.
Às segundas-feiras, quando se esperava que eles descansassem do jogo de
domingo, Garrincha promovia uma feijoada e uma pelada em Pau Grande, com
a presença de Didi, Valentim e Quarentinha. Estes limitavam-se à
feijoada e às batidas, sem arriscar-se na pelada. Mas não se poderia
dizer que o dr. Hilton Gosling, novo médico do clube, recomendasse
aquelas libações. Como tira-gosto, Quarentinha comia pimenta-malagueta
crua: enchia um pires de pimentas verdes e vermelhas e comia-as pelos
cabinhos, de duas em duas, fazendo-as descer com pinga. Fossem
escorpiões ou cacos de vidro, ele talvez os mastigasse do mesmo jeito.
Apesar - ou por causa - desse apetite, Quarentinha superaria Carvalho
Leite e se tornaria o maior artilheiro da história do Botafogo, com 302
gols em 423 partidas.
Garrincha enfrentava a feijoada, as batidas, a pimenta e ainda punha
suas pernas em jogo no campinho esburacado. Didi arregalava os olhos ao
ver Garrincha saindo com a bola para o campinho:
"Mas você vai jogar pelada depois do bagaço de ontem, Mané?",
perguntava.
"É que eu fiz uma aposta com o Pincel", respondia Garrincha.
Ele era jovem, invencível, não precisava descansar - podia gastar sua
juventude como se ela fosse infinita. Encerrada a esbórnia em Pau
Grande, os outros voltavam para o Rio e Garrincha vinha com eles. Ia
direto para o apartamento de Iraci. Aliás, fora para ela que ele dera a
sua medalha de campeão do mundo.
Saldanha sabia da vida dupla de Garrincha com Iraci no Rio, e até a
aprovava. Por que não? Nas horas que passava com ela, não estava se
metendo em encrencas. Iraci tinha, inclusive, o mérito de mantê-lo
afastado de Pau Grande, onde - Saldanha também sabia - todas aquelas
românticas histórias de caçadas e pescarias eram apenas um pretexto para
beber.
Saldanha só não contava com que, em meio ao segundo turno do campeonato
de 1958, uma nova ameaça começasse a sobrevoar a cabeça de seu principal
jogador. Um busca-pé do teatro rebolado: a vedete Angelita Martinez.
Casos entre jogadores e vedetes eram comuns. Os jogadores iam vê-las nos
musicais de Walter Pinto, na praça Tiradentes, ou nos de Carlos Machado,
em Copacabana. Na fila do gargarejo, tinham uma visão privilegiada
daquelas pernas monumentais. Ao fim do show, com os corações
transbordando de más intenções, iam visitá-las nos camarins.
As vedetes eram as mulheres mais bonitas e cobiçadas de seu tempo. A
estrela entre elas continuava a ser Virgínia Lane, que, no começo da
década, também fora amante de Getúlio. Mas igualmente famosíssimas eram
Eloína, Carmen Verônica, íris Bruzzi, Amparito, Irmã Alvarez, Norma
Bengell, Brigitte Blair, íris Castellani, Conchita Mascarenhas, Angelita
Martinez e inúmeras outras. Suas fotos de maio, biquíni ou toalha
adornavam a coluna de Stanislaw Ponte Preta na Última Hora, sob a
rubrica "As certinhas do Lalau". Muitas tinham como coronel um deputado
ou senador de outro estado, de quem ganhavam apartamento em Copacabana,
crediário na loja Sloper e estação de águas em Cambuquira. O que não
impedia que se interessassem por rapazes viris, bonitos e famosos, como
os jogadores.
Um jogador tinha um caso com uma vedete. Iam algumas vezes para o berço,
despediam-se e ninguém se machucava. O grande público nem ficava
sabendo, exceto pelas insinuações veladas na coluna "Mexericos da
Candinha", na Revista do Rádio: "Aquela vedete do teatro Recreio está
caidinha por um famoso jogador do Vasco. Ele é campeão do mundo e sabe
que é bonito. Pena que seja noivo. Qual será? Depois eu conto". Não era
preciso ser xerloque para concluir que o jogador só podia ser Bellini.
Quanto à vedete, havia muitas em cartaz no teatro Recreio, embora -
tirando Virgínia Lane - nenhuma chegasse aos saltos altos de Angelita
Martinez.
Depois de Virgínia, Angelita era a vedete mais cara dos anos 50. No
registro civil chamava- se Maria Angélica Gugani, tinha 26 anos e era um
dos maiores espetáculos da Terra: seios pequenos, cintura de pilão e um
par de coxas que desafiava os lexicógrafos. Sua carreira no teatro de
revista não era nem mais nem menos fulgurante que a de muitas colegas.
Mas as paixões que despertava fora do palco deixavam longe a
concorrência. Um desses casos, e o mais cabeludo, fora cerca de um ano
antes com o vice-presidente João Goulart.
Não se sabia quando o caso começara, mas muitos se lembravam de como
terminara: com Jango arrombando a tiros a porta do apartamento de
Angelita, num treme-treme da rua Rodolfo Dantas, em Copacabana. Estavam
brigados e, certa madrugada, ele fora visitá-la para uma reconciliação.
Ela não quis abrir a porta. Ele esvaziou o tambor do seu 38, fez saltar
a fechadura e entrou. Os tiros assustaram os vizinhos, atraíram a
imprensa e, no dia seguinte, foram o assunto no Senado Federal, que
Jango, como vice, presidia. Juscelino, tão discreto em seus próprios
casos, ficou para morrer.
Por essa capacidade de tirar os ilustres do sério - ou por seus dotes
como estrela do teatro rebolado -, Angelita fazia grandes planos para si
mesma. Dizia sempre:
"Nunca haverá mulher mais famosa do que eu."
Mas, se quisesse cumprir esse vaticínio, precisaria apressar-se. Antes
do affair Jango, tivera um caso com o zagueiro Pavão, do Flamengo. A
ligação de Angelita com o futebol não vinha de ontem: era filha do
antigo craque Bartô e sobrinha de Neco, ídolo do Corinthians nos anos 20
e que virará estátua no parque São Jorge. Apenas por esses ancestrais,
Angelita já merecia o cognome de "melhores pernas do futebol
brasileiro". Mas, depois da Copa de 1958, mandara incontáveis recados
para Bellini, sem receber resposta - e, agora, no fim do ano,
preparava-se para lançar a marchinha de Carnaval, "Mané Garrincha".
A marchinha era de Wilson Batista e co-assinada por Nóbrega de Macedo e
pelo bicheiro Jorge de Castro. A letra dizia: "Mané Garrincha, Mané
Garrincha/ Até hoje meu peito se expande/ Mané que brilhou lá na Suécia/
Mané que nasceu em Pau Grande.// Não é só café/ Que nós temos pra
vender/ Dribla, dribla, Mané/ Para o mundo inteiro ver". Música e letra
eram bem fraquinhas - não faziam justiça ao autor de "Pedreiro Waldemar"
e "Balzaquiana", obras-primas de Wilson Batista em outros Carnavais.
Angelita gravara "Mané Garrincha" em novembro na mambembe etiqueta
Campeão e começara a trabalhá-la para o Carnaval de 1959. Mas não tinha
a menor chance de sucesso. Aquele seria o Carnaval de "Boi da cara
preta" e da grande ("Se veste de bacana/ Pra fingir que é mulher") "Vai
ver que é".
A marchinha só teria futuro se Garrincha posasse com Angelita para
fotografias e a acompanhasse aos bailes e programas de auditório. Numa
tarde de treino do Botafogo, ela foi a General Severiano convidá-lo.
Mas, antes, convocou os fotógrafos. E estes ganharam o dia: Angelita -
com a camisa do Botafogo sobre o maio preto, as fabulosas coxas dentro
das meias de vedete e mal se equilibrando na grama sobre os saltos altos
- cantou a marchinha e parou o treino. A pedidos, Garrincha pegou-a nos
braços e posou com ela para os fotógrafos.
Os companheiros tentaram gozá-lo, mas Garrincha sabia que, por trás das
piadas, havia uma ponta de mágoa. Muitos deles eram noivos ou casados e
nem em pensamento podiam expor- se a uma situação como aquela - ao passo
que a liberdade de Garrincha, casado e pai de filhas, parecia total. Ele
os gozou de volta:
"Vocês são uns trouxas. O degas aqui está com tudo."
E estava mesmo, porque seu caso com Angelita começou naquele mesmo dia,
assim que ambos se livraram de seus uniformes do Botafogo.
A primeira a perceber que havia um passarinho no ar foi Iraci. Garrincha
deixara de aparecer nos dias regulamentares no apartamento da rua Gomes
Carneiro. E, quando aparecia, entrava e saía com o vento. Trocava-se às
pressas e, do elevador, gritava para Iraci:
"Amor, hoje eu não vou poder ficar. A Angelita vai ensaiar a minha
música e quer que eu escute."
Ou:
"Amor, estou chispado. Tenho de ir com a Angelita num baile em que ela
vai cantar a minha música."
Na verdade, Garrincha estava quase de mudança para o novo apartamento de
Angelita, na rua Constante Ramos, também em Copacabana. Ela vinha lhe
dando o tratamento de luxo: négligés de cetim, lençóis perfumados,
champanhe no balde de gelo e, na vitrola, discos de Waldir Calmon e da
orquestra Românticos de Cuba, tudo isso à luz difusa do abajur lilás.
Garrincha estava deslumbradíssimo - embora Angelita não fosse a primeira
vedete em sua biografia.
Poucos meses antes, um fotógrafo da revista Escândalo ligara para
Charles Borer, treinador de basquete do Botafogo e investigador do DOPS.
Queria avisar que Garrincha seria vítima de uma reportagem ao estilo
marrom da revista: teria de pagar para não vê-la publicada. Um repórter
descobrira que Garrincha iria encontrar-se com uma vedete de nome íris
no hotel Martinique, apartamento tal, na rua Sá Ferreira, no fim daquela
tarde - e o destacara para esconder-se no armário e fotografar tudo. A
vedete, que era casada, também seria chantageada. O fotógrafo era um
profissional e não pudera rejeitar o serviço. Mas achava aquilo uma
sujeira e resolvera contar a Borer, que era da polícia. Borer falou com
Júlio de Azevedo, paredro do Botafogo, e este preveniu Garrincha para
que não fosse ao encontro.
Garrincha não se deixou convencer:
"Está tudo certo, seu Júlio, mas, então, por causa disso, eu vou perder
aquela enxuta? Eu vou lá assim mesmo, não tem nem ovo."
E foi. Mas Borer postou-se à porta do hotel, simulou uma batida e
apreendeu os filmes do fotógrafo. Daquela vez, Garrincha escapara.
Com Angelita, parecia não haver risco. Tanto que o Botafogo, a
princípio, não fez cara feia. Renato Estelita até apadrinhou idas de
Angelita ao Maracanã para ver Garrincha em ação - num dos jogos, mandou
seu filho Romero escoltá-la, enquanto Garrincha trabalhava lá embaixo no
gramado. Sentados nas cadeiras perpétuas, Romero, então com dezesseis
anos, não sabia se assistia ao jogo ou se olhava para Angelita,
fenomenal naquelas calças justas. Quando a partida terminou, conduziu-a
ao hall dos elevadores, para esperar que Garrincha a recolhesse. Os
torcedores, com suas bandeiras enroladas debaixo do braço, lambiam-na
com os olhos. Até que Garrincha apareceu e a levou embora.
Quem torcia o nariz para a existência de Angelita era Saldanha. O
Botafogo estava na reta final do super-super e, nitidamente, Garrincha
não estava dormindo direito. Nem podia estar. Não saía da rádio
Nacional, onde Angelita cantava no Programa Paulo Gracindo, e depois a
acompanhava ao teatro Recreio, onde ela fazia a revista Bom mesmo é
mulher com Virgínia Lane. Garrincha ficava no camarim, lendo gibi,
esperando o espetáculo terminar. Depois iam no carro dela para o Bar dos
Pescadores, na Barra da Tijuca. Angelita nunca dormia antes de sete da
manhã e sua bebida era Veuve Clicquot. Champanhe não era a especialidade
de Garrincha, mas, à falta de pinga ou conhaque, ele não era de fazer
chique: beberia até arsénico, dependendo da graduação.
O Botafogo não perdeu o super-supercampeonato por causa de Angelita, mas
ela não contribuiu nem um pouco para as atuações de Garrincha nos
últimos jogos contra o Flamengo e o Vasco. E, para azucrinar ainda mais
a cabeça de Garrincha, a censura proibiu "Mané Garrincha". Não podia ser
executada no rádio ou em bailes e programas de auditório.
A letra em si não tinha nada de mais. Mas Angelita, ao cantá-la ao vivo,
não podia impedir que os auditórios pervertessem o verso "Mané que
nasceu em Pau Grande" para "...que nasceu de pau grande". Para dizer a
verdade, Angelita era a primeira a se atrapalhar com a letra e cantar
esta versão - que, para ela, apenas fazia justiça a Garrincha. Com toda
a sua quilometragem masculina, nunca vira ninguém como ele. Garrincha
devia ter em torno de 25 centímetros.
O versinho que ofendeu a censura parece hoje de uma singeleza imaculada.
Mas, para 1959 - mesmo com a tradição de as marchinhas se prestarem a
double-entendres -, aquilo era, sem trocadilho, grosso demais. A censura
considerou-a um desaforo e uma afronta às famílias. "Mané Garrincha"
ficou dias fora do ar e dos bailes, o que contribuiu para torná-la mais
conhecida. Mas, quando Angelita e os autores conseguiram a sua liberação
com André Carrazoni, diretor do serviço de censura, nem por isso ela
ganhou pinta de campeã do Carnaval.
No meio desse turbilhão - Angelita, a proibição da marchinha, o
super-super -, Garrincha praticamente sumiu de Pau Grande no começo de
1959. Não aparecia lá desde o Natal. Quando ele e Angelita tinham um dia
livre, iam para a ilha da Gigóia, também na Barra, onde Virgínia Lane,
grande amiga de Angelita, possuía uma casa. Angelita promovia churrascos
para a turma de Virgínia, e Garrincha improvisava um campinho na areia,
onde jogava pelada com os aborígines e com os outros convidados das
vedetes.
Em meados de janeiro, quando não podia mais escapar a seus deveres,
Garrincha foi finalmente a Pau Grande. E levou Angelita com ele.
A justificativa era a de que ela iria apresentar "Mané Garrincha" aos
conterrâneos do herói da música - a qual, por sinal, não deixava de ser
também uma homenagem à cidade. Garrincha já levara outros artistas a Pau
Grande, como Emilinha Borba e Jackson do Pandeiro, e ninguém vira
maldade naquilo. Mas talvez Angelita não precisasse ter chegado tantas
horas antes de o show começar. E muito menos desfilado de maio pela
praça a caminho do poço Dove Doze, para nadar com Garrincha, seguida por
metade da população.
Pau Grande nunca vira um corpo como aquele. Talvez nem suspeitasse até
então que o mundo exterior produzia tão perfeitos violões. A metade da
população que seguira Angelita até o Dove Doze nadou com ela no poço e
alguns mais afobados tentaram tirar casquinhas. A outra metade cerrou
suas janelas e preferiu não se meter. Mas as mulheres da cidade, algumas
cofiando o buço, tiveram pena de Nair - e todos os homens, inveja de
Garrincha.
No caminho para o Dove Doze, Garrincha levou Angelita a um romântico
tour por sua infância em Pau Grande:
"Olha lá. Foi ali que eu matei um gambá."
Depois dos mergulhos no poço, Garrincha e Angelita fizeram a ronda dos
bares de Dódi e Constâncio, sempre cercados por uma multidão masculina.
Em seguida, Garrincha levou Angelita a almoçar em sua casa. O almoço foi
preparado por sua irmã Rosa porque Nair se dissera indisposta - além
disso, Nair mal sabia fritar um ovo ou ferver água.
Não sem malícia, um vizinho perguntou a Nair o que ela achara da
marchinha que falava de seu marido.
"Bonita", respondeu humildemente Nair. "Mas eu preferia que fosse
cantada pela Emilinha Borba."
Não estava mentindo: desde "Chiquita bacana" e "O mambo do gato",
Emilinha tornara-se a cantora do seu coração.
À noite, Angelita fez o show na praça, com uma roupa pouco menos
escandalosa que o maio com que desfilara pela rua à luz do sol.
Terminado o show, pegou seus músicos e seu carro de volta para o Rio e
levou Garrincha com ela.
No Rio, Iraci sofria e acompanhava à distância o comportamento de
Garrincha. Mas não era tola como Nair. Na primeira oportunidade,
encostou-o à parede:
"O que é que está havendo? Você está tendo um caso com essa cachorra?"
Garrincha rebateu na medida:
"Em primeiro lugar, não é uma cachorra. É uma senhora. Em segundo lugar,
aqui ninguém é obrigado a nada. Eu não sou obrigado a ficar com você,
nem você é obrigada a ficar comigo. Você é que sabe."
Iraci sabia: não tinha escolha. Ou o aceitava como ele era - e esperava
que a febre por Angelita passasse - ou teria de conformar-se em perdê-lo
e voltar derrotada para Pau Grande. Não podia sequer reclamar que havia
tempos Garrincha não lhe deixava dinheiro e que o aluguel e as contas
estavam atrasados. Teria de pedir emprestado a Linda Batista ou esperar
que ele se lembrasse de suas obrigações. Mas, mesmo que se lembrasse,
Garrincha não estava em condições de ser muito generoso - com Iraci,
digo. Angelita estava lhe saindo caro: era viciada em cartas, devia
dinheiro pesado a seus parceiros de pif-paf num "cassino" da rua Álvaro
Alvim e era Garrincha que a estava ajudando a saldar essas dívidas de
jogo.
O romance com Angelita, que começara antes do Natal e vivera um Carnaval
no fogo, arrastara-se pela Quaresma, mas não sobreviveria ao sábado de
Aleluia. Angelita já surpreendera Garrincha de olho nos contornos de
Virgínia Lane. Não lhe dissera nada - mas ele que não se metesse a
gato-mestre com Virgínia, que era sua melhor amiga. Antevendo o perigo,
Garrincha guardara distância de Virgínia. Mas nada o impedia de ceder
aos rogos das outras meninas do teatro.
Certa noite, Angelita entrou mais cedo em seu camarim no Recreio e
flagrou-o aos beijos com uma vedetinha em seu colo. Angelita, que fazia
no espetáculo um número copiado de Sarita Montiel em "La violetera",
vinha com uma cesta de flores artificiais no braço. Rodou a espanhola e
atirou nos dois a cesta, a frasqueira, o secador de cabelo, os tamancos
e outros objetos de peso que encontrou à mão e o mandou embora. Mas, na
mesma noite, chamou-o de volta. Angelita não estava habituada a ser
passada para trás - até então, sempre fora o contrário.
Mas, agora, era Garrincha que não queria mais. Passado o primeiro
encanto, o romance já não tinha a mesma magia. Além disso, era um caso
atribulado, cheio de interrupções. Depois do Carnaval, ele viajara com o
Botafogo para uma série de amistosos no Nordeste. Quase em seguida, fora
com a seleção brasileira para Buenos Aires e ficara lá durante todo o
mês de março, disputando o Campeonato Sul-americano. E, na volta, já
estava viajando de novo pelo Botafogo no torneio Rio-São Paulo, com
jogos lá e cá.
Angelita lhe dera muitas noites de prazer. Mas a manhã seguinte dessas
noites iria refletir-se numa situação que até Garrincha já achava
inconcebível: voltar à reserva da seleção.
"Setenta e um!"
Era o que Garrincha gritava na concentração do Brasil, no hotel das
Paineiras, ao subir descalço à balança e pular dela rapidinho, como se
tivesse uma chapa quente sob a sola dos pés.
Queria dizer que estava com 71 quilos, seu peso normal. Mas não era o
que demonstrava nos treinos da seleção para o amistoso contra a
Inglaterra no Maracanã, no dia 13 de maio. Parecia pesado, lento nos
piques - mais para os 74 quilos que, na verdade, o ponteiro da balança
acusava e que ele não deixava Hilton Gosling ver.
Dois meses antes, no Campeonato Sul-americano em Buenos Aires, Garrincha
já aplicara o golpe da balança e tapeara a comissão técnica. Mas, de
todos os minutos que passara em campo, o único em que justificara sua
presença fora exatamente o último, aos 45 do segundo tempo do jogo
final, contra a Argentina. O placar em 1 x 1 dava o título aos
argentinos quando Garrincha arrancou para a área e, de longe, atirou
contra a meta do goleiro Negri. Com a bola no ar, viajando em direção à
gaveta, o árbitro chileno Carlos Robles apitou o fim da partida. Ouvindo
ou não o apito, Negri nem se mexeu - e, se tivesse se mexido,
provavelmente não alcançaria a bola. Foi gol, mas não valeu. O Brasil
voltou invicto, mas a campeã foi a Argentina.
Nos últimos anos, os problemas de Garrincha com o peso vinham sendo
crónicos. Sua dificuldade para manter-se no limite dos 71 quilos era
explicada pelo seu compulsivo amor às mariolas. Um tijolinho comum de
mariola contém cerca de setenta calorias - e acreditava-se que Garrincha
comesse vinte por dia. Apenas as mariolas já estariam suprindo seu
organismo com a quantidade de calorias necessárias para que ele
funcionasse. E, naturalmente, como não se alimentava só de mariolas,
estourava o peso. Para compensar, passava a sexta e o sábado anteriores
a um jogo quase sem comer, para tentar emagrecer. Na concentração,
quando o garçom ia servilo, aceitava uma porção mínima, beliscava dois
ou três caroços de feijão e era o primeiro a deixar a mesa.
Mas havia outra coisa que o fazia engordar, mais ainda que as mariolas,
e com a qual, pelo visto, ninguém se preocupava: cachaça. Um copinho
normal de cachaça contém 115 calorias. Mesmo concentrado com seu time,
Garrincha tomava pelo menos três copos por dia, dos grandes, valendo
muito mais copinhos. A contagem calórica de Garrincha em forma de
caninha era astronómica. Nos dias em que não precisava ir ao clube ou
que se escondia em Pau Grande, o céu ou o número de garrafas disponíveis
era o limite. A primeira conseqüência desse excesso alcoólico em seu
organismo era o aumento de peso. E, para o seu estilo de jogo, cada
quilo a mais podia ser mortal.
Ao contrário do que se imagina, Garrincha não era um jogador veloz. Seu
arranque - a capacidade de sair da inércia para o movimento - era
vertiginoso, graças à sua força muscular nas pernas, mas de curto
alcance. No atletismo seria insuperável na corrida de cem metros. O
primeiro a perceber isso foi o zagueiro Ronald, seu colega no Botafogo.
Dado o arranque, Garrincha passava facilmente pelo marcador, mas, se
este o perseguisse, Garrincha tinha de parar a bola para recuperar o
predomínio e repetir a jogada. Só que, então, já estava mais perto da
linha de fundo ou da lateral da área, pronto para cruzar ou chutar a
gol. Os quilos a mais tiravam a força desse arranque e permitiam o que,
em condições normais, era quase impossível: desarmá-lo.
Em maio de 1959, ao fim do festival Angelita Martinez, Garrincha parecia
mais gordo e fora de forma do que nunca. E justamente quando os ingleses
estavam a caminho do Maracanã.
Para um simples jogo e, ainda por cima, amistoso e em casa, a seleção
fora convocada 22 jogadores! - treze dias antes. Mas só porque era
contra a Inglaterra, o English Team, como o chamavam os jornais. Era
como se o Brasil tivesse contas a ajustar com o único país que não
derrotara na Copa do Mundo - como se só depois de vencê-lo o título
mundial começasse a valer de verdade. Sem falar no complexo de
inferioridade que o torcedor brasileiro, mesmo olhando para os lados
antes de admiti-lo, continuava a alimentar em relação ao futebol inglês.
Por isso ninguém queria acreditar nos rumores que davam Garrincha como
barrado para aquele jogo. Feola não seria louco de fazer isso. Mas fez.
Quando os times iam entrar em campo, Fernando César, o locutor oficial
do Maracanã, anunciou a escalação do time e fez uma pausa depois de
dizer o nome do ponta-direita - Julinho. Como que respondendo à senha, o
estádio prorrompeu na maior vaia de sua história.
Julinho estava de volta ao Brasil havia um ano. Deixara para trás a
Itália, a Fiorentina, as liras e o ardor dos italianos pelo seu futebol.
Tomara o Conte Grande e desembarcara no porto de Santos trazendo no
bolso o bem mais precioso para um jogador de futebol: seu passe. Com
ele, era dono de seu nariz e podia vendê-lo para qualquer clube.
Escolhera o Palmeiras, que lhe pagara a fábula de 200 mil dólares. Com
esse dinheiro, Julinho comprara o que lhe faltava do bairro da Penha, em
São Paulo, e completara sua independência financeira. Só lhe faltava uma
coisa: voltar à seleção brasileira.
Por causa de uma contusão, não fora convocado para o Sul-americano. Mas,
agora, contra a Inglaterra, estava entre os 22. Era o seu retorno à
seleção, depois de cinco anos afastado. O dono da camisa sete era,
obviamente, Garrincha, e Julinho não se sentiria desonrado por ser seu
reserva. Aos trinta anos em 1959, já não era o maior ponta-direita do
mundo. O maior do mundo passara a ser Garrincha, escolhido pelos mesmos
homens que o tinham eleito em 1954: os comentaristas europeus. Seu único
objetivo nesta convocação era treinar a sério para convencer Feola de
que, numa emergência, podiam contar com ele.
Por que Feola escalou Julinho contra a Inglaterra, e não Garrincha? Já
se escreveu muito sobre essa partida, e uma das versões sustenta que
Garrincha teria saído à noite, na véspera do jogo, e chegado embriagado
pela manhã ao hotel Miramar, em Copacabana. Mas, pelo noticiário nos
dias anteriores à partida, Julinho já ganhara a posição nos treinos
durante a semana. Não há testemunhas da chegada de Garrincha ao hotel
naquelas condições. Além disso, a seleção não ficou no Miramar, mas nas
Paineiras. E, finalmente, há a frase de Garrincha para o próprio
Julinho, já prevendo de véspera o que iria acontecer:
"Vai, Pica-pau', que você está melhor do que eu. Eles vão te vaiar, mas
você jogue o seu futebol e nem ligue."
Feola reunira os jogadores, comunicara a escalação do time e não dera
satisfações a Garrincha sobre o porquê de Julinho - nem estas foram
pedidas.
Feola também advertira Julinho sobre a vaia. Julinho é que não
acreditava que isso fosse acontecer. O torcedor carioca não podia tê-lo
esquecido daquele jeito.
O Brasil preparava-se para entrar em campo quando o locutor anunciou o
seu nome e todo o estádio vaiou. A vaia entrou pelo túnel como por um
megafone e chegou aos jogadores no vestiário. O time subiu lentamente as
escadas em direção ao gramado. Quando Julinho despontou, a torcida
intensificou os uivos e assovios. Uma charanga na arquibancada tocava a
marchinha "Mané Garrincha". Julinho chegou a tropeçar num degrau e quase
caiu. Era uma vaia de 127 mil bocas - o público no Maracanã naquela
tarde de quarta-feira, feriado de Libertação dos Escravos.
Julinho entrou em campo chorando. Não quis falar aos locutores volantes
e, ao ouvir os hinos, estava com as pernas trêmulas - muito mais que no
dia de Fiorentina x Brasil, um ano antes. Naquele dia, chorara por jogar
contra seu país. Agora era muito pior: estava jogando por seu país, mas
sendo tratado como um estrangeiro, um intruso.
O jogo começou ainda sob as vaias. Julinho podia ser um sentimental, mas
era um homem maduro. E, ali, teria de ser mais homem do que nunca.
Assoou-se no gramado e, na primeiríssima vez em que tocou na bola, com
um minuto de jogo, deu um drible em seu marcador, Armfield, que o fez
cair de costas A torcida se calou. A Inglaterra deu um esticão para a
frente, o Brasil retomou a bola e Henrique cruzou da esquerda. Pelé
entrou e furou , Armfield também furou e Julinho, surgindo de repente,
mandou para as redes. E o Maracanã foi, como sempre, generoso: depois de
passar da vaia ao silêncio, trocou o silêncio pelo aplauso mais caloroso
que um jogador poderia receber.
Até o fim da partida, uma das maiores da carreira de Julinho, as 127 mil
pessoas explodiam em palmas toda vez que a bola caía em seus pés. O
Brasil venceu por 2X0 e o segundo gol, por Henrique, aos 32 minutos,
saiu de um cruzamento seu.
Uma única pessoa assistiu ao jogo em silêncio: Garrincha. Os treinadores
dos dois países haviam acertado que cada um faria apenas uma
substituição. Aos 44 minutos do primeiro tempo, Feola fez a sua: trocou
Orlando por Formiga. Ao ver aquilo, Garrincha desceu para o vestiário,
tirou o uniforme e foi embora do Maracanã.
Nem assistiu ao show de Julinho no segundo tempo.
Na volta do Sul-americano, o dr. Nova Monteiro o examinara e dera o
alerta: Garrincha precisava ser operado. Deveria extrair os meniscos do
joelho direito. A recuperação era complicada e talvez Garrincha não
pudesse viajar em maio com o Botafogo para a Europa. Na melhor das
hipóteses, iria juntar-se à excursão em andamento. O Botafogo
autorizou-o a operar e Garrincha concordou. A cirurgia foi marcada na
casa de saúde São Geraldo, na rua Marquês de Abrantes, no Flamengo. Nova
Monteiro, as enfermeiras e os anestesistas calçaram as luvas, afiaram os
instrumentos e o esperaram no dia e hora acertados. Mas Garrincha não
apareceu. Desculpou-se no dia seguinte, dizendo que uma filha passara
mal. Nova data foi marcada - e novo bolo em Nova Monteiro.
Dona Maria Rezadeira, a maior autoridade de Pau Grande em curar lesões
ósseas e musculares usando apenas agulha, linha e um paninho sobre a
região atingida, o proibira. Dissera-lhe que, se operasse o joelho,
nunca mais jogaria futebol. A cura para ele era a fé - e a agulha e a
linha entrando e saindo do paninho enquanto ela desfiava a ladainha da
benzedura. Garrincha acreditava nisso porque sua mãe também fora
rezadeira. Nova Monteiro descalçou as luvas e lavou as mãos. Se
Garrincha não queria operar, paciência. Do jeito que estavam seus
meniscos, ele poderia continuar jogando, mas, no futuro, a operação
seria inevitável.
Garrincha passou o mês de abril aos cuidados de dona Maria Rezadeira.
Nos intervalos, disputou o torneio Rio-São Paulo pelo Botafogo, foi
convocado para a partida contra a Inglaterra e, no dia seguinte ao jogo,
embarcou com o Botafogo para a Europa. Iriam se passar anos até que se
falasse de novo em operação.
O futebol brasileiro era a nova coqueluche na Europa. Depois da Copa da
Suécia, assistida em toda a Europa pela Eurovision, não havia time
brasileiro que não excursionasse com um cartaz comparável ao da própria
seleção - do Santos de Pelé ao obscuro Bela Vista de Sete Lagoas, MG. Na
ânsia de faturar o que pudessem, os empresários obrigavam os clubes a
jogar vinte ou trinta partidas em quase igual número de dias,
submetendo-os aos roteiros mais desumanos: hoje na Holanda, amanhã na
França e depois de amanhã na Dinamarca - sem descanso. Os times
brasileiros se cruzavam nos hotéis, nos aeroportos e às vezes até nos
gramados, jogando uns contra os outros no exterior. O resultado era que,
no meio da excursão, os jogadores já estavam estourados e o futebol
campeão do mundo começava a dar vexame diante de times quase amadores.
Para moralizar a coisa, o CND (Conselho Nacional de Desportos) resolveu
fiscalizar o roteiro de cada excursão.
Quando o Botafogo embarcou para a Europa no dia 14 de maio de 1959, já
não havia tanto abuso. Seriam dezesseis partidas em dez países durante
55 dias - mas, para não fugir à tradição circense dessas excursões, do
embarque ao desembarque no Galeão os jogadores iriam mudar 49 vezes de
cidade, com paradas ou traslados em todas elas. Um gráfico das idas e
vindas do Botafogo naquela excursão faria suspeitar da sanidade mental
de seu autor.
O Botafogo estava em Umea, no Norte da Suécia, quando a polícia feminina
foi de manhã ao hotel à procura de Garrincha. O Botafogo havia chegado a
Umea na véspera. Os colegas estavam habituados à velocidade de Garrincha
para chegar a um lugar estranho e se arrumar, mas aquilo batia todos os
recordes. Umea ficava quase na calota polar.
Na noite anterior, Garrincha e dois outros jogadores tinham escapado do
hotel e voltado de madrugada. Saldanha subira pelas paredes e os
declarara barrados para o jogo contra o Gimonas, dali a algumas horas. O
barracão não vigorou porque o sueco Sven Lindquist, amigo de Saldanha e
patrocinador daquela parte da excursão, não permitiu - Garrincha era a
grande atração da partida.
Mas Garrincha devia ter cometido alguma grave asneira para que a Justiça
sueca viesse tão depressa em seu encalço. Enquanto as policiais
femininas o esperavam lá fora, ele deu a sua versão para Lindquist.
Saíra com os colegas na noite passada e conhecera uma garota que o
convidara a ir à sua casa. Os pais dela o receberam, serviram-lhe
aquavit e, enquanto viam televisão na sala, a moça levou-o para o
quarto. Divertiram-se durante algum tempo entre os lençóis e ele fora
embora. Mas, ainda atrapalhado com o fuso horário, perdera a noção das
horas e voltara muito tarde para o hotel. Não podia imaginar o que a
polícia queria com ele.
O chefe da delegação botafoguense era o general Saddock de Sá, antigo
comandante do corpo de bombeiros e solidamente monolíngüe. Os jogadores
já haviam se divertido ao ver a fatiota do general para o embarque no
Rio: uma camisa esporte quadriculada e uma enorme gravata na qual estava
estampado um peixe. O general era carinhoso com os jogadores e cioso da
imagem do clube no exterior, mas, como muitos cartolas amadores, talvez
não fosse o homem indicado para chefiar uma delegação pela Europa. Entre
outras coisas, não entendia por que cada país usava uma moeda diferente.
Quando viu a polícia procurar Garrincha por ter feito mal a uma inocente
jovem sueca, o general Saddock entrou em pânico. Imaginou Garrincha
sendo atirado a uma masmorra gelada, tendo como sentinelas dois sujeitos
com chapéu de chifre. Seria um escândalo internacional. O Botafogo nunca
mais seria convidado a excursionar. No Rio, Paulo Azeredo teria um
ataque. E o responsável por aquela desgraça seria ele. O corpo de
bombeiros talvez até lhe tomasse suas medalhas.
Lindquist mandou o general ficar calmo, conversou com as policiais e
esclareceu tudo. Os pais da menina não estavam preocupados com o que
Garrincha e ela haviam feito. Também não estavam se importando com uma
possível gravidez e, se fosse o caso, não permitiriam de forma alguma um
aborto - eles próprios se encarregariam da criança. Queriam apenas ter
certeza de quem era o pai. A pedido deles, a polícia feminina iria
colher amostras do sangue de Garrincha para um exame de paternidade,
caso este fosse necessário, mas Garrincha só faria isso se quisesse.
Ninguém iria preso, ninguém perderia as medalhas.
Garrincha submeteu-se à colheita, a polícia foi embora e o general
Saddock respirou. Mas, a partir dali, o médico Hilton Gosling e o
dirigente Cláudio Moscoso Morize, falando uma ou duas línguas, tomaram
discretamente as rédeas da delegação.
A liberdade de Garrincha fascinava e irritava os outros jogadores. Era
casado, mas parecia solteiro. Podia pintar publicamente o sete, ser
visto com quantas mulheres quisesse e estar ameaçado de ser pai até no
pólo Norte, como em Umea, e continuar impune. Nada disso acontecia com
eles o Botafogo tornara-se uma atração, suas excursões eram agora
acompanhadas por mais de um repórter e fotógrafo e, com isso, suas
mulheres podiam vigiá- los pelos jornais.
Uma inocente foto tirada em Estocolmo por Jorge Leal, de O Globo,
criaria problemas para dois deles: Zagalo e Didi. A foto os mostrava
beijando as faces da miss Suécia 1959 durante uma cerimónia em homenagem
ao Botafogo. Duas semanas depois, quando a delegação já estava na
Itália, Zagalo recebeu uma carta de casa, advertindo-o para parar de
beijar a miss Suécia. Mas a carta para Didi era pior: Guiomar
informava-o de que passara a gilete em todos os seus ternos.
Entre tantos contratempos, o Botafogo venceu dez das dezesseis partidas
e fez grandes exibições, como a da vitória por 6x4 contra um Atlético de
Madri reforçado por Puskas. E Garrincha fez jus à sua reputação nas
goleadas contra o Willen n da Holanda (4X1) e a seleção do Sarre, na
Alemanha (4x0). Mas, já então, Garrincha, o Botafogo e o futebol
brasileiro não tinham mais nada a provar na Europa. A cancha
internacional dos jogadores era tal que podiam cometer as mais incríveis
proezas - como a de Garrincha, Edson "Praça Mauá" e Chicão, em Paris,
fazendo xixi no túmulo de Napoleão no Jardin dês Invalides - sem ser
apanhados.
As excursões tinham agora o mérito maior de educar os dirigentes. Muitos
deles nunca haviam saído do Brasil e, não fosse o futebol, morreriam sem
conhecer o mundo além da esquina. E o mundo era para eles uma permanente
fonte de espanto.
Em Amsterdã, na Holanda, ao passear por um jardim com o repórter Geraldo
Escobar, da Última Hora, o general Saddock não se conteve:
"Que coisa louca esta grama. Dá até vontade de comer!"
Nove meses depois, Garrincha ficaria sabendo o resultado do exame a que
se submetera em Umea: positivo.
Antes de o jogo começar, o lateral adversário, quase sempre de um time
pequeno, aproximava-se dele e sussurrava:
"Mané, quebra o meu galho. Estou pra me casar e meu contrato está no
fim. Vê se não judia muito de mim, senão eu fico mal."
O rancor que ele passara a despertar em seus marcadores parecia ter se
dissipado. O sentimento que Garrincha inspirava agora era outro: medo.
Estava escrito nos olhos dos zagueiros que iam enfrentá-lo pela primeira
vez - eles não conseguiam desviá-los de suas pernas. Garrincha sabia que
o estavam olhando e o que sentiam por sua causa no vestiário antes de
entrar em campo: a boca seca e uma vontade louca de ir ao banheiro. Eram
eles mesmos que lhe contavam isso quando o encontravam na rua. Parecia
que só agora tinham começado a temê-lo - como se, até então, fosse um
jogador comum, melhor que muitos, mas nem por isso tão assustador.
Garrincha ouvia apelos como aquele antes de quase todas as partidas. Era
sensível ao problema dos jogadores que iam casar ou renovar contrato,
mas era bom que não o provocassem. Cavaquinha, lateral da Portuguesa
carioca, foi um que lhe pediu clemência numa partida. Nas primeiras
jogadas Garrincha atendeu-o e se deixou desarmar por ele. Mas Cavaquinha
deve ter acreditado que o estava desarmando de verdade, porque
empolgou-se e passou uma bola entre as suas pernas. Era o que Garrincha
precisava para acordar. Pensava estar ajudando um desfavorecido e este
lhe fora ingrato. Na jogada seguinte Garrincha devolveu- lhe o drible e
continuou a meter-lhe a bola entre as pernas pelo resto do jogo. Não se
sabe se Cavaquinha casou. Sabe-se que não renovou contrato.
Por incrível que pareça, Garrincha era fácil de ser driblado. Se o
adversário lhe tomasse a bola limpamente, Garrincha perderia o interesse
pela jogada e deixaria o outro driblá-lo e ir embora. O futebol só
existia com a bola no seu pé. E não era preciso que o adversário
apelasse para os seus bons sentimentos e lhe pedisse para poupá-lo.
Bastava não marcá-lo com violência.
Se seu marcador não entrasse para quebrá-lo, Garrincha não tripudiaria
dele. Limitar-se-ia a driblá-lo e a deixá-lo para trás - como fazia com
Jordan, do Flamengo, a quem vivia se referindo como o melhor lateral que
já enfrentara.
Quando lhe perguntavam por que achava Jordan o melhor, respondia:
"Porque não bate. Jordan vai na bola. Adivinha o que eu vou fazer e por
isso é difícil de ultrapassar."
Mas havia quem acreditasse que Garrincha dissesse isso apenas para que
Coronel, do Vasco, e Altair, do Fluminense, parassem de acertá-lo com
tanta violência. Porque, se a aritmética não mentia, Garrincha driblava
Jordan tanto quanto Coronel e Altair- pelo menos sete em cada dez vezes.
Quando se via frente a frente com Coronel, Garrincha tinha de jogar a
bola na frente e saltar enquanto a chuteira do lateral vascaíno fazia um
silvo no ar, passando sob suas pernas como uma navalha. Coronel caía e o
agarrava pela perna com as duas mãos. Na corrida, Garrincha ainda o
arrastava por alguns metros. Era pândego. Garrincha desmoralizava
Coronel, mas, dois metros adiante, deparava-se com o resto do pelotão de
fuzilamento que o Vasco armava contra ele: Orlando na cobertura e
Bellini na sobra - ambos da seleção e ambos verdugos.
Era por isso que, quando um botafoguense cruzava na rua com Coronel em
semana de Botafogo x Vasco, não adiantava tentar gozá-lo:
"É domingo, hein, Coronel! Cuidado com o Garrincha!"
Coronel abria seu sorriso de mastim:
"Pois é, ele vai me dar um baile. Mas quem vai ganhar o bicho sou eu."
Coronel referia-se à escrita que fazia com que, por pior que estivesse
no campeonato, o Vasco quase sempre derrotasse o Botafogo (de 1953 a
1965, Garrincha enfrentou o Vasco em 38 partidas - perdeu vinte e
empatou sete)
Mas Coronel mudou sua atitude facinorosa diante de Garrincha depois de
conviver com ele no Campeonato Sul-americano de Buenos Aires. Bellini e
Orlando reclamaram que ele não estava entrando em Garrincha para valer.
Coronel ficou sem jeito e justificou:
"Ele agora é meu amigo e não consigo bater nele. Só lhe dou umas
cabeçadas na nuca. Ele fica zonzo e me deixa em paz por uns minutos."
Quanto ao tricolor Altair, quem o visse não podia acreditar na sua fama
de homem mau: era tão magro que Garrincha só o chamava de "Olívia
Palito". Suas pernas eram dois cambitos, como as da namorada do Popeye.
Mas, no choque contra as do adversário, pareciam de aço. E Altair era
especialista numa jogada então pouco comum, o carrinho, embora sempre
visasse a bola. O único ponta contra o qual não levava vantagem era
Garrincha - como bem se lembrava o Fluminense desde os 6x2 de 1957.
Com toda a dureza de seus embates, Garrincha e Altair criariam, sem
saber, um dos lances mais bonitos do futebol - e, desde então,
incorporado às regras não escritas do cavalheirismo esportivo universal.
Foi no jogo Botafogo x Fluminense pelo torneio Rio-São Paulo de 1960,
aos três minutos do segundo tempo. Numa disputa de bola com Quarentinha,
Pinheiro caiu com distensão muscular e a bola sobrou limpa para
Garrincha. Garrincha ouviu Pinheiro cair e gritar - e, em vez de avançar
pela avenida aberta em direção ao gol, jogou a bola de propósito pela
lateral para que Pinheiro fosse socorrido.
Nas tribunas do Maracanã, o jornalista Mário Filho, ao ver aquilo,
levantou-se da cadeira e exultou. A atitude de Garrincha era um beau
geste, um exemplo do espírito humanitário e não violento que deveria
caracterizar o esporte. Mário Filho abraçava-se às pessoas, apontava
para Garrincha
e dizia alto:
"É o Gandhi do futebol! O Gandhi!"
Mas a beleza do lance ainda não havia terminado. O bandeirinha marcara o
lateral a favor do Fluminense. Altair foi repor a bola em jogo e ficou
na dúvida. Aquela bola, moralmente, não era do Fluminense. Então fingiu
cobrar errado o lateral e fez a bola quicar de volta para fora,
devolvendo-a ao Botafogo. Todos entenderam o que ele quis dizer.
Tal partida não merecia produzir um perdedor. Talvez por isso tenha
terminado em 2X2.
Embora tivesse parado um jogo para que o adversário fosse socorrido,
Garrincha não permitia que isso acontecesse quando ele próprio precisava
de atendimento. Não há memória de, alguma vez, Garrincha deixar-se ficar
caído em campo à espera da maca. Por mais forte que o tivessem atingido,
levantava-se e, mesmo que numa perna só, como um saci, saía sozinho pela
linha lateral para esperar o médico ou o massagista.
Todas essas atitudes em campo faziam plena justiça à imagem que os
poetas e cronistas haviam criado para ele: a do passarinho, a alma
ingénua e alada do futebol. Mas, em maio de 1959, um ano antes do lance
com Pinheiro e Altair, Garrincha perdera a chance de prestar socorro a
uma pessoa muito mais próxima do seu coração.
E que ele próprio atropelara com um carro: seu pai.

Capítulo 11

A lenda de Amaro chega ao fim

1959-1961

A MÁQUINA DE FAZER SEXO

O carro preto entrou aos solavancos em Pau Grande. Não estaria a mais de
vinte por hora. De repente o motorista pareceu ter acelerado sem querer.
O carro entrou em ziguezague na praça Montese no momento em que, por uma
dessas absurdas coincidências,
Amaro ia atravessando a rua.
Como guarda da fábrica, aquela era a função de Amaro: andar a pé pelas
ruas de Pau Grande, garantindo a tranqüilidade da população. O máximo de
cuidado que precisava tomar era com as bicicletas. Pau Grande era quase
virgem de carros - quando um deles passava por ali as pessoas chegavam à
janela para espiar. Mas o destino decretara que, quando um carro
desgovernado atingisse alguém nos territórios de Amaro, a vítima fosse
ele.
E o motorista, seu filho.
Garrincha não estava brincando quando dissera a Nílton Santos na volta
da Suécia que sabia dirigir. Em sua cabeça, podia jurar que sabia. Ou,
pelo menos, que estava aprendendo. Quando se convenceu de que o carro
prometido aos campeões do mundo não ia sair, chegara a pedir um ao
Botafogo, que desconversou e não deu. Mas tinha amigos com carro em Raiz
da Serra e eles estavam sempre dispostos a dar-lhe aulas de direção.
Alguns, temerariamente, já lhe haviam emprestado o carro e o deixado
sozinho ao volante - como desta vez - depois de passar-lhe as instruções
básicas. É verdade que nem Garrincha nem seus amigos podiam ser acusados
de sóbrios nessas ocasiões. Mas, numa região com grandes descampados e
nenhum trânsito como Pau Grande, não parecia haver perigo. Exceto para
os pedestres.
Amaro atravessou na frente do carro. Um motorista experimentado teria
reduzido, pisado no freio ou se desviado. Mas o carro preto prosseguiu
na sua direção, como se tivesse um fantasma ao volante e o atropelamento
fosse inevitável. Amaro fez que ia recuar, não recuou.
Quem assiste a um atropelamento pensa estar vendo uma seqüência em
câmara lenta. Sabe o que vai acontecer antes que aconteça. Para os que a
presenciaram dos bancos da praça Montese, aquela também foi assim. Só
que, de repente, a cena tomou uma velocidade de filme normal, rápido.
O carro acertou o flanco de Amaro, atirou-o para o lado e continuou
avançando. Era de dia e havia outras pessoas no caminho. Elas se
desviaram, o carro passou por elas e parou de supetão mais à frente.
Para espanto de todos, o motorista - Garrincha - abriu a porta e saiu
correndo para longe do quadro, deixando Amaro no chão.
Um grupo foi socorrer Amaro caído. Outro grupo correu em direção a
Garrincha e o cercou. Entre estes estava seu amigo Nelson "Coreto".
Nelson estava indignado:
"Você está louco? Não vai socorrer seu pai?"
Garrincha não parecia saber o que havia feito ou o que estava
acontecendo - estava embriagado. Alguém fez menção de agredi-lo. Vários
o insultaram. Nelson "Coreto" e outros o protegeram e o conduziram até
onde estava seu pai.
O grupo que socorria Amaro espumava de revolta. Garrincha ainda parecia
aéreo, quase catatônico. Teria sido linchado se Amaro, lúcido, não
tivesse comandado:
"Não vão bater nele, foi minha culpa!"
Nem todos se conformavam. Gritavam que ele tentara fugir do flagrante.
Garrincha era jogado de um para outro como um joão-bobo. Amaro encerrou
o assunto:
"A culpa foi minha. Vamos pra casa."
Amaro foi caminhando, amparado. Garrincha também teve de ser amparado.
Amaro não sofrera nada de grave, embora, no inverno do ano seguinte - o
último de sua vida -, se queixasse de uma dor nas costelas. Aos poucos,
a ira contra Garrincha começaria a dissipar-se. Fora um acidente, uma
fatalidade, mais nada. O fato seria abafado e, semanas depois, estaria
esquecido até por alguns que o haviam presenciado. Na Pau Grande de
1959, Garrincha não fazia nada que alguém pudesse considerar errado.
Podia fazer tudo porque era Garrincha. Nunca uma comunidade mimara tanto
um filho ou afagara-lhe a cabeça com tanta devoção. Mesmo a sua ligação
com Angelita Martinez seria promovida à categoria dos mitos e lendas.
Pouco antes, ele levara Angelita a Pau Grande uma segunda e última vez.
Ela repetira a performance de maio na praça e, desta vez, ninguém se
alterara. Nair, caminhando com dificuldade e carregando a barriga de uma
nova gravidez, servira-lhe batida de coco e até saíra para lhe comprar
cigarros. Pouco depois, já com Angelita fora do seu sistema, Garrincha
começou um caso com uma mulher casada, esposa de um diretor da fábrica.
Pau Grande igualmente jogou um manto de silêncio sobre o assunto. E,
agora que tinha uma bicicleta (a Gulliver que ganhara pelo jogo contra a
URSS), Garrincha dava plantão na porta da América Fabril, chocando as
jovens operárias. Ninguém se abalava, nem considerava aquilo um
desrespeito à sua mulher.
No fim da tarde, as moças saíam da fábrica em suas bicicletas.
Garrincha, também de bicicleta, emparelhava com a que achasse mais
jeitosa e jogava seu repertório de encantos: muitos elogios à beleza do
broto e o convite a irem de bicicleta até a cachoeira. Era raro que uma
delas o mandasse pentear macacos. O mais comum era que simulasse
espanto:
"Mas você é casado!"
E ele:
"O que é que tem? Não é doença. Um dia, você também vai ser..."
Ela ria e dizia:
"Você é uma boa bisca, hein? Não vale um cisco!"
E topava ir à cachoeira.
Garrincha não se preocupava com a idade da moça. Mesmo que fosse menor,
o importante era se ela lhe agradava. Numa época em que os pais matavam
ou mandavam matar quem lhes/z'zesse mal às filhas, Garrincha talvez
contasse com uma certa impunidade por ser quem era. Podia ser também que
não se prevalecesse disso conscientemente - talvez fosse apenas um traço
longínquo de seus trisavôs indígenas. Amaro, quando jovem, não tinha
sido muito diferente - e não era Garrincha.
Nem todas caíam no seu xaveco. Naquele ano, Garrincha enrabichou-se com
Madalena, uma linda escurinha de quinze anos. Cercava-a na porta da
fábrica, seguia-a na bicicleta e a convidava à cachoeira. Madalena nunca
aceitou, mas, como as outras, foi ao sétimo céu por ter atraído sua
atenção:
"Sabe quem está me dando a maior pelota?", ela dizia às amigas. "O
Garrincha!"
Madalena dançou com ele num baile da fábrica (ao som de "Mané
Garrincha", que continuou tocando em Pau Grande pelo resto do ano) e
deixou que lhe roubasse alguns beijos debaixo do caramanchão. Mas
sobreviveu ao seu charme e não foi além disso. Garrincha não desistiu:
na volta da excursão do Botafogo à Europa, trouxe-lhe de presente um
rádio. Ela disse que não podia aceitar - e não aceitou. Ele então se
conformou. Dias depois, Madalena foi de trem para Petrópolis e Garrincha
seguiu-a de bicicleta por centenas de metros, pedalando paralelo ao
trilho, tocando a campainha e acenando-lhe como em despedida. Foi a
última vez que o viu.
Alheia à alucinante libido do marido, Nair continuou fazendo a única
coisa que sabia: filhas. Em agosto, teve Denísia, a quinta menina dos
dois. E, no Rio, Garrincha era surpreendido por outra gravidez: a de
Iraci.
Nos estertores de seu romance com Angelita Martinez, ele voltara a ver
Iraci, embora sem o élan do passado. Não se opôs à sua gravidez, nem lhe
pediu que abortasse. Mas já não era o namorado dedicado dos velhos
tempos. Atrasava-se no dinheiro das contas e do aluguel, ficava duas
semanas sem aparecer e raramente telefonava. Quando dormia no
apartamento, às vezes enrolava uma desculpa para não ter relações com
ela:
"Sabe, amor, eu acho que preciso me cuidar. Estou me excedendo. Deve ser
bagunça."
Iraci suspeitava que, nessas ocasiões, Garrincha estivesse se tratando
de alguma doença venérea. Ele negava, mas Iraci não via outra
explicação. Garrincha era uma máquina de fazer sexo, nada ou ninguém o
impedia - pois se fazia até com Nair quando ia a Pau Grande.
Todas as tardes havia um mínimo de três ou quatro mulheres na porta do
Botafogo, esperando-o ao fim do treino. Habituara-se tanto àquela
fartura de ofertas que, numa noite, quase ia cometendo um engano mortal.
Garrincha, Tomé e outros jogadores saíram do clube com Saldanha, para ir
a pé a uma churrascaria no Leme. Defronte à igreja de Santa Teresinha,
na entrada do túnel Novo, ele brincou com uma jovem parada na calçada. A
garota riu - mas o pai dela, parado ali perto, ouviu a brincadeira, não
gostou e puxou um revólver. Mais um pouco e lhe teria dado um tiro no
peito. Saldanha e Tomé, com muito jeito, desarmaram o homem. Na
confusão, o nome de Garrincha foi pronunciado. O pai ofendido só então
viu de quem se tratava. Desmanchou-se em desculpas.
Algumas figuras graduadas do Botafogo emprestavam seus apartamentos "de
combate" - garçonnières - para certos jogadores. Garrincha era um dos
que se beneficiavam. Um desses apartamentos ficava na avenida Nossa
Senhora de Copacabana com a rua Fernando Mendes. O titular do
apartamento, um dirigente do clube, não via nada de mau em que ele se
exercitasse um pouco, já que vivia faltando à ginástica. Até o dia em
que, ao entrar no abatedouro, logo depois de Garrincha ter saído,
descobriu duas garrafas de batida de amendoim - uma vazia, outra pela
metade -, consumidas em poucas horas. E era semana de um jogo importante
do Botafogo. O dirigente cassou a licença de Garrincha para usar o
apartamento.
Com toda essa atividade extracurricular, não admira que Garrincha
estivesse com pouco tempo para Iraci. Certa noite, no fim daquele ano,
ela bateu à porta de Paulo Amaral, seu vizinho na rua Gomes Carneiro:
"Seu Paulo, eu sou Iraci, a segunda mulher do Garrincha." O preparador
físico do Botafogo olhou para aquela mulata jovem, bonita e
absolutamente grávida. Logo entendeu tudo. Antes que algum vizinho
ouvisse vozes e esticasse o pescoço pelo corredor, Paulo Amaral suspirou
e disse:
"Ah, esse Mané! Entre logo!"
Iraci contou-lhe que Garrincha a trouxera de Pau Grande havia anos para
morar no Rio e que estava grávida dele. Mas que ultimamente ele andava
sumido e não mandava dinheiro. O aluguel vivia atrasado, a luz fora
cortada e ela estava com fome e às vésperas de ter neném. Paulo Amaral
telefonou para o médico dos juvenis do clube, Lídio Toledo, que
conseguiu a internação de Iraci no hospital Miguel Couto, no Leblon. Ela
teria o melhor tratamento possível e nada lhe seria cobrado.
Iraci internou-se no dia seguinte. O parto ameaçou complicar-se e um
médico do hospital fez-lhe a cesariana. Garrincha era pai de mais uma
menina - Márcia.
Paulo Amaral certificou-se de que estava tudo bem com Iraci e a
aconselhou:
"Volte para Pau Grande, minha filha. As coisas vão ficar muito difíceis
pra você aqui."
Mas Iraci não seguiu o conselho. Nem mesmo quando, dias depois, já em
casa, recebeu a visita de um "amigo de Garrincha". Convidou-o a entrar,
serviu-lhe cafezinho e mostrou-lhe a pequena Márcia. Ele se deu por
satisfeito, despediu-se e foi embora. Quando Garrincha ficou sabendo da
visita, não reconheceu o nome do homem que se apresentara como seu
amigo. Mas identificou-o pela descrição de Iraci: era de Pau Grande,
amigo dos irmãos de Nair - um espião. Insinuara-se no apartamento,
certamente a mando de sua mulher, para verificar se Garrincha, não
contente em manter Iraci no Rio, tivera mesmo uma filha com ela, como se
sussurrava em Pau Grande. O episódio o irritou. Ele foi ao cartório e
registrou Márcia como sua filha.
Em 1959, enquanto Garrincha fazia filhos, Pelé fazia gols. Naquele ano
Pelé disputaria o absurdo de 103 partidas pelo Santos, seleção paulista,
seleção brasileira, Sexta Guarda Costeira, seleção do Exército e seleção
das Forças Armadas - porque finalmente completara dezoito anos e tivera
de fazer o serviço militar. Em Santos, onde servia, tornara- se o
recruta 209 e os sargentos não o poupavam por ser Pelé.
As diferenças entre Pelé e Garrincha começavam a acentuar-se. Pelé tinha
um procurador, o espanhol Pepe Gordo, que administrava os seus
rendimentos. Pepe Gordo era esperto - esperto até demais. No começo do
ano, exigira que o Santos refizesse o contrato de Pelé. Pelos novos
termos, Pelé passara a ganhar 120 mil cruzeiros (cerca de 500 dólares)
por mês. No ano seguinte voltariam a conversar. Na mesma época, o
Botafogo chamara Garrincha para assinar mais um contrato.
Quando lhe puseram na mão a caneta e o papel timbrado, sem os valores,
Garrincha perguntara pela primeira vez:
"Não seria melhor eu assinar depois de vocês escreverem quanto eu vou
ganhar?"
O dirigente se defeildeu:
"Isso é só uma formalidade, Mané. É para dar tempo de registrar na
federação. Pode assinar sem susto. Até o Nílton Santos assina em
branco."
Era verdade: Nílton Santos também assinava contratos em branco. Mas não
sabia que usavam o seu nome como argumento. A idéia era a de que se
Nílton, que era amigo de Sandro Moreyra, assinava em branco, era porque
não havia problema em fazer isso.
Quando Garrincha foi saber de seu novo salário, Paulo Azeredo mandara
escrever: 75 mil cruzeiros (300 dólares) por mês.
Pelos três anos seguintes.
Em suas idas a Pau Grande, Garrincha provocava Pincel ou Swing:
"Domingo vou arrasar com o teu time."
Pincel era Vasco, Swing era Flamengo. Mas se um dos dois aceitasse a
provocação, Garrincha mudava logo de assunto. De todos os temas de sua
pauta, o futebol era, longe, o menos importante.
Garrincha podia varar noites no Dódi contando histórias das excursões, e
nenhuma delas se passava no gramado. Na última viagem à Europa,
Quarentinha comprara duas malas cheias de presentes: uma para sua
mulher, outra para uma namorada. Despachara as duas malas para o Rio,
mas, sem querer, trocara as etiquetas. Dera o maior bode com a mulher e
com a namorada. Pincel e Swing se esparramavam de rir. Na Bélgica, o seu
Saldanha estava brabo porque os garçons do hotel serviam os outros
hóspedes e deixavam os jogadores com fome. Fora se queixar ao maítre e o
maítre também o esnobara. Seu Saldanha dera um bico no carrinho das
bebidas e voara garrafa para todo lado. Pincel e Swing riam tanto que
tinham de ir lá dentro.
Garrincha arrasou periodicamente o Vasco e o Flamengo aquele ano, mas o
campeão carioca de 1959 foi o Fluminense, quebrando um jejum de oito
anos. O Botafogo ficou em segundo lugar, e apenas por ter perdido dois
de seus principais jogadores antes do campeonato: Paulo Valentim,
vendido ao Boca Juniors, da Argentina - e Didi, ao Real Madrid, da
Espanha.
A novela envolvendo Didi e os clubes espanhóis já se arrastava desde a
Copa da Suécia. O sonho de Didi era jogar na Europa, para que suas
filhas, Rebecca e a recém-nascida Lia Hebe, pudessem estudar na Suíça.
Havia anos que ele próprio vinha estudando francês e espanhol em
linguafones: queria estar apto a discutir contratos sem precisar de
intérpretes. Em 1959, finalmente o Real Madrid aparecera com uma oferta,
não apenas por Didi, de 80 mil dólares - mas também por Garrincha, de
250 mil dólares. O Botafogo concordara com a venda de Didi. Mas nem
quisera ouvir a proposta por Garrincha.
O Real Madrid era o clube mais rico do mundo. Se seu presidente, o
milionário Santiago Bernabeu, cobiçasse um jogador, não haveria preço
que o assustasse - a não ser que o outro clube nem quisesse conversa,
como o Botafogo com Garrincha. O Real era uma legião estrangeira, cheia
de argentinos, húngaros, franceses e até brasileiros, e ganhava tudo que
disputava. Garrincha também achava o Real Madrid o maior colosso que já
vira. E, agora, com seu novo ataque - Canário (ex- América), Didi, Di
Stéfano, Puskas e Gento -, ninguém conseguiria segurá-lo. Garrincha
ficara contente por Didi, mas não se via nesse ataque: estava satisfeito
no Brasil. Além disso, havia por aqui um outro Real Madrid que ele
achava muito mais importante derrotar: o de Pau Grande.
O time de pelada de Garrincha em Pau Grande era o Vai Que É Mole,
formado por Arlindo "Fumaça", Pincel, Malvino e uma plêiade de seus
contemporâneos, todos operários ou ex-operários da América Fabril.
Apesar de quase invencível, começara a ser desafiado por outro time
local, formado pelos filhos dos mestres, contramestres e subgerentes - o
qual, para deixar bem claro que se tratava do time dos ricos da cidade,
chamava-se Real Madrid.
O Vai Que É Mole e o Real Madrid enfrentavam-se várias vezes por ano em
jogos amistosos, mas o confronto oficial, na disputa de um leitão e de
vários engradados de cerveja e cachaça, era o do fim do ano, na altura
do Natal.
Laerte Leocornyl, filho de seu Boboco e principal animador do Real
Madrid, anunciava:
"Quem perder é bico seco!"
Queria dizer com isso que o perdedor ficava condenado a espiar o outro
time beber, sem tomar uma gota. Precavendo-se contra essa remota mas
trágica possibilidade, o Vai Que É Mole enchia o tanque antes da
partida, o que facilitava a atuação do Real Madrid. Mas, ao contrário do
seu homônimo espanhol, o Real Madrid de Pau Grande raramente conseguia
mais que um empate. A cidade inteira comparecia ao campinho, havia
torcidas organizadas e faziam-se apostas paralelas. Era uma festa tão
concorrida quanto a de são Jorge, o padroeiro da cidade, e, à sua
maneira profana, quase tão sagrada. Vinha gente de fora para assistir ao
jogo e um deles mereceu até uma reportagem do Jornal dos Sports.
Aos olhos do resto do mundo, ali estava Garrincha em seu habitat - o
único lugar onde ele era "feliz".
Em janeiro de 1960, um funcionário da embaixada sueca no Rio foi
procurar Garrincha confidencialmente no Botafogo. Levava um documento
para que ele o assinasse: uma declaração abrindo mão da paternidade de
seu filho Ulf, nascido aquele mês na cidade de Halmstad.
Para não deixar dúvidas, o documento vinha em sueco, inglês e português.
Por ele, ficava estabelecido que Garrincha não teria responsabilidades
sobre a criança - o Estado sueco encarregar- se-ia de sustentá-la e
educá-la. Isso implicava que, no futuro, Garrincha também não teria
direito a nada de seu filho. Parecia um acerto justo. Mas Garrincha
estava com o Botafogo pelo México e pela América Central. Teriam de
esperar pela sua volta.
Garrincha adorava o México por causa dos filmes de Cantinflas. Havia
muito nele do comediante mexicano, e não apenas no tipo físico meio
rústico e nas calças a meio-pau. Cantinflas era safo, virador e só
aparentemente ingênuo, como ele. Garrincha não era Chaplin - era
Cantinflas e Harpo Marx, com toques de Mazzaroppi.
O México também se apaixonara por Garrincha desde que o vira jogar pela
primeira vez, em 1957. Os jornais o chamavam de "El moreno" e o acusavam
de provocar "dólares de cabeza" nos zagueiros locais por causa de suas
"chuecas" (pernas tortas). As "chuecas" de Garrincha fascinavam
igualmente as mulheres - inclusive as dos dirigentes esportivos
mexicanos, que viviam homenageando o Botafogo. Mais de uma delas
convidou-o à sua casa, na ausência do marido e com a cumplicidade do
mordomo.
Um programa obrigatório era a feijoada na casa da atriz e rumbeira Maria
Antonieta Pons, gentil anfitriã de todos os brasileiros de passagem pela
Cidade do México. A feijoada era produzida por seu secretário
brasileiro, Wilson Viana, que depois voltaria para o Brasil e ficaria
famoso como o Capitão Asa da TV. Mas Maria Antonieta Pons, com seus
decotes de babados e os ombros de fora, era melhor que qualquer
feijoada. Sua amiga, a também rumbeira Ninon Sevilla, era outra atração
das reuniões. Os companheiros de Garrincha suspeitam que, na feijoada de
1960, ele teve a felicidade de degustar as duas - pelo menos, houve
momentos em que sumiu com uma e depois com a outra, enquanto os
mariachis tocavam "Solamente una vez" e "Quizás, quizás, quizás".
Garrincha mal teve tempo de esquentar o assento no Brasil no primeiro
semestre daquele ano. Voltou da excursão com o Botafogo em março,
assinou o documento da embaixada sueca (recebendo com grande indiferença
a notícia de que era pai de um menino) e passou os meses de abril e maio
no Oriente Médio e na Europa com a seleção brasileira. Na volta foi com
o Botafogo para o Peru e, em junho e julho, perambulou com o clube pelo
Nordeste, São Paulo e Minas Gerais. Só conseguiu sentar praça no Rio em
agosto, quando começou o campeonato carioca. E foi bom que estivesse por
aqui porque, aquele mês, Nair deu à luz a sexta filha de ambos, Maria
Cecília.
Enquanto as filhas eram quatro ou cinco, a imprensa não via naquilo uma
notícia. Mas, a partir do nascimento de Maria Cecília, o público voltou
os olhos para o pequeno drama de Garrincha, alimentado pelos jornais:
louco por um garoto e, por artes do acaso, contemplado com uma filha
atrás da outra - ninguém sabia de seu filho sueco.
O Cruzeiro ia fotografá-lo em Pau Grande junto à escadinha de meninas.
Os fotógrafos providenciavam uma bola e pediam-lhe para "jogar" com as
mais velhas. Era uma simulação, mas dava um toque poético à coisa. Além
disso, Juraciara, a quarta da escadinha, também tinha as pernas tortas.
E nem tudo precisava ser simulado: Garrincha era realmente amoroso com
as filhas - nos raros minutos que lhes dedicava, mesmo quando esticava
dias seguidos em Pau Grande.
Enquanto nascia a sexta filha de Garrincha, seu pai começava a morrer.
Na época do acidente, um ano antes, Amaro já estava longe de seu apogeu.
Desinteressara-se até dos cavalos. O último que tivera lhe fora dado por
Garrincha depois da Copa: um manga-larga branco que se chamou Sereno.
Poucos meses depois, contrariando as tradições pau- grandenses, Sereno
foi roubado, certamente por alguém de fora que julgava estar roubando "o
cavalo de Garrincha". O animal sumiu e não se encontraram rastros de
seus cascos. Amaro não quis um substituto.
Garrincha ainda fizera outros carinhos a Amaro, bem ao estilo de ambos:
trouxera-o ao Rio e o levara a uma casa de mulheres na praça do Lido, em
Copacabana. Para deixá-lo mais à vontade, apenas entregou-o aos cuidados
de uma delas, violentamente empoada de rouge, e ficou de recolhê-lo dali
a algumas horas. Amaro deve ter-se deixado inebriar pela presença das
moças ou pelos conhaques que lhe serviram, porque não deu no couro. Isso
não contribuiu nem um pouco para o seu moral.
Amaro tinha câncer no fígado. O médico de Pau Grande, dr. Pedro
Siqueira, diagnosticara a doença, proibira-o de beber e lhe receitara
uma bateria de remédios. Mas Amaro "desconfiava" de remédios que não
fossem à base de álcool - o que, na verdade, era apenas um pretexto para
beber mais. E já não podia ficar sem beber: sua dependência alcoólica
estava instalada havia anos. Se não bebesse ao acordar, a tremedeira nas
mãos não lhe permitiria segurar uma simples xícara. Em agosto, Amaro foi
para a cama. Emagreceu muito, sua barriga cresceu, seu fígado tornou-se
palpável, a pele ficou amarelo-canário. A agonia durou dois meses.
Finalmente morreu no dia 10 de outubro, uma segunda-feira.
No sábado seguinte, o Botafogo jogaria no estádio da Gávea contra o
Bangu, pelo campeonato carioca. Garrincha foi dispensado de treinar e
ficou em Pau Grande para cuidar do enterro. Convidou os dirigentes do
clube e estes garantiram que compareceriam. Amaro foi colocado num
caixão modesto, quase um pijama de madeira, e velado em cima da mesa da
sala de Garrincha. Durante a noite e todo o dia seguinte, Pau Grande
despediu-se dele. Recordaram sua alegria, sua generosidade e seu
folclore. Os dirigentes da fábrica compareceram em comitiva. Do
Botafogo, ninguém.
No meio da tarde, chegaram Nílton Santos, Renato Estelita, o roupeiro
Aluísio "Birruma", Sandro Moreyra e mais um ou dois jornalistas - todos
na condição de amigos pessoais de Garrincha, nenhum deles representando
o clube. Os políticos também estavam demorando a aparecer. Garrincha
esperava que Juscelino mandasse um representante e não queria autorixar
a saída do enterro sem ele. O dia começou a escurecer sobre a serra dos
Órgãos e ficou evidente que ninguém mais viria. Às 17h30 vieram avisá-lo
de que deveriam sair logo, porque o cemitério ia fechar. Só então
Garrincha admitiu:
"É... Parece que os homens não puderam vir mesmo." Mandou fechar o
caixão. A América Fabril costumava fornecer dois pequenos
caminhões-caçamba Dodge para os enterros: um, preto, para o transporte
do caixão; outro, vermelho, para a família; e um ônibus para levar os
acompanhantes ao cemitério de Raiz da Serra. Quatro homens enfiaram o
caixão com o pai de Garrincha na caçamba do caminhão preto, ainda com
restos da areia que transportara para algum aterro. Nílton Santos
perguntou: Mas é nesse caminhão que o teu pai vai para o cemitério,
Mané?"
Garrincha parecia tranqüilo:
"É o costume aqui, Nílton. Não liga não."
No sábado, Garrincha entrou em campo contra o Bangu e mal tocou na bola.
Antes do jogo, os times fizeram um minuto de silêncio por seu pai.
Naturalmente vaiado, como todos os minutos de silêncio.
Em janeiro de 1960, João Saldanha já não era o treinador do Botafogo.
Fora contra a venda de Didi e Paulo Valentim, o Botafogo os vendera
assim mesmo e Saldanha usara aquilo como pretexto para pedir demissão no
fim do campeonato de 1959. De qualquer jeito, não duraria muito. Criara
tantos atritos com jogadores e cartolas que estes o estavam olhando
torto. E então tomara uma atitude surpreendente: em vez de
estabelecer-se como treinador profissional e ir para outro clube, fizera
o que talvez fosse a sua vocação original - tornara- se comentarista
esportivo.
Na rádio Guanabara, com Doalcei Camargo como locutor, Saldanha
revolucionou o comentário sobre futebol. Raspou o ouro parnasiano, de
porta da Colombo, que caracterizava o gênero, e impregnou-o com um clima
de porta de botequim. Falava ao microfone como se estivesse debruçado ao
balcão da Miguel Lemos. Todos os comentaristas tinham seus bordões e o
mais famoso era o de Benjamin Wright, "O futebol é uma caixinha de
surpresas". Saldanha substituiu-os pelas deliciosas chulices que
aprendera com os jogadores, como "zona do agrião", "ir pró vinagre",
"estar no bagaço" e muitas outras. E, com sua experiência de três anos
na boca do túnel, parecia ter uma autoridade natural para falar de
futebol. Entronizado numa cabine de rádio, podia agora criticar à
vontade o trabalho de seus excolegas. Por exemplo: o de seu sucessor no
Botafogo, Paulo Amaral.
O Botafogo não foi bem no campeonato carioca de 1960, conquistado
surpreendentemente pelo América. Terminou em terceiro lugar, apesar de
contar de novo com Didi, que ficara apenas um ano na Espanha. Didi
chegara ao Real Madrid para ser o cérebro, a espinha, o dono do time.
Mas o Real já tinha um dono: Di Stéfano, "La saeta rubia", a flecha
ruiva. Seus bigodes nunca se cruzaram. Para Didi, Di Stéfano o sabotava.
Para Di Stéfano, Didi era lento, não gostava de treinar. Guiomar abria
os jornais espanhóis, via as fotos de Di Stéfano, não via as de Didi e
atribuía tudo aquilo a uma campanha contra seu marido. O clima ficou
intolerável. Didi pediu para voltar e o Botafogo o recebeu de braços
abertos.
Mas, tanto Didi como Garrincha teriam de esperar até 1961 para voltarem
a render o máximo. E, quando isso começou a acontecer, o Botafogo
viveria os dois maiores anos de sua história.
Em janeiro de 1961, o Botafogo partiu para uma excursão pelas Américas,
subindo pela costa do Atlântico, chegando à América Central e descendo
pelo Pacífico. Pela primeira vez o chefe da delegação era um jornalista:
Sandro Moreyra. Quando embarcaram no Galeão, ele foi logo avisando:
"Não vai haver concentração entre os jogos. Está todo mundo liberado
desde que o Botafogo volte invicto. Na primeira derrota, o time volta
para o hotel e só sai dele para jogar."
Era o chefe que qualquer delegação pedira a Deus. E, talvez ciosos da
liberdade que lhes fora dada de graça, os jogadores se desdobraram em
campo. Em 45 dias, o Botafogo jogou doze partidas no Peru, Colômbia,
Equador, Costa Rica e Chile, empatou a primeira e ganhou as outras onze,
quase todas de goleada. Seu único risco foi justamente na última
partida, contra o Colo-Colo, campeão chileno. E apenas porque, por uma
trapalhada do empresário, o time ficou seis dias parado em Santiago,
apenas dormindo e treinando. Em termos - porque não lhe faltaram
programas para se manter em forma.
O cantor Lucho Gatica, grande sensação da época com seus boleros "La
barca" e "El reloj", convidava os jogadores à sua casa, já devidamente
equipada com amigas. Em troca, pedia para treinar com o time no estádio
Nacional. Gatica julgava-se ponta-direita e Nílton Santos, tendo de
marcá-lo, ficava constrangido: Gatica recebia-os tão bem em sua casa que
Nílton sentia-se na obrigação de deixá-lo ganhar algumas jogadas. Gatica
também levou o time aos melhores bordéis de Santiago. Num deles, o
repertório feminino era tão impressionante que Garrincha, já descendo de
volta ao saguão com uma fenomenal morena, cruzou na escada com uma loura
não menos. Nem hesitou. Fez meia-volta, deu o braço à loura e subiu de
novo.
Com tudo isso, quem caiu de cama no dia do jogo contra o Colo-Colo foi
Paulo Amaral, que não pôde ir ao estádio dirigir o time. Como chefe da
delegação, Sandro designou a si mesmo para a função - uma fantasia comum
à maioria dos jornalistas esportivos. O Colo-Colo não se assustou com a
sua presença no túnel. Fez 1X0 no primeiro tempo e não parecia disposto
a deixar o Botafogo empatar. Mas Sandro não sobreviveria a uma derrota
exatamente no jogo em que ele era o treinador. O time estava apático, de
ressaca pelas noites chilenas de vinho, mulheres e música. Com sua
experiência em ressacas, Sandro mandou Aluísio "Birruma" comprar
conhaque no bar do estádio e enconhacou os jogadores no intervalo.
Tomado o incentivo, o Botafogo voltou para o segundo tempo, virou o
placar para 3X1 e garantiu a invencibilidade. Ficava mais ou menos
provado que sexo, birita e boleros não faziam mal ao futebol. Na volta
ao Rio, os jogadores deram a Sandro uma placa de prata.
Dois meses depois embarcaram de novo, agora para a Europa. No dia 1 de
junho, enquanto Garrincha enfrentava o Standard de Liège, na Bélgica,
 Iraci deu-lhe aquilo que, a se acreditar nas declarações que lhe
atribuíam, era o que ele mais queria: um filho.
Desta vez, Iraci não pôde recorrer a Paulo Amaral ou a Lídio Toledo,
ambos também viajando com o Botafogo. Foi direto ao Miguel Couto e
procurou o mesmo médico que a atendera no parto de Márcia, dois anos
antes. Informaram-lhe que ele agora trabalhava na Santa Casa. Indómita,
Iraci rumou para lá. Ele a atendeu, fez-lhe nova cesariana e nasceu um
garoto que só podia ganhar o nome de - lógico - Manuel.
Quando Garrincha voltou da excursão, quase um mês depois, não reagiu
como o pai extremado que as antigas reportagens juravam que ele seria.
Nunca chamou seu filho secreto pelo nome. Só se referia a ele como "o
neném" - a ponto de Iraci também começar a chamá-lo de Neném. Não falou
a ela de seus planos para o garoto e nem se tinha planos. Não fantasiou
sobre o dia em que lhe daria uma bola para ver se levava jeito com
aquelas pernas tortas - porque Neném também tinha as pernas tortas. E
não queria que ninguém soubesse dele, principalmente os jornalistas.
Mas, em Pau Grande, Nair descobriu sobre Neném e quase foi ao desespero.
Enquanto Garrincha só tivesse filhas fora de casa, ela não se importava
tanto - não sabia do filho na Suécia. Mas, quando a outra deu-lhe o
menino que ela não conseguia produzir, Nair proibiu-o de ver a criança e
de reconhecê-la no cartório.
Garrincha, de fato, não registrou seu filho e quase desapareceu da rua
Gomes Carneiro. Não porque Nair o tivesse proibido - e nem ela teria
como impedi-lo -, mas porque se desinteressara por Iraci. Ela se tornara
uma nova Nair.
Alegou, sem convencer, que o campeonato carioca ia começar e que ele
precisava estar em forma. Continuou a pagar-lhe as contas e o aluguel,
mas a própria Iraci sentiu que seu romance com Garrincha já estava, como
diziam os locutores esportivos, no apagar das luzes.
Além disso, o campeonato carioca de 1961 ia mesmo começar e Paulo Amaral
armara um senhor ataque no Botafogo: Garrincha, Didi, Amoroso, Amarildo
e Zagalo.
Com ele, a torcida botafoguense ingressou numa longa temporada no
nirvana. Os adversários iam sendo derrubados um a um. Já no fim do
primeiro turno, quando o Botafogo livrou uma diferença de seis pontos
sobre a concorrência, a torcida passou a estender faixas no Maracanã com
a frase "Nunca foi tão fácil ser campeão" - e ainda havia meio
campeonato pela frente. Cada jogo era uma festa. Botafoguenses há muito
incógnitos ou dados como mortos saíram de suas tocas. As arquibancadas
do Maracanã tornaram-se um ponto de encontro. General Severiano passou a
ser freqüentado como se fosse o Country Club. E, domingo após domingo, a
torcida saboreou a proximidade do título.
O Botafogo atravessou invicto 22 jogos e, por uma dessas coisas que só
aconteciam com ele, foi ser campeão na única partida em que perdeu: para
o América, por 2x1, na antepenúltima rodada. Perdeu, mas levou - porque,
enquanto o Botafogo era derrotado no Maracanã, seu mais direto
perseguidor, o Vasco, também ia perdendo espantosamente para o Olaria em
São Januário, e pelo mesmo placar. Se se confirmasse a derrota do Vasco,
o Botafogo sairia de faixa dali mesmo. O jogo do Botafogo terminou, mas
sua torcida, grudada aos radinhos de pilha, não arredou pé do Maracanã -
porque a bola continuava rolando em São Januário. Quando os locutores
anunciaram o fim do jogo com a derrota do Vasco, o Maracanã explodiu. O
Botafogo era campeão com duas rodadas de antecedência - nas quais ainda
derrotaria o Flamengo e o próprio Vasco, para salgar a terra já
arrasada.
Aquele campeonato marcaria o início da epopeia do Botafogo como o time
da moda, que dominaria o Rio pelos anos seguintes e condenaria os seus
adversários a um amargo inferno astral. E com um estilo que lhe seria
bem característico: misturando futebol, literatura e café-society.
Artistas, intelectuais, grã-finos e políticos, todo mundo de repente era
Botafogo.
O Botafogo não cabia mais no Maracanã. Começou a espalhar-se pelos
campinhos de pelada dos elegantes do Rio. Nasceu o futebol-society,
inventado em Corrêas no sítio do empresário José Luiz Ferraz, dono da
construtora Santa Isabel e diretor dos juvenis do Botafogo. Era um
futebol de gente bem, com oito de cada lado, uísque nos intervalos e
feijoada de sobremesa. Os jogos atraíam enxames de colunáveis e eram o
grande assunto dos saraus.
Seus habitues eram ricos, famosos ou elegantes, alguns as três coisas.
Nem todos eram botafoguenses, mas o espírito do futebol-society era
indubitavelmente alvinegro. Entre esses habitues, trajados de calções e
chuteiras, contavam-se os empresários Tony Mayrink Veiga, Álvaro Catão,
Álvaro Piano e Luís Fernando Secco, os médicos Brum Negreiros e Altamiro
da Rocha Oliveira, o deputado Raphael de Almeida Magalhães, o tabelião
Márcio Braga, o advogado Evaristo de Moraes Filho, o poeta Paulo Mendes
Campos, o fotógrafo Luiz Carlos Barreto, os jornalistas Maneco Miiller,
Armando Nogueira e Sérgio Porto. Todos relativamente jovens e - julgavam
eles - ainda jogando o fino.
A essa turma misturavam-se nada menos que os profissionais do Botafogo:
Nílton Santos, Didi, Garrincha, além de juvenis como Jairzinho e Roberto
e ex-craques como Paraguaio e Otávio. Quando comparecia, Garrincha
levava Pincel e Swing. Os grã-finos jogavam à vera, como se disputassem
decisões de campeonato. E, como não eram tão bons quanto pensavam,
podiam tornar-se violentíssimos sem querer. As partidas eram perigosas.
Numa delas, o goleiro Maneco Müller levou uma cama-de-gato de um de seus
pares, caiu de mau jeito e teve rompimento do fígado. Não morreu porque
havia médicos entre as quatro linhas e eles o removeram logo para um
hospital.
Garrincha achava graça no futebol-society, mas jogava assustado:
"A turma aqui bate do umbigo para cima!"
Ele próprio acertara uma bolada no estômago de um elegante. O elegante
caiu duro, sem sentidos, e Garrincha foi socorrê-lo desdobrando-se em
desculpas.
Garrincha às vezes sentia-se na obrigação de retribuir as amabilidades e
convidava a Pau Grande alguns colegas de pelada. Um deles foi Maneco
Müller, antes da cama-de-gato. Apresentou-o a seus conterrâneos com um
misto de deslumbramento e deboche - não com Maneco, mas com seu pessoal:
"Este é o Jacinto de Thormes!"
Seus amigos se admiraram. Se Garrincha lhes apresentava alguém sem
desfiar-lhe os títulos, era porque esse alguém devia ser tão famoso que
os dispensava. Não sabiam quem era o colunista social da Última Hora,
mas a figura de Maneco, alinhadíssimo e fumando cachimbo, indicava que
ele devia ser importante.
Garrincha convidou Paulo Mendes Campos a almoçar em sua casa e ordenou a
Nair:
"Mande fazer uma galinha com quiabo, que amanhã vou trazer um escritor
para almoçar."
Nair reagiu:
"Galinha com quiabo? Onde já se viu, servir isso a um escritor! Tem que
ser uma macarronada, no mínimo!"
Os convidados a Pau Grande voltavam ao Rio com relatos que reforçavam a
imagem da felicidade de Garrincha em seu bucólico universo. Ele era
puro, autêntico e outros adjetivos em voga. Sua casa era um casebre, mas
ele não a trocaria nem pelo Taj Mahal. Sim, ele tinha duas geladeiras na
sala - e daí? As paredes eram adornadas com flâmulas e retratos de
Emilinha recortados das capas de Radiolândia e emoldurados com vidro e
fita isolante - e daí? A porta rangia, mas ele não a mandava consertar
porque o rangido servia de campainha. A amizade de Pincel e Swing
significava-lhe mais que a admiração de Juscelino ou Jango. E o simples
fato de viver para cima e para baixo naquele trem fétido era uma prova
de que a fama não o corrompera. Podendo ter todos os luxos e confortos
de um campeão do mundo, preferia viver como um operário. Ou como um
camponês.
Mas, pensando bem, um carro não macularia a sua pureza - e lhe
permitiria levar uma vida menos cansativa.
Foi então que, de repente, apareceu a possibilidade de Garrincha ganhar
um.
Em novembro, o Jornal dos Sports e a Simcar, revendedora dos carros
Simca-Chambord, instituíram um concurso para eleger o jogador mais
popular do Rio de Janeiro. O concurso duraria sete semanas e a eleição
se daria pelo voto popular. As cédulas sairiam diariamente no Jornal dos
Sports e seriam colocadas em urnas espalhadas pela cidade.
Cada eleitor poderia votar quantas vezes quisesse, desde que
apresentasse as cédulas correspondentes - e, para cada cédula, tinha de
comprar um exemplar do jornal. Se um deles quisesse arrematar a pilha de
Jornal dos Sports no jornaleiro para concorrer com mais cédulas, ninguém
o impediria - ao contrário. Além de votar no seu jogador favorito, o
eleitor escreveria o seu próprio nome na cédula e concorreria a uma
passagem e estada pagas na próxima Copa do Mundo, no Chile, em maio de
1962. Uma vez por quinzena, uma equipe do Jornal dos Sports promoveria
apurações parciais, comandadas pelo jornalista Almir Leite, com a
presença de fiscais. A apuração final seria nos últimos dias do ano e o
jogador mais votado ganharia o cobiçado Simca-Chambord.
Os clubes prestigiaram o concurso e cada um indicou um jogador: o
Botafogo, Garrincha; o Vasco, Bellini; o Flamengo, Babá; o Fluminense,
Castilho; o América, o Bangu e os times pequenos também escolheram os
seus representantes. Os jogadores poderiam fazer campanha aparecendo em
colégios, hospitais, fábricas, lojas comerciais, estações de rádio e TV,
onde quisessem, acompanhados ou não de seus cabos eleitorais. E esses
poderiam ser artistas, políticos e outras celebridades. Fariam aparições
pessoais ao lado do craque, oferecendo fotos ou flâmulas do jogador ou
de si próprios em troca de votos: uma foto autografada custaria vinte
votos, uma flâmula, trinta. No caso de um cantor ou cantora que fizesse
um show por um craque, o ingresso poderia custar cinqüenta votos.
Foi dada a largada para o concurso e, nas primeiras apurações, a
surpresa: o jogador mais popular do Rio não era Babá, que, por ser do
Flamengo, parecia o favorito. O grande ponta rubro-negro (1,54 metro, de
chuteira com travas altas) aparecia em terceiro lugar. O mais popular
era Bellini - porque os comerciantes portugueses da rua do Acre estavam
comprando milhares de jornais para elegê-lo. Garrincha vinha em segundo,
mas longe do líder.
Era preciso providenciar um cabo eleitoral forte para Garrincha, a fim
de levantar sua votação. Alguém que estivesse nas paradas. De
preferência, uma cantora. O compositor Ronaldo Bôscoli sugeriu um nome
ao jornalista Edgard Cosme, amigo de Sandro Moreyra. A "Bossa negra".
Elza Soares.

Capítulo 12

De parar o trânsito

1962

ELZA

Garrincha tinha um jeito malicioso de olhar que desconcertava qualquer
mulher. Se admirasse seus contornos e relevos, não se envergonhava de
mirá-la de alto a baixo com um sorriso maroto e, curiosamente, cândido.
Seus olhos faiscavam, como se radiografassem a mulher através do
vestido. Não precisava dizer uma palavra ou cantar-lhe madrigais. Seu
olhar era uma promessa de prazer - para ambos. Se ela o encarasse de
volta, que bom: sabia que estava sendo correspondido. Se a mulher
baixasse os olhos, ele fingiria interessar- se pelo teto ou pelas nuvens
- e, depois, tentaria de novo.
Foi esse olhar que ele endereçou a Elza Soares quando a viu pela
primeira vez, em novembro de 1961, ao ir visitá-la em sua casa na rua
Ramon Franco, 12, na Urca, levado por Nílton Santos e pelo dr. Lídio
Toledo. E Elza, apesar de seu tamanho, era algo a ser visto com vagar,
como Garrincha gostava de fazer: um bombom de 1,57 metro, com curvas que
pareciam ter saído das tintas de Di Cavalcanti.
O olhar de Garrincha desconcertou-a e Elza baixou os olhos. Ela já era a
cantora de "Se acaso você chegasse", de Lupicínio Rodrigues e Felisberto
Martins, e de "Edmundo", a cômica versão que Alóysio de Oliveira fizera
para "In the mood", de Joe Garland e Andy Razaf. Era a "Bossa negra", a
estrela da TV Rio, a grande sensação do samba. Quando fazia seus scats
roucos, parecia uma deusa zulu, cantando do fundo das cavernas. Estava
habituada a protagonizar as mais selvagens fantasias dos homens - mas
não daquele jeito, tão descarado e, ao mesmo tempo, tão suave.
Garrincha foi pedir-lhe que o ajudasse a cabalar votos para vencer o
concurso do "jogador mais popular do Rio" e ganhar o Simca. Isso
significaria ir com ele a casas de discos, autografar fotos e falar a
seu respeito na televisão. O Jornal dos Sports prometia ampla
divulgação. Elza aceitou - Garrincha era famoso, admirado, querido, o
que ela podia perder? Uma tarde, antes do Natal, foi com ele ao Rei da
Voz, a loja de Abraão Medina na rua Sete de Setembro, e a outras da
cidade. Venderam autógrafos, fotos e beijos em troca de votos. Mas não
ficou nisso: com o conjunto de seu namorado, o baterista Milton Banana,
fez um show na sede da Associação dos Empregados da América Fabril, em
Pau Grande, num sábado à noite. Era a primeira vez que ia a Pau Grande e
jamais poderia adivinhar que aquele arraial ficaria ligado à sua vida
para sempre.
Terminado o show, ela e os músicos voltaram para o Rio. Garrincha ficou.
Não havia nada entre eles - não porque os olhos de Garrincha não
quisessem.
As semanas corriam, o Botafogo era líder invicto do campeonato e ia ser
campeão carioca de 1961. Mas, mesmo assim, Garrincha continuava em
segundo lugar no concurso. Os votos para Bellini já nem iam para as
urnas: a colônia portuguesa os despejava aos milhares, em sacos de
armazém, na junta de apuração. Às vésperas da contagem final, o capitão
do Vasco e da seleção tinha 20 mil votos de frente, uma diferença quase
impossível de tirar. Mas o Botafogo foi campeão e Sandro Moreyra decidiu
que Garrincha tinha de ganhar o concurso e o carro de qualquer maneira.
Convenceu os beneméritos botafoguenses de que a vitória de Garrincha era
uma questão de honra para coroar o campeonato que o Botafogo devia em
grande parte a ele.
Ademar Bebiano e outros caixa-altas do Botafogo deram dinheiro; Nílton
Santos deu dinheiro; até Garrincha deu dinheiro. Dezenas de milhares de
exemplares do Jornal dos Sports foram comprados na boca da rotativa e
levados para o apartamento de Sandro na rua Pompeu Loureiro. Os amigos
foram intimados ao mutirão e passaram três dias e três noites num
frenesi de recortar e preencher cupons. As montanhas de jornais
inutilizados eram empilhadas nos corredores e escadas do prédio,
obstruindo a passagem. Os votos para Garrincha chegaram à junta quase no
último minuto para não prevenir os portugueses, que podiam fazer o mesmo
por Bellini. Mas o esforço valeu a pena: Garrincha venceu com 300 247
votos e ganhou o carro. Bellini ficou em segundo com 245 308 e ganhou um
terreno em Cabo Frio; e Babá terminou em terceiro com 121 278 - ganhou
um televisor quase do seu tamanho.
Garrincha recebeu o Simca, então o mais luxuoso carro nacional, no
centro do gramado do Maracanã na noite de 3 de janeiro de 1962, antes do
jogo de entrega das faixas aos campeões carioca e paulista: o Botafogo e
o Santos. Um time enfaixou o outro - Garrincha enfaixou Pelé e
vice-versa. Com as chaves na mão, o normal seria que Garrincha entrasse
no carro e desse uma volta olímpica com ele pelo gramado. Mas, depois do
que fizera com seu pai - e que, no Rio, ninguém ficara sabendo -, achou
mais prudente não tocar no volante. Explicou que não dirigia muito bem e
que iria treinar um pouco até aprender. Gilmar, goleiro agora do Santos,
deu por ele a volta com o Simca, buzinando sob aplausos, e o estacionou
atrás de um dos gols. No jogo da festa, o Botafogo ganhou do Santos por
3X0.
Os jogadores saíram do Maracanã para a sede do clube, onde haveria a
festa do campeonato e o pagamento do prémio pelo título. Houve a festa,
mas o pagamento ficou para depois da excursão - o Botafogo estava de
partida para dez amistosos no Chile, no México e no Peru. O Simca,
dirigido pelo botafoguense Juan Giu Lamana, foi deixado numa garagem. Na
manhã seguinte, sempre com Lamana na direção, Garrincha levou-o para ser
emplacado em Caxias e viajou com o Botafogo. Dias depois, numa caravana
que incluía os casais Armando Nogueira, Sandro Moreyra e Maurício Porto
Ramos, o carro foi levado por Lamana para o sítio de José Luiz Ferraz em
Corrêas, onde amigos de Garrincha iriam recolhê-lo e guardá-lo em Pau
Grande.
Mas, na sua primeira noite fora de casa, o Simca quase morreu afogado.
Um dilúvio caiu sobre Corrêas, parte da casa de José Luiz Ferraz desabou
e o Simca acordou boiando como uma vitória-régia. Nunca mais foi o mesmo
carro.
Antes de embarcar para a excursão, Garrincha renovara contrato com o
Botafogo. Pela primeira vez, assinara um papel já preenchido e sabia
quanto iria ganhar: 150 mil cruzeiros. Era o dobro dos 75 mil que vinha
recebendo desde 1959, mas ainda não chegava a quinhentos dólares. E,
também pela primeira vez, o Botafogo lhe pagaria luvas: 3 milhões de
cruzeiros (perto de 10 mil dólares). Mas, como iria viajar no dia
seguinte, Garrincha preferiu deixar o dinheiro na tesouraria do clube,
aos cuidados do caixa Edir e de Júlio de Azevedo. Ficou de apanhá- lo
quando retornasse ao Brasil.
Além do dinheiro, Garrincha deixou para trás mais uma filha, Terezinha
Conceição, nascida em fins de dezembro. Era a sua sétima filha com Nair
- e, mais do que nunca, houve uma minicomoção nacional pela fatalidade
que o perseguia. A cada filha, a imprensa explorava a sua decepcionada
resignação e a promessa de que continuaria tentando até ter um garoto.
Os crédulos julgavam que, por ser a de número sete, aquela criança seria
finalmente um menino, o herdeiro a quem ele ensinaria o segredo de seus
dribles. Só que, daquela vez, era a própria Nair que torcia para que
fosse mulher. Acreditava na lenda de que, depois de uma ninhada de seis
mulheres, o sétimo filho, se for homem, torna-se lobisomem.
O Botafogo voltou da excursão pelas Américas em meados de fevereiro e
entrou em campo para disputar o torneio Rio-São Paulo, o que faria em
ritmo de avalanche. Seu ataque era agora melhor ainda que o do ano
passado, porque tinha de novo Quarentinha, depois de quase dois anos no
estaleiro - machucara-se jogando pela seleção em 1960, operara o joelho
e sua recuperação fora tão lenta que quase o deram por acabado. No
Rio-São Paulo, com Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e Zagalo na
linha de frente, o Botafogo não se contentava em vencer as partidas.
Dava olé ao final de todas elas. A torcida saltava cambalhotas de
satisfação, mas, em campo, os árbitros não gostavam daquilo.
Consideravam o olé um desrespeito ao adversário.
No jogo Botafogo 4X1 América pelo Rio-São Paulo, Garrincha foi ameaçado
de expulsão pelo árbitro Amílcar Ferreira por driblar demais o lateral
Ivan. O ranheta Amílcar, que parecia inspirar-se no personagem do "dr.
Enfezulino" do programa Balança mas não cai, da rádio Nacional, era um
dos árbitros mais morrinhas da praça. Para justificar a fama, citou todo
o time do Botafogo na súmula daquela partida - equivalente hoje a dar o
cartão amarelo aos onze jogadores. O Botafogo defendeu-se alegando que o
olé não significava um menosprezo ao outro time, mas uma forma de os
jogadores se pouparem. E que os árbitros não eram tão rigorosos com os
zagueiros que tinham voltado a parar Garrincha na ilegalidade, dando-lhe
rasteiras brutais ou puxando-o pela camisa.
Já que os árbitros eram tolerantes com os adversários, um torcedor
procurou Renato Estelita no Botafogo para oferecer-lhe uma "poção
mágica" a ser aplicada na camisa de Garrincha. O preparado apodreceria a
camisa. Quando o adversário a puxasse, ela se rasgaria e Garrincha
sairia aos trapos, mas fagueiro em direção ao gol inimigo. O zagueiro
ficaria com cara de ovo segurando um pedaço de pano. Renato Estelita
ficou curioso e aceitou um frasco de amostra da "poção mágica" para
experimentar. Quando lhe contaram que aquilo era simples água sanitária,
sentiu-se feito de bobo e proibiu a entrada do torcedor no clube.
A violência contra Garrincha preocupava também João Saldanha. O Brasil
ia tentar o bi na Copa do Chile e não podíamos perder um jogador como
ele para um grosso desleal. Para Saldanha, a brutalidade contra
Garrincha deixara de ser uma questão de árbitros rigorosos ou mesmo de
direitos humanos. Para salvá-lo, só com a intervenção da Sociedade
Protetora dos Animais - o que ele pediu pelo rádio. Não o levaram a
sério. Mas Garrincha sobreviveu à caçada e o Botafogo seguiu vencendo no
torneio Rio-São Paulo.
Entre uma vitória e outra, tinha aulas de direção com os amigos nas
imediações de Raiz da Serra. Se sua intenção era tornar-se um Fangio ou
Pintacuda, era bom que aprendesse a dirigir direito. Um de seus
instrutores era Luís Carlos Morgado, ex-presidente do Pau Grande.
Garrincha aprendeu com facilidade, mas sua desatenção era ridícula. Ia
dar uma ré e tirava um fino numa árvore que, segundo ele, não estava ali
minutos antes. No começo, sentia-se inseguro para dirigir, sozinho de
Pau Grande ao Rio e pedia a Morgado que fosse com ele. Quando se sentiu
apto a enfrentar a estrada, dispensou as companhias e passou a abusar da
qualidade que mais apreciava no Simca: a velocidade. Mas só muitos anos
depois, já com várias encrencas em seu currículo de motorista, é que se
preocuparia em tirar carteira.
Em março, Garrincha entrou no Simca e foi à Urca cumprir um prazeroso
dever: agradecer a Elza Soares por tê-lo ajudado a ganhar o carro. Como
se não fosse suficiente, tinha outro pretexto: levar- lhe um saco de
feijão que ganhara em Pau Grande, para ajudá-la a atravessar a crise de
desabastecimento que começava a afligir o Rio. O Brasil vivia uma época
turbulenta. Jânio Quadros renunciara em agosto último e o presidente
agora era Jango, mas sob o regime parlamentarista. Esquerda e direita
passavam o dia insultando-se e o clima político era irrespirável, com
uma onda de greves que, por enquanto, só não atingira o futebol e os
vendedores de mate na praia. Uma das consequências da crise era a falta
de feijão. Quando Garrincha apareceu de surpresa na Urca com um saco de
sessenta quilos, sua chegada à casa de Elza foi duplamente aclamada.
Até aquele momento, ele não a impressionara muito. Como todo mundo, Elza
admirava-o por ser quem era, mas achava-o um menino - ela tinha 31 anos,
Garrincha, 28. Sabia que os dois haviam passado por experiências
parecidas: ambos tinham sido operários (ele na fábrica de tecidos, ela
numa fábrica de sabão), casaram-se muito cedo e sustentavam uma penca de
filhos. Mas aí terminavam as semelhanças. Comparada à sua historia, a de
Garrincha devia ter sido um domingo de piquenique.
Ela, por exemplo, mamara numa cabrita - sua mãe tinha pouco leite.
Elza nascera em Bangu, em 1930, e fora criada na favela de Água Santa,
no Engenho de Dentro. Seu pai, Avelino, era operário; sua mãe, Rosaria,
lavadeira. Avelino preferia beber e tocar violão a trabalhar, razão pela
qual não parava em empregos. Em criança, Elza catara ossos, latas e
garrafas no lixo para vender. Por falta de talheres e pratos, comia com
a mão em latas de goiabada. Às vezes, roubava galinhas. Aprendera a ler
sozinha e aos quatro anos escrevia o seu nome na areia da praia de
Ramos. Terminara o curso primário numa escola pública em Cascadura, mas
parara de estudar para trabalhar como doméstica em casas de família no
Méier. Os patrões reparavam nos volumes e formas da escurinha e não a
deixavam cozinhar sossegada.
Elza casara-se aos treze anos com Alaúrdes Soares, jogador de baralho,
dez anos mais velho que ela e colega de seu pai numa pedreira. O pai de
Elza o obrigara a casar-se por tê-la estuprado. O branco Alaúrdes
insultavaa por ser negra, espancava-a com regularidade e, toda vez que a
levava para a cama, era outro estupro. Tomava-lhe dinheiro para os seus
compromissos de jogo. Para sustentar a casa e os parceiros do marido,
Elza trabalhava na fábrica de sabão Veritas e como copeira num hospício,
ambos no Engenho de Dentro. Quando saía para o serviço, tinha de amarrar
os filhos a um pé de mesa para eles não se perderem pelo morro. A comida
era pouca e os filhos iam nascendo e morrendo de fome ou tuberculose:
Carlos Raimundo, Robson e outro que não teve nome porque morreu ao
nascer. O primeiro a vingar foi João Carlos, Carrinhos, nascido em 1948.
Depois viriam Duma, em 1953, Gerson, em 1954, e Gilson, em 1955. Mas,
então, Elza já ganhava a vida como cantora e podia alimentá-los com
Toddy.
O ano da virada tinha sido 1948. No passado, sua única ligação com o
meio artístico fora através de sua mãe, que lavara roupa para a família
de Orlando Silva na praça da Bandeira. Mas Elza sempre gostara de cantar
e, como muitas de sua época, inscrevera-se no programa de Ary Barroso,
Calouros em desfile, na rádio Tupi. Surrupiara o melhor vestido de dona
Rosaria, vinte quilos mais gorda, e dera-lhe várias voltas ao redor do
corpo, prendendo-o com alfinetes de fralda. Armara uma maria-chiquinha
no cabelo e fizera a longa viagem até a avenida Venezuela, onde ficava a
rádio. Ao entrar no palco, o auditório soltou uma gargalhada: ela devia
estar grotesca. Ary Barroso também deve ter achado, porque perguntou:
"De que planeta você veio, minha filha?" Elza respondeu na batata: "Do
planeta fome, seu Ary."
O vilão do programa de Ary Barroso era Makalé, o jovem negro de turbante
e túnica a quem cabia tocar o gongo que desclassificava o calouro.
Makalé malhava o gongo com toda força, ria e sacudia-se como se adorasse
ver a caveira do coitado. Os calouros mais ingénuos achavam que era ele
quem decidia a sua sorte. Na dúvida, Elza cantou com um olho em Ary,
outro em Makalé, o samba-canção "Lama" ("Se quiser fumar, eu fumo/ Se
quiser beber, eu bebo/ Não interessa a ninguém..."), de Paulo Marques e
Aylce Chaves. Mas não foi gongada. Ao contrário: Ary deu-lhe cinco, a
nota máxima, e um prémio de quinhentos cruzeiros. Com o dinheiro, Elza
voltou de táxi para o morro.
Nos anos 50, tornou-se crooner de orquestras de bailes, aprendendo a
combinar a ginga do morro com o swing dos cantores americanos. Depois
foi corista de revistas com a companhia de Silva Filho, no teatro João
Caetano. Silva Filho quis apelidá-la de "a Mistinguett em jambo", para
aproveitar o fato de que, além de cantar bem, Elza tinha coxas bonitas.
Mas ela se recusou a explorar suas pernas. Em 1958, Alaúrdes morreu,
também de tuberculose.
Livre do marido, Elza deixou os filhos com a mãe e partiu para uma
temporada em Buenos Aires com a coreógrafa negra Mercedes Batista,
cantando na revista Jou-jou frou-frou - foi quando seu pai morreu ao
escutar pelo rádio o"Flamengo x Vasco decisivo do super- super. Na
volta, em 1959, o sambista Moreira da Silva descobriu-a e levou-a para a
rádio Tupi. Dali ela saltou para a boate Texas, no Leme, onde foi ouvida
por Sylvinha Telles e seu namorado Aloysio de Oliveira, diretor
artístico da Odeon. Aloysio a fez gravar "Se acaso você chegasse" - e,
desde então, Elza Soares tornara-se um nome nacional.
Quando Garrincha entrou em sua vida, a bordo de um Simca e com um saco
de feijão a tiracolo, Elza estava indo à forra de todas as humilhações e
agruras do passado. Até pouco tempo antes tinha apenas um vestido, de
exuberante cor coral, que lavava todos os dias e que chamava de
"Conceição". Agora, no lugar de "Conceição", seu guarda-roupa
transbordava de vestidos longos, vermelhos e bordados com pedrarias, que
o português Manuelzinho, gerente do armarinho A Imperatriz, em Ipanema,
criava e lhe mandava fazer. Em outra seção do guarda-roupa, aplicadas
àquelas cabeças de manequins, Elza tinha mais perucas que a
apresentadora de TV Neyde Aparecida. Na penteadeira, um estoque de unhas
e cílios postiços para sobreviver a um ano de blitz. E estojos e estojos
de jóias, falsas ou verdadeiras, e perfumes de todos os olores e
fragrâncias.
Elza tinha tudo isso e mais um homem dentro do armário: Milton Banana, o
inventor da bateria na Bossa Nova. Fora ele que adaptara às escovinhas a
batida que João Gilberto criara no violão nas madrugadas da boate Plaza,
em Copacabana, nos anos 50. E fora ele também o baterista na histórica
gravação de "Chega de saudade" por João Gilberto em 1958, que deflagrara
o movimento. Elza começara a namorá-lo na volta da Argentina. Banana
ensinara-lhe os truques da divisão vocal da Bossa Nova e que ela
adaptara às suas interpretações de sambas rasgados. Elza o adorava:
chamava-o de "Neném" e não o deixava pagar uma conta. Como baterista,
Banana era um metrônomo - mas, no dia-a-dia, estava sempre vários copos
à frente do relógio.
Durante as primeiras semanas de março, Banana observou que, depois da
visita de agradecimento pelo carro, Garrincha passara a freqüentar muito
a casa de Elza. E, a cada vez, levava um tipo de mantimento: açúcar,
arroz e mais feijão. O abastecimento no Rio voltara ao normal, mas
Garrincha continuava a supri-la com um festival de grãos, como se o
racionamento ainda estivesse em vigência. Como muitos bateristas, Banana
era de falar pouco - preferia expressar-se através de seus címbalos e
ximbaus. Não disse nada, mas desconfiou que ali havia dente de coelho.
Banana já achava que seu caso com Elza estava chegando ao fim. Mas, se
tivesse de haver um desfecho, ele não gostaria que fosse por causa de
outro homem - muito menos Garrincha. Afinal, era seu fã. Além disso,
botafoguense.
Talvez não estivesse acontecendo nada, mas a presença de Garrincha ali o
desgostava. Até que as visitas cessaram: a seleção fora convocada para a
Copa do Mundo no Chile e, pelos meses seguintes, Garrincha iria estar
ocupado.
Na noite de 17 de março, três dias antes de a seleção apresentar-se para
começar os treinamentos, o Botafogo derrotou o Palmeiras por 3X2 no
Maracanã, com um gol de Garrincha, e ganhou o torneio Rio-São Paulo. A
conquista do título foi chochamente comemorada - os cariocas não ligavam
muito para o Rio-São Paulo. Garrincha nem ficou para a festa em General
Severiano. Deixou o estádio, pegou o Simca e dirigiu durante quatro
horas e meia pela estrada União-Indústria até a cidade de Bicas, MG,
aonde chegou às seis da manhã. Ia jogar pelo time de seus amigos de um
posto de gasolina, o Esso de Caxias, contra o E. C. Biquense. O Botafogo
não precisava saber que, em meio aos campeonatos, Garrincha disputava
dezenas dessas partidas. E o que o Botafogo não soubesse não lhe faria
mal.
Garrincha chegou a Bicas e foi recebido pelos paredros biquenses, que
lhe ofereceram um lauto café da manhã. Mas ele mal tocou nas broas e
rosquinhas. Pediu uma "branquinha". Os biquenses se assustaram com
aquela reivindicação tão matinal e conseguiram convencê-lo a dormir.
Depois o levaram a pescar até a hora do jogo. Garrincha jogou e
enfrentou um beque local chamado Catimba, que já ameaçara quebrá-lo se
ele "se metesse a besta". Mas Garrincha, indiferente à proximidade da
Copa do Mundo, expôs-se à fúria de Catimba, que não conseguiu quebrá-lo,
por mais que tentasse. O Esso de Caxias ganhou por 5x1, com três gols de
Garrincha. Depois do jogo, a pinga escorreu dos alambiques. Garrincha
bebeu o quanto quis, muniu-se de algumas garrafas para a viagem e tomou
o Simca de volta, agora para Pau Grande.
Chegou à sua casa na manhã do dia 19 - e, no dia seguinte, quando
deveria apresentar-se à seleção até as 10 horas da noite no hotel
Paysandú, foi o único a não aparecer.
Às dez e meia, telefonou de Magé para Carlos Nascimento no Paysandú,
justificando-se: ficara em Pau Grande para uma missa por seu avô e
perdera o último trem para o Rio. Nascimento perguntou- lhe pelo Simca
que havia ganho no tal concurso. Garrincha disse que ainda não tinha
carteira de motorista. Os outros jogadores gargalharam ao saber daquilo.
Nascimento fingiu engolir a história. A seleção partia às seis da manhã
para Campos do Jordão, primeira etapa dos treinos, e teriam de ir sem
ele. Mas Sandro Moreyra, José Luiz Ferraz e Rivadávia Corrêa Meyer
Filho, o Rivinha, novo diretor de futebol do Botafogo - todos no
Paysandú àquela hora -, sabiam o que fazer. Pegaram o carro e foram a
Pau Grande buscá-lo.
Arrancaram-no da roda dos amigos, trouxeram-no para o Rio e o entregaram
de madrugada a Nascimento, razoavelmente sóbrio. Poucas horas depois,
Garrincha embarcou com os colegas para Campos do Jordão.
A seleção de 1962 tinha poucas novidades em relação à de 1958. Nílton
Santos e Zito haviam raspado os bigodes. O treinador já não era Feola,
mas Aymoré Moreira, o "Biscoito". Feola fora substituído em fevereiro,
por problemas cardíacos - passaria oito meses de cama aquele ano. Na
comissão técnica, saíra o psicólogo Carvalhaes e entrara o sapateiro
Aristides. A seleção usaria os serviços de um psicólogo, Athayde Ribeiro
da Silva, mas ele não iria à Copa e nem faria testes de QI. E, assim
como em 1958, a seleção ficaria algum tempo em estações de águas,
desintoxicando-se. As cidades é que seriam diferentes: Campos do Jordão
(SP), Friburgo (RJ) e Serra Negra (SP). Mas a principal diferença entre
1958 e 1962 era Pelé.
Nos quatro anos entre as duas Copas, ele se tornara um fenómeno. Com
Pelé, o Santos fora campeão paulista em 1958,1960 e 1961, do torneio
Rio-São Paulo em 1959 e da taça Brasil em 1961. Pelé fora o artilheiro
de quase todas as competições que disputara e, no campeonato paulista de
1958, firmara um recorde de artilharia para todos os tempos: 58 gols.
Ninguém ainda se preocupara em contar o total de seus gols, mas já
marcara quase quinhentos. No dia 5 de março de 1961, contra o Fluminense
no Maracanã, pelo Rio-São Paulo, saíra de sua intermediária e driblara
meio time tricolor antes de fuzilar Castilho. Gols como aquele mereciam
uma placa no Maracanã, dizia-se - daí a expressão "gol de placa". Dias
depois, por iniciativa do próprio Santos, afixou-se no hall dos
elevadores do Maracanã uma placa de verdade, de bronze, pelo gol de
Pelé.
Naqueles quatro anos, o Santos recusara todas as propostas de clubes
espanhóis e italianos que queriam comprá-lo. Mas, para isso, tinha de
pagar-lhe à altura - com a secreta ajuda de Havelange e da CBD. Não se
sabia quanto Pelé ganhava, mas era, disparado, o maior salário do
futebol brasileiro. Em compensação, o Santos punha-o para jogar com
assassina assiduidade, dentro e fora do Brasil. Às vezes, até em dias
seguidos. Numa excursão à Europa em 1959, o Santos jogou no dia 3 de
junho contra o Feyenoord na Holanda; dia 5, contra o Internazionale na
Itália; dia 6, contra o Fortuna na Alemanha; dia 7, contra o Nuremberg,
também na Alemanha; dia 9, contra o Servette na Suíça. Cinco jogos em
seis dias - com o detalhe: ganhou todos. Enquanto tivesse Pelé para
oferecer, o Santos jogaria quantas vezes o time agüentasse. Os jogadores
vibravam quando havia um dia de intervalo entre duas partidas: podiam
cochilar no aeroporto.
Ao contrário da seleção de 1958, que viajara para a Suécia
desacreditada, a de 1962 só teria problemas se não voltasse do Chile
bicampeã mundial. O Brasil era o grande favorito para todo mundo. Mesmo
aqui, a certeza popular no título era total. Ninguém fazia fé nos
adversários iniciais: México, Tchecoslováquia e Espanha. E o time de
1958, apesar de quatro anos mais velho, estava quase intacto: Gilmar,
Djalma Santos, Bellini, Nílton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Vavá, Pelé
e Zagalo - o único desfalque era Orlando, jogando na Argentina. Muitos
haviam se tornado balzaquianos, mas o único provecto era Nílton Santos,
que, na Copa, já teria 37 anos. Pelé também estava quatro anos mais
velho. Só que ainda não completara 22.
As brincadeiras entre os jogadores, hospedados no hotel Vila Inglesa, em
Campos do Jordão, também eram as mesmas de 1958. Ao ver Garrincha de
calção, um deles fingia espanto:
"Meu Deus! Atropelaram o Mané!"
Castilho fingia explicar:
"Não, as pernas dele são certas. O corpo é que é torto."
De original, só o apelido que Garrincha pusera em Zózimo, o provável
substituto de Orlando: "Boneco da Esso". Zózimo era bonito, julgava-se
parecido com o cantor Harry Belafonte e gostava que o chamassem pelo
nome do rei do calipso. Para estimular a comparação, vivia cantando
"Matilda", sucesso de Belafonte. Mas seu cabelo em ponta lembrava o do
boneco da Esso que se via nos anúncios - e só Garrincha para perceber
isso.
Os repórteres escalados para cobrir os preparativos da seleção também
eram os mesmos de 1958. Um deles, Mário de Moraes, de O Cruzeiro,
precisava de assuntos originais e exclusivos para não se limitar a
repetir o que os jornais davam todo dia. Se a seleção não estava
rendendo esse tipo de assunto, Mário de Moraes teria de produzi-lo. Foi
dele a idéia de se fazer um show para os jogadores no hotel Vila
Inglesa, com os cantores do cast da TV Tupi. Somente os fotógrafos de O
Cruzeiro teriam acesso.
O difícil seria conseguir a permissão de Nas'cimento. Mas Mário de
Moraes tinha um aliado influente na comissão técnica: Adolpho Marques,
tesoureiro da seleção e, na vida prática, diretor do departamento de
pessoal dos Diários Associados. Marques convenceu Nascimento. Este
topou, com a condição de que o show terminasse antes de meia-noite e que
os artistas tomassem logo o ônibus de volta para São Paulo. Não queria
saber de mulheres dormindo na concentração.
A produção do show ficou a cargo de Aírton Rodrigues (do casal Aírton e
Lolita), do programa Clube dos artistas, da TV Tupi de São Paulo. Aírton
sugeriu que se fizesse um Clube dos artistas com os jogadores, a ser
gravado na nova e revolucionária técnica do videoteipe e depois exibido
na Tupi. Os apresentadores seriam Homero Silva e Márcia Real. Os
artistas foram escalados: Pery Ribeiro, Agostinho dos Santos, Edith
Silva, o trio Sereno, Germano Mathias, o trio Orixá - e Elza Soares.
Na tarde de 2 de abril, uma segunda-feira, a caravana de cantores
aportou em Campos do Jordão para o show daquela noite. Não havia
camarins para os artistas se trocarem. Alguns jogadores tiveram de ceder
seus quartos. Garrincha emprestou o seu a Elza.
Tranqüilizou-a:
"Eu fico do lado de fora vigiando a porta. Ninguém vai entrar. Esteja à
vontade."
E postou-se solenemente no corredor. O que ele não sabia era que, no
quarto vizinho ao seu, dobrando a esquina no corredor, um grupo de
jogadores se movimentava. Era o quarto do seu reserva, Jair da Costa, da
Portuguesa de Desportos. Ao descobrir que Elza ia trocar- se no quarto
de Garrincha, sete ou oito jogadores correram para lá a fim de espiá-la
pelo buraco da fechadura - os dois quartos tinham uma porta comunicante.
E foi assim que, enquanto Elza tirava inocentemente a roupa, entrava e
saía do chuveiro, passava creme no corpo e se vestia para o show, Djalma
Santos, Amarildo, Zózimo, Jair da Costa e outros se revezaram no buraco
da fechadura, tentando conter suas exclamações de entusiasmo pela figura
de Elza.
O show foi um sucesso. Não havia um palco adequado para um espetáculo,
mas as mesas dos jogadores foram agrupadas em duas alas, entre as quais
os artistas se movimentavam. Fora do programa, o massagista Mário
Américo cantou "C'est si bon" (em inglês) e o dentista Mário Trigo
tentou roubar o show com suas piadas. Mas não podiam superar
profissionais como Agostinho dos Santos, Pery Ribeiro, as cabrochas do
trio Orixá e, muito menos, Elza.
De vestido rodado, realçando a cinturinha, ela desfilou entre as mesas
cantando "Não põe a mão" ("Não põe a mão/ No meu violão"), de Mutt, Arnô
Canegal e Buci Moreira, sucesso do Carnaval de 1951 e que acabara de
relançar. A letra do samba já era um convite aos mais lúbricos
pensamentos - e a maneira de Elza cantá-la, mais ainda. Garrincha estava
numa mesa com Zózimo e o zagueiro Joel. Quando ela passava por ele,
rebolando de forma provocante, Garrincha dizia para os colegas:
"A Elza canta o fino. E é boa pra chuchu!"
Mas a mesa de Garrincha não era a única de que ela se aproximava.
Demorou-se também nas de Didi, Pelé e em várias outras.
Terminado o show, os artistas despediram-se da seleção, desejaram-lhe
todas as felicidades na Copa e foram preparar-se para partir. Repetiu-se
a operação no quarto de Jair da Costa. Elza trocou de roupa, alheia aos
olhos de sua salivante platéia, e, juntamente com os colegas, tomou o
ônibus da Tupi de volta para São Paulo. Só que dois artistas ficaram
para trás.
Um deles com autorização de Nascimento: Agostinho dos Santos. No dia
seguinte, ele até bateria bola com alguns jogadores. O outro foi uma
mulher - uma das mulatas do trio Orixá.
Quando o ônibus saiu, Garrincha disse tchau a Elza. Mas, em vez de
voltar para o hotel, embrenhou-se pelo parque do Vila Inglesa. À
meianoite, Nascimento mandou fechar as portas.
Horas depois, em meio à madrugada, Garrincha bateu à janela de Mário de
Moraes, que ficava no térreo. Mário dividia o quarto com seu fotógrafo
Ronaldo de Moraes (sem parentesco). Eles abriram a janela e deram
entrada a Garrincha. Este passou pelo bar, controlado pelo barman Pedro,
que ainda estava por ali, e subiu silenciosamente as escadas até o
quarto em que tinha Joel como seu companheiro. Quando Nascimento foi
fazer a ronda das seis horas, já o encontrou dormindo.
Não se sabe como a orixá voltou para casa. E nem como Garrincha, tendo
dado tanta atenção a Elza durante o dia, conseguiu marcar um encontro
com a cabrocha no parque do Vila Inglesa sem ninguém perceber.
Na primeira semana de abril, a seleção foi cumprir a segunda etapa do
treinamento em Friburgo - e Elza foi até lá para ver Garrincha. Não
apenas ela, como os milhares de cariocas que passaram a fazer da cidade,
a 150 quilómetros do Rio, um programa dominical. Os carros chegavam a
Friburgo às centenas para assistir aos coletivos da seleção, a tal ponto
que a CBD começou a cobrar ingressos. Os políticos também começaram a
aparecer para dar o seu "estímulo". Um deles Juscelino, com um sorriso
em que se podia ler JK-65 na porcelana, embora ainda faltassem três anos
para as eleições. Temendo a exploração, Nascimento e Adolpho Marques
barraram a entrada de quase todo mundo no hotel. Juscelino foi das
poucas pessoas que conseguiram aproximar-se da seleção. Outra foi Elza.
Elza esteve rapidamente com os jogadores nos jardins do hotel Sans
Souci. Assistiu a um treino e, depois, Garrincha foi levá-la ao ponto do
ônibus. Quando o ônibus estava se aproximando, ele a puxou para si e
deu-lhe um beijo de forma a não restar a menor dúvida. Elza correspondeu
ao beijo.
Os jogadores foram depois para Serra Negra, onde passaram mais uma
semana. Pelé gostava de tocar violão e de fazer serenata sob a janela
dos companheiros. Garrincha, fã de Jorge Veiga e Frank Sinatra, não
tinha Pelé em grande conta como cantor. Para demonstrar sua opinião,
despejou pela janela um urinol cheio d'água sobre Pelé.
A seleção finalmente desceu para o Rio, para definir os 22 jogadores e
embarcar. No Rio, resolveu-se um dilema na ponta direita. Os três
convocados para a posição eram Garrincha, Julinho e Jair da Costa. Um
dos três teria de ser cortado e, em condições normais, a vítima seria o
jovem Jair da Costa. Mas, em Friburgo, Julinho sofrera uma distensão na
virilha que virtualmente o tirava da Copa. Hilton Gosling garantiu-lhe
que a seleção esperaria por ele. Mas Julinho não queria ir ao Chile como
um peso morto e dera um prazo a si mesmo para ter certeza de que se
recuperaria a tempo. No dia 14 de maio, a menos de uma semana da viagem,
certificou-se de que não conseguiria - e, mais uma vez, em lágrimas,
pediu dispensa da seleção. Em 1958, recusara a convocação e deixara de
ser campeão do mundo. Quatro anos depois, perdia a chance de participar
do bi.
A dias do embarque, houve uma recepção de despedida para a seleção no
palácio Guanabara, sede do governo do Rio. O governador Carlos Lacerda
mantinha uma colorida fauna nos jardins do palácio, na qual se incluía
um mainá - um pássaro indiano que lhe fora dado pelo industrial
português Alberto Silva e que sabia falar. O mainá fazia fiu-fiu,
imitava cachorro e avião e tinha um vocabulário que Garrincha considerou
maior que o do goleiro Manga, seu colega no Botafogo. Dizia, "E do
palácio!", "Já vai, hein?", "Gol!", "Vasco!", "Manei!", "Gostosa!",
"Jânio Quadros!" e diversos palavrões, tudo ensinado pelo português.
Garrincha apaixonou-se pelo mainá e Lacerda percebeu:
"Gostou, não é? Vamos fazer um trato. Traga o bi que o mainá é seu."
"Está feito", respondeu Garrincha.
O presidente Jango também veio ao Rio para desejar boa sorte à seleção.
Durante a recepção no palácio Laranjeiras, o filho de Jango, João
Vicente, então com cinco anos, divertiu-se chutando as canelas de Pelé e
Garrincha. Os jogadores resmungavam que nunca tinham visto um garoto tão
chato, mas não podiam ferir o protocolo e dar-lhe uns discretos
cascudos.
Na manhã de 20 de maio, as famílias foram ao Galeão despedir-se dos
jogadores. Cada um tinha quatro ou cinco parentes para abraçá-los. A
comitiva de Pau Grande para o bota-fora de Garrincha era composta de
pelo menos trinta pessoas. Para que tudo repetisse 1958, a seleção
viajou no mesmo DC-8 da Panair e com o mesmo comandante Bungner. Paulo
Machado de Carvalho, novamente chefe da delegação, levou a imagem de
Nossa Senhora Aparecida e seu invicto terno marrom (já com as costuras
se desfazendo). Com o aval do além, o bi não podia falhar. O grande
ausente era o torcedor número um na Suécia, Cristiano Lacorte - morrera
em 1960, depois de eleger-se vereador.
O avião subiu. Dentro dele, a crisálida se desprendeu e libertou uma
borboleta de asas tortas.
Assim que chegaram a Vina dei Mar, no litoral chileno, onde a seleção
ficaria, o dr. Hilton Gosling foi ao bordel de madame Chabela. O
estabelecimento fora-lhe indicado pelo serviço médico da prefeitura
local. Gosling achara necessário: o Chile não era a Suécia, onde meninas
de família faziam sexo como se chupassem jujubas. Seria querer muito que
os jogadores se limitassem a jogar dominó ou pingue-pongue nas suas
folgas - e Gosling sabia que, no Chile, eles iriam recorrer às
profissionais. Assim, selecionou e examinou 24 mulheres, anotou seus
nomes e teve a garantia de madame de que só elas serviriam aos
jogadores.
Voltou para El Retiro, o hotel da seleção, e avisou:
"É só para trocar o óleo. Vocês estão liberados para passar a tarde lá.
Já está tudo acertado - ninguém precisa pagar. Às sete em ponto, quero
todo mundo aqui de volta."
Para surpresa de Gosling, apenas seis jogadores foram à casa de madame
Chabela aquele dia. Aliás, sete - mas Garrincha não contava.
Dias depois, o hotel precisaria de reforço na criadagem e contrataria
uma camareira loura, ligeiramente aguada - de forma alguma uma Anita
Ekberg. A partir dali, Garrincha não precisaria mais sair. Quem às vezes
tinha de ir passear para deixar Garrincha à vontade era seu companheiro
no quarto oito - Zagalo.
Os jogadores estavam fanaticamente compenetrados para ganhar o bi. Não
reclamavam sequer da ginástica duríssima de Paulo Amaral - o próprio
Nílton Santos, que era quase da idade do preparador físico e seu amigo
pessoal, só o chamava de "seu Paulo", para dar o exemplo. À noite, em
vez de tentar escapar da concentração (uma colmeia de bangalôs em meio a
um jardim cercado por muros), os jogadores faziam de conta que Aymoré
Moreira era o pianista Liberace e se distraíam ouvindo-o arranhar ao
piano o seu repertório de "Estrellita" e "Sobre as ondas". Todos estavam
loucos para jogar - donde, pela primeira vez nos quatro anos em que
aqueles jogadores atuavam juntos, um deles rebelou-se quando soube que
continuaria reserva: o zagueiro Mauro.
Bellini machucara-se num dos amistosos do Brasil antes do embarque e
fora substituído por Mauro, que só precisava de uma chance para dominar
a zaga central. Era grande jogador, classudo e também tinha liderança
para ser capitão do time. Mas Bellini recuperara-se a tempo de treinar
para a estréia contra o México, no dia 30 de maio, e Aymoré anunciou que
ele seria o titular. Mauro sentiu-se injustiçado - afinal, seria a sua
terceira Copa do Mundo como reserva. Se fosse assim, preferia voltar
para casa. Chamou Aymoré a um canto e abriu o coração.
Aymoré hesitou por um instante. Mas, esperto, saiu-se bem:
"Era só para mexer com os seus brios, Mauro. Quem vai jogar é você."
Mauro ficou satisfeito. E Bellini, com sua habitual grandeza, aceitou a
reserva.
Mas o favoritismo pesou sobre os jogadores na estréia contra o México. O
Brasil ganhou por 2X0 sem convencer. No primeiro tempo, quase todos os
jogadores pareciam estar carregando uma pesada Jules Rimet às costas. Na
defesa, Mauro e Zózimo se confundiam; no meio-campo, Zito e Didi eram
dois estranhos; e, no ataque, Pelé, sem querer, acertou uma bolada no
saco de Vavá. O México só não marcou porque Gilmar não permitiu. A
torcida mexicana no estádio de Sausalito atirava seus sombreros para o
ar, sonhando com a vitória. Mas, no segundo tempo, saíram os gols
brasileiros, com Zagalo e Pelé. A seleção reencontrou um pouco do seu
futebol e os mexicanos tiveram um trabalhão para pegar os sombreros de
volta.
O segundo jogo, três dias depois, seria contra a Tchecoslováquia. A
poucas horas da partida, Paulo Machado de Carvalho entrou por uma porta
de vidro em El Retiro pensando que estava aberta. Espatifou-a, cortou-se
todo e assistiu à partida com o rosto sarapintado de mercúrio-cromo.
Achou que era mau sinal - nada disso acontecera em 1958. Em campo, a
seleção jogou afobada e esbarrou no ferrolho tcheco, comandado por dois
jogadores de alta categoria: o goleiro Schroiff e o volante Masopust.
Aos 25 minutos do primeiro tempo, Pelé chutou uma bomba na trave e levou
a mão à perna - acabara de distender o músculo adutor da virilha
direita.
Seus companheiros não perceberam de imediato. Zito passou-lhe uma bola e
Pelé, sem forças para esticar a perna, deixou-a sair pela lateral.
"Quê que há, crioulo?", ele perguntou.
"Estou machucado, Zito", gemeu Pelé.
"Se está machucado, sai do campo!"
Não eram permitidas substituições. Hilton Gosling e Mário Américo
correram para atendê- lo. Passaram-lhe uma pomada e Pelé retornou à
partida. Mas não podia dar dois passos sem manquitolaf. No intervalo,
aplicou gelo sobre a contusão e voltou para o segundo tempo. Mas só para
que o Brasil não jogasse com dez. Foi para a ponta esquerda, onde
atrapalharia menos. Em campo, os tchecos - Laia, Masopust, Popluhar -
viram que era sério e o respeitaram: se a bola chegava a Pelé,
olhavam-no com reverência e não tentavam tomá-la. Deixavam que a tocasse
para um companheiro. O jogador mais ofensivo do planeta tornara- se
inofensivo.
Brasil x Tchecoslováquia terminou 0x0 e uma onda de má sorte parecia
soprar contra a seleção. O jogo seguinte, contra a Espanha, dali a
quatro dias, seria decisivo: quem perdesse estaria fora da Copa. A
grande pergunta era se Pelé jogaria ou não.
A distensão é o esgarçamento das fibras musculares - pense numa corda
com os fios se rasgando. O tratamento consiste de repouso e gelo nas
primeiras 24 horas e toalhas quentes nos dias seguintes. Os quatro dias
pela frente não eram suficientes para a recuperação de Pelé, mas todos
queriam ter esperanças: a romaria ao bangalô da enfermaria era
interminável. Paulo Machado de Carvalho fez promessa a Nossa Senhora
Aparecida para que Pelé jogasse. Quase foi atendido: na véspera do jogo,
Pelé pareceu melhor. Mas, num teste com Paulo Amaral, a dor voltou. Pelé
então dispôs-se a praticar o pior dos crimes contra si mesmo: pediu a
Gosling que o pusesse em campo com uma injeção de Xilocaína.
Anestesiado, o músculo não doeria. Claro que, com o esforço, as fibras
acabariam por rasgar-se e talvez ele nunca mais jogasse futebol. Disse a
Gosling que já tomara aquilo nas excursões do Santos pela Europa. Mas
Gosling não quis nem ouvir falar do assunto. E assim Amarildo foi
escalado contra a Espanha em seu lugar.
Amarildo era valente. Nelson Rodrigues, no Jornal dos Sports, só o
chamava de "Possesso". Mas não tinha pavio, era estourado, infantil até
para seus 22 anos. Certa vez, no Botafogo, cometera a imprudência de
chamar Paulo Amaral para uma briga. Paulo Amaral riscara com a chuteira
uma linha imaginária no gramado e advertira, "Não passe dessa linha,
Amarildo, que você pode se dar mal". Amarildo ficou onde estava.
Aquela noite, em El Retiro, Paulo Amaral bateu à porta de seu quarto,
sentou-se na beira da cama e disse:
"Amarildo, você vai jogar amanhã contra a Espanha. E é amanhã que eu
quero ver se você é homem."
"O senhor acha que eu estou com medo, seu Paulo?"
"Não, Amarildo, é o contrário. Amanhã os espanhóis vão te chamar de hijo
de puta e te cuspir na cara. O que você vai fazer?"
Amarildo trincou os dentes. Já queria trucidar alguns espanhóis
preventivamente.
"Quando eles fizerem isso, Amarildo", continuou Paulo Amaral, "você vai
fazer de conta que não ouviu e vai limpar o cuspe no rosto com a mão.
Porque, se você der um soco num espanhol, ele vai se desviar, fazer o
maior carnaval e você será expulso. Amanhã você só será homem se não
reagir às ofensas e cusparadas."
Amarildo entendeu o recado. No dia seguinte, entrou para enfrentar a
Espanha - a "Fúria", como a chamavam -, e foi ofendido e cuspido sem
reagir. Talvez porque isso contrariasse sua natureza, custou a
encontrar-se em campo. Ao vê-lo sempre mal colocado e errando passes
fáceis, Didi disse-lhe o que ele precisava ouvir:
"Olhe para os lados, garoto. Só dá Botafogo."
Era verdade. À sua esquerda estava Zagalo. Mais atrás, Nílton Santos. À
sua direita, Didi. E, lá na ponta, Garrincha. Eram seus irmãos mais
velhos, não havia o que temer.
A Espanha estava ganhando por 1X0 e jogando muito. No segundo tempo,
Nílton Santos fez pênalti no ponta Collar: deu-lhe um esbarrão dentro da
área, a um passo da linha. E, rapidamente, deu um passo para fora da
área, como se tivesse sido ali o esbarrão. O árbitro foi na conversa e
marcou falta fora da área. Todos louvaram a esperteza de Nílton. Mas
talvez ela não tivesse sido suficiente.
O árbitro era o chileno Sérgio Bustamante. Dois dias antes, uma mulher
teria sido vista num palacete em Vina dei Mar, alugado para que os
cartolas da CBD - Mozart di Giorgio, Mendonça Falcão, Luís Murgel e
Geraldo Starling Soares - acompanhassem a Copa mais à vontade. A mulher
seria ligada a Bustamante e teria saído do palacete com 3 mil dólares na
bolsa. Como acontecera com o jogo Brasil x Suécia em 1958, Di Giorgio
talvez quisesse apenas garantir-se de que o árbitro apitaria direito.
Não poderia exigir que ele não marcasse pênaltis contra o Brasil. Mas,
no lance de Nílton Santos, Bustamante pode ter sido apenas traído por
sua má colocação. Seja como for, nem os espanhóis reclamaram muito. O
Brasil partiu dali para empatar e virar o jogo.
Amarildo foi ofendido e cuspido pelos espanhóis, mas seus dois gols
derrubaram a "Fúria" em momentos cruciais do jogo: aos dezessete e aos
41 minutos do segundo tempo. O segundo gol nasceu da jogada que
Garrincha já fizera várias vezes na partida: driblar três adversários,
ir à linha de fundo e cruzar. Nem todas tinham dado certo, mas não por
sua culpa - não podia cruzar e cabecear ou chutar ao mesmo tempo. Ou
podia?
Até então, Garrincha vinha sendo uma figura mediana na Copa. Contra o
México, recebera poucas bolas - tentara suas arrancadas, mas, ao ser
dominado, omitira-se do jogo. Contra a Tchecoslováquia, com Pelé
machucado e Vavá mal na partida, não tinha para quem cruzar. Contra a
Espanha, despertou e deu o gol da vitória a Amarildo. E, na partida
seguinte, contra a Inglaterra, pelas quartas-de-final, jogaria uma das
maiores partidas de sua vida - como se estivesse em Pau Grande.
No Vai Que É Mole, ninguém o obrigava a ser ponta-direita. Como dono da
bola, do time e, de certa forma, da cidade, jogava na meia, de
centroavante ou onde quisesse. Contra a Inglaterra, Garrincha saiu de
sua posição, enfiou-se pelo meio e, para espanto dos ingleses,
desempenhou tarefas que caberiam aos outros.
Numa jogada rara em sua carreira, fez de cabeça o primeiro gol do Brasil
- logo ele, para quem cabecear uma bola era tão sem sentido quanto
cabecear uma lata de queijo Palmyra, com o queijo dentro. No segundo
gol, cobrou uma falta com toda a força; o goleiro Springett bateu roupa
e Vavá entrou para completar. E, no terceiro gol, mandou de fora da área
uma folha-seca que, como as de Didi, traía as leis da física: a bola ia
cobrir o travessão e, de repente, caiu dentro da meta. Garrincha podia e
sabia fazer tudo - e sua frieza fora fundamental para a vitória por 3x1.
Porque, antes do jogo, alguns jogadores não estavam tão tranqüilos.
Zagalo, por exemplo, não conseguira fazer xixi no vestiário. Já em
campo, depois dos hinos, dera-lhe uma vontade incontrolável de urinar.
Mas não podia sair correndo para o vestiário. Então chamara três
jogadores e dois fotógrafos, fizeram uma rodinha, ele se agachou e se
aliviou ali mesmo, no centro do gramado. Típico xixi nervoso - e era o
experimentado Zagalo.
Garrincha fez de tudo em campo exceto capturar um cachorrinho preto que
invadiu o campo e paralisou a partida - como Biriba fazia pelo Botafogo
em 1948. A diferença é que aquele era um cachorro neutro. Garrincha
tentou segurá-lo e não conseguiu. Õ volante inglês Greaves ficou de
quatro, fazendo au-au, o cachorro aproximou-se e ele o pegou. O jogo
recomeçou e Garrincha levou o Brasil às semifinais. Mas o adversário
seguinte seria o pior de todos. Não pelo futebol, mas por ser o dono da
casa: o Chile.
Havia outro motivo para que, a partir do jogo contra a Espanha,
Garrincha tivesse começado a dar tudo: Elza Soares também estava no
Chile.
O empresário uruguaio Edmundo Klinger convidara-a a fazer uma série de
shows na feira de Asiva, um balneário perto de Valparaíso e da
concentração do Brasil. Era um festival paralelo à Copa - uma espécie de
Copa da música, sem valer pontos, com cantores de vários países. Elza
chegara com Milton Banana na véspera do jogo da Espanha. Klinger
arranjaralhe ingressos para a partida. Ela fora ao estádio, gritara como
nunca e saíra quase afônica. À noite, teria de cantar, numa programação
que incluía nada menos que Louis Armstrong e seus AU Stars.
Armstrong, que fecharia a noite, estava nos bastidores quando Elza
cantou "Edmundo". Não entendeu uma palavra da letra, mas reconheceu a
música - "In the mood", claro - e impressionou-se com a cantora. Ela
cantava rouco como ele, improvisava como Ella Fitzgerald e podia também
ser suave como Nancy Wilson. Mas o melhor era o balanço que dera a "In
the mood" - um swing que nunca teria ocorrido a seu amigo Joe Garland e
que fazia a gravação de Glenn Miller parecer uma berceuse. Ao fim do
número, Armstrong esperou-a na coxia. Abraçou-a e a chamou de "my
daughter". Elza entendeu que ele a estava chamando de "doctor".
O Brasil, mais do que nunca, era a atração da Copa e os organizadores da
feira de Asiva promoveram Elza a "madrinha da seleção brasileira". Elza
foi a El Retiro com a faixa de "madrinha" para ser fotografada com os
jogadores. Mas Paulo Amaral não permitiu. Pediu- lhe educadamente que se
retirasse - mulheres interferiam no trabalho, quanto mais ela. Mesmo
assim, Elza falou com Garrincha. Ele lhe disse que pediria a Oduvaldo
Cozzi, então na rádio Guanabara, que "tomasse conta dela" - que a
pegasse no hotel e a levasse ao estádio nos dias de jogo. E disse mais:
"Eu vou ganhar essa Copa pra você."

Capítulo 13

O chileno Rojas acerta o joelho sagrado

1962

PAU GRANDE REVELADA

Garrincha ser expulso de campo por agredir um
adversário parecia tão absurdo quanto são Francisco de Assis disputar um
concurso de tiro aos pombos ou Branca de Neve ser apedrejada por
discriminar anões. Mas foi o que aconteceu no jogo Brasil x Chile pelas
semifinais da Copa, no dia 13 de junho. O agredido foi o violentíssimo
zagueiro chileno Eladio Rojas.
Garrincha já conhecia Rojas de outros Carnavais. Em suas excursões ao
Chile nos últimos anos, o Botafogo jogara várias vezes contra o
Colo-Colo, time de Rojas, e quase sempre no Carnaval. E Rojas, da mesma
forma, sabia que era candidato a mais um baile de Garrincha. Para
conseguir para-lo, teria de afiar seu habitual repertório de pontapés,
dedos nos olhos e cotoveladas. Pois Rojas fez tudo isso aos olhos
complacentes e apertados do árbitro peruano Arturo Yamazaki, descendente
de japoneses. Mas não adiantou. Garrincha aniquilou Rojas e o resto da
defesa chilena. Fez o primeiro gol com um chute de pé esquerdo; o
segundo, com outra cabeçada; deu o ter 255
ceiro a Vavá e foi, mais do que todos, o responsável pela vitória
brasileira por 4x2. Já era o maior homem da Copa.
Aos 39 minutos do segundo tempo, com o placar definido, Garrincha levou
outro pontapé de Rojas. Caiu, levantou-se e, mais por desfrute que
vingança, acertou-lhe um tostão - um peteleco de joelho - na bunda.
Rojas atirou-se ao chão como se a cordilheira dos Andes lhe tivesse
desabado em cima. O bandeirinha, a um metro do lance, chamou o árbitro
Yamazaki e denunciou Garrincha. Yamazaki o expulsou.
Elza viu quando Garrincha, de cabeça baixa, caminhou debaixo de vaias
para fora do gramado. Aymoré Moreira correu ao encontro de Garrincha,
seguido por uma chusma de fotógrafos. Elza viu também quando Garrincha
olhou na direção das cadeiras, onde achava que ela deveria estar, e
fez-lhe um largo aceno. De repente, ele pareceu baquear e levou a mão à
cabeça - uma pedra, atirada da arquibancada, acertara-o bem no cocuruto.
Elza se desesperou: desceu correndo as escadas, querendo passar para
dentro do campo de qualquer maneira. Um carabineiro foi contê-la. Elza o
insultou e tentou abrir a grade. Dois outros carabineiros avançaram
sobre ela com os cachorros. Edmundo Klinger apareceu e a levou embora
dali.
E tudo tinha começado tão bem. Antes do jogo, a mulher de um político
chileno achara que ela estava mal agasalhada para a temperatura de oito
graus e lhe emprestara seu casaco de visom. Elza arregalara os olhos.
Seu sonho era usar um casaco de pele. No estádio, a vibração a fez
transpirar e Elza tirou o casaco. Aos nove minutos, quando Garrincha fez
o primeiro gol, atirou-o para o alto. Nunca mais viu o casaco.
Até aquele gol, os chilenos pareciam acreditar que iriam derrotar o
Brasil. Em cada praça de Santiago nos dias anteriores, uma banda de
música tocava o hino do Chile e aglomerava multidões que gritavam, "Com
Pelé ou sem Pelé tomaremos café!" - o que provocara o comentário de
Sérgio Porto, que cobria a Copa para a Última Hora:
"Chileno é doido por banda de música. É que nem nós com mulher." Mas nem
tudo era tão simpático. O clima se tornara de guerra contra o Brasil.
Por causa disso, Paulo Machado de Carvalho decidira que, em vez de
mudar-se para Santiago, onde seria a partida, a seleção continuaria em
Vina dei Mar e só iria para Santiago, de trem, poucas horas antes. Temia
que, num hotel estranho, um cozinheiro mais patriota pusesse alguma
coisa na comida dos jogadores. No trem, eles passariam a pão, banana e
Coca-cola.
O Chile, como a Suécia em 1958, não chegara até ali por acaso. Vencera a
Suíça, a Itália e a URSS, e tinha jogadores como o goleiro Escutti, o
meia Toro e o ponta Leonel Sanches. Mas ninguém derrotaria o Brasil
aquela tarde - nem o árbitro Yamazaki. Ele não enxergou a violência
chilena, não marcou um pênalti em Garrincha, anulou um gol legítimo de
Vavá, inventou
 um pênalti contra o Brasil (que resultou no segundo gol do Chile) e
expulsou Garrincha por um lance bobo. Mas o Brasil vencera, passara à
finalíssima contra a Tchecoslováquia e o grande problema era se - já sem
poder contar com Pelé - ficaria também sem Garrincha.
A imprensa chilena transformou a atitude adolescente de Garrincha numa
agressão criminosa. Num estupendo exercício de imaginação, pintou-o em
editoriais como temperamental, brigão e arruaceiro. Mas Garrincha, um
dos jogadores mais caçados do mundo, nunca fora de estufar o peito e
responder à violência do grosso que o atingia. Ou de encará-lo testa com
testa, como fazem os alces e muitos jogadores. Ao contrário. Ao levar um
pontapé, dava um risinho fatalista e driblava o grosso de novo.
Embora não estivesse prevista a suspensão automática, era quase certo
que ele não pudesse atuar domingo, na partida final. O jogo contra o
Chile fora na quarta-feira. No dia seguinte ao jogo, os sete membros da
comissão disciplinar da FIFA iriam se reunir para julgar o caso. O
julgamento seria baseado na súmula - o relatório sobre o jogo, escrito
pelo juiz.
Para absolver Garrincha, céus e terras se movimentaram logo após a
partida. Luís Murgel, representante da CBD (mas, como brasileiro, sem
direito a voto), baseou sua defesa na ficha de Garrincha como um jogador
que nunca fora expulso de campo. O jornalista Canor Simões Coelho
telefonou de Santiago para seu amigo em Brasília, o primeiro-ministro
Tancredo Neves, sugerindo-lhe que passasse um telegrama à comissão, "em
nome do povo brasileiro", pedindo o perdão para Garrincha. O presidente
do Peru, Manuel Prado y Ugarteche, por intermédio de seu embaixador no
Chile, pediu a Yamazaki que não fizesse carga contra Garrincha na
súmula. E, no caso de o bandeirinha ser chamado a depor, Mozart di
Giorgio achou conveniente que ele, digamos assim, desaparecesse de
Santiago.
Não devia ser difícil. O bandeirinha era o uruguaio Esteban Marino,
árbitro da Federação Paulista de Futebol nos anos 50 e antigo cliente de
Mendonça Falcão. E havia um brasileiro apitando na Copa, João Etzel, o
único juiz de futebol no Brasil que era chamado de ladrão por todos os
times. Etzel teria feito rápido contato com Esteban Marino e recebido
sinal verde. Falcão e Di Giorgio foram ao hotel de Marino aquela mesma
noite e ofereceram-lhe uma passagem Santiago-Montevidéu - via Paris.
Coincidência ou não, Marino embarcou na manhã seguinte.
Mas talvez não tivesse sido necessária toda aquela movimentação. A FIFA
não era o Santo Ofício, e sua comissão disciplinar julgava politicamente
os casos. Sem Garrincha, o Brasil poderia perder para a Tchecoslováquia
- e, em 1962, a quem interessava que um país socialista (logo, amador)
fosse campeão do mundo? Além disso, a FIFA era grata ao Brasil por ter
se sacrificado para sediar a Copa de 1950, quando nenhum outro país
poderia fazê 257
Io. Essa Copa, de certa forma, permitira a sobrevivência da FIFA, que
quase se extinguira durante a Segunda Guerra. Esses fatores não pesaram
verbalmente no julgamento, nem precisavam - a FIFA gostava de ser
simpática ao
Brasil.
Mesmo assim a comissão disciplinar respirou aliviada quando, talvez por
influência do embaixador peruano, Yamazaki escreveu na súmula que "não
vira a infração" de Garrincha. E que seu auxiliar Esteban Marino "tivera
de viajar", mas deixara-lhe um bilhete descrevendo a suposta agressão
como um "revide típico de lance de jogo". O grande advogado de Garrincha
na comissão foi o miliardário antilhano Mord Maduro, que já levara o
Botafogo várias vezes à América Central. Com seus 150 quilos e voz
feminina, Maduro demonstrou brilhantemente que, com aquela súmula e o
depoimento do bandeirinha, o caso estava descaracterizado. Outros
seguiram o seu voto e Garrincha foi absolvido por 5X2, recebendo apenas
uma advertência simbólica.
Garrincha era fácil de defender, por causa de sua ficha disciplinar
impecável - ou quase. Murgel não mentira ao dizer que até então ele
nunca fora expulso de campo. Todo mundo acreditava nisso e, até hoje, a
história de que aquela foi a sua primeira expulsão é dada como
verdadeira. Acontece que, antes da partida contra o Chile, Garrincha já
havia sido expulso de campo - três vezes.
A primeira expulsão se deu no dia 20 de junho de 1954, aos 31 minutos do
segundo tempo de Botafogo x Portuguesa de Desportos no Pacaembu, pelo
torneio Rio-São Paulo. A Portuguesa vencia por 3X1 quando o botafoguense
Tomé atingiu seu adversário Ortega. Ortega revidou, os dois saíram aos
bofetões e, em instantes, a briga generalizou-se. O árbitro Carlos de
Oliveira Monteiro, o célebre "Tijolo", expulsou os 22 jogadores e
encerrou a partida. É argumentável que, tendo sido expulso com uma
multidão, Garrincha pode nem mesmo ter participado da briga.
Mas sua segunda expulsão, no dia 30 de novembro daquele mesmo 1954,
resultou de um lance isolado. Garrincha foi expulso aos 30 minutos do
primeiro tempo do amistoso Botafogo x América Mineiro, em Belo
Horizonte, por troca de pontapés com o lateral Sílvio, também expulso. O
árbitro chamava-se Luís Pereira Pinho. Pode ter sido outra expulsão
injusta porque os dirigentes e os torcedores, que queriam espetáculo,
protestaram contra a decisão do árbitro. Mas sua senhoria, ciosíssima de
sua autoridade, não voltou atrás.
A terceira expulsão, no dia 23 de junho de 1956, foi também coletiva e
aconteceu naquele Botafogo x Barcelona, em Barcelona, quando
supostamente brigaram os 22 jogadores, reservas, técnicos e massagistas
e foram todos presos. O juiz espanhol Arnal entendeu que o goleiro
botafoguense
Amaury começara a briga e expulsou o Botafogo inteiro - inclusive
Garrincha. Se, na Copa, a comissão da FIFA soubesse desses três casos, o
resultado do julgamento poderia ter sido diferente.
Com Garrincha absolvido, só faltava ao Brasil derrotar a Tchecoslováquia
para ser bi. Nas oitavas- de-final, os tchecos tinham jogado para
empatar com o Brasil e conseguido. Mas, agora, teriam de jogar para
vencer.
Garrincha não se preocupava com o adversário, qualquer que fosse. Não
era menosprezo, mas um sublime desinteresse por táticas, chaves ou
esquemas. O futebol era uma coisa muito simples, de onze contra onze, as
camisas pouco lhe importavam. Mas os outros jogadores se importavam e
nem sempre ele podia escapar da conversa. Os colegas o abraçaram ao
saber que ele poderia jogar de novo contra a Tchecoslováquia.
Garrincha perguntou:
"Qual que é mesmo a Tchecoslováquia?"
"É aquela que empatou com a gente. Do jogo em que o Pelé se machucou",
disse um companheiro.
"Ah... É aquele São Cristóvão cheio de Paulo Amaral."
A Tchecoslováquia tinha a camisa branca como a do São Cristóvão. E o
preparador Paulo Amaral costumava entrar nos treinos coletivos do Brasil
para completar o time reserva. O próprio Paulo Amaral quis saber:
"Por que cheio de Paulo Amaral?"
"Porque são todos grandes e fortes, mas não jogam nada."
Essa tirada de Garrincha realmente aconteceu - ao contrário de muitas
histórias que se contam a seu respeito. Foi no Chile que Sandro Moreyra,
cobrindo a Copa para o Jornal do Brasil, inventou a maioria delas. Como
aquela em que, depois de ser entrevistado por um repórter de rádio
espanhol, este teria pedido a Garrincha que se despedisse dos ouvintes
com um adias ao micrófono.
Garrincha teria dito:
"Adiós, micrófono."
Sandro inventava as histórias, testava-as com João Saldanha e divertiase
contando-as a Mario Filho, de quem não gostava. Mario Filho as ouvia,
maravilhava-se com a singeleza de Garrincha e até pedia permissão a
Sandro para utilizá-las em seu livro Copa do Mundo 62, para o qual
estava no Chile recolhendo material. Já o tinham advertido de que boa
parte daquelas histórias era folclore. Mas Mario Filho preferia
acreditar que fossem verdade. E por que não? Sandro não era o jornalista
mais próximo de Garrincha?
Sandro e Mario Filho não calculavam que essas histórias seriam
repetidas, deturpadas e que, com elas, estava se criando o mito de um
gênio infantil, e quase debilóide, que não fazia justiça a Garrincha.
Enquanto Garrincha arejava o ambiente na seleção, esta tinha agora outro
problema para o jogo final: Pelé. Nas três partidas em que ficara de
fora, sua recuperação fora melhor que a esperada. Com um certo esforço,
talvez pudesse jogar contra a Tchecoslováquia.
Mas o dr. Hilton Gosling encerrara o assunto:
"Não tem condições."
Cartolas estranhos à delegação aproximaram-se de Gosling às vésperas do
jogo para insinuar que, se ele desse "alguma coisa" a Pelé, este poderia
entrar em campo.
E ameaçavam:
"Se o Brasil perder porque o Pelé não jogou, você está liquidado."
Gosling não tinha medo:
"Assumo a responsabilidade."
Tecnicamente, anestesia não era doping. Mas, para Gosling, era como se
fosse. Não iria forçar a recuperação de Pelé. Todos na seleção se
lembravam da derrota da Hungria para a Alemanha na final de 1954, em que
a Hungria escalara Puskas machucado para que ele "fosse campeão do
mundo" - e, muito por sua causa, a campeã acabou sendo a Alemanha.
Gosling já vetara Pelé, mas não se opunha a que se fizesse um suspense
sobre se ele entraria ou não.
Pouco antes da partida, Waldir Amaral cruzou com Aymoré Moreira no
estádio Nacional.
"E então, Aymoré, Pelé joga ou não joga?"
"Não", disse Aymoré. "Mas espalha que ele vai jogar."
Os tchecos não ouviam a rádio Globo, mas só se convenceram de que Pelé
estava de fora quando o Brasil entrou em campo sem ele. O serviço de
contra-espionagem funcionara bem. E funcionara melhor ainda quanto a
outra informação escondida até dos jornalistas brasileiros: Garrincha
amanhecera resfriado e estava com 39 graus de febre. Jogou a poder de
aspirina.
Recebia a bola, dançava na frente dos três tchecos que saíam para
marcá-lo e a soltava para Zito ou Didi, que a lançavam para Amarildo ou
Vavá livres lá na frente. Quando o inimigo percebeu que Garrincha não
estava nos seus melhores dias, já era tarde.
Tal como na Suécia em 1958, o Brasil sofreu o primeiro gol no começo do
jogo e não se abalou. Desta vez, não foi Didi que caminhou com a bola
até o meio do campo para acalmar o time, mas Nílton Santos. O Brasil
empatou dois minutos depois com Amarildo e desempatou com Zito ainda no
primeiro tempo. O terceiro gol, de Vavá, foi apenas um adeus à
Tchecoslováquia. A Copa terminou em olé, com Garrincha pondo o pé sobre
a bola e esperando que um adversário viesse tentar toma-la. Ninguém se
atreveu.
No Rio, o governador Carlos Lacerda não esperou o jogo acabar. Assim que
Vavá fez 3X1, chamou seu secretário e ditou um telegrama a ser
despachado urgente para Garrincha no estádio Nacional.
MAINA A SUA ESPERA NO GUANABARA PT LACERDA
O Brasil era bi. Os jogadores deram a volta olímpica e Mauro levantou a
Jules Rimet. Zagalo, Nílton Santos, Gilmar e outros choraram de novo -
era impossível ser blasé diante da Copa do Mundo. Nas cadeiras
especiais, Elza Soares desmaiara ao ouvir o apito final.
Mas não demorou a recuperar-se porque, meia hora depois, entrou com
Lucho Gatica no vestiário brasileiro, cantando uma paródia da marchinha
"Cachaça", de Mirabeau:
"Você pensa que cachaça incha/ Garrincha incha muito mais/ Quando ele
põe o pé na bola/ Passa mais de dez pra trás."
O vestiário era uma festa. Os jogadores pelados eram sufocados pelos
dirigentes, jornalistas e torcedores que iam misturar-se a eles nos
chuveiros. Dezenas de embandeirados brindavam com champanhe, uísque e
cerveja aos gritos de "É bicampeão!". Todos riam e choravam ao mesmo
tempo. Um ambiente assim seria difícil de silenciar pela chegada de
alguém. Mas a entrada de Elza, com seu vestido de cetim verde-amarelo,
provocou um imediato silêncio. E, segundos depois, pôs todo mundo em
polvorosa. Era uma mulher num ambiente de homens nus - algo impensável
para 1962.
O primeiro a saltar do chuveiro, em busca de uma toalha ou bandeira, foi
Didi:
"Tirem essa mulher daqui!"
Alguns jogadores cobriram as partes. Outros procuraram se esconder.
Menos Zagalo:
"Esconder pra quê? O problema é dela!"
Elza, indiferente à comoção que causara, atirou-se a Garrincha debaixo
do chuveiro e carimbou-o de beijos. Seu vestido de cetim, ao molhar-se,
colou-se mais ainda ao seu corpo. Ele lhe prometera a Copa e cumprira. A
Copa era dela. O resto que fosse para o diabo.
Se Elza não saísse logo para continuar a comemoração com a torcida,
Garrincha, sem querer - mas querendo -, teria ficado inconveniente.
A seleção voltou ao Brasil no DC-8 do comandante Bungner, parando em
Brasília para ser recebida por Jango. Pousou no Rio no fim da tarde e
repetiu o longo desfile no carro dos bombeiros. Na Cinelândia, um
torcedor conseguiu subir ao carro para entregar a Garrincha um pacote
com quase dez quilos de mariola.
À noite, Nílton Santos, Garrincha, Didi, Amarildo e Zagalo - quase meia
seleção - foram comemorar no Botafogo. Elza e Milton Banana voltaram no
vôo de carreira que saíra de Santiago poucas horas depois e que trouxera
também os jornalistas. Chegando ao Rio, Banana foi para casa. Mas Elza
juntou-se a Garrincha na festa no Botafogo.
Para Garrincha, a celebração continuaria no apartamento de Sandro
Moreyra, já de madrugada. Conseguira salvar o seu uniforme completo do
jogo final e o enfiara numa sacola azul da CBD. Entregou-o a Sandro e
pediu que, no dia seguinte, este o depositasse no altar da igreja de São
Francisco de Paula, em Petrópolis, do jeito que estava: a camisa
cheirando a suor, o calção imundo de barro, as chuteiras com tufos de
grama entre as travas e as meias rasgadas e com manchas de sangue.
Sandro trancou a sacola num armário em sua casa, para que ninguém a
roubasse, e prometeu levá-la para a igreja na manhã seguinte.
No meio da confusão, Garrincha ainda quis ter certeza:
"Mas é pra levar mesmo, viu, Sandro? Foi uma promessa que eu fiz."
"Pode deixar, Mané. Levo amanhã sem falta."
E, naturalmente, guardou-a pelo resto da vida.
Quase ao raiar do dia, Garrincha foi para Pau Grande. Mário de Moraes
levou-o no carro de O Cruzeiro para ter imagens exclusivas de mais uma
chegada apoteótica. Só que, desta vez, a cidade já queimara todos os
foguetes, bebera o estoque e desistjra de esperar. Era uma segunda vez,
o Brasil não fizera mais que sua obrigação.
Garrincha, morto de cansaço, foi recebido por Nair e encaminhou-se para
seu quarto. Pincel, Swing e outros dois ou três não identificados
estavam escarrapachados em sua cama, desmaiados.
Garrincha chamou Mário de Moraes:
"De que me adianta ser bicampeão do mundo? Olha isso aí."
Nas semanas seguintes, um Simca-Chambord azul passou a ser visto com
freqüência na garagem descoberta de uma casa na Urca.
Em fins de junho, uma semana depois da volta do Chile, o carro de
Garrincha passou sua primeira noite na garagem de Elza. Ela oferecera
uma feijoada a ele e a seus amigos de Pau Grande. À noite, ainda em meio
ao festival de paios e lingüiças e a um dilúvio de caipirinhas,
Garrincha levou Elza para um canto:
"Crioula, estou te amando."
Ela fingiu surpresa:
"Mas como? Você é casado, ama a sua mulher."
"Não, nunca amei ninguém. Tem um monte de mulheres me querendo.
Inclusive, até hoje, a Angelita Martinez. Mas eu amo é você."
Elza continuou vendendo caro:
"Ah, só pode ser a caipirinha!"
Garrincha não se deu por achado:
"Caipirinha ou não, é isso que estou te dizendo."
Elza fez então uma coisa que surpreendeu até a ela: despachou os filhos
para a casa de sua mãe no Méier e mandou os convidados embora. Quando o
último saiu, passou o cadeado na porta e os dois começaram ali mesmo, na
sala, a história mais apaixonada de suas vidas.
Ficaram trancados pelos dias seguintes, fazendo sexo três ou quatro
vezes de manhã, outras tantas de tarde e outras de noite. Quase não
dormiam. Elza ficava abismada com a capacidade de recuperação de
Garrincha: em poucos minutos, estava de pé de novo. Já nem se davam ao
trabalho de vestir-se. Elza só se cobria com um roupão para ir à porta
de manhã pegar o leite e o pão. Não atendia o telefone. Seu relativo
desinteresse inicial por ele convertera-se numa fogueira em que tudo
servia de material de combustão: sexo, carinho, admiração e uma vontade
enorme de protegê-lo.
Ela lhe beijava os pés e Garrincha suspirava:
"Eu pensava que esse amor só existisse no cinema."
"Você é louco. Não tem de ir ao Botafogo para treinar?"
"Não. Estou com um problema no joelho."
"Você já teve muitas mulheres, não é?"
Garrincha ficava sério:
"O passado não existe. O que existe é você."
Ele também estava entusiasmado - nunca vira ninguém igual a Elza.
Não era segredo para os jornalistas brasileiros durante a Copa que havia
um caso entre Garrincha e Elza Soares. A dúvida era sobre se, antes de
Garrincha, ela tivera alguma coisa com Pelé. Falava-se disso no Chile,
mas por ouvir falar - porque ninguém a vira, nem à distância,
conversando com Pelé, muito menos tendo outras intimidades. Já com
Garrincha, sobravam testemunhas. Elza fora procurá-lo em Friburgo, em
Vinha del Mar e, finalmente, dera aquele show no vestiário. Se o romance
prosseguisse no Rio, na volta da Copa, não seria surpresa. Pois
prosseguiu - mas, por causa de Garrincha, foi cuidadosamente abafado.
Durante o campeonato carioca de 1962, Garrincha continuou morando em Pau
Grande, mas só para constar. Pouco aparecia por lá. Seu principal
endereço era a casa da rua Ramon Franco, em cujas vizinhanças Milton
Banana já deixara de ser visto. Elza tinha três filhos morando com ela:
Carlinhos, de quatorze anos; Dilma, de nove; e Gilson, de sete. Todos
gostaram de Garrincha. O Botafogo estava tentando o bicampeonato e
Garrincha quase que só aparecia no clube para jogar. E isso já estava
deixando nervoso o novo vicepresidente do futebol botafoguense, o
ex-guarda-costas de Getúlio e delegado da Polícia Civil, José de
Oliveira Brandão Filho. Na verdade, ex-delegado, mas ainda com muitas
ligações na polícia e com um senso de autoridade de quem se julgava na
ativa. O temperamento do gaúcho Brandão Filho (não confundir com o
"primo pobre" do Balança mas não cai) não o tornava uma das figuras mais
populares no clube. Sua noção de hierarquia era a dos quartéis e das
delegacias - considerava os jogadores como pouco acima dos faxineiros.
Por sua causa, Paulo Amaral pedira demissão do cargo de treinador no
começo do campeonato e fora substituído por seu auxiliar Marinho
Rodrigues.
Num dos muitos treinos a que Garrincha faltou durante o primeiro turno,
Brandão Filho pegou o carro e foi armado a Pau Grande buscá-lo. Se
Garrincha se recusasse a voltar com ele, estava disposto a dar-lhe voz
de prisão. Mas não o encontrou em Pau Grande. E por uma razão simples:
Garrincha não estava lá. Estava na casa de Elza e Brandão Filho ainda
não sabia direito do caso.
Garrincha não era o único que estava faltando a seus compromissos
naquele segundo semestre de 1962. Também Elza praticamente abandonou seu
empresário Marcos Lázaro. Deixou de fazer shows fora do Rio porque
tivera pressentimentos de que "o avião ia cair". Na verdade não queria
ficar longe de Garrincha. Ia com freqüência buscá-lo no clube, à vista
dos outros jogadores. Marinho aconselhou-a a ser mais discreta. Elza
pensou bem e resolveu atendê-lo - o caso tinha tudo para transformar-se
num escândalo. Mas, pela primeira vez, era Garrincha que parecia fazer
questão de ser visto em público com uma mulher.
Marinho também chamou-o à parte:
"Olha, Mané, você não é o primeiro homem casado que tem amante. Mas, por
que não faz as coisas escondido, como todo mundo?"
"Vocês podem ser assim, Marinho, mas eu não sou. Não preciso esconder.
Ninguém tem nada com isso."
"Esse é um caso passageiro. Para que se arriscar?"
Garrincha pareceu ofendido:
"Passageiro uma brisa."
Marinho tinha razão em preocupar-se. O campeonato estava difícil para o
Botafogo. Ficara novamente sem Didi, que, na volta da Copa, pedira para
ser vendido ao Sporting Cristal do Peru, onde seria jogador e treinador.
Em seu lugar, Edson "Praça Mauá" voltara ao time. O Botafogo já estreara
perdendo (sem Garrincha) para o Campo Grande. Logo depois, em três
rodadas sucessivas, empatara com o Olaria (também sem Garrincha) e com o
Bangu e perdera para o Vasco. Em todas essas partidas, Garrincha fugira
da concentração para passar a noite com Elza.
Marinho começou a autorizar seu preparador físico, o ex-jogador Tomé, a
sair com Garrincha da concentração e levá-lo em seu carro à casa de
Elza. Tomé o deixava na Urca e ia dar uma volta. Duas horas depois,
recolhia-o dos braços de Elza e o levava de volta para o casarão da rua
Corcovado ou da avenida Niemeyer, as novas concentrações do time.
Quando um dirigente lhe perguntava se achava aquilo correto, Marinho
dava de ombros:
"É preferível o Mané ir e voltar com o Tomé do que ir de qualquer jeito
e só voltar no dia seguinte. Porque, se não der aquelas rapidinhas com a
Elza, ele não tem condição de jogar."
No meio do futebol, o caso já ficara notório. Certa tarde, Elza saía do
Banco Nacional, na avenida Rio Branco, quando o sinal fechou e um ônibus
do Vasco parou. Os jogadores a viram e a reconheceram. Vários puseram a
cabeça para fora e gritaram "Gostosa!" e outras inconveniências:
"Manda brasa, Elza! Dá uma canseira no Mané pra facilitar o nosso
bicho!"
Elza nunca contou isso a Garrincha.
O carro que Garrincha guardava na garagem de Elza já não era o Simca,
finalmente abandonado, mas o Renault-Dauphine gelo que a CBD lhe dera.
Os prémios aos jogadores pela conquista do bi custaram, mas saíram, três
meses depois da vitória. Até então Garrincha só havia ganho uma
geladeira Sheer-Look, oferecida pelo fabricante, e o mainá que Lacerda
lhe prometera. Garrincha foi buscar o mainá em palácio no dia 17 de
julho, com grande imprensa.
Ele próprio fez piada:
"Até agora, é o maior bicho que recebi."
Mais uma vez, falou-se que os jogadores ganhariam um emprego público.
Mas Garrincha logo desconsiderou a idéia:
"Pra quê? Pra tirar o lugar de alguém? E eu não vou aparecer pra
trabalhar mesmo."
O Cruzeiro mandara trazer do Chile o cachorro que entrara em campo no
jogo contra a Inglaterra, para sorteá-lo entre os jogadores brasileiros.
O "sorteio" aconteceu meio às escondidas - e Garrincha "ganhou". Ninguém
contestou o resultado. Garrincha deu-lhe o nome de Bi e o levou para Pau
Grande.
Finalmente, em setembro, a CBD reuniu os jogadores no palácio
Laranjeiras e, com a presença de Jango, entregou os prémios da Copa: 150
mil cruzeiros (equivalentes a um salário de Garrincha) e, oferecidos
pela Ford, um Dauphme para cada jogador e também para o massagista, o
roupeiro e o sapateiro. Os dirigentes foram mais bem contemplados: cada
qual ganhou um Simca ou um Alfa-Romeo.
A Copa só começou a render-lhe pequenos dividendos quando algumas
agências de propaganda solicitaram-no como modelo. Um dos anúncios que
estrelou foi o da Ducal, que mostrava um sorridente Garrincha e a frase
"GARRINCHA AVISA AOS PAPAIS: SÃO DUAS POR DIA". Parecia dúbio, mas as
"duas por dia" eram bicicletas Monark que seriam sorteadas pela Ducal a
quem comprasse suas roupas. Houve também o anúncio das alpargatas Sete
Vidas, em forma de fotonovela, explorando o fato de o craque número sete
ter sete filhas e todas usarem Sete Vidas. Era bem bolado, mas a verdade
é que, até então, suas filhas não usavam Sete Vidas ou outros sapatos -
viviam descalças. Mas, como Garrincha recebeu parte do pagamento pela
fotonovela em espécie, foi a Pau Grande e levou caixas e caixas de Sete
Vidas para elas.
Em agosto, Garrincha lembrara-se de pedir ao Botafogo o dinheiro das
luvas que lhe tinham sido acertadas em janeiro e que até então ele não
fora buscar. Meses antes, em março, o Botafogo já o avisara de que o
dinheiro continuava à sua disposição - e, mais uma vez, ele não se
mexera. Um companheiro se espantara:
"São 3 milhões de cruzeiros, Mané!"
Ele parecia tão tranqüilo quanto desinformado:
"Ué! Mas não está no Botafogo? Então está em boas mãos."
Sem dúvida. Mas o equivalente a 10 mil dólares em janeiro reduzira-se
para menos de 7 mil em agosto quando ele resolveu ir pegá-los. E,
naquele momento, o Botafogo não tinha esse dinheiro em caixa - para não
deixálo parado, usara-o para saldar compromissos e ficara sem fundos.
Garrincha achou um absurdo que o clube pagasse os outros com o seu
dinheiro. Para resolver o problema, o Botafogo teve de pedir um
empréstimo - a José Luiz Magalhães Lins, do Banco Nacional.
Magalhães Lins (Zé Luiz, como todos o chamavam) entrara na vida de
Garrincha pouco antes, na volta da Copa, através de seus amigos comuns
Armando Nogueira, Sandro Moreyra e Araújo Netto. Os três jornalistas
achavam que, com o bi, Garrincha e Nílton Santos iriam valorizar-se e
precisavam proteger seu dinheiro. Mais ainda Garrincha, cuja inocência
no assunto parecia-lhes quase criminosa. As histórias que ele próprio
lhes contava eram de arrepiar.
Logo depois da Copa da Suécia, por exemplo, Garrincha recebera um
dinheiro e o dera a Nair para guardar. Nair o escondera debaixo do
colchão das meninas e se esqueceram dele. Passado muito tempo, ao tirar
o colchão do lugar, descobriram o dinheiro. Anos de xixi infantil haviam
apodrecido o colchão e as notas. Armando, Sandro e Araújo, que viviam
empinando papagaios em bancos, acharam aquilo uma loucura. Antes que a
história se repetisse, convenceram Garrincha a recolher todo o dinheiro
que tivesse em casa e aplicá-lo em ações sob a orientação de Zé Luiz.
Garrincha topou. No dia combinado, acompanhado por dois funcionários do
Banco Nacional, foi a Pau Grande pegar o que achasse.
Encontraram dinheiro em gavetas, fruteiras, enfiado em velhos exemplares
de Miudinho e Reis do Faroeste, debaixo de outros colchões e até caído
por trás do fogão. Havia cruzeiros, libras, francos, liras, pesetas,
coroas suecas, florins holandeses, moedas de toda parte onde o Botafogo
jogara nos últimos anos, além de soles e bolivares que já tinham deixado
de valer. Havia também inúmeros cheques jamais descontados e muitos,
muitos maços de notas de dólar.
Garrincha meteu todo esse dinheiro numa caixa de sapatos, amarrou-a com
barbante e foi com os funcionários levá-lo ao banco na avenida Rio
Branco com rua do Ouvidor, onde ficava Zé Luiz. Ao adentrar o recinto,
parou o expediente - caixas, balconistas e clientes ficaram extáticos ao
vêlo ao vivo. E ninguém sabia o que ele trazia na caixa de sapatos.
Sua saudação ao ser apresentado a Zé Luiz foi a mais Garrincha possível:
"Olha aí, gente fina. Erva viva!"
Zé Luiz tinha trinta anos. Era sobrinho do governador mineiro Magalhães
Pinto e o mais jovem banqueiro brasileiro. Era também o banqueiro mais
popular entre os jornalistas, cineastas, teatrólogos e outros
profissionais cronicamente duros, a quem emprestava dinheiro com um
sorriso nos lábios. Nelson Rodrigues, Otto Lara Resende e muitos outros
eram seus amigos pessoais. Mas sua carreira de banqueiro do futebol
brasileiro estava apenas começando - e ele nem ao menos era Botafogo.
Era América.
Feitas as contas e conversões, descobriu-se que, entre salários, bichos,
prémios, doações, cachês e outros dinheiros intocados, Garrincha tinha
perto de 20 mil dólares - cerca de 200 mil dólares de 1995.
Até então, Elza não entendia como Garrincha parecia estar sempre teso.
Agora sabia por quê. Seu dinheiro vivia perdido em fruteiras ou
apodrecendo em colchões. Mesmo assim, quando ele lhe descrevia as
condições em que vivia em Pau Grande, ela se recusava a acreditar:
"Só vendo. Não é possível que seja como você conta!"
Ele garantia:
"Você vai ver. Mas, se for verdade, você fica comigo?"
"Fico, é claro. Mas você só pode estar exagerando."
Como todos, Elza acreditara na versão idealizada de Garrincha no paraíso
perdido de Pau Grande, entre pescarias, passarinhos e peladas.
Pau Grande podia ser esse paraíso - embora já não fosse tanto, com a
fulminante decadência da América Fabril -, mas a casa de Garrincha era
outra coisa. Pela sua descrição, era pior que um pardieiro.
Num domingo em que o Botafogo não iria jogar, no returno do campeonato,
ele levou Elza a Pau Grande para comer uma rabada. Para salvar a face de
sua namorada, pediu a Nílton Santos e sua mulher Abigail que fossem
juntos. Para todos os efeitos, era mais uma artista que ele levava para
conhecer sua cidade.
Nílton já fora lá uma vez sozinho, em 1960, para o enterro de seu Amaro,
e outra vez com Abigail, em 1961, para o batizado da filha número seis,
Maria Cecília, da qual foram padrinhos. Mas esta seria a primeira visita
oficial - na anterior, mal tinham entrado na casa. O fato de terem se
tornado comadres não aproximara Nair de Abigail.
No dia do batizado, a mulher de Nílton Santos tentara estimulá-la:
"Venha passar uma tarde comigo no Rio, comadre. Vamos ao cabeleireiro ou
fazer umas compras."
Mas Nair nunca aparecera. Ou, se estivera no Rio, não a procurara. Léa,
mulher de Sandro Moreyra, já advertira Abigail quanto ao primarismo de
Nair. Havia tempos Garrincha fora à casa dela e se encantara com um
fogão que Sandro acabara de comprar: um Brastemp Conquistador, cheio de
relógios e mostradores, com um forno gigante próprio para assados - a
última palavra em fogão. Garrincha anotara a marca e o modelo e comprara
um igual para Nair. Semanas depois, contou a Léa o uso que Nair fazia do
fogão: secar os Sete Vidas enlameados das meninas. A comida continuava a
ser feita no fogão velho.
Abigail contou tudo isso a Elza a caminho de Pau Grande. Mas ela
continuava preferindo não acreditar. Quando chegaram, constatou: a
realidade era muito pior.
Nair os recebeu de bobs no cabelo (foi lá dentro e cobriu com um lenço)
e com forte hálito de álcool. Sua bebida era a cerveja. Estava longe de
ser bonita. Sua prótese era malfeita, de material barato, com gengivas
amarelas. As meninas também eram uma lástima. A escadinha ia de um a
nove anos, mas todas se vestiam de molambos. Algumas estavam só de
calcinha e várias tinham o nariz escorrendo. A imundície da casa
horrorizou Elza. Havia objetos que pareciam caídos há meses no chão. As
camas davam a impressão de não ser feitas nunca. Os colchões listrados,
rotos e com mau cheiro, não tinham nada por cima. Sapatos e chinelos
eram atirados para baixo das camas, mas os exalantes urinóis estavam à
vista.
O banheiro, de cerca de quatro metros quadrados, era entulhado de
gaiolas, além do poleiro do papagaio. O chão era um tapete de alpiste e
cocô de passarinho. A pia era coberta de limo. O vaso não tinha tábua.
Elza não entendia como Garrincha, tão cuidadoso e asseado, conseguia
tolerar a vida num chiqueiro. Na casa dela, na Urca, ele tomava até
quatro banhos por dia.
Havia realmente duas geladeiras, uma na sala, outra na cozinha, mas
nenhuma das duas continha frutas ou verduras, só cervejas e batidas.
Garrincha disse a Elza que costumava encontrar restos de sanduíche nas
gavetas da cómoda. Os famosos fogões também estavam lá, ambos com um
dedo de gordura na superfície.
A sala não era melhor. Flâmulas nas paredes e troféus na cristaleira,
como na casa de muitos jogadores, só que com uma camada de pó. Fotos de
cantoras, recortadas de revistas, algumas em porta-retratos. Um póster
do Botafogo de 1953, tirado do Esporte Ilustrado, e um retrato de
Garrincha numa moldura oval. Um horrendo sofá de onça. A gaiola com o
mainá exposta na sala, como um monumento, em cima da máquina de costura.
Mas, pior que a falta de asseio, era o clima de fuzarca dentro de casa.
Era um entra-e-sai ininterrupto de gente. Todos pareciam íntimos: iam
direto às geladeiras e voltavam com um copo ou uma garrafa na mão. A
população de cunhados e agregados daria para encher um estádio de porte
médio. A eletrola tocava Emilinha Borba mais alto do que se Emilinha
estivesse ali em pessoa - Garrincha trocou o disco por um 45 rpm de
Elza. Seu amigo Pincel, quase inconsciente, urinava-se no sofá zebrado.
Nílton Santos e Abigail contemplavam aquele espetáculo com horror. Para
Elza, que viera da favela e conhecera a legítima pobreza, continuava
sendo incrível.
"Não acredito que isto seja assim o tempo todo", disse baixo a
Garrincha.
"Costuma ser pior", ele respondeu. "Ontem, para a vinda de vocês, matei
as baratas da casa. Enchi uma caixa de sapato."
Garrincha contou-lhe que, quando chegava em casa à noite, vindo do
Botafogo, Nair já estava dormindo e ele próprio tinha de esquentar seu
jantar. Quase sempre só havia feijão e algumas bananas. Comia na própria
panela, porque os pratos estavam todos empilhados no tanque, com restos
de comida.
Na hora do almoço, a mesa foi posta e Elza teve nojo dos pratos,
talheres e guardanapos. De algum lugar surgiu a rabada que Nair mandara
fazer. Um homem com o aspecto mais bronco possível arrotou em estéreo às
suas costas. Elza olhou para a rabada e teve de controlar-se para não
vomitar.
Elza presenciara apenas o que outros visitantes de Pau Grande já tinham
visto - mas nunca tiveram coragem de contar. Era preciso manter intacto
o mito de Garrincha. Pois, agora, o mito acabava de desfazer-se. O maior
jogador do mundo de 1962 vivia como se fosse o mais medíocre e obscuro
reserva de um time miserável.
Na volta para o Rio, Elza teve pena de Nair. Talvez não fosse culpa sua
se era uma primária. Não sabia fazer nada, só filhas. Quem cuidava da
casa, da melhor maneira que podia, era sua mãe, dona Geraldina. De
repente, Elza achou que seu caso com Garrincha podia ser até pecado. Mas
Garrincha dizia-lhe que aquele casamento nunca existira: casara porque
fora obrigado a casar. De qualquer maneira, já estava terminado e havia
anos que não eram marido e mulher - sem explicar como fazia quase uma
filha por ano em Nair.
E como, para surpresa de Elza, ainda faria mais uma: em outubro, Nair
descobriria que estava grávida de novo.
Ao contrário do campeonato de 1961, em que pôs seis pontos à frente dos
vice-líderes, desta vez era o Botafogo que estava sete pontos atrás do
Flamengo, com o campeonato já no segundo turno. Os botafoguenses viviam
irritados e começaram a circular vagos rumores na "Candinha" da Revista
do Rádio a respeito de Elza e Garrincha. Como se já não fosse tarde
demais, Garrincha passou a negar esses rumores dizendo que eram apenas
compadres. Mas, quando os repórteres iam perguntar a Elza, ela não
confirmava nem desmentia. Convencera-se intimamente de que seu caso com
ele não era pecado e que viera ao mundo para salvar Garrincha.
Estava começando por abrir-lhe os olhos quanto ao que o Botafogo lhe
pagava:
"Você não sabe se dar valor, Neném" - era como Elza já o chamava. "Deixa
de ser trouxa. Você não pode ganhar menos que o Pelé."
"Mas, Crioula" - era como ele também passara a chamá-la -, "lá no
Botafogo até o Nílton Santos assina contrato em branco. Eles escrevem o
que eles querem."
A questão salarial no Botafogo se tornara incendiária no segundo
semestre. A conquista do bicampeonato mundial alertara os jogadores para
o seu valor de mercado. Os clubes cobravam caro para exibi-los, mas não
lhes pagavam salários correspondentes. O primeiro a estrilar no Botafogo
fora Amarildo. Renovara seu contrato em bases milionárias e se tornara o
maior salário do clube. Ganhava agora 150 mil cruzeiros (o mesmo que
Garrincha), mas suas luvas tinham sido de 10 milhões de cruzeiros - 22
mil dólares. Mais do triplo que as dele.
Garrincha foi queixar-se a Nílton Santos:
"Você acha justo, Nílton, eu ganhar menos que o Amarildo?"
Mas Nílton Santos também estava insatisfeito, para não falar em Zagalo.
Quando Zagalo foi pedir reajuste, o Botafogo respondeu com o argumento:
"Ah, mas nem o Garrincha ganha isto!"
Zagalo rebateu:
"Eu não sou responsável pelos maus contratos do Garrincha. Só quero o
que acho justo."
O Botafogo estava usando Nílton Santos contra Garrincha e Garrincha
contra o resto. Nílton e Zagalo tiveram seus reajustes, mas o caso de
Garrincha continuava num impasse. Embora seu contrato, assinado no
começo do ano, vigorasse até janeiro de 1965, ele queria também os 10
milhões de Amarildo. Brandão Filho respondeu que nem pensar. O que o
Botafogo poderia fazer era dar-lhe um apartamento, a título de
compensação.
Garrincha aceitou o apartamento - um quarto-e-sala na rua Barata
Ribeiro, na altura da rua Duvivier -, mas não se sentiu compensado. O
apartamentinho não chegava para cobrir a enorme diferença entre o seu
salário e o de Amarildo.
Com seus cinco campeões do mundo, o Botafogo cobrava agora de 15 a 20
mil dólares líquidos por partida no exterior - mas a única atração
obrigatória era Garrincha. O clube teve uma amostra disso em agosto,
quando pediu uma semana de licença do campeonato carioca e foi disputar
três partidas em Bogotá e Cali. As manchetes dos jornais diziam
"GARRINCHA EM BOGOTÁ!" - não o Botafogo em Bogotá.
E, nas excursões, Garrincha fazia por merecer cada centavo dos milhões
que o Botafogo estava cobrando para jogar. Nesta miniexcursão, o
Botafogo derrotou o célebre Milionários de Bogotá por 6X5 e os que
assistiram à partida garantem que, aquela, sim, é que fora a maior
exibição de Garrincha. Nunca se vira nada igual a seu baile em Gambetta,
o grande lateral argentino conhecido como "El Campin".
Um lance dessa partida ficou célebre. Numa disputa de bola junto a linha
lateral, Garrincha driblou seguidamente Gambetta. Este caía, se
levantava e caía de novo a cada drible. Seria driblado até morrer, mas
não desistiria. Em pleno combate, os dois saíram sem querer pela lateral
e os dribles continuaram na grama ao lado do campo. O juiz e o
bandeirinha podem ter visto, mas não ousaram interromper a beleza do
lance - dois grandes homens no mano- a-mano por uma bola. Ali estava a
quintessência do futebol. A jogada só foi paralisada quando Garrincha e
Gambetta já estavam na pista de carvão. Os dois foram tirados do seu
transe mágico pelo apito do juiz. Gambetta não voltou para o campo -
substituiu-se.
Nos gramados domésticos, no entanto, a situação era bem diferente. O
Botafogo continuava mal no campeonato carioca. Na derrota para o
Madureira por 1 x 0, Garrincha deixou uma bola escapar pela lateral e
foi vaiado pela torcida botafoguense. Dias depois, num empate contra o
Vasco, pediu a Marinho para não voltar para o segundo tempo:
"Se ninguém me passa a bola, o que eu estou fazendo em campo?"
Não foi atendido. E nem por isso lhe passaram mais bolas.
Simultaneamente ao campeonato carioca, o Botafogo estava disputando a
taça Brasil. Na partida contra o Internacional de Porto Alegre, o
zagueiro gaúcho Cláudio tomou-lhe a bola, deu-lhe uma série de dribles,
o último dos quais de letra, e, com a maior autoridade deste mundo,
despachou a jogada para a frente.
Todos esses jogos foram no decorrer de uma semana. A torcida organizada
do Botafogo, chefiada pelo musculoso Octacílio Batista do Nascimento,
"Tarzan", começara a marcá-lo na pinta. O que ele fizera pelo Brasil
apenas quatro meses antes já parecia esquecido. "Tarzan", íntimo do
clube, sabia de seu caso com Elza Soares e das regalias que Marinho lhe
estava dando para encontrar-se com ela. Mas talvez não soubesse que,
apesar de estar jogando duas vezes por semana, o joelho de Garrincha já
o vinha mortificando.
Em outubro Garrincha consultou José Luiz Magalhães Lins para saber se os
rendimentos do dinheiro que este lhe pusera em aplicações chegavam aos
150 mil cruzeiros que o Botafogo lhe pagava. Se chegassem, estava
disposto a largar o futebol. Zé Luiz desaconselhou-o. Garrincha era
impaciente como investidor, não deixava suas aplicações quietas - vivia
mandando vender ações e indo ao banco para sacar. E o uso que dava ao
dinheiro nem sempre era dos mais sábios. Provou isso mais uma vez em
novembro, quando trocou o Dauphine e o antigo Simca por um Karmann Ghia
azul. E ainda teve de entrar com dinheiro.
O Botafogo reagiu mal ao Karmann Ghia. Parecia um abuso para quem vivia
tão ausente do clube e jogando mal. Como se fosse o primeiro de sua
vida, Garrincha justificou-se dizendo que precisava de um carro. Não
suportava mais submeter-se aos horários dos trens para Raiz da Serra ou
não poder tirar uma pestana durante a viagem - os outros passageiros não
deixavam. Disse também que usava o carro para passear com as filhas em
Pau Grande. Esse argumento provocou risadas no Botafogo. Se quisesse
passear com suas sete filhas, por que não ficara com o Simca ou com o
Dauphine? O Karmann Ghia era um dois-lugares, só dava para ele e Elza
Soares.
Uma única mulher além de Elza chegou a dar algumas voltas no Karmann
Ghia: Iraci. Na última vez, Garrincha levou-a ao Bar dos Pescadores para
fazer-lhe a comunicação final:
"Amor, desta vez o bicho está pegando. Por causa da Crioula, eu vou
abandonar tudo e todos."
Iraci já suspeitava disso. Mas ainda tentou agarrar-se à última bóia:
"E eu, Garrincha? E os nossos filhos?"
Ele foi frio:
"Eu, se fosse vocês, voltava pra Pau Grande."
O apartamento da rua Gomes Carneiro foi devolvido ao proprietário no dia
22 de novembro e Iraci marchou para Pau Grande, levando seus filhos e
nenhuma perspectiva. Não podia sequer acusar Elza de ter manipulado
Garrincha para mandá-la embora - porque Elza não sabia a seu respeito.
Aquele mês, Elza fez uma temporada na boate Au Bon Gourmet, acompanhada
por Baden Powell e Os Cariocas. O Bon Gourmet, na rua Barata Ribeiro,
era o lugar da moda no Rio. Em agosto, levara um show que ficara
quarenta noites em cartaz estrelando nada menos que João Gilberto, Tom
Jobim, Vinicius de Moraes e Os Cariocas - o baterista fora seu ex-
namorado Milton Banana. Elza era uma cantora popular. Apresentar-se no
Bon Gourmet era um sinal de que seu status estava subindo.
Garrincha deixava Elza todas as noites no Bon Gourmet. Mas não assistia
ao show, nem entrava na boate. Ficava esperando-a terminar para levá-la
de volta e, enquanto esperava, podia ser visto tomando conhaque num
botequim da praça do Lido. Eram três horas de espera - tempo de sobra
para abater uma garrafa de conhaque Três Coroas.
O problema de seu salário continuava sem solução. Para os homens do
Botafogo, a culpada era Elza - era ela que lhe estava pondo minhocas na
cabeça. A princípio, acharam que seria uma história boba corno a de
Angelita Martinez, que já lhes causara aborrecimentos suficientes.
Surpreenderam-se ao descobrir que Elza não era Angelita - longe disso.
E, quando o Botafogo percebeu, faltaram-lhe homens hábeis para resolver
o caso.
Brandão Filho mandou um carro buscar Elza em sua casa e trazê-la ao
Botafogo. Não a convidou - intimou-a. Quando ela chegou à sede, levou-a
para uma sala fechada e deu um tapa na mesa: "Quanto você quer para
largar esse vagabundo?" Elza respondeu com uma frase que parecia saída
de um samba-canção: "Não se pode comprar o amor, doutor Brandão."
Brandão foi grosseiro e agressivo, como era seu estilo, mas deixou-a ir
com uma única ameaça:
"Você vai voltar pró morro." Elza escondeu mais este episódio de
Garrincha.
De qualquer forma, Garrincha não estava em boa posição para negociar
salários. Nas poucas vezes em que ia a Pau Grande, não voltava no dia
marcado para a concentração. Sandro Moreyra então arrebanhava Nílton
Santos e iam os dois buscá-lo. Encontravam-no sempre embriagado.
Ao chegar ao Rio, Garrincha tinha de ser mantido longe do Botafogo por
mais algumas horas. Paravam no apartamento de Sandro e este o punha
debaixo do chuveiro. Enquanto isto, Léa, sua mulher, fazia café forte.
Enfiavam o café para dentro de Garrincha e esperavam que ele se
recuperasse antes de ir com Nílton Santos para o clube.
A filha de Sandro,
 Léa, então com oito anos, não entendia por que seu pai vivia levando
Garrincha para tomar banho.
Tudo isso acontecia ainda longe das vistas da imprensa. O público sabia
apenas que Garrincha estava brigando por dinheiro com o Botafogo às
vésperas de um final de campeonato em que voltara a disputar o título. O
Flamengo perdera vários jogos e a diferença de pontos entre eles se
reduzira.
Na última rodada do campeonato, o Botafogo estava apenas um ponto atrás
do Flamengo, com quem jogaria no sábado. O Botafogo só seria bi com uma
vitória - e Garrincha sumira do clube. Deixara avisado que não jogaria
se não o reajustassem.
Para Brandão Filho, a exigência de Garrincha era intolerável. O grau de
irritação da torcida organizada estava também chegando a níveis
perigosos. Na noite de quarta-feira, a casa de Elza foi atacada. Não
chegou a ser a "Noite dos cristais", mas um grupo concentrou-se à sua
porta para insultála e jogar pedras. Como sabiam que Elza torcia pelo
Flamengo, os insultos falavam também numa conspiração rubro-negra contra
Garrincha. Elza chamou a polícia. Quando esta chegou, o grupo já fora
embora.
Aquela noite Garrincha não estava na Urca, mas em Pau Grande. No dia
seguinte, Marinho e Tomé foram lá buscá-lo. Ainda estava sóbrio.
Convenceram-no a voltar ao Rio, ir para a concentração, jogar tudo o que
soubesse e só depois, se o Botafogo fosse campeão, negociar com os
homens. Garrincha aceitou.
Apareceu em grande estilo no treino e prometeu que iria "acabar com o
jogo". Mas, à tarde, pediu a Marinho para passar a noite com Elza - ela
tivera uns aborrecimentos na véspera, não estava se sentindo bem.
Prometeu voltar de manhã cedinho. O treinador teve que concordar.
Garrincha chegou à Urca aquela noite de quinta-feira e disse a Elza:
"Crioula, nós vamos fazer muito amorzinho esta noite."
"Mas, Neném, o jogo é sábado!"
"Faz de conta que é um aquecimento para a decisão. Me trata bem que eu
vou acabar com o Flamengo."
Elza perdeu a conta das vezes em que tiveram relações aquela madrugada.
Na sexta de manhã, deixou-o na porta do Botafogo. No sábado à tarde,
Garrincha, como prometera, acabou com o Flamengo e o Botafogo foi
bicampeão carioca.
Jogou pelos onze e, na segunda-feira, o rubro-negro Otelo Caçador, em
sua página de humor "Penalty", no Globo, faria justiça à sua atuação com
uma fotomontagem: o Botafogo com onze Garrinchas.
Quando o jogo terminou, com a vitória do Botafogo por 3X0, os torcedores
o carregaram em seus pescoços. Voltara a ser o herói, o deus, o bezerro
de ouro. Mas, para Garrincha, aqueles que agora o bajulavam e lhe
prometiam o céu podiam ser os mesmos que o tinham vaiado, conspirado
contra ele ou até apedrejado a casa de Elza. Deixou-se carregar, mas não
quis saber de muita conversa. Além disso, seu joelho estava doendo. Saiu
do Maracanã e não foi para a festa do bi na sede do Botafogo. No dia
seguinte os jornais diriam que ele fizera a promessa de ir uniformizado
para Pau Grande se o Botafogo fosse campeão. Nada podia estar mais longe
da verdade. Saíra realmente de uniforme, mas para a casa de Elza, onde
se esconderia pelos dias seguintes.
Com toda a mágoa que o roía, Garrincha destruíra quase sozinho o
Flamengo naquela decisão. O treinador rubro-negro Flávio Costa imaginara
ter armado um esquema infalível para neutralizá-lo. Tirara Joel (o Joel
da Copa de 1958, que, agora na ponta esquerda, vinha sendo um dos
artilheiros do Flamengo) e escalara Gerson em seu lugar. Gerson, aos 21
anos, ainda não se tornara o "Canhotinha de ouro" da seleção, mas já era
um craque - na sua real posição, a meia. Flávio Costa deslocara-o para a
ponta, com a missão de marcar Garrincha. Se este o driblasse, teria de
haver-se com Jordan. E, atrás de Jordan, haveria o quarto-zagueiro
Vanderlei. Mas Garrincha não tomou conhecimento de nenhum dos três.
Driblou-os o quanto quis.
A vibração de Garrincha ao marcar o primeiro gol não era condizente com
o drama que estava vivendo no Botafogo. Fulminou o goleiro Fernando,
saltou sobre os fotógrafos e saiu correndo por trás da baliza, gritando:
"Gol! Gol! Gol! Vamos marcar outro!"
No segundo gol, chutou à meta e o apavorado Vanderlei desviou de cabeça,
marcando contra. No segundo tempo, Garrincha fez o terceiro e acabou de
matar o Flamengo. A cada gol, o árbitro Armando Marques, em vez de
correr para o centro do campo, ia buscar a bola dentro da baliza. Por
alguns segundos, as duas torcidas ficavam na dúvida se o gol valera ou
não. Foi a forma que Armando Marques encontrou para esfriar o jogo e
impedir que a minoria botafoguense fosse trucidada nas arquibancadas
pela massa do Flamengo.
Mas, no gramado, Garrincha não estava preocupado com isso. Estava
jogando por ele, não pelo Botafogo. A estrela solitária era ele, não o
clube. A partir do terceiro gol, começou a fazer o que mais gostava - e
que nunca mais conseguiria fazer: brincar de jogar futebol.
Davam-lhe a bola e ele desafiava seu velho amigo Jordan:
"Vem, Jordan! Vem me pegar".
Não era mais uma decisão de campeonato. Era uma pelada, uma brincadeira,
como as brincadeiras entre amigos em Pau Grande ou - se ele soubesse -
numa aldeia fulniô.
Por uma superstição recém-adquirida pelo roupeiro Aluísio, o Botafogo
disputara aquele campeonato com camisas de mangas compridas. E, já havia
algum tempo, Garrincha vinha usando o cós do suporte Big dobrado por
cima do calção. Nílton Santos fizera o mesmo e outros jogadores os
imitaram. As mangas compridas e o suporte aparente seriam a marca do
Botafogo em 1962. Até o "Manequinho" (o chafariz do Mourisco em forma de
uma estátua de criança) seria vestido assim no dia seguinte. No futuro,
quando os botafoguenses se lembrassem de Garrincha, aqueles dois
detalhes seriam definitivos.
Talvez porque fossem isso mesmo: finais, derradeiros, definitivos.
Ninguém podia adivinhar - nem ele, nem os 146287 torcedores no Maracanã
- que aquele Botafogo x Flamengo de 15 de dezembro de 1962 seria, de
certa maneira, a última partida de Garrincha.

Capítulo 14

Garrincha sai de casa

1963

FOGO NO CORAÇÃO

O Natal de 1962 foi o último de Garrincha em Pau Grande com Nair e as
filhas. E, mesmo assim, Garrincha só o passou em família por insistência
de Elza. O clássico Vai Que É Mole x Real Madrid  daquele ano também
seria o último. O Vai Que É Mole ganhou por 2X1, com um gol ilegal de
Garrincha (batendo um tiro de meta), e ficou com o leitão e os
engradados  de pinga e cerveja. Depois do jogo, Garrincha desceu para o
Rio. Seria também a última vez que  sairia de Pau Grande relativamente
em paz. Pelos vinte anos seguintes, todas as suas visitas à Cidade
seriam dolorosas, malvistas ou rechaçadas.
O Botafogo partiria no dia 11 de janeiro para a habitual excursão de
Carnaval pela América do Sul.  Garrincha ficara vinte dias sem ir ao
clube. Quando se apresentou para a excursão, o médico Lídio  Toledo
examinou-o e concluiu que ele não tinha condições de viajar. Seu joelho
estava muito mais  inchado que de costume.
Garrincha tivera esse problema, em menor escala, ao fim de várias
partidas do campeonato carioca. Mas o intervalo entre um jogo e outro
fora suficiente para fazer o joelho desinchar. Seu sacrifício começava a
ficar evidente. No jogo contra o Internacional de Porto Alegre  pela
taça Brasil, em que levara o drible de Cláudio, só entrara em campo
porque, dois dias  antes, o doutor Nova Monteiro lhe fizera uma punção -
uma drenagem do líquido sinovial  no joelho. Na verdade, e por incrível
que pareça, seu joelho já começara a incomodá-lo  durante a Copa do
Chile. Tanto que, na volta da seleção, fora examinado a pedido da CBD
no hospital Central dos Acidentados, na rua do Resende, pelo dr. Mário
Jorge de Carvalho,  ex-ortopedista de Getúlio. E, a exemplo de Nova
Monteiro três anos antes, Mário Jorge lhe  recomendara operar os
meniscos. Mas Garrincha, mais uma vez, não tomara conhecimento.
Garrincha tinha artrose do joelho - um desgaste da articulação entre o
fémur e a tíbia, uma  espécie de cárie. Numa pessoa que só usasse as
pernas para subir no bonde, o processo de  desgaste levaria décadas.
Mesmo em atletas, costuma ser uma lenta degeneração e, quando  esta se
acentua, o jogador já está em idade de encerrar a carreira e tornar-se
motorista de  táxi. Mas a artrose de Garrincha estava evoluindo depressa
demais, por sua deformidade  congénita nas pernas. Todas as vezes em que
deliciava o Maracanã com a sua jogada de  frear na corrida e girar o
corpo para enganar o adversário, os dois ossos funcionavam como  uma
moenda, estilhaçando a cartilagem entre eles - os meniscos.
Lesados, os meniscos tornam-se um corpo estranho: inflamam, provocam uma
superprodução de líquido sinovial e formam o popular "joelho d'água". O
nome técnico  para esse derrame é sinovite. O joelho incha e a dor pode
ser alucinante. Era o que estava  acontecendo a Garrincha. O destino
fora satânico ao cronometrar o desgaste da sua  articulação: esperara-o
dar o bicampeonato do mundo ao Brasil e o bicampeonato carioca ao
Botafogo antes de fazer esse desgaste chegar ao ponto crítico.
Lídio Toledo comunicou ao Botafogo que, já que não se submetia à
operação, Garrincha  precisaria de repouso e ultra-som, seguido de
fisioterapia para reforçar o quadríceps - o  músculo da coxa de que o
joelho depende para suportar o peso do corpo. Com ou sem a  operação,
teria de ficar no Rio. Mas o Botafogo já assinara os contratos com o
empresário  uruguaio Severo Maresca para nove jogos no Uruguai, Equador,
Colômbia, Peru e Chile. O  cache na América do Sul era de doze mil
dólares por partida, desde que com a presença de  Garrincha. Sem ele, a
cota caía para oito mil.
Em todos os clubes, os contratos para as excursões eram assinados nos
gabinetes  refrigerados da diretoria, sem consulta ao departamento
técnico e menos ainda ao  departamento médico. Longe, portanto, da
realidade dos vestiários. Na euforia da comemoração do título contra o
Flamengo, ninguém atentara para a pequena inchação no joelho direito de
Garrincha ao fim do jogo. Um amistoso entre as seleções carioca e
paulista quatro dias depois e a pelada de Natal que jogara em Pau Grande
contribuíram para piorar o derrame.
Garrincha embarcou com o Botafogo no dia 11 de janeiro sem ter sequer o
problema do salário resolvido. Queria que seu contrato de três anos, dos
quais já cumprira um, fosse refeito. Renato Estelita, novamente diretor
de futebol do clube, prometeu-lhe que tudo se  resolveria na volta da
excursão. Não afirmou que o Botafogo concordaria com a sua  exigência -
mas Garrincha entendeu assim.
Não fosse o joelho e o impasse no contrato, Garrincha teria outro motivo
para ficar no Rio:  Elza. Mas Elza também estava de partida para uma
temporada com Os Cariocas em Buenos  Aires, na boate 706, na rua
Tucumán. Logo, ele não teria o que fazer por aqui. E, na  qualidade de
estrela da companhia, Garrincha gozava de pequenos privilégios nas
excursões.  Era o único a poder ignorar os horários de café da manhã ou
de almoço sem ser repreendido  pelo chefe da delegação ou pelos colegas.
Além disso, os empresários davam-lhe um prémio  extra por partida -
geralmente o dobro do bicho de cinqüenta dólares pago pelo Botafogo.
O chefe da delegação era o próprio médico Lídio Toledo, que
desaconselhara a sua ida.  Garrincha jogou sete das nove partidas e, em
várias delas, teve de ser substituído no  segundo tempo. Mesmo assim,
mais de uma vez teve de submeter-se a punções para retirada  do líquido
e ficar em repouso, de molho no hotel, enquanto os companheiros saíam
para a  farra. Não que isso parecesse incomodá-lo. A primeira coisa que
fazia ao chegar a cada  hotel era espetar uma foto de Elza na cabeceira
da cama e pôr os seus discos para tocar na  vitrolinha. Os discos podiam
ser coisas alegres como "Estatuto de gafieira" ou "Rosa  morena", mas o
semblante de Garrincha ao escutá-los era o de quem ouvia um cantochão -
estava doente de saudade.
Lídio levou-o a sessões de fisioterapia em clínicas de quatro cidades:
Cali, Medellin, Bogotá  e Lima. Um dos jogos, contra o Deportivo de
Medellin, seria no dia 23 de janeiro. Como  Garrincha mal pudesse
caminhar, os dirigentes locais simplesmente adiaram o jogo para o  dia
seguinte, para têlo em campo. Vinte e quatro horas depois, seu joelho
continuava com  derrame. Não deveria nem ter ido ao estádio - mas, por
pressão do presidente do  Deportivo sobre Lídio Toledo, teve de entrar
em campo. Agüentou quinze minutos, até que  Lídio mandou Marinho
substituí-lo.
Para Garrincha, estava apenas começando o calvário que se estenderia
pelo resto de sua  carreira: a impossibilidade de atuar em duas partidas
seguidas de seu time. Recuperou-se  para enfrentar o Milionários em
Bogotá,
no dia 27, mas, três dias depois, já não pôde jogar contra o River Plate
da Argentina, também em Bogotá. Voltou contra o Sporting Cristal em
Lima, no dia 4 de fevereiro, mas foi vetado para o jogo contra o
Colo-Colo em Santiago, no dia 6. A cada partida que ficava  de fora
sofria duplamente: por não jogar e por não receber o bicho em dobro do
empresário.  Para se calcular o que aqueles cem dólares representavam em
1962, basta saber que a diária  (não o bicho) que o Botafogo estava
pagando a seus jogadores naquela excursão era de dois  dólares.
Garrincha achava tolamente que, se não jogasse, o Botafogo podia pensar
que ele estava  encostando o corpo e usar isso para não cumprir o acerto
que fizera com ele antes do  embarque. No último jogo da excursão,
contra
 o Penharol em Montevidéu, no dia 9 de fevereiro, Lídio Toledo vetou-o
de novo, mas Garrincha insistiu em jogar. Mostrou a Lídio o joelho
desinchado e forçou sua escalação:
"Se eu não for escalado, doutor, o Botafogo vai ficar com doze jogadores
porque eu vou entrar de qualquer jeito."
Jogou (mal), o Botafogo perdeu para o Penharol por 1X0 e ele saiu de
campo como se tivesse uma vespa viva dentro do joelho direito.
Nair, no quinto mês de gravidez, passara aquele tempo reformando a casa
para "a volta de  Manuel". Mandara até caiar as paredes. Mas Garrincha,
ao voltar para o Rio em meados de  fevereiro, não foi para Pau Grande.
Seguiu direto do aeroporto para a casa de Elza, que já  chegara de
Buenos Aires.
Foi um reencontro de cinema, com beijos e rodopios no ar, mas a alegria
durou pouco.  Milton Banana estivera com Elza em Buenos Aires - acabara
de fazer uma temporada com  João Gilberto na mesma boate 706. João
Gilberto fora para Nova York e Banana ainda  ficara ali por alguns dias.
Elza contou isso despreocupadamente a Garrincha e ele não  gostou de
saber. Já os imaginou de mãos dadas em Caminito ao som de bandoneons -
ou  coisa pior. Elza estava sendo apresentada a uma característica de
Garrincha que ela não  conhecia: um ciúme pior que o dos tangos. A crise
durou horas e terminou como muitas  outras que eles ainda teriam: no
quarto.
Alguém leu nos jornais e foi contar a Nair que o Botafogo já chegara ao
Rio. Então por que  Garrincha não voltava para casa? Nair viu naquilo a
confirmação do que já vinha  suspeitando e temendo: Garrincha estava
tendo um caso com "aquela sujeita" - Elza, como  passara a chamá-la.
Nas semanas seguintes, ele foi a Pau Grande apenas duas vezes. Não por
Nair, mas para  rodar algumas cenas de um filme que o produtor Luiz
Carlos Barreto estava fazendo a seu  respeito. Numa dessas, aproveitou
para deixar dinheiro com ela. Mas não ficou para dormir em casa. Quando
Nair o interpelou sobre Elza, não quis conversa e voltou para o Rio.
O filme seria Garrincha, alegria do povo. Barreto sabia o que se passava
entre Garrincha e  Elza. Mas achou melhor ignorar o assunto no filme. E,
para não correr riscos, reduziu  também a presença de Nair a quase zero.
Já bastavam os problemas que vinha tendo com  Garrincha: Barreto marcava
dia e hora com ele em Pau Grande, deslocava-se para lá com  equipe,
câmaras e refletores, e Garrincha não aparecia. Nas duas vezes em que
conseguiram  filmar, foram feitas as cenas em que Garrincha aparece
dançando twist com as filhas e  tomando guaraná com Pincel e Swing no
bar de Dódi. Mas, para Barreto, que queria fazer  cinema-verdade, tais
cenas já começavam a parecer-lhe faz-de-conta. A vida real estava
atropelando o roteiro.
Por aqueles dias, Elza internou-se na clínica Pio XII, em Botafogo, para
uma pequena cirurgia - uma plástica. Garrincha foi acompanhá-la e, na
clínica, conheceu o doutor Nelson Senise, reumatologista de Jango e
torcedor do Bangu. Garrincha queixou-se das  dores no joelho e pediu a
Senise que o examinasse sem compromisso.
Senise observou o derrame, tirou uma radiografia e precisou rever seus
manuais para  descobrir como um homem naquele estado, com a cartilagem
do joelho tão comprometida,  ainda podia jogar futebol. Numa segunda
visita de Garrincha, Senise fez-lhe uma punção e,  em seguida, uma
infiltração de um novo medicamento no mercado: cortisona. Disse que a
inflamação iria ceder e que ele só precisava de repouso.
Não existia essa possibilidade. O Botafogo mal descera no Galeão e já
começara a disputar  o torneio Rio-São Paulo. Garrincha estava em
tratamento, fora do time, mas, como de praxe  nesses casos, recebia
bicho integral pelas vitórias ou empates. Só que, sem ele, o Botafogo
não estava ganhando. A esperança de Marinho era que se recuperasse para
as duas partidas  contra o Santos de Pelé pelas finais da taça Brasil,
no Pacaembu e no Maracanã. O Rio-São  Paulo era um torneio menor, mas a
conquista da taça Brasil facilitava a vida do clube na  disputa da taça
Libertadores da América. O Botafogo nunca permitiria que ele ficasse de
fora. Se quisesse repousar, só havia uma saída: sumir do clube.
E, de uma maneira ou de outra, foi isso que acabou acontecendo.
Garrincha foi ao Botafogo cobrar de Renato Estelita o que entendera como
a promessa dos  dez milhões de luvas. Estelita disse que o caso ainda
estava sendo estudado pela diretoria.  Garrincha sugeriu que o Botafogo
rescindisse o seu contrato ou que o vendesse para os  clubes italianos.
Não era de hoje que eles batiam às portas do Botafogo querendo comprá-
lo. Um deles era o Roma, que oferecera um milhão de dólares pelo seu
passe depois da  decisão contra o Flamengo. O Botafogo achara pouco e
pedira dois milhões. O Roma recuara. Na Copa do Chile, um emissário do
Juventus fora a Vinha del Mar sondá-lo. Mas não chegara nem a falar em
dinheiro, porque Carlos Nascimento enxotara o homem da concentração.
Paulo Azeredo, presidente do clube há quase dez anos, estava licenciado
do cargo. O  presidente em exercício era Ney Cidade Palmeiro. Estelita
começava a achar que talvez  estivesse na hora de vender Garrincha.
Disse isso a Palmeiro e este reagiu:
"Está louco? A torcida põe fogo na sede. Garrincha é um patrimônio do
clube!"
Garrincha ficou decepcionado. Em sua maneira de ver - e depois de tudo
que já tinha feito  por ele -, o Botafogo não o vendia, nem pagava o que
lhe havia prometido. O vice- presidente Brandão Filho irritou-se com a
história de que o Botafogo devia dinheiro a  Garrincha. Chamou-o para
dizer que não lhe deviam nada e que, enquanto continuasse sem  jogar,
mesmo por estar machucado, seu bicho seria reduzido à metade.
O coração de Garrincha fez tanta água quanto seu joelho. Enxugou uma
lágrima e disse que,  já que era assim, não iria mais ao clube.
Nenhum dos dirigentes acreditou no motim de Garrincha. Como das outras
vezes, ele  recolheria as asas e voltaria atrás - era o que achavam.
Mas, desta vez, Garrincha não  voltou. Sumiu do Botafogo, de Pau Grande
e até da casa de Elza. Elza também sumiu.
Ninguém se lembraria de procurá-los na casa da mãe de Elza no Méier.
Garrincha e Elza vinham no Karmann Ghia pelo aterro do Flamengo, ouvindo
o programa  esportivo de Orlando Batista na rádio Mauá. O locutor
comentava a briga de Garrincha com  o Botafogo, que se arrastava desde
fins de fevereiro - e já estávamos em meados de março.  Sem ele no time,
o Botafogo não vencia há cinco jogos no torneio Rio-São Paulo.
Elza achou que Orlando Batista, apesar de sua bonita voz de tuba, estava
tomando o partido  do clube. Ficou furiosa. Obrigou Garrincha a dar
meia-volta e foram para os estúdios da  rádio no edifício do Ministério
do Trabalho, na avenida Presidente Antônio Carlos. O  programa já
terminara, mas Orlando Batista e sua equipe ainda estavam por ali.
Elza entrou no estúdio sapateando sobre o assoalho de tacos, indiferente
às luzes vermelhas  de "Silêncio". Garrincha, mais doce, tentou
argumentar com Orlando Batista. Disse que  estava sendo injustiçado -
que já fizera muito pelo Botafogo, inclusive jogar machucado, e  que não
tinha a recompensa adequada. Dali a dois dias o Botafogo enfrentaria o
Santos na  primeira partida pela taça Brasil, no Pacaembu, e os
jogadores já estavam em São Paulo.  Mas ele só entraria em campo se o
Botafogo lhe pusesse na mão os dez milhões de luvas. Sem falar no bicho
pelo bicampeonato, que até então não fora pago. Orlando Batista
perguntou se ele diria tudo isso de novo ao microfone.
Garrincha respondeu:
"Claro. Pois se eu falo pra todo mundo."
Os técnicos retomaram seus postos na cabine. O programa voltou ao ar e
Garrincha repetiu  suas queixas. E ainda acrescentou que, durante a
última excursão, fora abandonado pelo dr.  Lídio Toledo e que o deixavam
até sem comer. Era bombástico e era grave.
A poucos quilómetros dali, em General Severiano, orelhas sensíveis
arderam e captaram as  declarações. As de Brandão Filho ficaram em fogo
e ele nem piscou. Despachou uma  resposta geral para a imprensa
comunicando que, pelas agressões ao Botafogo naquela  entrevista,
Garrincha acabara de ser multado em sessenta por cento de seu salário e
tivera o  contrato suspenso. Se não se retratasse, o clube o encostava e
também não o vendia.
"Ou ele joga pelo Botafogo ou vai ter de jogar pelada em Pau Grande",
decretou Brandão  Filho.
A revolta contra Garrincha alastrou-se por todos os setores do clube. Um
boletim interno,  assinado apenas pelo "diretor de propaganda",
classificou-o como "moleque" e "explorador  do Botafogo". Outro
botafoguense histórico, João Lyra Filho, agora ministro do Tribunal de
Contas, pôs-se de perfil antes de declarar:
"O Botafogo é maior que Garrincha. Ele não pode ser um modelo de
indisciplina."
Os próprios jogadores, concentrados dentro do Pacaembu, em São Paulo, à
espera do jogo  contra o Santos, ficaram irritados. O caso entre
Garrincha e Elza os desgostava - não por  causa de Nair, em quem não
achavam a menor graça, mas porque, com Elza, Garrincha  sumira do clube,
não jogava, o time não vencia e os bichos tinham desaparecido. Um dos
poucos a seu favor era o ex-goleiro Adalberto, agora auxiliar de
Marinho.
Na manhã seguinte, 18 de março, Pau Grande acordou com a imprensa diante
da casa de  Garrincha. Queriam ouvi-lo sobre a reação do Botafogo. Mas,
naturalmente, Garrincha não  estava.
Nair, chorando abraçada às filhas, contou que há semanas ele não
aparecia:
"Da última vez, saiu dizendo que ia à padaria e até hoje não voltou."
Um dos repórteres, Roberto Garofalo, de O Globo, decidiu não perder a
matéria. Entrou de  novo no Fusca do jornal com seu fotógrafo Pietro
Fantappié e voltou para o Rio, direto para  o endereço onde sabia que
iria encontrá-lo: a casa de Elza na Urca. Onde, naturalmente, ele
estava.
Garrincha repetiu o que havia falado no rádio e disse que, se o Botafogo
o impedisse de jogar, iria ser treinador. Garofalo convenceu-o a voltar
com ele a Pau Grande para conversar com Nair. Para sua surpresa,
Garrincha aceitou - mas não por Nair. Tinha algo  mais importante a
fazer lá além de ver suas filhas: trazer o mainá e o cachorro Bi para o
Rio.  Não era significativo? Garrincha ficou apenas algumas horas e
voltou para a Urca com Bi e o mainá.
Na noite seguinte, o Botafogo perdeu para o Santos por 4X3. Se Garrincha
tivesse jogado, o resultado poderia ser outro. Mas não jogou e aquele
era o sexto jogo do time sem vencer.  A revolta contra ele no clube
estava chegando à histeria.
Os véus sobre Pau Grande caíram com a reportagem de O Globo. Não havia
mais o que esconder. Os jornais, que estavam tentando não dar um
tratamento escandaloso ao affair amoroso de Garrincha, foram bater à
porta de Elza. Ela não abriu. Fotógrafos treparam nas árvores e
apontaram as lentes para as janelas. Um caminhão da TV Tupi, com a
equipe de  Hilton Gomes, estacionou defronte à sua casa. Garrincha e
Elza cederam à pressão e saíram  à rua. Deixaram-se entrevistar,
fotografar e filmar junto aos canhões do forte de são João.  Agora era
público - e era o fim do sossego.
Até então, Elza vinha tentando manter-se à sombra na história. Nunca
admitira que tinha um  caso com Garrincha - embora não negasse que o
estava fazendo enxergar sua importância  dentro do Botafogo. Elza achava
um absurdo que não lhe pagassem à altura do que ele  representava para o
clube.
Falava com Garrincha como se não estivesse no meio de uma coletiva:
"Abre o verbo, Neném. Pede mesmo esses dez milhões pra renovar. Não faz
por menos.  Sem você eles não ganham dinheiro. Você tem amigos na
imprensa. Dá uma lição nessa  gente!"
Depois que a imprensa se dispersou e eles voltaram para casa, a
campainha da porta de Elza  disparou. Era Angelita Martinez aos gritos:
"Sua vaca! Eu quero esse homem de volta!"
Angelita fazia escândalo e esmurrava a porta da casa de Elza. A
vizinhança chegou às  janelas. Elza também chegou à janela. Pôs as mãos
nas cadeiras e descompôs Angelita de  volta. Angelita não se intimidou.
Elza ameaçou atirar-lhe um vaso na cabeça. Depois  ameaçou-a com a
polícia. Angelita esperneou até cansar-se e foi embora.
De um dia para o outro, a Urca mudou sua atitude quanto a Garrincha e
Elza. Até então,  viam-no freqüentemente por ali e não sabiam por quê,
mas gostavam de sua presença.  Casais pediam-lhe autógrafos, jovens mães
mostravam-lhe seus bebés para que ele lhes  beliscasse as bochechas e os
moleques que jogavam pelada na rua davam-lhe a bola para  algumas
embaixadas.  Daquele dia em diante, só os moleques não lhe viraram a
cara, mas também passaram a olhá-lo escabreados.
Na casa de Elza, o telefone não parava:
"Destruidora de lares! Não tem vergonha de tomar um homem casado e pai
de sete filhas?"
Agora, além de destruir um lar que nunca existira, Elza começava a ser
acusada de estar  com Garrincha por interesse. Muitos dos telefonemas
perguntavam com raiva:
"Por que não confessa logo que só quer o dinheiro do Garrincha?"
Mas, se havia uma coisa que Elza podia dispensar era o dinheiro de
Garrincha. Salário por  salário, ganhava pelo menos cinco vezes mais que
ele, nas TVS Rio e Tupi e na Record de  São Paulo, além da rádio Mauá -
sem contar o que cobrava pelos shows e o que recebia  pela venda de seus
discos. A música popular sempre rendera muito mais dinheiro que o
futebol, mas o público, hipnotizado pelas rendas de milhões no Maracanã,
não sabia disso. A  única maneira de Garrincha fazer sombra a Elza em
rendimentos seria se o Botafogo lhe  desse o que pedira.
Só que, depois daquelas entrevistas, o Botafogo tinha argumentos para
ficar inflexível. Era a  imagem do clube que estava em jogo. Se os
paredros não o punissem depois de tudo que  dissera, perderiam a moral.
Os amigos de Garrincha na imprensa sabiam que nunca um  jogador
conseguira derrotar um clube e decidiram que era preciso promover a
pacificação. E  a única maneira de conseguir isso era por intermédio de
um mediador respeitado e neutro -  José Luiz Magalhães Lins.
Zé Luiz aceitou o caso. Sua primeira providência foi afastar Garrincha e
Elza dofront da  guerra. Estavam sendo atacados nos programas de rádio,
Elza tivera de desligar o telefone  para não ouvir ameaças e a opinião
pública voltara-se contra Garrincha por ter abandonado  a família. A
revolta contra ambos era assustadora. Tudo isso fortalecia a posição do
Botafogo.
Zé Luiz tirou-os do Rio no dia 20 e instalou-os num sítio de seu primo
José Sílvio  Magalhães, dono da imobiliária Nova York. Ficava perto do
subúrbio de Santa Cruz, na  zona rural. Era um sítio modesto e ainda não
explorado, sem luz e sem telefone. Tinha uma  casinha de caseiro
escondida entre coqueiros, uma horta, alguns cavalos e pouco mais. A
cama era quase um catre, sem espaço para se virarem, mas eles não se
importaram -  dormiam quase dentro um do outro. Garrincha e Elza foram
para lá sem saber quando  voltariam. Seu exílio podia levar dois dias ou
uma semana. Ficariam ilhados, sem rádio,  televisão ou jornais. Sua
única companhia seria a do caseiro, e só durante o dia.
No Rio, Zé Luiz escreveu uma carta ao Botafogo em que tentava uma
solução elegante para  as duas partes. Nela, Garrincha "explicava" seu
comportamento e comprometia-se a voltar a treinar. Não se falava no
problema do contrato. Com isso, Zé Luiz julgava dar uma satisfação ao
clube e se resguardava a imagem de um  jogador bicampeão do mundo e
ídolo nacional. Os interlocutores de Zé Luiz na negociação  eram os
botafoguenses Sérgio Darcy, procurador do Banco do Brasil, e João Citro.
Mas a carta nem chegou a ser enviada. Alguns homens do Botafogo já
haviam dito pelos jornais que não abriam mão de que Garrincha se
vergasse à retratação. O mais intolerante nessa  exigência era o diretor
de esportes do clube, Otávio Pinto Guimarães - talvez porque Garrincha,
no passado, o tivesse apelidado de "Cabide" (e o apelido pegara).
Muito magro e empertigado, fumando de piteira Biro e com a mão enluvada,
Otávio Pinto  Guimarães fora taxativo:
"Estamos esperando Garrincha vir retratar-se pessoalmente. Pode vir à
hora que quiser. A  sede do Botafogo continua no mesmo lugar."
Era um cul-de-sac. Havia uma intenção de pôr Garrincha em seu lugar,
fazê-lo ver quem era  o nhonhô.
Enquanto Zé Luiz negociava no Rio, Garrincha e Elza iam ficando no
sítio. E aquela poderia ter sido uma inesperada lua-de-mel se, logo nos
primeiros dias, o estresse não provocasse um aborto em Elza - ali mesmo,
naquele ermo.
Elza estava grávida de três meses. Sem nenhum motivo aparente, além da
enorme tensão,  começou a perder sangue.
Garrincha assustou-se. Estavam sem carro e precisava levá-la correndo a
um médico. Saltou  sobre um cavalo para ir a Santa Cruz, mesmo em pêlo,
mas Elza o impediu - a hostilidade  contra eles era tão forte que
poderiam até linchá-lo.
Elza deitou-se e instruiu Garrincha a ir lá fora colher folhas de saião
e de erva-cidreira.  Mandou-o espremer o saião e fazer-lhe um suco, para
ajudar a conter a hemorragia. A erva- cidreira era para acalmá-los. Em
poucas horas, sentiu-se melhor. Mas só iria ao médico  quando voltassem
ao Rio.
Em seu escritório na avenida Rio Branco, sem saber do que se passava em
Santa Cruz, Zé  Luiz tentava uma nova aproximação com o Botafogo. Desta
vez procurou Ademar Bebiano,  que, além de grande benemérito do clube,
era também proprietário da Nova América, a  fábrica que surgira de uma
dissidência da América Fabril. Bebiano orientou-o na redação de  uma
segunda carta que, sem humilhar Garrincha, acabou satisfazendo o
Botafogo. A  suspensão e a multa seriam anuladas, Garrincha voltaria a
treinar e - o mais importante -  o Botafogo concordava em pagar-lhe os
dez miIhões de cruzeiros. Nada podia ser tão difícil quando envolvia um
empresário rico e um banqueiro que adorava emprestar dinheiro.
O Botafogo ia pegar novamente o Santos no dia 31, agora no Maracanã, e
precisava vencer  para forçar uma terceira partida pela decisão da taça
Brasil. Zé Luiz foi ao sítio dizer a  Garrincha que tudo terminara bem.
Mas, por via das dúvidas, seria conveniente que  permanecessem lá por
mais uns dias - a atmosfera contra eles nas ruas continuava  carregada.
Lídio Toledo, ainda magoado com Garrincha, foi ao sítio examiná-lo. O
joelho estava sem  derrame, ele poderia jogar. Só precisava apurar a
forma física, perder dois quilos e recuperar  a musculatura das pernas,
atrofiada pela inatividade. Adalberto passou a ir todo dia ao sítio
para exercitar Garrincha. Alguns repórteres foram admitidos e os jornais
publicaram as fotos  de Garrincha, correndo entre os coqueiros com o
macacão de lã cinza do Botafogo. Na  véspera do jogo, Garrincha e Elza
voltaram ao Rio com Adalberto e Garrincha foi direto  para a
concentração.
No dia 31, entrou em campo, pintou o diabo com a defesa santista e o
Botafogo venceu por  3X1. Haveria a terceira partida - a negra. A
torcida parecia tê-lo perdoado - mas só  parecia.
Na negra, apenas dois dias depois e de novo no Maracanã, o Santos goleou
o Botafogo por  5x0 e foi campeão da taça Brasil. Garrincha jogou muito
mal e foi vaiado com o resto do  time. O intervalo entre as partidas
fora curto demais para ele.
O Botafogo dispensou-o dos treinamentos por tempo indeterminado para que
repousasse em  casa. Deveria ir ao clube apenas para fazer os exercícios
nos aparelhos de fisioterapia. Mas a  celebração da paz com o Botafogo
não fora suficiente para maquiar as velhas e novas  cicatrizes. O
episódio fizera emergir todas as suas transgressões passadas: as fugas
da  concentração, as vezes sem conta em que faltara a treinos e
apresentações e em que tiveram  de ir buscá-lo em Pau Grande. O que
antes era visto com sincero bom humor, como se  fizesse parte de um
folclore, agora recebia outro nome: indisciplina.
Na visão de Brandão Filho e Otávio Pinto Guimarães, essa indisciplina
fora premiada  quando o Botafogo concordara em pagar-lhe luvas que em
momento algum prometera. E,  para piorar, havia o seu caso com "a
cantora", para eles indigno de um atleta do Botafogo.  Muitos dirigentes
e associados deixaram de cumprimentá-lo. Mas os piores cúmulos-nimbos
ainda estavam se formando.
Na volta do sítio, Garrincha e Elza encontraram sua caixa de correio
abarrotada de cartas  anónimas. Algumas faziam ameaças físicas; muitas
rogavam pragas contra a "destruidora de  lares"; todas eram rancorosas e
agressivas. Os filhos de Elza, que estudavam num colégio do  bairro,
começaram  a ser alvo de piadas e provocações dos colegas e até das
professoras - ela teve de transferi-los para outro, longe dali. A rádio
Tupi soltou uma série de programas humorísticos intitulado "Memórias" de
Elza Soares, escritos por Luís Fernando Quirino,  nos quais um ator
dublava a voz rouca de Elza para fins cómicos. Na rádio Guanabara, os
ouvintes ligavam para o Programa José Messias, por saber que o
apresentador era amigo de  Elza, e anunciavam que iam "matar aquela
negra". A TV Rio cogitou de Nelson Rodrigues  para escrever uma novela
sobre o caso - ele se recusou.
Não por coincidência, as rádios foram inundadas por discos recémgravados
a respeito de um  homem que abandona a família por outra mulher. O
cantor Noite Ilustrada lançou um  samba, "Volta pra casa", que era uma
referência sem disfarces ao caso Garrincha: "Volta  pra casa/ Mostra que
é campeão/ Abraça as crianças/ Ajoelha e pede perdão".
Outra condenação explícita era a de Núbia Lafayette em "Três lágrimas",
composto por  Adelino Moreira especialmente para a ocasião. Contava a
história de uma dona de casa  condenada a sustentar-se na máquina de
costura, enquanto o marido que a abandonara  esbaldava-se com a outra.
No meio da canção, uma criança dizia com voz súplice, "Volta  pra casa,
papai".
Em busca de um níquel fácil, a Odeon sugerira a Elza regravar "Eu sou a
outra", um samba  de Ricardo Galeno feito em 1953 para a cantora Carmen
Costa, que vivera um romance  público com o sambista Mirabeau, também
casado. Num grave erro de cálculo, Elza aceitara  - e agora, em abril, o
disco estava saindo na pior hora possível. A letra dizia, "Ele é
casado/ E eu sou a outra na vida dele/ Que vive qual uma brasa/ Por lhe
faltar tudo em casa./ Ele é casado/ E eu sou a outra/ Que o mundo
difama/ Que a vida ingrata maltrata/ E, sem dó, cobre de lama.// Quem me
condena/ Como se condena/ Uma mulher perdida/ Só me vê na vida dele/ Mas
não o vê na minha vida./ Não tenho nome/ Trago o coração ferido/ Mas
tenho muito mais classe/ Do que quem não soube prender o marido".
Elza quis morrer ao ouvir aquilo. Em fevereiro, quando gravara o disco,
a letra lhe parecera  inocente. De repente, depois do que acontecera,
ficara altamente ofensiva. Tentou recolher  o disco, mas ele já estava
nas ruas - e no ar. Para boa parte da população, que recriminava  seu
romance com Garrincha, a música era de um atroz deboche. Além disso
parecia tripudiar  sobre a grande vítima da história - Nair. E até os
que vinham se mantendo neutros sobre o  assunto passaram a ver em Elza o
beijo da morte. O apresentador Chacrinha, seu amigo e  colega de
televisão, quebrou o disco diante das câmaras em seu programa na TV Rio,
Discoteca do Chacrinha. As rádios também pararam de tocá-lo - suas mesas
telefónicas  estavam congestionadas de protestos por darem guarida
àquele acinte.
Uma atleta do Botafogo procurou-os para dizer que estava solidária.
Achava tudo aquilo uma injustiça, podiam contar com ela. Passou a
freqüentar a casa e, em poucos dias, ficou  íntima. Parecia sempre
pronta a ajudá-los e era de uma doçura intensa. Mas, num momento  a sós
com Elza, a atleta despetalou-se em lágrimas, tentou beijá-la à força e,
com uma  repentina voz de barítono, soluçou:
"Você é o amor da minha vida! Não posso viver sem você!"
Elza tomou um dos maiores sustos do ano. Mas recompôs-se e a expulsou de
sua casa a  bolachas, perguntando:
"Quem está te pagando pra fazer isso, sua suja?"
Em Pau Grande, o paraíso expulsava o seu último anjo. Pela primeira vez
os conterrâneos de  Garrincha puseram-se em massa contra ele. Todos os
seus casos com outras mulheres, que  as pessoas preferiram abafar quando
estavam acontecendo, foram lembrados e discutidos em  voz alta. Seu
histórico de péssimo marido e péssimo operário voltou à tona como se
fosse a  última novidade. Cada um tinha uma história para contar, como a
dar a entender que o  recente comportamento de Garrincha não o
surpreendia nem um pouco. Alguém recordou  que, num baile em Pau Grande,
em 1961, ele insistira em esguichar lança-perfume na axila das moças,
embora o lança-perfume  tivesse acabado de ser proibido pelo presidente
Jânio Quadros. E nem era Carnaval. Seu  Octaciano tivera de expulsá-lo
do baile.
Para seus conterrâneos, de repente as glórias de Garrincha passavam a
valer menos que uma  calcinha usada de Angelita Martinez.
Na rua Demócrito Seabra, Nair e as sete filhas posavam diariamente para
fotógrafos de  jornais e revistas, tendo ao fundo Garrincha no retrato
oval. O título das matérias era  invariável: "Volta, Mané!", embora Nair
nunca o chamasse por esse nome. Ela ainda tentava  poupá-lo em suas
declarações, culpando "aquela sujeita" por ter-lhe "virado a cabeça" - a
qual, num lapso, considerava "completamente oca". Uma foto de Nair e
filhas surgiu na mão  do ex-presidente e grande benemérito do Botafogo,
Luís Aranha. Ele a exibiu no programa  do comentarista esportivo José
Maria Scassa na TV Rio e exortou Garrincha a "voltar para  a família".
O Cássia Muniz Show, programa da TV Tupi, fez melhor: convidou Nair a
aparecer com as  filhas no estúdio, ao vivo, para ser entrevistada. Nair
não queria, tinha vergonha. Mas a  produção convenceu-a e foi à sua casa
apanhá-las num Gordini. Vieram, de Pau Grande ao  estúdio da Urca, o
motorista, o repórter, Nair e as sete crianças, umas por cima das
outras.
A simples entrada delas no estúdio, com as câmaras desligadas, já foi
emocionante. A  própria equipe da TV ficou abalada. Mas era tão
emocionante quanto problemático. O  aspecto de Nair e filhas era brutal
até mesmo para o sensacionalismo que a entrevista queria  provocar:
pareciam retirantes,  foragidos de Vidas secas, de Graciliano Ramos - e
a televisão brasileira de 1963 ainda não chegara ao neo-realismo. O
diretor Maurício Sherman autorizou um saque na verba do patrocinador e
despachou a produção para comprar uns vestidinhos melhores para as
meninas. Nair foi precariamente penteada e maquiada. Finalmente entraram
no ar.
O impacto era infalível: a mulher grávida, feia, pobre e com sete
filhas, trocada pelo marido  famoso por uma cantora que ela um dia
recebera em sua própria casa. Nair era quase  desarticulada, mas, quando
chorou, suas lágrimas rolaram grossas e reais. A repercussão foi  enorme
- era a primeira vez que o público via Nair na televisão - e acentuou o
estrago na  imagem de Garrincha e Elza. Ao fim do programa, Nair e as
meninas ganharam os "brindes  do patrocinador": panelas, ventiladores e
radinhos de pilha.
A dois passos dali, na própria Urca, Elza e Garrincha não assistiram ao
programa. Mas  sofreram todos os efeitos da sua repercussão. Uma
campanha de boatos entrou em ação:  rádios e jornais recebiam
telefonemas dizendo que ela matara Garrincha e em seguida se  matara, ou
vice-versa. Os repórteres corriam à sua casa para conferir. Esses mesmos
telefonemas eram dados de madrugada para a polícia e para o
pronto-socorro sem dizer de  quem se tratava e informando apenas o
endereço: viaturas e ambulâncias freavam à sua  porta de sirene aberta e
delas desciam homens perguntando, "Onde está o ferido?", "Onde  está o
morto?". Numa noite em que esses trotes se repetiram, Garrincha e Elza
tiveram de ir  dormir na casa do costureiro Manuelzinho na rua Gomes
Carneiro.
Alguns dias depois, Dilma, filha de Elza, então com dez anos, brincava
no quintal lateral da  casa quando alguém, num carro em movimento,
disparou um tiro. A bala passou sobre a  cabeça de Dilma e furou uma
caixad'água atrás dela. Elza ouviu o estampido e correu para  fora. O
carro já desaparecera. Pediu garantias à polícia. Mas a evidente má
vontade do  funcionário que a atendeu convenceu-a de que só havia uma
coisa a fazer: sair da Urca, ir  para bem longe dali.
Naquele mesmo mês de abril, Elza pegou seus filhos, Garrincha, o mainá e
o cachorro Bi, e  mudaram-se para a Ilha do Governador.
Manuelzinho ajudou-os a escolher a casa: um sobrado cor-de-rosa com
varanda. Na  fachada, bem no alto, a imagem do Sagrado Coração de Jesus
em alto relevo. Ficava na rua  Domingos Segreto, 285, no Moneró, e era
uma das poucas casas da rua, que fora aberta há  pouco e ainda nem havia
sido calçada. Tinha dois andares, três quartos, vários banheiros.
Teriam preferido alugá-la, mas estava à venda. Elza então resolveu
comprá-la: raspou o que  havia no banco, Garrincha entrou com a outra
parte e a liquidaram à vista, no valor total de três milhões de
cruzeiros. Não tinham telefone, não queriam ter e quanto menos gente
soubesse seu novo endereço, melhor.
Nas primeiras semanas, Elza viveu ali seu sonho de amor com Garrincha.
Em menos de  trinta dias quebraram duas camas, até comprarem uma cama de
ferro. Só esta podia resistir à  atividade quase full-time entre os
lençóis e fronhas de seda, cheirosos, imaculados. Os  banhos a dois
duravam horas. Quando precisavam de alguma coisa, Elza tocava uma
campainha e chamava o mordomo ou o garçom que contratara. Além desses,
mantinha um  pelotão de faxineiras rotativas: não queria ver um grão de
pó nos sofás e cristaleiras  Chippendale, os quais conviviam com as
mesas e cadeiras em estilo japonês.
Elza era o contrário de Nair. Podia ser a estrela do disco e da
televisão, mas, se passasse o  dedo num móvel e não sentisse o óleo de
peroba, trocava de roupa, amarrava um lenço à  cabeça e tomava
providências. Mais de uma visita chegou de surpresa à sua casa e
encontrou-a de joelhos, munida de balde e escovão, esfregando as escadas
com creolina.  Sua casa tinha de ser um brinco.
Para que o figurino combinasse com o novo cenário, Elza pegou todas as
roupas que  Garrincha trouxera de Pau Grande e que faziam dele um jeca e
armou uma fogueira no  quintal. Camisas rasgadas e com botões de cores
diferentes, paletós roídos de traças, calças  de pescar siri, cuecas
remendadas por Nair - foi tudo para o fogo. Para formar seu novo
enxoval, marcou com o gerente uma hora de pouco movimento e levou
Garrincha à casa Pullman na avenida Nossa Senhora de Copacabana.
Comprou-lhe ternos, camisas sociais e esporte, gravatas italianas, um
pulôver inglês, um robe de seda e chinelos finos. Garrincha  fazia-lhe a
vontade e a ajudava a carregar os embrulhos, mas nada daquilo lhe era de
muito  uso. Em casa ou no botequim, passava o dia de bermuda, sandália
de dedo e um chapéu  feito de jornal. Os pijamas com que Elza o
presenteava também não saíam da gaveta, porque  ele só dormia nu.
Elza se maravilhava com a sua saúde. Garrincha parecia imune à
temperatura - qualquer  uma. Apanhava chuva, saía sem agasalho no frio,
pegava terríveis correntes de ar e ela  nunca o vira dar um espirro.
Achava também estranho que ele não suasse. Garrincha ria:
"Eu sou índio, fui criado no vento."
Ela aprimorou o seu visual: promoveu o seu tratamento dentário, o qual
constou de roaches  e pontes fixas, para suprir as lacunas da arcada
superior. Para as circunstâncias em que fora  criado, Garrincha tinha
ótimos dentes.
Elza mantinha uma cozinheira, mas só para o resto da família. A comida
de Garrincha era  exclusividade dela. Insistia em fazer ela mesma os
pratos de que ele agora gostava: peixe  cozido com leite de coco,
galinha ao molho pardo, sopa de ervilha - anos de viagens com o Botafogo
e com a seleção tinham- no feito superar sua antiga preferência por
macarrão com feijão. A qualquer hora que abrisse o armário ou a
geladeira, havia uma guloseima para tentá-lo. E Elza gostava de vê-lo
comer. Era educado, sabia usar os talheres, levava o guardanapo à boca
depois de tomar água.
"Você come como um príncipe", ela dizia.
Garrincha ficava sem jeito - ninguém jamais lhe dissera essas coisas.
Elza reservava-lhe carinhos especiais. Quando ele voltava do Botafogo -
nas raras vezes em que apareceu por lá nos meses de abril e maio de 1963
-, ela lhe lavava os pés, massageava-os e beijava-os. Passava o dia
dizendo-lhe ao ouvido coisinhas que os outros não podiam saber, mas que
Garrincha parecia gostar de ouvir. E não se limitava a esses dengos. Em
seu íntimo, Elza tinha planos ambiciosos para ele.
Fizera amizade na Ilha com o professor Luiz Filipe Figueira,
botafoguense da velha-guarda.  Elza pediu-lhe que desse aulas
particulares a Garrincha para ensinar-lhe rudimentos de  inglês,
melhorar sua leitura e redação e atualizá-lo em conhecimentos gerais.
Garrincha sabia  muita coisa, mas de ouvido. O máximo que lia eram
jornais e O pato Donald. Conseguia  somar e diminuir, mas não
multiplicar e dividir. Tinha dificuldade para preencher um cheque.
Quando o valor era alto ou cheio de quebrados, pedia que preenchessem
por ele e apenas o  assinava.
Mesmo assim, Elza fantasiava que, aos trinta anos, Garrincha ainda
poderia fazer um curso  de madureza, prestar um vestibular e formar-se
em direito ou medicina. Por duas vezes o  professor Figueira conseguiu
prendê-lo à mesa durante quase meia hora em torno de um  caderno e um
livro. Foi o seu recorde.
À sua maneira, Elza estava apresentando Garrincha a um mundo que, por
mais carimbos em  seu passaporte, ele nem suspeitava existir. Elza não
saía de casa para ir à manicure - ela é  que se despencava até lá para
fazerlhe as unhas. O mesmo quanto ao cabeleireiro: ia à sua  casa
pentear-lhe as perucas e apliques. E havia as roupas, que Manuelzinho
criava e  mandava confeccionar ou que adaptava de modelos das grã-finas
que circulavam pela  Imperatriz. Um deles era um vestido de lantejoulas
prateadas que Carmen Mayrink Veiga  deixara no armarinho e que não
quisera pegar de volta. Manuelzinho alterara as medidas  para ajustá-las
a Elza - e Elza abafara com ele no programa Espetáculos Tonelux da TV
Tupi. Pode-se imaginar a surpresa de Carmen Mayrink Veiga - se, por
distração, assistiu  ao programa - ao ver seu vestido cantando "Ai, que
samba bom/ Ai, que coisa louca/ Eu  também tou aí/ Tou aí, quê que há/
Também tou nessa boca".
Os dois evitavam sair, o que, para Garrincha, fazia pouca diferença. Não
gostava de praia.  Não se interessava por restaurantes ou boates, embora
fosse ótimo dançarino e dominasse instantaneamente qualquer ritmo. E nem
ao cinema ia - os atores de que gostava já não faziam muitos filmes:
Cantinflas, Mickey Rooney, Gina Lollobrigida. Não via futebol pela
televisão e ignorava as resenhas esportivas aos domingos.  Preferia as
lutas de boxe: não perdia um programa TV Rio Ringue. Balançava a cabeça
desiludido quando um lutador acertava o nariz do outro e comentava:
"Tem que ser muito burro pra praticar um esporte desses."
A mãe de Elza, dona Rosaria, fora morar com eles. Numa exceção à regra
das relações entre  genro e sogra, os dois se adoravam. Garrincha e dona
Rosaria brincavam de perseguir-se pela casa de chinelo na mão, um
fingindo dar no outro.
Para Elza, a palavra de ordem era abundância no lar. Tudo ali era
exagerado, até um cafezinho. Ela enchia meia xícara de açúcar antes de
despejar o café. E explicava:
"Café pra mim é assim. A colher tem de parar em pé."
Elza saiu para comprar uma calça Lee no mercadinho Azul, em Copacabana,
e voltou com doze. Garrincha achava uma besteira essa mania de roupa.
Para ele, pelo menos, não se aplicava:
"Nasci nu e estou vestido. Está bom assim."
A simples palavra nu, dita por um dos dois, despertava-lhes os fogos e
eles largavam parentes ou visitas e corriam para o quarto.
Era bom demais para durar. Tanto que a felicidade de Elza e Garrincha na
Ilha não durou. Bastou que as revistas começassem a celebrar a "paz que
haviam encontrado" para que, como um imã, voltassem a atrair iras
coletivas.
Com a proximidade do Dia das Mães, no segundo domingo de maio, O Globo
elegeu Nair "a mãe do ano". Dona Stela Marinho, esposa do jornalista
Roberto Marinho, foi pessoalmente a Pau Grande levar-lhe um diploma e um
cordão de ouro. No oitavo mês de gravidez, Nair foi fotografada com as
filhas e anunciou sua promessa de que, "se Garrincha voltasse",
distribuiria setenta pijamas entre as crianças pobres de Pau Grande. O
Globo fez mais: conseguiu levar Garrincha a Pau Grande para passar o Dia
das Mães com as filhas. Era a sua primeira visita em meses e ele sentiu
que os ex-amigos o olhavam com ódio. Voltou na primeira brisa que soprou
na direção do Rio.
Nair tinha agora também o apoio das forças ocultas. Um pai-de-santo
baiano chamado Derê, com tenda na rua Bento Lisboa, no Catete, denunciou
à imprensa que Garrincha era vítima de uma "quadrilha de malfeitores
comandada por uma mulher", mulher esta que teria "amarrado suas pernas".
No dia 16 de maio, O Dia, único jornal a emprestar crédito ao assunto,
deu em primeira página: ELZA ENTERROU CUECA DE GARRINCHA NO CEMITÉRIO.
Os outros jornais ignoraram o caso - como se a umbanda não frequentasse
os altos escalões da República e até o casal presidencial não tivesse o
seu macumbeiro: o pai-de-santo Jair Ribeiro de Souza. Por causa dele,
todos sabiam que o "protetor" de Jango era o caboclo Boiadeiro e o da
bela Maria Teresa, sua mulher, era  a cabocla Jurema.
Derê fora a Pau Grande e colocara-se decididamente ao lado de Nair.
Garantiu que  Garrincha voltaria para ela. Deu-lhe passes, advertiu-a
contra os babalaôs picaretas que  iriam procurá-la para lhe tomar
dinheiro e a fez prometer que só confiaria nele. Além disso,  ninguém
tinha um santo mais forte que o seu na arte de desamarrar mandingas: o
caboclo  Pedra Preta. Para impressionar Nair, recebeu Pedra Preta ali
mesmo, ao som de "Volta pra  casa" com Noite Ilustrada. Derê saiu de lá
com o numerário para produzir a primeira sessão  de "desamarro", a qual
incluiria grande estoque de pó de pemba e o sacrifício de bodes  pretos
e galos vermelhos. E, a partir daí, nunca mais sairia da vida de Nair.
O que Derê não contava era que Elza já tivesse um pai-de-santo de
plantão: seu compadre,  o também baiano seu Alberto, estabelecido no
bairro de Colégio, na Zona Norte. Entre seus  clientes no mundo
artístico estavam Elizete Cardoso e Altemar Dutra. A entrada de seu
Alberto no cenário, no mínimo, empatava a guerra dos santos. Quando
sintonizavam  estranhas vibrações no ar, certamente emitidas pelos bodes
pretos de Derê, Elza e Garrincha  iam visitar seu Alberto, acompanhados
de Araty, o homem que descobrira Garrincha em Pau  Grande onze anos
antes. E Garrincha tinha ainda sua nova rezadeira. A antiga era dona
Maria Rezadeira, de Pau Grande. Mas, como não queria ir até lá, fiava-se
agora nos serviços  de mãe Oscarina, em Figueira, perto de Caxias,
também na estrada Rio-Magé. Era à gorda  e risonha mãe Oscarina que ele
entregara seu joelho.
O Botafogo preferia que ele o entregasse a Tomé e Adalberto, que
cuidavam da preparação  física. Havia todo um trabalho de fortalecimento
da musculatura que ele deveria fazer para  neutralizar os efeitos da
artrose. Para isso, Tomé e Adalberto tinham criado um programa de
exercícios, que consistia em subir e descer as arquibancadas do
Botafogo, carregando pesos  de quinze quilos, e fazer trezentas flexões
em dez etapas de trinta, além do trabalho com a  bicicleta e com o
sapato de ferro. Mas, a cada cinco sessões que marcou com eles,
Garrincha compareceu a uma. O tratamento não tinha continuidade. Numa
das vezes em que  soube que Garrincha estava em General Severiano,
Carlito Rocha saiu de sua aposentadoria  para ir em pessoa estimulá-lo.
Carlito, muito alto, olhava para o céu como se quase pudesse tocá-lo e
dizia para Garrincha:
"Você vai voltar a jogar, se Deus quiser! Repita comigo: SE DEUS
QUISER!!!"
E Garrincha, obediente:
"SE DEUS QUISER!!!"
Mas, aos íntimos, Carlito confessava:
"Não adianta. Ele está com fogo no coração."
Se Carlito pudesse vê-lo ao voltar para casa depois de uma série de
exercícios, saberia onde o fogo lhe queimava. Garrincha vendera o
Karmann Ghia porque dava muito na vista e todos o reconheciam na rua.
Estava agora com um Fusca azul. Dirigia de General Severiano à Ilha do
Governador, parava o Fusca na porta de casa e buzinava. Elza conhecia o
toque da buzina. Descia correndo para recebê-lo e o encontrava debruçado
ao volante, com uma expressão de dor intensa. Não sabia como ele
conseguira dirigir.
O fogo estava em seu joelho. Subia as escadas abraçado a Elza, com
lágrimas nos olhos e quase sem poder pisar.
Grande Otelo tomara um porre monumental a minutos de entrar em cena.
Cambaleou pelos  corredores do Fred's, apontou para Elza e berrou:
"Eu amo esta mulher!"
E caiu emborcado sobre si mesmo. O show Rio boa pinta, produzido por
Carlos Machado  na boate Fred's, no Leme, entrou em cena aquela noite
com mais de uma hora de atraso.  Teve de esperar que Otelo se
recuperasse.
Não era a primeira declaração que ele fazia a Elza. Durante a temporada
de Rio boa pinta,  Otelo dera-lhe em cima todas as noites, mesmo sabendo
que não levava chance. Quando  Elza entrava em cena num justíssimo
vestido verde-periquito que lhe ia até os pés, com  plumas na barra para
esconder os sapatos de salto agulha, Otelo quase esquecia suas falas.
Garrincha não sabia que isso estava acontecendo. Nem precisava saber.
Por medida  preventiva, insistia em levar e trazer Elza da boate. E,
como já fizera durante a temporada  no Bon Gourmet, nunca entrava para
ver o show. Preferia ficar no restaurante Cervantes,  perto dali,
tomando conhaque com os jornalistas que o freqüentavam.
Em menos de três horas, Garrincha esvaziava sozinho uma garrafa de
conhaque Dreher.  Quando sabia que Elza estava para sair, atravessava de
volta a avenida Princesa Isabel, ia  para a porta da boate e ali ficava,
encabulado, esperando-a. O Fred's era uma das últimas  grandes casas da
noite carioca. Ao sair, Elza logo via que Garrincha não estava cem por
cento. Já o dispensara de levá-la à boate porque não queria que ele
passasse tantas horas  bebendo.
Mas Garrincha usava o argumento do ciúme:
"Negativo. Sozinha é que você não vai. Gostosa desse jeito, o que não
falta é gavião."
E voltava dirigindo vacilantemente para a ilha do Governador.
Elza começava a preocupar-se com a presença do álcool na -vida de
Garrincha. Já percebera  que, com ou sem motivo, ele estava sempre
bebendo. Mas uma retrospectiva de seus  melhores momentos revelaria que
desde a primeira noite havia uma garrafa entre os dois.  Começou com a
feijoada, na volta da Copa do Chile, em que ela despachou os convidados
para ficar a sós com ele. Garrincha tomou litros da caipirinha que
haviam preparado para a  turma, com a receita especial que Elizete
Cardoso, amiga de Elza, lhe passara por telefone.
Na casa da Urca, Garrincha raramente podia ser visto sem um copo na mão.
Às vezes,  quando a pinga ou o conhaque acabava, ele a convidava a irem
lá fora comprar - Elza  aceitava, mas com o coração pesado. Para evitar
imprevistos, ele passara a levar bebida,  juntamente com os discos de
Frank Sinatra com que a presenteava. No começo, Elza nunca  o vira
embriagado. Mas, pouco depois, isso já começara a acontecer.
Uma noite, ao sair do Bon Gourmet e perceber que ele estava alterado,
perguntou-lhe:
"Por que você bebe tanto? Eu não chego pra você?"
Garrincha respondeu:
"Uma coisa não tem nada a ver com a outra."
E não tinha mesmo - mas tinha a ver com o ócio que ele desfrutava desde
a volta da última  excursão. Sem horários a cumprir, sem a obrigação de
ir todo dia ao Botafogo e sem a  perspectiva de um jogo nos próximos
dias, Garrincha tinha agora todo o tempo para beber.  O que até então
fora um prazer começava a transformar-se em compulsão.
Seus amigos de Pau Grande haviam guardado distância da casa da Urca. Só
apareciam  quando Elza dizia a Garrincha para convidá-los. Era a casa
dela e eles eram tímidos para  invadir. Mas, na Ilha, que era a casa de
Garrincha e Elza, Pincel, Swing e coadjuvantes  surgiam sem avisar.
Bebiam o dia todo, perdiam o último trem e se deixavam ficar.  Dormiam
em qualquer canto, acordavam para retomar o porre e a festa continuava
pelo dia  seguinte. Havia também os amigos de Elza e, por causa deles,
os fogões produziam  feijoadas e cabritadas em série.
Quando Elza saía para gravar no estúdio da Odeon ou viajava para um show
fora do Rio,  Garrincha tornava-se o senhor do reino, o governador da
Ilha.
A manhã seguinte não existia e o dinheiro era a última das suas
preocupações.
Nada poderia turvar a sua felicidade.

Capítulo 15

Vivendo seus minutos de paz

1963-1964

A BRUXA SOBRE GARRINCHA E ELZA

De sua mesa num botequim, dois parentes de Nair tinham visto o Fusca com
Garrincha e  Elza entrando em Pau Grande a oitenta por hora. Minutos
depois, viram também quando  Garrincha chegou sozinho à casa de Nair.
Num breve exercício de dedução para descobrir  onde ele teria deixado
Elza, concluíram pela casa de sua amiga dona Irene. Foram até lá.  Dona
Irene não quis abrir a porta. Eles entraram à força e, bafejando a
saleta com um hálito  de álcool e tira-gosto, atiraram palavras pesadas
contra Elza. Mas não esperavam que Elza  as devolvesse uma a uma como
pedras.
Garrincha fora a Pau Grande visitar uma filha com sarampo e levara Elza
com ele. Só isso já  parecia insensatez suficiente, mas ele não
cometeria a insanidade de entrar com ela na casa  de Nair. Então
deixara-a na casa de dona Irene, uma de suas poucas amigas em Pau Grande
que não se voltara contra ele, e fora atender a menina. Os dois parentes
de Nair invadiram a  casa para desforrar-se de Elza.
Eles a acusaram de estar destruindo um lar. Elza quis saber que lar - um
lar onde todos  viviam às custas de Garrincha e não lhe davam nem uma
cueca limpa para usar. Um deles a  chamou de mentirosa; ela os chamou de
parasitas. O tempo fechou e Garrincha chegou no  justo momento em que
Elza disparava um cinzeiro de vidro contra eles, sem acertar.  Garrincha
trazia a menina no colo. Não pôde impedir quando os dois partiram sobre
Elza e  o mais forte a atingiu com um tapa. Elza respondeu com um chute
na canela do agressor e  pegou um facão que vira na cozinha. Garrincha
pôs a criança no sofá, desarmou Elza e disse  a eles que bastava. Iriam
embora dali naquele instante e queriam sair em paz. Os dois  pareceram
concordar.
Garrincha e Elza atravessaram a rua e entraram no Fusca. Mas, quando ele
ia dar a partida,  os sujeitos atacaram o carro, tentando virá-lo e
jogá-lo numa vala. Finalmente Garrincha  conseguiu arrancar e azulou
dali, fazendo-os comer poeira. De volta à Ilha, compraram uma  arma.
Tudo podia acontecer.
A notícia da agressão transpirou pelos jornais e Garrincha admitiu com
tristeza que, se  pudesse, nunca mais voltaria a Pau Grande. Sua
declaração foi recebida com desprezo na  cidade.
Um diretor da fábrica teria dito:
"É melhor não vir mesmo. Principalmente entrando na cidade com o carro
em alta  velocidade. Aqui tem crianças."
Mas, enquanto Garrincha estava proscrito em sua cidade, um outro homem
foi a Pau  Grande: o advogado Dirceu Rodrigues Mendes. Nair o recebeu,
serviu-lhe cafezinho e  ouviu o que ele tinha a dizer.
Dirceu Rodrigues Mendes oferecia-lhe seus serviços - de graça. Queria
defendê-la,  resguardar os seus direitos e os de suas sete filhas, que
em breve seriam oito - a criança  deveria nascer em princípios de junho.
Seu marido Garrincha ganhava muito dinheiro e ela  tinha direito a
cinqüenta por cento por serem casados em comunhão de bens. Nair só
precisava darlhe carta branca para agir.
O advogado tinha escritório no terceiro andar do edifício Avenida
Central, na avenida Rio  Branco, e era famoso no meio forense por suas
extravagâncias. Cruzava a cidade num  Cadillac rabo-de-peixe azul e
abóbora, com uma enorme figa dependurada no vidro traseiro.  Fumava
charuto e trazia um parnasiano relógio Patek-Phillipe com corrente de
ouro no  bolso do colete. Usava chapéu-coco para esconder a calva - os
amigos o chamavam de  Dirceu "Careca". Tinha sido pracinha da FEB na
Segunda Guerra e, pelo que contava de  suas façanhas militares, o Eixo
devia tremer só de ouvir falar no seu nome. Quando  estudante da
Faculdade de Direito nos anos 40, tentara apoiar seu candidato à
presidência  do diretório acadêmico promovendo uma passeata com camelos
e elefantes pela rua do Catete. O reitor o proibira. Desde então,  nunca
perdera o senso do espetáculo.
O caso de Garrincha e Elza estava nas manchetes - mas quem derretia os
sentimentos da  opinião pública era Nair. Um prato feito para um
advogado esperto, craque em rabulices.
A humildade de Nair ficava ainda mais flagrante na presença dos
doutores. Era desinformada  até quanto à sua situação - lia, quando
muito, os horóscopos e fotonovelas de revistas  como Grande Hotel. Numa
época quase sem televisão, só ficava sabendo dos passos de  Garrincha
pelo que os vizinhos lhe contavam. Dirceu Rodrigues Mendes instruiu Nair
a  acusar Elza Soares de explorar Garrincha e de obrigá-lo a comprar uma
mansão na Ilha do  Governador enquanto sua mulher e filhas passavam
fome. O dinheiro que Garrincha às vezes  lhe levava não queria dizer
nada diante das fábulas que ganhava com o futebol. Além disso,  estava
vivendo maritalmente com outra mulher, embora continuasse casado. Isso
configurava o adultério, passível de uma ação em separado, enquanto não
saísse a separação  definitiva.
Nair ouvia tudo isso sem saber o que pensar. Não tinha certeza de que
queria separar-se de  Garrincha. Aliás, sua única esperança era a de que
ele largasse aquela mulher e voltasse para  ela e para Pau Grande. O
filho estava para nascer e desta vez Nair tinha certeza de que seria
não apenas um menino, mas dois. Um vidente lhe garantira que seriam
gémeos - dois  homens.
Garrincha e Elza já tinham seu próprio advogado: o dr. Rubens Marcai. Ao
saber no fórum  das perambulações de Dirceu Rodrigues Mendes por Pau
Grande, Marcai também foi  procurar Nair. Levou-lhe uma petição de
separação de corpos para que ela assinasse -  tentando neutralizar uma
possível acusação do adversário de que Garrincha estava vivendo  em
adultério. Nair não entendeu direito. E o que menos queria era separar
seu corpo do de  Garrincha. Marcai explicou-lhe que a petição era um
documento provisório e que, se ela a  assinasse, Garrincha poderia
dar-lhe uma generosa pensão enquanto o desquite não saísse.  Nair já se
dispunha a assinar. Mas seus irmãos a impediram.
Marcai voltou ao Rio, apanhou Garrincha na Ilha e foi com ele a Pau
Grande para tentar  colher a assinatura de Nair. E, mais uma vez,
Garrincha viu-se em apuros com a família dela.  Seus cunhados o
destrataram, tacharam-no de ingrato e só faltaram cuspir-lhe e correr
com  ele da cidade. Garrincha preferiu deixar que Marcai cuidasse
sozinho do caso. Assinaria o  que fosse preciso, mas preferia não se
meter pessoalmente e, se possível, não voltar a ver  Nair. Quando
quisesse estar com as filhas, elas o esperariam na casa de dona Irene.
Se sua reputação estava a zero em Pau Grande, não parecia muito melhor
no Botafogo -  do qual, embora às vezes se esquecesse, ainda era
jogador.
 Tinham-lhe dado quase dois meses para recuperar-se do problema no
joelho e ele não  os aproveitara. Quase não fora ao clube para os
exercícios e tratamentos e, ao mesmo  tempo, continuava a não admitir a
idéia da operação. O Botafogo iria à África e à Europa  em fins de maio
e ele teria de viajar com o time porque, mais uma vez, as cotas da
excursão  estavam vinculadas à sua presença. Garrincha alegou que o
joelho continuava doendo e  pediu dispensa da viagem ao novo presidente
em exercício, Sérgio Darcy. Este a negou.
A delegação sairia de General Severiano para o Galeão. No dia e hora
marcados para a  apresentação, Garrincha não apareceu. Os dirigentes
ficaram preocupados, mas, desta vez,  ninguém foi procurá-lo na Ilha e
muito menos em Pau Grande. Se Garrincha não viajasse,  pior para ele.
A delegação tomou o ônibus do clube e seguiu sem Garrincha para o
aeroporto. Os  jogadores entraram no avião da Air France e alguns já
apostavam que aquele seria o seu  supremo bolo no Botafogo. A porta já
estava para se fechar quando o Fusca de Garrincha  surgiu lentamente na
pista de vôo, dirigido por um amigo seu da Ilha, e parou junto à
escadinha. Garrincha saiu sorridente do carro, enrolou uma desculpa para
Renato Estelita e  juntou-se aos companheiros. Não levou nem uma
repreensão do dirigente - só o fato de  estar ali para viajar já o
redimia. Mas ele conseguira o que queria: dar um susto no  Botafogo.
Pouco antes da viagem, um emissário do milionário italiano Gianni
Agnelli, dono da Fiat e  do Juventus de Turim, voltara a oferecer ao
Botafogo um milhão de dólares por Garrincha.  Desta vez ele estaria
sendo comprado por um pool de três clubes - Juventus,  Internazionale e
Milan -, para atuar um ano em cada um. Todos queriam ter a honra de
poder dizer um dia que Garrincha jogara por eles. Era um grande negócio
para os três, mas  era também uma homenagem ao maior ponta do mundo.
Ao ouvir falar da proposta, Lídio Toledo dissera a Paulo Azeredo:
"Quer saber o que eu acho? Venda correndo."
Mas Paulo Azeredo, mesmo que quisesse fazer negócio, estava afastado da
presidência do  clube. E, entre seus substitutos em exercício, ninguém
seria louco de vender Garrincha, por  mais que lhes parecesse boa idéia.
Além disso, na mesma época os italianos estavam  oferecendo dois milhões
de dólares por Pelé. O Botafogo achava uma disparidade aquela  diferença
- fingindo ignorar que, em maio de 1963, Pelé tinha 22 anos e Garrincha
já  estava para fazer trinta.
O treinador do Juventus era agora o ex-botafoguense Paulo Amaral.
Ninguém mais que ele  desejava Garrincha em seu time. Mas aconselhou os
italianos a que, se o Botafogo  concordasse em vendê-lo, a compra
deveria ser condicionada a um exame em seu joelho, a ser feito na
Itália. Os italianos não tinham  idéia de que o problema de Garrincha
fosse tão grave.
Mas não demorariam a desconfiar. Naquela excursão, o Botafogo jogou duas
vezes em  Florença, perdendo para o Palmeiras (o próprio) no dia 8 de
junho e empatando com o  Vojvódina da Iugoslávia no dia 16. Garrincha
atuou mal em ambas - e havia gente do  Juventus no estádio. Em 180
minutos, a oferta de Agnelli caiu de um milhão para setecentos  mil
dólares.
O que os homens do Juventus não sabiam era que, entre as duas partidas
em Florença, o  Botafogo tinha ido disputar outros dois jogos em Paris,
contra o Anderlecht da Bélgica no  dia 11 e contra o Racing francês no
dia 13. O time fora de trem de Florença a Milão, onde tomara o avião
para Paris. Garrincha  passara nove horas sentado no trem, mais algumas
no aeroporto para fazer a conexão,  outras tantas no avião e chegara a
Paris com um bárbaro derrame no joelho.
Em Paris, o empresário Cacildo Osés, responsável pela excursão do
Botafogo, teria  chamado Garrincha a um canto e lhe oferecido dinheiro
para não jogar. Sem Garrincha, o  esperto Osés só precisaria pagar meia
cota ao Botafogo - embolsaria o restante e dividiria  uma parte com ele.
Garrincha teria ficado furioso por Osés achar que ele concordaria com
essa desonestidade. E por isso, apesar do joelho bombardeado, teria se
forçado a jogar. Mas  esse ato de bravura lhe custaria caro.
Para atuar contra o Anderlecht, tivera de submeter-se a uma punção no
joelho. Enfrentara o  Racing dois dias depois, fizera todo o percurso de
volta até Florença e entrara de novo em  campo contra o Vojvódina, no
seu quarto jogo em sete dias. Era inevitável que os olheiros  do
Juventus em Florença se desapontassem: se aquele era Garrincha, seria
melhor que  exumassem os cadáveres carbonizados do Torino. Mas só
Garrincha sabia os sacrifícios que  fizera na última partida em
Florença.
"Dava vontade de chorar toda vez que eu chutava", ele contaria depois a
Elza.
Lídio Toledo aproveitou a segunda passagem do Botafogo pela cidade e
procurou o dr.  Oscar Scagliette, diretor do Centro Ortopédico de
Florença e considerado o maior  ortopedista da Europa. Toledo
descreveu-lhe o joelho de Garrincha e pediu uma opinião.  Para
Scagliette, o procedimento definitivo seria uma osteotomia da tíbia do
jogador, para  alinhar o joelho. Mas, sendo Garrincha esse jogador - que
Scagliette, como todos os  italianos, conhecia e admirava -, a cirurgia
estava fora de cogitação. A recuperação levaria  meses e Garrincha já
não era um bambino. Scagliette então sugeriu a Lídio Toledo um
tratamento à base de infiltrações de corticóide.
Em 1963 a cortisona era uma revolucionária novidade, tanto quanto os
Beatles, Jacqueline  Kennedy e o monoquíni. Era um violento
antiinflamatório, mas nocivo à cartilagem, donde só devia ser usada em
casos de inflamação aguda. As infiltrações poderiam ser no máximo quatro
por ano, a intervalos regulares, seguidas de gelo  e repouso durante 48
horas e, depois, fisioterapia do quadríceps. Não eram uma cura nem  um
paliativo, mas um reforço ao verdadeiro tratamento, que era a
fisioterapia.
Lídio fez a primeira infiltração em Florença no dia 16 de junho, na
manhã seguinte ao jogo  contra o Vojvódina. Garrincha saíra de campo com
o joelho em estado desesperador. No  próprio hotel do Botafogo, Lídio
Toledo fez a drenagem do derrame e injetou primeiro a  Xilocaína;
depois, a hidrocortisona Cortone. A injeção, aplicada na articulação,
não doeu.  Exatamente como na infiltração que lhe fora feita pelo dr.
Senise meses antes. Garrincha foi  posto para repousar com um saco de
gelo sobre o local e, dois dias depois, já sem derrame,  pôde fazer
alguns exercícios.
O jogo seguinte do Botafogo seria o último da excursão, no dia 19,
contra o Karlsruhe, da  mesma cidade, na Alemanha - quatro dias depois
da infiltração. Garrincha entrou  clinicamente bem, mas voltou a jogar
mal. Não era mais o mesmo jogador.
E nunca voltaria a ser.
No dia 4 de junho, quando Garrincha estava em Roma com o Botafogo a
caminho de  Florença, um repórter que acabara de falar com o Rio
levoulhe a notícia. Nair dera à luz no  hospital de Petrópolis. E, para
surpresa de ninguém, era mais uma menina: Cíntia.
"Que pena", ele comentou. "Preferia que fosse um menino. Ia se chamar
Carlos."
Na volta da excursão, Garrincha não foi a Pau Grande ver sua nova filha.
Não sabia como  seria recebido. Pode ser também que não tivesse tido
tempo. O Botafogo chegara ao Rio no  dia 23 de junho depois de mais de
um mês ausente e, como se quisesse testar o limite de  resistência de
seus atletas, obrigou-os a embarcar de novo no dia 27, agora para seis
jogos  pela América do Sul - mais quinze dias fora. Homens de todas as
idades e estados civis,  como Garrincha, Nílton Santos, Quarentinha,
Amarildo, Zagalo, Rildo, Manga, Aírton,  Jairzinho e Arlindo estavam
sendo espremidos à última gota. Era como se não tivessem vida  pessoal.
Alguns só viam a mulher e os filhos no retratinho da carteira. Noivas e
namoradas  eram deixadas ao deus-dará. Os contundidos não tinham tempo
para recuperar-se - e  Garrincha, menos que todos.
Lídio Toledo advertiu o Botafogo que, desta vez, era sério: Garrincha
não deveria viajar. E,  mais uma vez, sua advertência foi
desconsiderada.
Garrincha embarcou com o time para Lima. Entrou na primeira partida,
contra o Alianza,  pela taça Libertadores da América, no dia 30 de
junho, e na segunda, um inútil amistoso  contra o Sporting Cristal, time
de Didi, no dia 4 de julho. No dia seguinte, já na Colômbia,  tiveram de
desligálo da delegação. Seu joelho parecia um aleijão de monstro do
circo.  Voltou para o Rio com Lídio Toledo e foi direto para o hospital
Central dos Acidentados.  Na ausência do dr. Mário Jorge, foi examinado
pelos médicos Joênio Dias e Hervê  Machado. Eles foram taxativos:
Garrincha tinha de ficar pelo menos trinta dias sem ver bola.
Isso não o desobrigava de ir ao Botafogo para fazer tratamentos e
exercícios especiais.  Mas, no primeiro dia em que deveria entregar-se
ao departamento médico, Garrincha já não  apareceu. Durante todo o mês
de julho marcou diversas idas à clínica São Geraldo para ser  examinado
por Lídio Toledo e faltou a todas. E, nos últimos dez dias do mês,
simplesmente  desapareceu do Botafogo. Elza se espantava que gente do
clube fosse à Ilha procurá-lo.  Ela própria insistia em levá-lo e o
deixava na porta do Botafogo. Mas ele lhe acenava tchau,  esperava-a ir
embora e, sem que ela percebesse, tomava um táxi e ia encontrar-se com
amigos da Zona Norte para beber.
A irritação contra Garrincha começou a trair até os botafoguenses que já
não tinham nada  com o clube. Um deles, João Saldanha.
"O Botafogo o paga para dar uma voltinha em campo nessas excursões",
disse Saldanha  pelo rádio. "Não há motivo para Garrincha viver dodói."
Foi um dos poucos ataques que Garrincha se dignou a responder:
"É uma voltinha de 45 minutos, quase todo dia, com uma viagem de avião
pelo meio, com o  joelho esbagaçado e com todo mundo querendo fazer
cartaz em cima de mim. Falar no  microfone é mais fácil."
O próprio lançamento do filme Garrincha, alegria do povo naquele mês de
julho soou  constrangedoramente fora de hora. As imagens de Garrincha
ganhando sozinho a Copa de  1962 - um ano antes - e dos muitos gols que
marcara pelo Botafogo pareciam ecos de  um passado perdido. O Garrincha
mostrado no filme era um personagem de La Fontaine: o  génio com alma de
passarinho, que saíra da fábrica para a glória e continuara humilde. Só
que, para o público, esse personagem deixara de existir.
No lugar dele surgira o homem que abandonara a mãe de seus filhos por
uma cantora,  brigara com seu clube por causa de dinheiro e trocara os
passarinhos por um carro esporte.  Era Dorian Gray ao contrário. Em
menos de um ano o homem substituíra o mito - e  ninguém gostava desse
homem que aparecera de repente. O próprio título Alegria do povo  era
impróprio, porque Garrincha não vinha sendo uma alegria nem para ele
mesmo. E o  filme tinha outros problemas: seu jovem diretor Joaquim
Pedro de Andrade, intoxicado de  Cahiers du Cinema, fizera um filme para
quem gostava de cinema, não de futebol. O produtor Luiz Carlos Barreto
percebeu o equívoco logo na  estréia de gala, na Maison de France, à
qual Garrincha não compareceu: Garrincha, que lhe  custara um empréstimo
no Banco Nacional com José Luiz Magalhães Lins, não seria um  sucesso. E
não foi.
A única pessoa que não teve prejuízo com o filme foi Garrincha. Desde o
começo ficara  acertado que ele receberia um cachê fixo e à vista, a ser
pago por Barreto, o que foi feito.  Não se previa que recebesse um
percentual da renda, sempre difícil de ser calculada por  causa da
evasão de bilheteria. Além disso, depois de descontados o empréstimo e
os custos,  Garrincha não teve lucro.
Naquela época, Armando Nogueira presenciou, num bar atrás da TV Rio, um
comovente  encontro casual entre Garrincha e o grande ídolo caído da
música brasileira: Orlando Silva.  Como Garrincha, Orlando fora um
fenómeno em seu tempo. Entre 1935 e 1942, as mulheres  o rasgavam e se
rasgavam por sua causa; arrastava multidões aonde ia e era mais famoso
que Getúlio Vargas e Leônidas da Silva. Era o maior cantor popular do
Brasil. Mas algo lhe  acontecera no começo dos anos 40 e ele perdera a
voz. A partir de 1943 tornara-se uma  caricatura de si mesmo. Sua
carreira tivera um declínio vertical e, pelos vinte anos seguintes,
Orlando iria arrastar o seu orgulho pelas rádios e gravadoras, incapaz
de reconhecer que já  não era o mesmo. A causa desse declínio - nunca
revelada por ele - fora a morfina.
Armando Nogueira não podia ouvir o que Orlando dizia no bar para
Garrincha, embora não  fosse difícil de adivinhar. Orlando o estaria
advertindo para o que o esperava se não se  cuidasse. Mas Garrincha não
deve ter dado ouvidos a Orlando porque, num futuro muito  próximo, os
dois voltariam a encontrar-se em outra emissora de televisão - e, então,
já  seriam dois ídolos caídos.
No dia 19 de agosto, na Ilha, Garrincha e Elza pegaram o Fusca e foram
levar seu amigo  Nelson, filho de dona Irene, à rodoviária. Na altura do
Galeão, Garrincha calculou mal uma  ultrapassagem e quase bateu num
ônibus. Freou violentamente.
Elza, sentada ao seu lado no banco do carona, foi com a boca no painel.
Perdeu vários  dentes superiores no choque e o sangue começou a correr.
Ainda atordoada, ela ouvia vozes  fora do carro:
"Merda, ainda tá viva. Por que não morreu logo de uma vez?"
Garrincha havia bebido muito e não deveria estar dirigindo. Mas, ao
quase bater com o  carro, pareceu acordar do porre. Pela reação das
pessoas que haviam corrido para o carro,  calculou que se fosse com Elza
a um hospital poderiam hostilizá-los. Levou Elza de volta  para casa e
chamou um dentista seu vizinho. Ele cuidou da hemorragia e, dias depois,
extraiu os outros dentes de  Elza, que haviam ficado frouxos, e
produziu-lhe uma prótese.
Apenas onze dias depois, no dia 30 daquele mês, Garrincha foi a Pau
Grande ver suas filhas.  Na volta para o Rio, trazendo seu amigo Ari,
recolheu Elza, que ficara na casa de outra  família em Éden, perto dali,
e pegaram a estrada que ligava Imbariê a Piabetá, em Magé.  Costumava
fazer o percurso de Pau Grande à Ilha do Governador em 45 minutos - um
recorde para a época. A estrada estava livre, exceto por um ônibus
estacionado no  acostamento. Garrincha conservou a velocidade. De
repente, um menino saiu correndo por  trás do ônibus e surgiu diante do
seu carro. Garrincha não conseguiu frear. O impacto foi  tremendo. O
carro atirou longe o garoto.
Garrincha, Elza e Ari desceram correndo para socorrê-lo. O menino estava
desmaiado e com  fratura exposta na perna direita.
Puseram o menino no carro e o trouxeram para o hospital Getúlio Vargas,
na Penha. Ele  veio desmaiado no colo de Elza, com uma lasca do fêmur
apontando para o céu. Perto do  hospital, Elza mandou Garrincha cair
fora e ligar da rua para o Botafogo e para o advogado  Rubens Marcai.
Ari entrou com Elza e o menino no hospital, caracterizando o ato como se
Garrincha tivesse socorrido a vítima - o que de fato acontecera. Horas
depois, Renato  Estelita e Marcai apresentaram Garrincha na subdelegacia
de Magé e cruzaram os dedos -  porque ele não tinha carteira de
motorista.
Antes de partirem para a delegacia, Estelita tentara convencer o
preparador físico Adalberto  a responsabilizar-se pelo acidente:
"Me dá sua carteira de motorista, Adalberto. Faz de conta que você
atropelou o menino."
"Mas logo eu, seu Renato? Não tive nada com o caso. Nem sei onde fica a
tal estrada!"
"Não importa. É para o bem do Mané."
"Seu Renato, o Mané vai me desculpar. Gosto muito dele, mas não vou
sujar minha ficha  por uma coisa que não fiz. O senhor pode me mandar
embora do Botafogo se quiser."
Adalberto não perdeu o emprego, mas Garrincha foi autuado por lesões
corporais, com a  agravante de estar dirigindo sem habilitação. Só não o
prenderam por ter socorrido o garoto  - e por ser Garrincha.
O menino chamava-se Joacir, tinha dez anos e era filho de um operário da
América Fabril. Ao sair de trás do ônibus, pretendia apostar uma corrida
com sua irmã para ver quem chegava primeiro ao outro lado da estrada. De
certa forma, atirara-se na frente do carro. Garrincha só poderia ter
evitado o acidente se estivesse indo mais devagar - e se estivesse
perfeitamente sóbrio.
O atropelamento do garoto repercutiu na imprensa e não contribuiu nem um
pouco para melhorar a imagem recente de Garrincha. Por sorte os jornais
não tinham ficado sabendo do acidente de poucos dias antes no Galeão.
Mas, com aquele, já eram três os problemas graves que Garrincha tivera
ao volante - o primeiro, também abafado, fora em 1959 quando atropelara
seu pai.
Em sua coluna na Última Hora, o cronista Antônio Maria usou o acidente
com o menino para alertar Garrincha de que a onda de má sorte que o
perseguia começara depois que ele ganhara de presente o mainá.
Aconselhou-o a livrar-se rapidamente do pássaro, se quisesse  que sua
sorte mudasse. Antônio Maria não tinha nada contra o mainá. Sua crônica
era só  uma forma oblíqua de dizer que quem estava azarando a vida de
Garrincha era o antigo  dono do pássaro: Carlos Lacerda.
A sorte de Garrincha parecia estar sendo sorvida e distribuída entre os
outros. O Botafogo  acabara de vender Amarildo para o Milan por
quatrocentos mil dólares. Com isso, sua  oportunidade de ir para o
exterior não chegaria tão cedo. Os italianos já nem procuravam  mais o
Botafogo para comprá-lo.
Não era a primeira vez que Garrincha era caroneado. No passado, o
Botafogo já vendera  Dino da Costa, Vinícius e China para a Itália e
Paulo Valentim para a Argentina - Valentim  estava ficando rico no Boca
Juniors e aplicando tudo em imóveis no Rio. Vavá também fora  para a
Espanha pelos gols que fizera na Copa de 1958. E agora Amarildo. Todos
tinham se  tornado artilheiros graças aos seus dribles e cruzamentos, e
todos foram ganhar muito  dinheiro lá fora, menos Garrincha.
Com o dinheiro da venda de Amarildo, o Botafogo foi ao Flamengo e
comprou Gerson,  dando-lhe dez milhões de cruzeiros de luvas e 150 mil
de salário - exatamente como a  Garrincha - e ainda ficou com troco.
No dia da apresentação de Gerson em General Severiano, alguém do clube
teve a idéia de  fazê-lo posar para as fotografias usando as chuteiras
de Garrincha. Parecia simbólico: era  como se a velha estrela do time
tivesse morrido ou pendurado as chuteiras, e a nova estrela  herdasse o
seu material. Além disso, os dois calçavam 41. O único problema era que
Garrincha estava vivo e, naquele momento, sofria com um joelho envolto
em toalhas  fumegantes no departamento médico. Gerson apenas segurou as
chuteiras nas mãos e não  quis calçá-las: eram tortas, completamente
deformadas.
As chuteiras de Garrincha ficaram naquele estado por suas milhares de
escapadas pela ponta  direita, que haviam rendido tantos gols e títulos
gloriosos. Mas agora o Botafogo tinha  outro para percorrer os
quilômetros de ida e volta daquela faixa do gramado: Jairzinho,  então
com dezenove anos e tricampeão carioca de juvenis pelo alvinegro. Se
Garrincha não pudesse ou não quisesse  jogar, o problema era dele. O
Botafogo resolvera o seu.
A novela era interminável. A torcida botafoguense já não tinha paciência
para ler nos jornais  que Garrincha estava em tratamento ou que talvez
voltasse contra o time tal. Uma simples  notícia de que faltara ao exame
com o doutor Fulano desencadeava toda uma onda de  desencanto quanto à
sua recuperação. Para muitos, Garrincha estava começando a deixar de
existir.
Provavelmente teriam mais compaixão se soubessem da luta de Lídio Toledo
e Elza - até  contra ele próprio - para recuperá-lo. Quando ia ao
Botafogo, Garrincha submetia-se a  tratamentos de turbilhão, ondas
curtas e infravermelho. Lídio fizera-lhe mais duas  infiltrações durante
o segundo semestre, o que lhe permitira jogar um total de quatro
partidas nesse período. Tinha de fazer ginástica para desenvolver a
força do quadríceps, mas  meia hora de treino provocava-lhe agora
inchação nos dois joelhos. Em casa, Elza o  obrigava a passar o dia com
o gelo ou com as toalhas quentes que ela lhe aplicava, de  acordo com as
instruções do médico. Elza também tentava impor-lhe uma dieta baixa em
calorias - Garrincha passara a pesar 75 quilos, quatro acima do seu
normal. Para a artrose,  era como se ele se alimentasse com chumbo.
Tinha de cortar calorias e emagrecer.
"Que besteira", dizia Garrincha. "Todo mundo sabe que calorias não
engordam."
Referia-se a um best-seller corrente na época, Calorias não engordam, de
Herman Toller,  que fizera com que milhões de ingénuos no mundo inteiro
engordassem como bolas de  soprar.
Por conta própria, Elza fez Garrincha tentar vários tratamentos
alternativos. Um deles foi  com o massagista japonês Sakae Maki, um dos
pioneiros do shiátsu no Rio. Garrincha  achara esquisito quando o médico
lhe dissera que sua massagem para joelho servia também  para aplacar
asmas, úlceras ou sinusites. Mas, em 1963, tudo que viesse do Japão era
considerado esquisito, a começar por aqueles bangue-bangues de samurai.
As massagens de  Maki fizeram recuar pelo menos um derrame no seu
joelho, mas ele não continuou o  tratamento.
Um proprietário de cavalos no Jóquei, Eurico Solanês, sugeriu-lhe usar
Radiol, um  medicamento inglês que aplicava em seus animais com artrose.
Era um líquido de cheiro tão  forte quanto desagradável. Solanês doou os
primeiros frascos e, quando Elza o esfregava em  Garrincha, tinha de
abrir as janelas ou levá-lo para a varanda. No Botafogo, até o goleiro
Manga, famoso pelo mau humor, fez piada com esse tratamento de
Garrincha. Disse que ele  só iria saber se o remédio funcionava quando
começasse a relinchar como Trigger, o cavalo  de Roy Rogers. Ou quando o
célebre detetive  Perpétuo o confundisse com "Cara de Cavalo", um
bandido que a polícia vivia procurando.
Em agosto, Garrincha entrou em campo apenas uma vez e para fins de
guerra psicológica:  de novo contra o Santos, agora pela Libertadores da
América. O Santos fora campeão sul- americano e mundial de clubes em
1962 e preparava-se para ser bi em 1963. Se havia um jeito de tentar
parar Pelé & Cia., era  com Garrincha. Mas com o antigo e irresistível
Garrincha - não com aquele que já não  conseguia completar um drible e
que, numa arrancada para a linha de fundo, parecia  anquilosado e sem
pernas para acompanhar a bola. O Santos ganhou por 4x0.
Elza não deixava Garrincha desprezar nenhuma sugestão alternativa que
lhe oferecessem.  Em fins de setembro, seguiram uma sugestão do capixaba
e botafoguense Carlos Imperial e  foram ao Espírito Santo para Garrincha
tratar-se nas areias monazíticas da praia de  Guarapari. Reumáticos e
paraplégicos voltavam de lá quicando os calcanhares e falando
maravilhas da areia escura.
O Botafogo o autorizou a ficar quinze dias fora do Rio. Garrincha faria
duas sessões diárias  de duas horas e meia cada com o joelho enterrado
na areia. A intenção era boa, mas só daria  certo se ele tivesse chegado
incógnito a Guarapari, de barbas postiças e óculos escuros. Mas  os
jornais noticiaram que ele e Elza estavam a caminho e a cidade
preparou-se. Multidões se  formavam diante do hotel Radium, onde se
hospedaram. Nos poucos metros entre o hotel e  a praia, Garrincha tinha
de assinar centenas de autógrafos. E a cidade inteira insistia para  que
ele visitasse suas casas, lojas e clubes. Se aceitasse todos os
convites, almoçaria doze  moquecas por dia. Em três dias só conseguiu ir
à praia uma vez. O Botafogo ficou sabendo  e o chamou de volta. Elza
trouxe uma garrafinha com a areia de Guarapari, que aquecia e  aplicava
sobre o joelho de Garrincha dentro de uma toalha.
A hostilidade no Rio contra Elza não parava. Continuava a receber cartas
anônimas e às  vezes era ofendida na rua. Grupos se juntavam diante de
sua casa na Ilha para atirar-lhe os  velhos xingamentos de mulher fatal
ou de exploradora de Garrincha. Numa noite de junho,  quando Garrincha
estava na Europa com o Botafogo, Elza viu pela janela algumas pessoas
se agrupando de forma suspeita em sua rua. Achou que planejavam alguma
coisa e, pela  primeira vez, temeu uma invasão. Pegou a arma, chegou à
varanda e deu três tiros para o  alto. O grupo se dispersou, mas a
pacata noite da Ilha não entendeu bem o recado.
Minutos depois, um vizinho apareceu para avisá-la:
"Dona Elza, é melhor a senhora tomar cuidado. Tem um louco à solta dando
tiros por aqui."
Por causa de Elza, muitos jogadores do Botafogo deixaram de procurar
Garrincha. Um  deles foi Nílton Santos, que se julgava com obrigações
para com sua comadre Nair. E Nílton  era seu vizinho na Ilha. Dos poucos
colegas e ex-colegas que ainda o visitavam, Quarentinha  e Adalberto
eram os mais freqüentes. As únicas presenças constantes, além de
Manuelzinho  e Edgard Cosme, eram as de Pincel, Swing e seus
companheiros do Vai Que É Mole - os  únicos amigos de Pau Grande que se
lhe conservaram fiéis.
Mas ainda havia ilustres que admiravam Garrincha e gostariam de
conhecê-lo. Um deles foi  o poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto,
torcedor do América. João Cabral, que  servia em Sevilha, na Espanha,
estava no Rio e falou disso a seu amigo e também poeta,  Ledo Ivo. Ledo
conseguiu o endereço e levou João Cabral à Ilha em seu Opel alemão.
Garrincha não sabia quem eram aqueles senhores, mas recebeu-os com
educação. Não há  grande memória sobre o que falaram, mas, se João
Cabral quis conversar sobre futebol, não  conseguiu. O assunto não
interessava a Garrincha. Mas, se João Cabral mencionou que  morava em
Sevilha, Garrincha sem dúvida falou de touradas. Já assistira a muitas
na  Espanha e no México e, surpreendentemente para um brasileiro, não
torcia pelo touro.
Ao contrário. Torcia pelo toureiro e adorava quando ele fazia o touro
passar bufando e  chifrando o vento.
Com o advogado Dirceu Rodrigues Mendes ao lado de Nair e a pressa de
Garrincha em  encerrar o caso, seu desquite saiu rápido como o raio.
Mas, pelos termos que concordou em  assinar, é um milagre que Garrincha
não tenha deixado as calças no tribunal.
Pelo acordo feito na Sexta Vara de Família em agosto de 1963, a ser
homologado em  novembro de 1964, Garrincha daria a Nair a casa onde
moravam em Pau Grande, com tudo  que houvesse dentro; a metade do valor
do apartamento na rua Barata Ribeiro; a chácara de  dez mil metros
quadrados em Piabetá, com três casas já construídas; os terrenos no
Fragoso;  e uma pensão de cinqüenta mil cruzeiros para Nair e para cada
filha, totalizando 450 mil cruzeiros mensais.
O último item não seria fácil de cumprir - porque todo o salário de
Garrincha no Botafogo  era um terço disso. Seu advogado alegou esses
números e conseguiu reduzir o total da  pensão mensal para duzentos mil
cruzeiros com reajuste semestral. Para compensar,  acertou-se então que
Garrincha daria imediatamente a Nair dois milhões de cruzeiros em  ações
e, na homologação, mais cinco milhões em dinheiro.
O juiz Filipe Miranda Rosa decretou que Garrincha ficaria com a casa na
Ilha do  Governador (que, embora pertencesse também a Elza, estava
registrada em seu nome), um carro Volkswagen, o restante das ações e o
cachorro Bi - que  Garrincha fez questão de que entrasse na partilha,
para que Nair depois não o reclamasse.
Mesmo assim, Dirceu Rodrigues Mendes não ficou satisfeito. Exigiu ainda
o equivalente à  metade do valor do carro, metade das ações restantes e
25% sobre todos os ganhos futuros  de Garrincha, incluindo salários,
luvas, bichos, contratos de publicidade, venda de imóveis e  o que mais
houvesse. A intenção era a de arrancar-lhe as calças. E, para desespero
de seu  advogado, Garrincha concordou com essas exigências, exceto a dos
ganhos futuros.
O juiz determinou também que Garrincha não poderia trazer as filhas para
o Rio nos seus  dias de visita. Nair não queria que elas "freqüentassem
a casa de Elza Soares" e o juiz  acatou sua vontade. Garrincha teria de
limitar-se a vê-las em Pau Grande, onde não era bem- vindo.
Durante a audiência, não olhou para Nair, não lhe dirigiu a palavra e
pediu que não o  fotografassem perto dela. Nair chorava muito. Elza fora
sábia em não aparecer. Garrincha,  ao contrário, estava eufórico. Nem
parecia estar se desfazendo de tudo que acumulara em  dez anos como
jogador profissional.
Mas Dirceu Rodrigues Mendes ainda tinha um baralho de ases na manga.
Três semanas  depois, pediu uma audiência ao juiz para que este
arbitrasse uma pensão provisória para  Nair e disse a esta que viesse ao
Rio com as oito crianças, o que incluía o bebé. Combinou  encontrá-las
na entrada do edifício Avenida Central - dali iriam a pé para a Sexta
Vara.  Dois irmãos de Nair trouxeram-nas de Pau Grande e as entregaram a
Dirceu. Era o que ele  queria para encenar uma passeata pela avenida Rio
Branco sob o pretexto de levá-las à  audiência. Com Dirceu à frente,
Nair e sete das oito filhas, entre as quais a recém-nascida  Cíntia em
seu colo, atravessaram a Avenida e desceram a rua São José acompanhadas
por  uma multidão. Todos sabiam que se tratava da família de Garrincha.
As meninas usavam vestidinhos novos, sapatos boneca e bolsinhas de
croché. Populares  ofereciam-lhes dinheiro, alguns chegavam a atirar
moedas no chão. Para Dirceu, foi a  passeata da vitória: grande parte
daquela multidão estava ao lado de Nair - ao seu lado -  e contra
Garrincha. Aquilo o redimia mil vezes da frustrada passeata de camelos e
elefantes  pela rua do Catete vinte anos antes. Na Vara de Família, o
juiz arbitrou em cem mil  cruzeiros o valor da pensão provisória.
Garrincha foi informado, mas não se importou. Se a liberdade era uma
coisa que podia ser  comprada, ele pagaria o preço, inclusive o das
humilhações. E, com a posse de seus ganhos  futuros assegurada, não
havia o que temer. Só dependia de suas pernas.
Mas era justamente com estas que já não podia contar. Sua participação
no campeonato  carioca foi mínima: das 22 partidas do Botafogo atuou em
somente três, com largos espaços  entre uma e outra. Seus fugazes
momentos de brilho até o fim do ano foram em chutes de  bola parada,
como um gol olímpico que marcou contra o São Cristóvão. O campeonato
terminaria num Fla-Flu e o Flamengo seria o campeão de 1963. O Botafogo,
que lutava pelo  tri, ficaria num fosco terceiro lugar.
A casa na Ilha do Governador, comprada para ser um abrigo contra os
tufões que sopravam  de todos os lados, não estava se provando um porto
tão seguro. Na noite de réveillon,  Garrincha e Elza recebiam seus
poucos amigos e faziam votos para que o ano de 1964 fosse  melhor que o
que ia embora - e que já ia tarde. Havia música ao vivo, por um conjunto
da  rádio Mayrink Veiga que viera tocar para eles, e a própria Elza na
vitrola cantando "Na roda  do samba".
Pouco antes da meia-noite, Elza desceu a escada externa que dava para a
rua, a fim de pegar  gelo de um balde nos fundos. Quando subia de volta
a escada, os fogos de Ano Bom  começaram a estourar. De repente, um
deles pareceu estourar muito perto - algo zunira  rente à sua cabeça.
Fugiu correndo dali e, mais tarde, achou a cápsula. Era uma bala. E
aquele não era um  tempo de balas perdidas, mas com endereço. Foi mais
um segredo que escondeu de  Garrincha.
No passado, em época de eleição, todos os políticos da região de Magé,
não importava o  partido, iam adular Garrincha em Pau Grande. Rendia
votos ser visto ao seu lado. Garrincha  os atendia e, se um deles
perguntava se podiam tirar uma foto juntos, Garrincha concordava
correndo - era uma forma de livrar-se mais depressa do chato. De quatro
em quatro anos,  esses políticos faziam-lhe agrados, mandando-lhe
mantimentos e até mesmo porcos e  cabritos. Depois sumiam. Garrincha
aceitava os presentes, mas isso não alterava o que,  como todos os
matutos experimentados, sentia pelos políticos: desprezo.
Em 1955, votara em Juscelino para presidente; em 1960, no marechal Lott.
Votava em  quem Sandro Moreyra lhe dizia para votar. Durante o período
de agitação que se seguira à  renúncia de Jânio em agosto de 1961,
Garrincha foi a celebridade mais apolítica do Brasil -  mesmo porque
ninguém teria o mau gosto de perguntar-lhe o que estava achando da
situação. O vice Jango assumira no lugar de Jânio, os militares ficaram
inquietos e nada  disso alterara o dia-a-dia de Garrincha. Estava muito
ocupado ganhando mais uma Copa do  Mundo para o Brasil e alguns
campeonatos para o Botafogo. A única coisa que ele e Jango tinham em
comum era Angelita Martinez. E,  pelo menos no seu caso, ele queria
distância de Angelita.
Elza era diferente. Era cantora, colega de artistas politizados e amiga
de Jorge Goulart e  Nora Ney, que não escondiam suas ligações com o
Partido Comunista. Além disso, era uma  das campeãs de audiência da
rádio Mauá, cujo homem forte, o pelego Raimundo'Nobre de  Almeida, era
íntimo de Jango.
Por sugestão de Nobre de Almeida, Elza participara de várias campanhas
de Jango. Em  1960, gravara o jingle de Miguel Gustavo, "Pra
vice-presidente/ Nossa gente vai jangar/ É  Jango, é Jango/ É o Jango
Goulart". Em janeiro de 1963, no plebiscito que decidiria entre o
parlamentarismo e o presidencialismo, Elza estava entre os que gravaram
o jingle do  "Não!", também de Miguel Gustavo, favorável a Jango. Seu
disco tocava o dia inteiro nas  rádios, alternando com os de Emilinha,
Elizete, Ângela Maria e vários outros, inclusive o do  palhaço
Carequinha: "Parlamentarismo, não!/ O povo tem razão/ Eu vou marcar um
xis/ No  quadrado ao lado/ Da palavra 'Não'". Depois da vitória do
"Não", que marcara a volta do  presidencialismo, Jango até telefonara
para sua casa na Urca para agradecer-lhe - se bem  que deve ter ligado
também para Carequinha.
Com esse currículo, o grau de periculosidade de Elza não era suficiente
para fazê-la merecer  uma ficha nos arquivos do DOPS da Guanabara. Seria
preciso muito mais para que a polícia  política a considerasse uma nova
Rosa Luxemburgo - mas, em sua inocência política, ela  chegaria perto.
Em 1961, Elza fora aclamada "rainha dos metalúrgicos" em memorável show
na sede do  sindicato na rua São Luiz Gonzaga. Na mesma época,
participara de um churrasco no sítio  de um empresário na subida para
Petrópolis. Para Elza, era apenas um churrasco a que fora  levada por
amigos; mas, para seus promotores, cada fatia de maminha que saía do
braseiro  estava ajudando a arrecadar fundos para o jornal Novos Rumos,
do clandestino Partido  Comunista.
Na sexta-feira, 13 de março de 1964, Elza foi um dos artistas que
ajudaram a esquentar a  multidão antes do comício-monstro de Jango na
Central do Brasil. Outros desses artistas  eram Jorge Goulart, Nora Ney,
Jararaca, Jorge Veiga. A arregimentação dos artistas para o  comício da
Central fora feita pelo CGT (Comando Geral dos Trabalhadores), por
intermédio  de Raimundo Nobre de Almeida, e pelo Partidão. Ninguém
cobrou cachê, mas a alguns  Nobre de Almeida pagou por fora - Elza, pelo
menos, recebeu o seu.
Pouco depois, no dia 30 de março, Elza e quase o mesmo elenco estiveram
com Jango em  outro momento histórico, aliás o último de Goulart como
presidente: o discurso na sede do  Automóvel Clube, na Cinelândia, para
uma platéia de soldados radicais, entre os quais o  cabo Anselmo.
Assistindo pela televisão, a linha dura queria ver se Jango os
enquadrava na disciplina ou se era  tíbio e dúbio como de costume. Jango
parecia alterado depois se diria que, antes de falar,  tomara uísque com
Dexamil. Seu discurso foi interpretado como um tácito incitamento à
indisciplina, a ponto de temer-se que os sargentos e suboficiais saíssem
do Automóvel Clube  e marchassem sobre o palácio Guanabara para surrar
Carlos Lacerda. Aliás, Lacerda já se  preparava para resistir. Mas, que
nada: ao fim do discurso de Jango, a platéia apenas passou  para um
salão ao lado a fim de assistir a um show com, entre outros, Elza
Soares.
Na noite seguinte, 31 de março, os tanques saíram dos quartéis e, no dia
1 de abril, Jango  estava deposto. Muitos que pareciam ligados a ele ou
à antiga ordem, e mesmo os que não  tinham nada com o peixe, começaram a
ser perseguidos. Na madrugada de 20 de junho, dois  meses e meio depois,
dez homens invadiram a casa de Garrincha e Elza na Ilha.
Podiam ser os mesmos que volta e meia se juntavam em bandos para
hostilizá-los. A  diferença é que, desta vez, estavam armados e se
diziam do DOPS. O DOPS não perderia  seu tempo com Elza e Garrincha, mas
aquela era uma época em que grupos de "voluntários"  arrogavam-se o
direito de entrar nas casas dos outros para procurar refugiados ou
apreender  material "subversivo". Por aqueles dias, os apartamentos do
banqueiro José Luiz Magalhães  Lins e do jornalista Otto Lara Resende
tinham sido vasculhados por sujeitos em busca do  deputado José
Aparecido de Oliveira. Procuraram até debaixo das camas. O Exército e a
Marinha também saíam para tais operações, embora supostamente tivessem
de registrá-las  no DOPS. Os homens que invadiram a casa de Garrincha e
Elza podiam pertencer a  qualquer um desses grupos, mas não deixaram
registro escrito em nenhum órgão daquela  época. E também não
apresentaram cartões de visita.
Eles renderam o segurança de Elza e penetraram. Na casa estavam
Garrincha, Elza, dona  Rosaria e três filhos de Elza: Carlinhos, Dilma e
Gilson. Os homens os puseram nus contra a  parede da sala enquanto
reviravam a casa pelo avesso. Entre as muitas ameaças, gritaram  que iam
encostá-los no "paredão". Não disseram se estavam procurando alguém ou
alguma  coisa, mas, na confusão, Elza julgou ouvir várias vezes o nome
de Jango. Não podiam estar  procurando o presidente deposto - este já
estava posto em sossego desde o segundo dia do  golpe, numa de suas
fazendas no Uruguai.
Garrincha ficou assustado:
"Pelo amor de Deus, só não façam mal à Crioula e à minha sogra."
Aparentemente satisfeitos com o estrago, os sujeitos foram embora. Não
levaram nada. Mas,  para provar que não estavam brincando, um deles,
antes de sair, trouxe a gaiola com o mainá para a sala. Abriu a
portinhola e tirou o mainá lá de dentro. Depois de exibi-lo para
Garrincha e os outros, torceu-lhe o pescoço. Atirou-o morto no chão e
saíram.
Dois dias depois, alguns jornais deram a notícia, mas convenientemente
maquiada: a casa de Garrincha e Elza fora arrombada enquanto eles
dormiam. Os ladrões haviam matado o pássaro que ele ganhara de Lacerda.
Os homens teriam entrado e saído tão em silêncio que só de manhã os
donos da casa viram o que acontecera.
Elza queria evitar que a notícia ganhasse conotação política. Garrincha
tentou minimizar a história: os agressores deviam ser "botafoguenses ou
gente de Pau Grande". Por sua vez, Nair acusou Elza: fora ela que
mandara matar o mainá, porque seu macumbeiro lhe dissera que ele
trouxera má sorte.
Com ou sem o mainá, a má sorte de Garrincha e Elza continuaria
sobrevoando-os feito bruxa.

Capítulo 16

Dois contra uma cidade inteira

1964-1965

O JOELHO AGÔNICO

O percurso entre a mão e o bolso nunca fora tão longo. A geladeira de
Garrincha e Elza, que antes  transbordava de batidas e pernis, tinha
agora apenas algumas garrafas d'água e nem uma folha de  alface. A
despensa estava vazia, o mercadinho da Ilha cortara o crédito e muitos
amigos que, até bem  pouco antes, não saíam da casa, andavam sumidos. As
miniaturas da taça Jules Rimet, que  Garrincha ganhara em duas Copas,
haviam sido empenhadas na Caixa Econômica em Copacabana,  juntamente com
os troféus e discos de ouro de Elza. O dinheiro se evaporara e eles
estavam sem  trabalhar. A casa vinha sendo suprida pela generosa amizade
de Manuelzinho, que levava frutas,  mortadela e café quando ia
visitálos. Sem que Elza percebesse, Manuelzinho ainda soltava algum
dinheiro para Garrincha usar na rua.
As televisões não estavam chamando Elza para seus programas. Todos os
cantores suspeitos de  mínima identificação, mesmo profissional, com o
governo deposto estavam encostados. Não era uma  censura imposta pela
televisão, mas a produção dos programas não achava muito conveniente
escalá-los. Não que  temessem que, de repente, Elza parasse de cantar
"Mulata assanhada" ou "Ziriguidum" e  ressuscitasse "Vamos jangar". Mas,
no seu caso, havia também os estragos em sua imagem  provocados pelo
romance com Garrincha.
Elza teve problemas nos clubes da Zona Norte em que costumava
apresentar-se. O público silenciou- a com insultos e interrompeu shows
na Penha e em Padre Miguel. Mais de uma vez, quando ela  chegava com os
músicos, o diretor do clube já havia arrancado o seu nome da porta e lhe
dizia,  nervoso:
"Volta, Elza! Vai embora porque estão ameaçando vir aqui e quebrar tudo
se você cantar!"
Isso esteve perto de acontecer num baile em Madureira, em que um homem
veio avisar que uma  turba armada com paus, pedras e armas preparava-se
para invadir o salão se Elza Soares começasse  o show. O homem ajudou
Elza a saltar um muro nos fundos do clube e escondeu-a no chão de um
táxi, no qual ela atravessou a multidão sem ser vista.
Os clubes acabaram por vetá-la da sua programação. A venda de seus
discos também caiu. Mas a  sorte deu-lhe uma mão: Elza começou a ganhar
no jogo do bicho. Durante alguns dias foi uma orgia  zoológica - ganhou
vezes seguidas e grandes quantias de cada vez. Os bicheiros começaram a
recusar seu jogo. Elza teve de pedir a seu amigo, o motorista de táxi
Vicente Quintanilha, que fosse  jogar por ela em vários pontos da Ilha.
Quando os bichos também a abandonaram, Elza já suprira  parte das
prateleiras. Mas o futuro continuava incerto.
Elza foi cantar em São Paulo. Garrincha a acompanhou e não puderam
registrar-se no hotel Lord, na  rua das Palmeiras, sob a alegação de que
eram "gente de cor". Elza armou um banzé na recepção,  deu queixa na
delegacia, invocou a lei Afonso Arinos e chamou os jornais. O gerente do
hotel  desmanchou-se em desculpas e tentou explicar, mas ficou pior: não
podia aceitá-los porque "não  eram casados". Finalmente ofereceu-lhes a
suíte, mas Elza não quis mais. Foram para o hotel  Danúbio, na avenida
Brigadeiro Luiz Antônio. Mesmo em São Paulo estava sendo mal recebida.
Só lhe restava paralisar a carreira ou cantar em lugares onde o público,
carente de artistas, era grato  à presença deles e não sabia direito o
que se passava nos grandes centros. No segundo semestre de  1964, Elza
partiu para uma temporada de shows no interior do Nordeste.
Apresentou-se até em cima  de caminhões, mas ganhou dinheiro. Na volta,
parte desse dinheiro foi para as despesas da casa; o  restante
destinou-se a pagar três meses de pensão que Garrincha já estava devendo
a Nair - e pelos  quais estava ameaçado de ser preso.
Em março de 1964, enquanto Elza cantava nos comícios e discursos de
Jango, Garrincha  reunira condições para ir à Bolívia com o Botafogo,
fazendo quatro jogos em La Paz e um  em Cochabamba. Voltara ao Rio no
dia 20 e, com o país convulsionado pelo golpe militar, ficara três
semanas em repouso. Em abril  e maio, disputara sete partidas pelo
torneio Rio-São Paulo. Disputara é força de expressão:  Garrincha
entrava em campo e ficava parado. De tempos em tempos recebia uma bola.
Às  vezes tentava uma jogada. Mas, na maioria, devolvia a bola ao colega
e continuava quieto  em sua ponta. A torcida botafoguense se irritava
com ele e cantava o "Volta pra casa" -  sem saber que estava sendo
espectadora de uma farsa benigna, autorizada pelo novo  treinador do
Botafogo, Zoulo Rabelo.
Zoulo era um homem inteligente e sensível. Instruíra os jogadores a que
dessem o mínimo  de bolas para Garrincha e que o deixassem ditar seu
próprio ritmo. Quando se sentisse bem  para tentar um drible e ir à
linha de fundo, ele faria isso. Se não, daria um toquinho de lado  para
um companheiro, e esse companheiro deveria ser compreensivo. Seria como
se o  Botafogo jogasse com dez, mas, em algum momento, Garrincha poderia
surpreender. E  Zoulo estava certo, porque Garrincha chegou a fazer três
gols naquelas sete partidas, contra  o Flamengo, o Santos e o Bangu.
Mas, em todas elas, sempre que lhe davam a bola, sua secreta sensação
era de pânico. Sabia  que, por menos que se mexesse, seus joelhos
estariam em pandarecos depois do jogo e ele  voltaria para casa quase
que de rastos. E, pior ainda, sem saber quando poderia jogar de  novo.
Em outros tempos, isso não lhe faria diferença, porque o Botafogo era
obrigado a  pagar-lhe do mesmo jeito. Só que, agora, Garrincha não tinha
escolha: pelos termos de seu  novo contrato, assinado no começo do ano,
seu salário ficara congelado nos já  insignificantes 150 mil cruzeiros e
ele passara a ganhar por partida que disputasse: 100 mil  cruzeiros.
Eram cerca de cem dólares. Podia não ser uma fortuna, mas era o que lhe
restava. Donde,  em vários daqueles jogos pelo torneio Rio-São Paulo de
1964, fora ele que se forçara a jogar.
As dores no joelho irradiavam-se para o seu ego. Numa dessas partidas,
contra o Vasco, no  dia 15 de abril, Garrincha foi anulado por um
lateral vascaíno chamado Pereira. A torcida do  Vasco não perdeu a
chance de cantar:
"O Pereira é o fino/ O Garrincha é o grosso/ O Pereira botou/ O
Garrincha no bolso!"
Em fins de maio, a seleção brasileira disputaria a taça das Nações
contra Inglaterra,  Argentina e Portugal, no Maracanã e no Pacaembu. O
treinador voltara a ser Vicente Feola  - e Feola ousou convocar
Garrincha. Seria o seu retorno à seleção desde a última partida  na Copa
do Chile. Em outros tempos esse retorno seria saudado pela banda dos
Fuzileiros  Navais. Mas agora era diferente: na opinião de muita gente
na CBD, Garrincha estava liquidado - e já  circulavam as histórias de
que estaria "bebendo". Não fora uma decisão tranqüila para a  comissão
técnica. A favor de sua convocação influíram João Havelange e Carlos
Nascimento.
No dia marcado para a apresentação dos jogadores nas Paineiras, os
espíritos-de-porco  garantiram que ele não iria aparecer - e Garrincha
não apareceu.
Um dirigente teria esbravejado:
"Corta esse vagabundo! Ninguém vai buscá-lo como das outras vezes!"
Mas Garrincha não foi cortado e apareceu no dia seguinte. Disse que na
Ilha não tinha  telefone (verdade), jornal, rádio ou televisão (menos
verdade) e que pensara que a  apresentação fosse no outro dia. Ninguém
acreditou, mas não fazia diferença. Antes que  desfizesse sua mala nas
Paineiras, a CBD, por iniciativa de Hilton Gosling, levou-o a exame  por
uma junta médica. Os nove médicos debruçaram-se sobre Garrincha como no
quadro A  lição de anatomia, de Rembrandt, e não gostaram do espetáculo:
artrose nos dois joelhos e  inflamação aguda nos tendões do quadríceps -
resultado das partidas quase seguidas que  jogara em abril. Precisava de
aplicações de cortisona, ultra-som e ondas curtas e vinte dias  de
descanso e fisioterapia. Tiveram de cortá-lo.
Para o seu lugar na seleção, Feola escalou Julinho. Com Garrincha fora
do caminho, só ele  poderia ser o titular. Mas Julinho, aos 35 anos,
também já tinha saudades do antigo Julinho.  A Argentina humilhou o
Brasil por 3x0 no Pacaembu e foi a campeã da taça das Nações.
Diante dos atrasos no pagamento da pensão, o juiz da Vara de Família
determinou o  desconto de quarenta por cento do que Garrincha ganhasse.
O Botafogo foi notificado a  fazer os descontos na fonte. E,
estranhamente, o dinheiro que saía dos ganhos de Garrincha,  mesmo sem
passar por seu bolso, nunca era suficiente para Nair.
Nair não tinha conta em bancos - mas Dirceu Rodrigues Mendes tinha. O
advogado  convenceu-a de que, para "apressar o dinheiro", Nair deveria
assinar uma procuração  dando-lhe poderes para receber por ela. O
dinheiro saía do salário de Garrincha e ia para  uma conta em nome de
Dirceu. Mas nem metade desse valor era repassado a Nair. O saldo
desaparecia numa hemorragia de descontos alegados por ele: despesas de
"serviços", de  escritório, de despachante e, incrivelmente, até
impostos - de que eram isentas as pensões  de alimentos. Nair aceitava
sem discutir as explicações do advogado. A solução, insinuava  ele, era
obrigar Garrincha a aumentar a pensão.
Daí por que Garrincha não podia ficar sem jogar. Os vinte dias de
inatividade que a junta  médica Lhe dera prolongaram-se por quase dois
meses. Em meados de julho, sentiu-se  melhor e pediu para voltar ao
time. Foi a Buenos Aires para quatro jogos com o Botafogo.  Só conseguiu
atuar em dois e voltou com o joelho em petição de miséria. Mesmo assim,
esforçou-se para começar a disputar o campeonato carioca. Entrou nas
duas primeiras  partidas e foi um fantasma em campo: o Botafogo empatou
em 0X0 com o América e  perdeu de 3X1 para o Campo Grande. Mais do que
nunca, a agonia de Garrincha tornara-se  pública - semana sim, semana
não, era exposta ao sol ou aos refletores do Maracanã. A  cada drible
frustrado, seguido da mão que ele levava ao joelho, os colunistas e
parte das  arquibancadas se revoltavam. Para eles, o Botafogo estava
obrigando Garrincha a jogar.
Na verdade era o contrário - e não faltavam jovens pontas no Botafogo
para tomar-lhe o  lugar. Mas o Botafogo era um vilão fácil e, além
disso, já fizera aquilo em outras ocasiões.  Só que, agora, seus
dirigentes estavam excessivamente sensíveis a qualquer crítica por causa
de Garrincha. Armando Nogueira desencadeou pelo Jornal do Brasil uma
campanha a favor  do jogador e começou a receber telefonemas anónimos:
"Ou você pára ou nós vamos te eliminar."
O telefone de sua casa tocava de madrugada, com ameaças a ele ou à sua
mulher Bruneilde.  Para Armando, essas ameaças partiam dos amigos de
Brandão Filho, a quem vinha atacando  todos os dias por sua truculência,
pela insensibilidade e até pelos suspensórios que usava.  Armando teve
de trocar o número do telefone.
A crise estava perto de chegar aos cem graus e ferver. No dia 27 de
julho, Lídio Toledo deu  um ultimato a Garrincha: se quisesse continuar
jogando, teria de operar-se. Seu problema só  desapareceria com a
raspagem da artrose e a extração dos meniscos. Médicos, enfermeiros,
preparadores físicos, todos estavam cansados de vê-lo arrastar-se no
gramado, ser  humilhado pelos zagueiros, deixar o campo com o joelho
estuporado e voltar aos fornos,  toalhas quentes e injeções, depois
entrar em campo - e começar tudo de novo.
Elza também estava cansada daquela situação. Só ela era testemunha das
lágrimas de  Garrincha antes e depois de cada jogo. Implorou-lhe que
ignorasse as rezadeiras e aceitasse  a operação.
Por causa de Elza, Garrincha finalmente concordou. Os médicos gritaram
aleluia. Mas, para  Lídio Toledo, apenas a cirurgia não seria
suficiente. Seu sucesso dependeria do  comportamento de Garrincha nas
semanas seguintes. Teria de descansar, ir ao clube nos dias  marcados e
fazer os exercícios. Assim, impôs também que ele assinasse uma
declaração  "comprometendo-se a seguir direito o tratamento clínico
pós-operatório".
Garrincha indignou-se com essa exigência. Na verdade, continuava
preferindo as rezadeiras.  Usou a imposição de Lídio Toledo para recuar
da cirurgia:
"Não assino nada e não tem operação. O que eles estão pensando? Que eu
sou um  irresponsável?"
Era precisamente o que pensavam. Garrincha não tinha disciplina para
compromissos,  horários ou dietas. Estava habituado a só fazer o que
quisesse e a ser perdoado. Enquanto  suas pernas eram jovens, compensava
sua irresponsabilidade com dribles e gols. Mas, agora,  em que estava
quase entrevado, sua irresponsabilidade voltava-se contra ele.
A operação foi adiada. Houve uma ligeira melhora em seu joelho e
Garrincha pediu para  jogar. Lídio Toledo foi contra. Apelou ao Botafogo
para que só o deixasse entrar em campo  depois de operado. Não foi
atendido. Garrincha jogou contra o Madureira no dia 9 de  agosto e levou
quase um mês para recuperar-se. Voltou a campo contra o Fluminense no
dia  6 de setembro e, à saída do jogo, parecia que nunca mais pisaria
num gramado. Até quando  ele próprio suportaria tanta dor, física e
emocional?
Como jogasse uma partida e ficasse cinco ou seis de fora, Garrincha
reivindicou que o  Botafogo lhe pagasse sempre que o time entrasse em
campo - com ou sem ele.
"Afinal, me estourei defendendo o Botafogo. É mais do que justo", ele
disse.
Ney Cidade Palmeiro, agora presidente do clube depois dos dez anos de
reinado de Paulo  Azeredo, concordou, desde que ele se operasse e
fizesse o tratamento. Garrincha aceitou,  mas pediu novo adiamento da
operação. Palmeiro também concordou.
Três semanas depois, quando já se dava como certo que aquela novela
nunca teria fim,  Garrincha marcou o dia da operação. E, quando soube, o
queixo do Botafogo caiu.
Iria operar-se, mas por um médico de outro clube.
Seu amigo Jaílton, meia-armador do América, falou a Garrincha do
ortopedista de seu clube,  o dr. Mário Marques Tourinho. Disse que ele
passara a vida operando meniscos. Já extraíra  mais de dois mil, entre
os quais os de metade do time do América. E todos os jogadores que  ele
operara estavam lampeiros nas quatro linhas. Jaílton levou-o a Marques
Tourinho em sua  clínica no hospital da Cruz Vermelha, na Lapa, e este
perguntou a Garrincha:
"Você quer mesmo operar?"
"Quero" - nem o próprio Garrincha sabia de onde tirara aquela firmeza.
"Então vamos fazer um exame."
Pelo diagnóstico de Marques Tourinho no dia 27 de setembro, a artrose de
Garrincha era  inicial, comum a atletas de mais de trinta anos (e
Garrincha estava para completar 31). O  problema, segundo ele, eram os
meniscos. Estes eliminados, a artrose deveria ceder. Esse  diagnóstico
contrariava as opiniões anteriores sobre o joelho de Garrincha. De
qualquer  maneira, a operação só daria certo se ele se cuidasse e
fizesse os exercícios do pós- operatório, como dissera Lídio Toledo.
Garrincha concordou com tudo.
Quando quis saber quanto aquilo lhe custaria, Marques Tourinho foi
magnífico:
"Otri."
Estava otimista. Esperava devolver Garrincha não apenas ao futebol, mas
à seleção  brasileira, para que esta voltasse da Copa do Mundo de 1966,
em Londres, com o título de  tricampeã mundial. Ele só teria de pagar as
despesas do hospital.
Marques Tourinho disse a Garrincha que, por uma questão de ética,
comunicasse a operação  ao Botafogo. E ele próprio telefonou para seu
colega Lídio Toledo, que não se opôs. Lídio  sentiu-se traído, mas como
poderia opor-se? Viríha lutando pela cirurgia havia dois anos.  Mas Ney
Cidade Palmeiro teve um choque. Quem pagaria a operação? Não o Botafogo.
E  se houvesse um problema e Garrincha ficasse definitivamente
inutilizado? O Botafogo é que  pagaria o pato. Seria feito um seguro?
Não se sabia. E por que, depois de recusar-se a ser  operado pelo clube,
que vivia insistindo nisso, foi procurar um estranho?
Ney Cidade Palmeiro entregou os pontos quando soube da resposta de
Garrincha a esta  última pergunta:
"O Jaílton me disse que com o doutor Tourinho não dói."
A cirurgia foi feita dois dias depois, 29 de setembro, na Cruz Vermelha.
Durou uma hora e  dez minutos, com anestesia geral. Não existia a
artroscopia - o joelho era aberto como se  fosse uma jaca. O trauma na
região operada era fortíssimo. Marques Tourinho extraiu os  meniscos
interno e externo do joelho direito de Garrincha. O interno estava
esfacelado e o  externo ia pelo mesmo caminho. O médico confirmou que a
artrose era quase insignificante.  A cirurgia foi fotografada, com as
câmaras quase penetrando na incisão. Eram cenas que  pareciam saídas de
um filme de Roger Corman com Vincent Price.
Garrincha ficou três dias no quarto nfi 2 do hospital. Pediu que suas
filhas fossem visitá-lo e, apesar de saber que Elza estaria presente,
Nair consentiu. Elza passou os três dias à cabeceira de Garrincha,
afagando-lhe o rosto e os cabelos. Dava-lhe a comida na boca,
barbeava-o, velava o seu sono e tinha sobressaltos se ele suspirasse
mais forte. Mas pelo menos duas vezes teve de ir à sua casa, para tomar
banho e ver seus próprios filhos. As enfermeiras mais sapecas
aproveitavam sua ausência e faziam fila para admirar o sono de Garrincha
-  porque, sob a calça curta do pijama verde, sem cueca, podia-se
entrever uma descomunal  ereção.
O Botafogo desconheceu oficialmente a cirurgia, exceto para dizer que a
responsabilidade  pela recuperação de Garrincha seria do médico que o
operou. O único dirigente a visitá-lo  foi João Citro, agora diretor de
futebol, mas em seu nome pessoal. E mesmo assim depois  que os
dirigentes da CBD, do Flamengo, do Fluminense e do Vasco já tinham ido à
Cruz  Vermelha para ter notícias. A turma da rua Miguel Lemos correu uma
lista para ajudar  Garrincha a pagar as despesas. E, na sua saída do
hospital, um emissário de José Luiz  Magalhães Lins apareceu com um
cheque de quatrocentos mil cruzeiros. Não era necessário,  porque Elza
já havia pago com um dinheiro que recebera da rádio Mayrink Veiga. Mas o
emissário de Magalhães Lins insistiu em ressarci-la do mesmo jeito.
A oferta de Zé Luiz até que vinha a calhar. Ao subir as escadas de sua
casa, amparado por  Elza e Sandro Moreyra, Garrincha ficou sabendo que,
pela insubordinação de ter-se operado  com um médico de outro clube, o
Botafogo o multara em sessenta por cento dos seus  vencimentos.
Trinta e oito dias depois, em 4 de novembro, Marques Tourinho deu
Garrincha como  curado e o devolveu ao Botafogo para os primeiros
individuais. Ele foi ao clube, fez  ginástica e o joelho reagiu bem. E,
quando tudo indicava que, finalmente, teria sossego para  recuperar-se,
o céu não esperou nem 24 horas para fechar-se de novo sobre a sua
cabeça: no  dia seguinte sua casa foi penhorada pelo advogado de Nair.
O cheque de 5 milhões de cruzeiros, que Garrincha lhe dera na
homologação do desquite,  não tinha fundos.
Para fazer esse pagamento, Garrincha autorizara a venda do restante de
suas ações. Elas  foram liquidadas pelo melhor preço e o dinheiro
entrara em sua conta corrente. Mas, entre  esse depósito e a emissão do
cheque para Nair, Garrincha sacara com a generosidade e  desprovimento
que o caracterizavam. E, como também de hábito, nunca se preocupara em
atualizar o canhoto do talão. Passou o cheque para Nair e ele foi
devolvido. O advogado  entrou com o pedido de penhora e o juiz o
deferiu. Se Garrincha não arranjasse os 5 milhões  em cinco dias, sua
casa iria a leilão.
Garrincha juntou os restos de seu ibope no Botafogo e foi ao clube
tentar um empréstimo.  Propôs pagá-lo na sua próxima renovação de
contrato ou numa possível venda de seu passe.  Ney Cidade Palmeiro e
Brandão Filho disseram não. Depois do episódio da operação, em  que se
sentiram esfaqueados pelas costas, nenhum dos dois estava interessado
nos  problemas de Garrincha.
Sandro Moreyra ainda tentou convencê-los pelo lado político:
"Vocês acham que fica bem para o Botafogo um de seus profissionais ter a
casa penhorada?  E ainda mais sendo o Garrincha? Pensem bem, essa
notícia vai correr o mundo."
"Azeite", disse Brandão. "Ele e aquela mulher [Elza] que se organizem."
A notícia saiu nos jornais e foi humilhante para todos. Mas sua
divulgação atraiu a atenção  de um torcedor - um empresário. Ele
procurou Garrincha em surdina e lhe ofereceu o  dinheiro, desde que seu
nome não aparecesse. Garrincha, agradecido, aceitou-o como  empréstimo.
O outro insistiu:
"Nada disso. Eu é que agradeço pelo que você tem feito por nós."
O homem era o empresário Alfredo Monteverde, dono das lojas Ponto Frio.
E nem ao  menos torcia pelo Botafogo - era Garrincha e Flamengo.
Garrincha foi buscar o dinheiro  no escritório central da empresa, na
rua Buenos Aires, e deu um jeito de retribuir a  generosidade de
Monteverde: durante dois meses posou de graça para anúncios do Ponto
Frio. Sua casa estava salva.
Com todos os seus problemas físicos e financeiros, Garrincha encontrava
tempo e disposição  para servir os amigos ou preocupar-se com eles. A TV
Rio lançara uma campanha para a  construção de um hospital para a ABBR
(Associação Brasileira Beneficente de  Reabilitação). Walter Clark e
Gugu Mello Pinto tiveram a idéia de usar Garrincha como  símbolo -
afinal, era quase um deficiente. Suas pernas tortas seriam um exemplo de
que  ninguém devia deixar-se derrotar. Garrincha aceitou e, de graça,
estrelou comerciais e fez  aparições públicas ao lado de Mariazinha, uma
menina hemiplégica. Com os fundos  arrecadados naquela campanha, a ABBR
construiu o seu hospital no Jardim Botânico.
Em agosto acontecera o horrível acidente em que a cantora Dalva de
Oliveira batera com o  carro num poste perto do túnel Novo e fora levada
com fratura de crânio e rosto esfacelado  para o Miguel Couto. Seu filho
Pery Ribeiro foi informado e correu para o hospital. Quando  chegou, já
encontrou alguém na sala de espera: Garrincha. Ouvira a notícia no rádio
e  julgara ser sua obrigação ir para o hospital - a família de Dalva
podia precisar de alguma  coisa. Garrincha nunca vira Dalva na vida. Mas
era fã de seus discos, adorava sua gravação  de "Olhos verdes", que
falava em "saborosos cambucás". Durante os dias em que Dalva  correu
risco no hospital, Garrincha não saiu da sala de espera revezando-se com
Pery.  Quando Pery ia dormir, era ele que atendia a imprensa e informava
sobre Dalva.
Foi solidário em todos os minutos - sem adivinhar que, um dia, ele
também precisaria dessa solidariedade.
Se tinham de aturar Garrincha, que pelo menos o pusessem para jogar -
esse era o sentimento predominante no peito de homens duros e objetivos
como Citro, Brandão Filho e outros no Botafogo. O clube acabara de
contratar o jovem Admildo Chirol para a preparação física e sua primeira
incumbência foi tentar recuperar a parte muscular de Garrincha depois da
operação.
O chefe do departamento médico, dr. Nei Mendes de Morais, genro do
presidente Cidade  Palmeiro, disse a Chirol:
"A parte física de Garrincha é com você. Mas a parte médica é outra
coisa. Se ele quiser  uma aspirina, que vá pedir ao Marques Tourinho."
Os médicos do Botafogo não perdoavam Garrincha pela operação, mas não se
sabe se, feita  por eles, o resultado teria sido diferente. Com ou sem
menisco, a artrose de Garrincha  prosseguiu no seu perverso trabalho de
moenda e as inchações não demoraram a voltar -  afinal, não era tão
insignificante como pensava Marques Tourinho. A artrose lutou contra o
trabalho de Chirol, que tentava reforçar o quadríceps de Garrincha para
evitar que o joelho  ficasse sobrecarregado. Sua perna direita estava
mais fina que a esquerda como resultado da  atrofia, e ele ainda
carregava quatro quilos a mais sobre elas.
Garrincha passou o resto de 1964 em fisioterapia - e, durante todo o ano
de 1965, jogou  suas últimas 23 partidas pelo Botafogo. Ou simulou
jogar.
Nesse último ano, o Botafogo trocou várias vezes de treinador: depois de
Zoulo Rabelo,  vieram Geninho, Daniel Pinto e, às vezes, o próprio
Chirol. Nenhum deles pôde contar  cegamente com Garrincha para os jogos
importantes. Ele só servia agora para as excursões,  como a que o
Botafogo fez em janeiro ao Peru e ao México. Mas, se pensavam exibi-lo
para  platéias mais tolerantes, enganaram-se - porque os torcedores
desses países, que o tinham  visto tantas vezes no seu esplendor, sabiam
que aquele jogador gordo e desajeitado, com  uma perna mais fina que a
outra, podia ser qualquer um, menos o Garrincha que conheciam.  O
Botafogo devolveu-o ao Rio no meio da excursão.
Na volta da delegação, um relatório secreto de João Citro, que a
chefiara, vazou para alguns  jornalistas. Dizia que Garrincha estava
incapacitado para o futebol - mas que isso "não  deveria ser divulgado
porque ainda poderiam vendê-lo".
Pouco antes, correra o boato de que o Santos queria comprá-lo e de que o
Botafogo pedira  500 mil dólares pelo seu passe. O Santos teria
desistido. Mas era um boato difícil de  acreditar. Naquela mesma semana,
o Santos arrasara o Botafogo de Ribeirão Preto pelo  campeonato paulista
por 11X O, com oito gols de Pelé. E, dias depois, enfiara 7 x 4 no
Corinthians, com mais quatro gols de Pelé. Por que um time desses
precisaria de um jogador em estado terminal?
Ao saber do relatório de João Citro, Garrincha perguntou aos soluços:
"Se estou liquidado e não valho nada, por que não me dão o passe de
graça? Por que pedem  tanto por ele?"
No primeiro semestre de 1965, o Botafogo já lhe cassara todos os
privilégios. Nos treinos,  tinha agora de disputar a posição com
Jairzinho, Rogério e Bianchini, todos vendendo  juventude, saúde e
talento, e até com um reserva chamado Sicupira. Garrincha via aquilo
como uma humilhação - mas só por não saber que o Botafogo passara a
enxergá-lo como  um dinossauro velho, inconsciente de sua iminente
extinção. Seu contrato venceu em março  e, nas semanas seguintes,
ninguém o procurou para conversar sobre a renovação. Garrincha  engoliu
o orgulho e foi procurar Citro.
Propôs que o liberassem para ir jogar no México - tinha um convite do
Vera Cruz, um  pequeno clube mexicano. Passaria um ano fora, ganharia um
bom dinheiro e voltaria para  encerrar sua carreira no Botafogo, jogando
por um ordenado simbólico. Citro nem  considerou o assunto. Não iria
soltá-lo de graça para que outro clube usufruísse os últimos  minutos de
seu futebol e recebê-lo um ano depois, já definitivamente escangalhado,
e ainda  tendo de pagar-lhe para jogar. Garrincha então propôs que, por
seu novo contrato, o  Botafogo lhe pagasse apenas por partida disputada:
400 mil cruzeiros no Brasil e 2 milhões  no exterior. Citro prometeu
considerar.
"Tarzan", chefe da torcida alvinegra, manifestou o que muitos
botafoguenses estavam  pensando:
"Quem Garrincha acha que é para valer tanto? É nisso que dá o Botafogo
não o ter punido  antes."
Em abril, os dirigentes finalmente o chamaram para discutir.
Ofereceram-lhe 800 mil  cruzeiros mensais e 150 mil por partida.
Garrincha aceitou. Ao câmbio da época, esse  salário equivalia então a
400 dólares. E só saíra porque Ademar Bebiano, Rivadávia Corrêa  Meyer e
outros beneméritos haviam interferido. Sabiam que, nas condições em que
estava,  seria melhor para Garrincha ter um fixo razoável do que
depender de partidas que já não  estava podendo jogar. De certa forma,
aquela foi uma caridade dos beneméritos. Para o  Botafogo, que não lhe
queria pagar nem isso, Garrincha podia lamber os beiços.
Lamber os beiços era um prazer cada vez mais raro para Garrincha e Elza.
Sua vida na Ilha  do Governador estava ficando impossível. Todo mundo
parecia saber onde moravam. Aos  domingos, o programa inevitável de quem
fosse até lá para visitar parentes, pescar ou  vagabundar era
concentrar-se diante da "casa de Garrincha". Nem todos se limitavam a
postar-se na esquina e espiar de longe. Havia os mais ousados que lhes
disparavam ofensas e provocações. A própria casa continuava a provocar
aborrecimentos: a  cada atraso na pensão de Nair, Dirceu Rodrigues
Mendes ameaçava-os com o seqüestro dos  bens.
Em retrospecto, ela não estava sendo o doce lar com que sonhavam. Já
tinham sofrido ali o  atentado contra Elza no réveillon; a invasão
armada e o assassínio do mainá em junho; a  penhora em novembro; uma
enciclopédia de palavrões que os desocupados lhe lançavam da  rua e um
interminável derrame de cartas anónimas. Tudo isso em menos de dois
anos. A  gota d'água foi um despacho de macumba que Elza encontrou
dentro de um urinol debaixo  de sua cama. Desta vez ela se assustou -
quem conseguiu penetrar na casa podia ter piores  intenções que plantar
um despacho.
Garrincha deu Bi para um amigo e, em abril de 1965, ele, Elza e seus
filhos alugaram a casa  e abandonaram a Ilha. Mudaram-se para um
apartamento alugado em Ipanema e tentaram  começar vida nova.
"Vamos balançar/ Cantando/ Vamos balançar/ Sambando/ Vamos balançar/ E
deixando a  tristeza da vida pra lá.// Como é que nasce o amor?/
Balançando/ Como é que se cura uma  dor?/ Cantando/ Então vamos
balançar/ E deixando a tristeza da vida pra lá."
Podia não ser tão bom quanto "Garota de Ipanema", que Tom e Vinícius
tinham acabado de  lançar, mas não era mau para um principiante.
Chamava-se "Receita de balanço" e, no selo  do compacto gravado por
Elza, o samba vinha assinado, música e letra, por "Manuel dos  Santos
(Garrincha)". A idéia saíra de uma bossa-nova lançada em 1964 por Lúcio
Alves,  "Balançamba", de Menescal e Bôscoli, que dizia, "Se você não
sabe balançar/ Pede pró  Garrincha te ensinar". Então Garrincha
resolvera fazer exatamente isto - ensinar a sua  "receita" de balanço.
Na verdade, apenas assoviara um tema. Elza o solfejara com ele e, com as
centenas de letras  de música que tinha na cabeça, ajudara-o a encaixar
as palavras. Meses depois, ela gravaria  outro samba assinado por
Garrincha, "Pé redondo". "Receita de balanço" seria um pequeno  sucesso
de rádio, mas nenhum dos dois sambas faria a glória da cantora e muito
menos do  compositor.
Mas faziam parte do esforço de Elza para passar ao mundo uma imagem
alegre e otimista de  Garrincha contra todas as desgraças que o
perseguiam. Elza conseguia esconder até a  crescente dependência de
Garrincha em relação à bebida. Àquela altura, ele já não esperava  a
hora do almoço para preparar sua primeira caipirinha. Começava a beber
bem cedo, logo  depois do café da manhã, embora Elza ainda não soubesse
o que isso significava.
Quando o recriminava por começar àquela hora, ele se justificava:
"Eu gosto do meu limãozinho, Crioula. É preciso ter hora pra gostar de
alguma coisa?"
E, como Elza temia, quando se mudaram para Ipanema, Pincel e Swing quase
se mudaram  junto com eles.
Pelas contas de Elza, era possível que, de copo em copo, Garrincha
estivesse tomando mais  de um litro por dia. Ela não entendia como ele
podia beber tanto e raramente ficar alterado.  No Botafogo, aonde
Garrincha só ia à tarde, ninguém imaginava que o homem a quem  Chirol
submetia a pesados exercícios pudesse estar com aquela carga alcoólica
no  organismo. Sabiam que ele bebia mas não em que quantidade. Se ao
menos  desconfiassem, talvez descobrissem por que suas recuperações eram
tão difíceis e  demoradas.
O apartamento na rua Visconde de Pirajá, 371, na praça Nossa Senhora da
Paz, quase  esquina com Maria Quitéria, era o primeiro em que moravam.
Até então, entre as grossas  paredes das casas da Urca e da Ilha do
Governador, não precisavam censurar-se ao fazer  amor - na Ilha, não
havia sequer outras casas por perto. Mas em Ipanema era diferente. Só
perceberam que o áudio vazava para os outros apartamentos quando seus
vizinhos do  quarto andar começaram a bater com o chinelo na parede,
mandandoos parar com aquilo.
Em seus primeiros anos com Elza, Garrincha foi de uma fidelidade quase
exemplar:  desativou todos os seus velhos casos e não os substituiu por
nenhum novo. Sua paixão por  ela neutralizara a volúpia de ir para a
cama com qualquer mulher que lhe pisasse a sombra.  O máximo de
prevaricação de que poderia ser acusado foram algumas empregadas de Elza
na Ilha enquanto ela viajava pelo Nordeste. Na volta, Elza deve ter
farejado alguma coisa,  porque trocou toda a criadagem. Mas, com a
patroa em cena, Garrincha não queria saber de  diversificações. E,
dependendo da visita, não havia razão para cerimónias entre eles.
A dupla Miéle e Bôscoli, por exemplo, foi ao apartamento da Visconde de
Pirajá para  discutir com Elza os detalhes de um show que fariam com ela
e com o dançarino Lennie  Dale no bar Rio 1800, no Arpoador. Garrincha
ouvia a conversa, mas parecia inquieto. Uma  hora depois, foi para o seu
quarto e gritou:
"Crioula, vem aqui ver uma coisa."
Elza pediu licença e foi atender Garrincha. Da sala, Miéle e Bôscoli
ouviram deliciados a  trilha sonora do que se passava lá dentro.
Pareciam estar arrastando cómodas ou torturando  um gato. Em quinze
minutos, Elza voltou ajeitando a touca e Garrincha reapareceu mais
calmo. Acabaram de discutir o  repertório, os arranjos e a coreografia,
e o show teve casa lotada por várias semanas.
A Receita Federal também tinha os seus motivos para deliciar-se. Acabara
de descobrir que  Garrincha devia doze milhões de cruzeiros ao imposto
de renda. Os quais, com os juros e  com a recém-criada correção
monetária, iriam a 44 milhões de cruzeiros - 22 mil dólares.
Um dinheiro que, para ele, em 1965, só existia além do arco-íris.
O oficial de Justiça ia procurá-lo todos os dias no Botafogo. Mas
Garrincha já deixara  instruções para que retivessem o homem na portaria
e fossem lá dentro avisá-lo. Quando o  sujeito de pasta e terno das
Casas José Silva despontava no vestiário ou no gramado, ele já  escapara
pelos fundos. Os porteiros do Botafogo estavam habituados - os oficiais
de  Justiça viviam à cata de Garrincha. Antes, a causa eram as pensões
de Nair; agora, seu  perseguidor era o imposto de renda.
"Não sabia que estava devendo", ele se justificou. "Para viajar com o
Botafogo ou com a  seleção, eles sempre carimbaram um visto de quitação
no meu passaporte."
Garrincha não percebia que eram vistos provisórios, conseguidos pelo
clube ou pela CBD,  sem os quais não sairia do país - embora, se fizesse
um esforço de memória, talvez se  lembrasse de que nunca na vida
preenchera uma declaração de renda. Antes de 1964 isso  não tinha
importância porque, até então, pagar impostos no Brasil era uma
atividade quase  facultativa. Categorias inteiras eram isentas, sem o
menor motivo para isso, como os juizes e  os jornalistas. Mas, com os
militares no poder e Otávio Gouveia de Bulhões no Ministério  da
Fazenda, descobriu-se a figura do contribuinte - e, logo no primeiro ano
do regime, a  Receita Federal foi em cima dos relapsos, com um furor
retroativo que não pretendia poupar  ninguém.
Garrincha estava perplexo:
"Mas por que isso, de repente?"
Um dirigente do Botafogo explicou:
"É o Bulhões."
Garrincha continuava sem entender:
"Mas que Bulhões? Eu nem conheço ele!"
Garrincha não era o único do Botafogo apanhado na teia. Os outros
bicampeões mundiais  também estavam devendo ao imposto de renda: Nílton
Santos, Didi e Zagalo. O sentimento  popular viu aquilo como uma
maldade: por que cobrar logo deles quando havia tantos  tubarões à
solta? Pelos jornais, Nelson Rodrigues e Paulo Mendes Campos apelaram a
seu amigo Roberto Campos para que o governo perdoasse a dívida dos
heróis do bi. Invocaram  o caso do ex-campeão mundial de boxe Joe Louis,
que tivera seu gigantesco débito  perdoado pelo Fisco americano. Mas
Roberto Campos era ministro do Planejamento, não da  Fazenda, e não
podia fazer nada. E, mesmo que pudesse, não o faria. Se anistiasse os
bicampeões do Botafogo teria de fazer o mesmo com os dos outros clubes.
Os jogadores  que não fossem campeões nem de bafo-bafo iriam querer o
mesmo privilégio. E os  jornalistas e juizes também estrilariam. Além
disso, essa anistia teria de ser votada pelo  Congresso - e mal estava
existindo Congresso.
Para livrar-se do problema, os outros três pagaram sem chiar, embora
isso fosse um golpe  no seu património: Nílton Santos vendeu um
apartamento em construção que comprara na  rua Voluntários da Pátria; e
Didi e Zagalo separaram-se de suas economias. Garrincha não  tinha de
onde tirar tanto dinheiro. E, então, como acontece aos ungidos, alguém
veio  novamente salvá-lo. Desta vez foi João Havelange.
O presidente da CBD tinha duas certezas em 1965: o Brasil seria
tricampeão mundial na  Copa de 1966 e, com esse cartel, ninguém
impediria a ele, Havelange, de chegar à  presidência da FIFA em 1970.
Com Pelé e, se possível, Garrincha, o tri eram favas contadas.  Não
havia problemas com Pelé. Mas Garrincha já não era o mesmo e precisava
de ajuda. A  CBD faria qualquer coisa para recuperá-lo. A primeira
providência era pagar seu imposto de  renda. A segunda era reintegrá-lo
à seleção para que ele voltasse a motivar-se.
E assim Garrincha viu-se livre de seu débito com Otávio Gouveia de
Bulhões e convocado  por Feola para a breve excursão da seleção à
Argélia e à Europa em junho.
Jogou as três partidas no Maracanã (contra Bélgica, Alemanha e
Argentina) que serviram  como preparativo e viajou no dia 11 de junho
com a delegação. Mas sua melhor  performance da excursão seria ali
mesmo, na sala de espera do Galeão, pouco antes do  embarque. Abraçado a
Elza para os fotógrafos, era como se estivesse respondendo aos que
desde março de 1963 apregoavam a sua derrocada. Para Elza, aquela era
também uma hora  de triunfo: sobrevivera a todos os ataques e, graças à
sua dedicação, Neném estava de volta  à seleção.
Mas antes não estivesse - por enquanto. Pelo menos, a comissão técnica
considerou assim.  Garrincha jogou as duas primeiras partidas, contra a
Argélia, em Oran, e contra Portugal, no  Porto. Foi mal na primeira e
esteve irreconhecível na segunda. As duas últimas seriam contra  a
Suécia, em Solna, e a URSS, em Moscou. Feola, se pudesse, o afastaria
desses jogos. Não  queria desmoralizá-lo diante de platéias que ainda se
lembravam dele com tanta admiração.  Conseguiu conservá-lo de fora
contra a Suécia, mas deixou-o entrar no segundo tempo  contra a URSS, no
lugar de Jairzinho - o novo titular do Botafogo, da seleção e de
quaisquer feudos que Garrincha ainda  ambicionasse. Os cronistas
soviéticos não precisaram de mais que aqueles minutos para  lamentar o
fim do jogador que apenas sete anos antes, em 1958, destruíra o sonho de
um  "futebol científico".
Sua volta ao Brasil não foi, nem de longe, tão triunfal quanto a ida. A
torcida ouvira a  irradiação dos jogos, assistira aos videoteipes e dera
adeus às ilusões.
Mas Havelange achava que era preciso insistir com Garrincha. Dizia que
ele devia ser  "poupado para 1966" e que, enquanto isso, numa atitude
inédita no futebol brasileiro, a  própria CBD poderia comprá-lo ao
Botafogo. Ele seria entregue a uma equipe de  preparadores físicos, de
preferência em São Paulo, que o deixariam na ponta dos cascos  para a
Copa de Londres. Isso queria dizer que Garrincha estava com sua
convocação  assegurada para 1966, embora ainda faltasse um ano para a
Copa. Mas alguém deve ter aconselhado  Havelange a esquecer essa idéia.
O risco consistia exatamente em deixar Garrincha solto por  tanto tempo,
sem vínculo com um clube e sem participar de competições. A proposta
nunca  foi formalizada ao Botafogo.
Garrincha voltou para o Botafogo e, depois de mais um mês inativo, viveu
ali, em agosto, os  seus últimos momentos de glória. O treinador Daniel
Pinto escalou-o em vários jogos da  taça Guanabara, contra o América, o
Flamengo e o Vasco, em dias quase seguidos. Para  surpresa dos médicos e
sem nenhuma razão aparente, Garrincha voltou a brilhar. Podia jogar  sem
sentir dor e sem que o joelho inchasse. Um solitário gol seu derrotou
mais uma vez o  Flamengo, no dia 22 de agosto. Entre uma partida e
outra, submetiase aos exercícios mais  violentos e continuava inteiro.
Nos treinos de ataque contra defesa, passava por Rildo com a  maior
facilidade - e Rildo era o sucessor de Nílton Santos no Botafogo. Era um
milagre.  Garrincha parecia recuperado para o futebol. Mas ninguém podia
garantir que aquele  milagre perdurasse.
O Botafogo, precavido, tirou-o do time na taça Guanabara e resolveu
guardá-lo para os  amistosos pelo interior, onde sua presença era a
garantia de uma cota maior. Botou-o para  jogar em Juiz de Fora, Três
Rios, Belo Horizonte.
Garrincha rebelou-se. Começou a recusar-se a viajar com o time para
esses jogos:
"Não sirvo para jogar no Maracanã, mas sirvo para jogar no interior? É
melhor mandarem  outro. Aqui está cheio de ponta-direita."
Garrincha não se apresentou para as viagens a Barra Mansa, Vitória e
Salvador. Queria  provar que ainda era um jogador competitivo, em jogos
para valer e, ora essa, seu palco era  o Maracanã. O Botafogo não
pensava assim e o multou.
Garrincha voltou a atrasar-se, a faltar aos treinos e a sumir do clube.
As hostilidades  estavam reabertas. Foi posto para treinar com os
reservas e, a partir de outubro, nem isso. O  Botafogo o barrou.
Dirigentes viravam-lhe as costas quando ele se aproximava e até Carlito
Rocha já achava que deviam mandá-lo embora. Seus companheiros também
estavam contra  ele - por sua recusa a viajar, as excursões eram
canceladas e eles deixavam de ganhar  bichos fáceis.
O raciocínio era cruel - porque eles não gostavam quando Garrincha era
escalado nos  jogos de campeonato. Sabiam que, com ele no time, era como
se o Botafogo jogasse  desfalcado. Mas, nos amistosos pelo interior, não
tinha importância. Os adversários eram  fracos e sua presença, como a de
um urso de feira, garantia a cota, o público e o bicho.
Seu ambiente no clube parecia piorar de hora em hora. No dia de seu
aniversário oficial, 18  de outubro, Elza deu uma festa no apartamento
da Visconde de Pirajá. Estendeu sobre a  mesa uma toalha nova de linho,
como fazia todos os anos, encomendou um bolo em forma  de campo de
futebol e convidou jornalistas, ex-jogadores e outros amigos. Mas, dos
colegas  em atividade, os únicos a ir abraçá-lo foram o vascaíno Brito,
o rubro-negro Silva e mais  alguns de outros clubes. Ninguém do Botafogo
compareceu, exceto Nílton Santos e o  preparador Admildo Chirol. No dia
seguinte, Chirol levou um gelo dos jogadores que viram  sua foto no
jornal na festa de Garrincha.
Naquele ano de 1965, o Botafogo perdera definitivamente Didi, que fora
encerrar sua  carreira no Peru. Nílton Santos parara de jogar em março,
aos 39 anos, magoado com os  dirigentes que lhe negaram um jogo de
despedida. Zagalo vivia machucado e logo também  deixaria de jogar,
tornando-se treinador dos juvenis. E Gerson e Jairzinho ainda não eram
atrações internacionais. Era o fim de uma grande festa. O Botafogo que
nascera com Renato  Estelita e João Saldanha em 1957 acabara de morrer.
Garrincha também não teria um jogo de despedida no Botafogo. Nem se
cogitou disso. Sua  última partida fora a da estréia do Botafogo no
campeonato carioca, contra a Portuguesa,  no já remoto dia 15 de
setembro. Era uma quarta-feira à noite e havia 5309 pessoas em  General
Severiano. O gramado ficava a alguns palmos das arquibancadas, mas a
distância  entre Garrincha e a torcida parecia infinita. Já não havia
amor nem ódio na relação entre eles  - apenas um misto de piedade e
indiferença.
Não se sabia ainda que aquela seria sua última partida com a camisa do
Botafogo. Por  coincidência, no mesmo estádio em que jogara a primeira,
doze anos antes.
E em que passara os dias mais felizes e infelizes de sua vida.
"Garrincha, confio em você. Iraciara."
Garrincha fora pegar seu carro estacionado na rua e vira que a porta
estava aberta. No  banco de trás, havia um bebé dentro de um cesto, com
o bilhete espetado às fraldas. Era  uma menininha morena de, no máximo,
seis meses. Alguém a abandonara ali para que  Garrincha a recolhesse.
Garrincha a levara para casa e, como ninguém se apresentasse para
pegá-la de volta, ele e Elza decidiram ficar com ela.
Linda história, contada por O Cruzeiro em fins de 1965, inclusive com
fotos da menina  dentro do carro. Mas não correspondia à realidade.
Iraciara - ou Sara, como a chamaram - nascera perto da casa de seu
Alberto, compadre  de Elza, em Colégio. O pai tinha dezesseis anos, a
mãe quatorze e não podiam ficar com ela.  Deram-na a seu Alberto, que
perguntou a Garrincha e Elza se a aceitariam para criar e  educar. Os
dois a receberam na Visconde de Pirajá e a registraram num cartório em
Copacabana como sua "filha natural".
A verdadeira história não era menos comovente que a encenada por O
Cruzeiro, mas talvez  esta última caísse melhor. Pena que escondesse seu
Alberto.
Foi ele, na condição de pai-de-santo do casal, que aconselhou Garrincha
e Elza a irem  embora do Rio. Todo o ambiente da cidade, e não apenas o
do Botafogo, estava carregado  contra eles. Poderiam dar-se melhor em
São Paulo. O Corinthians já manifestara várias  vezes o desejo de
comprar Garrincha. O treinador do Corinthians era Oswaldo Brandão. Por
coincidência, Brandão também era devoto de pais-de-santo paulistanos e
conhecia a fama de  seu Alberto. Quando soube que este dera o seu aval à
ida de Garrincha para São Paulo,  lutou pela sua contratação pelo
Corinthians.
Havia outras forças, menos ocultas, impelindo Garrincha para o
Corinthians. Em janeiro de  1966, o clube paulista iria entrar no seu
12° ano sem ganhar um campeonato. O presidente  Wadih Helu precisava de
uma contratação de impacto para acalmar a torcida, sob o risco de  que
esta o arrancasse do parque São Jorge a mosquetões. E a torcida
corintiana, acreditando  que Garrincha estava recuperado, resolvera
querê-lo de qualquer jeito.
Muito depois, Garrincha passaria a dizer que o Botafogo o vendera ao
Corinthians sem  consultá-lo. Era falso. Desde março de 1964 nenhum
jogador podia ser vendido a outro  clube contra a sua vontade - e, no
caso de ser negociado, tinha direito a quinze por cento  do valor do
passe. Foram duas das últimas medidas do governo Jango. Garrincha foi a
São  Paulo para exames médicos no dia 6 de janeiro e posou com a camisa
do Corinthians uma  semana antes de ser vendido. Tinha razão ao dizer
que, havia dois anos, o Botafogo deixara  de vendê-lo por dez vezes mais
aos italianos: seu passe custou ao Corinthians 220 milhões  de cruzeiros
(100 mil dólares). E os quinze por cento que lhe couberam foram de 3
milhões e 300 mil cruzeiros, pagos pelo Botafogo. O qual, de fato, não
mandou nenhum dirigente para despedir-se dele - já não suportavam vê-lo
pela frente.
No dia 14 de janeiro Garrincha assinou com o Corinthians um contrato de
dois anos, a vencer em 14 de janeiro de 1968. Receberia de salário 200
mil cruzeiros e luvas de 12 milhões, parceladas em 24 prestações mensais
de 500 mil. Donde começaria ganhando 700 mil cruzeiros fixos - pouco
mais de 300 dólares. Menos ainda que ganhava no Botafogo. Mas, no
Corinthians, iria jogar, ganhar bichos e gratificações por partidas no
exterior. E havia o calor da torcida corintiana, que o recebera em massa
e cheia de esperança no aeroporto de Congonhas, no dia da sua chegada
oficial.
Ao desembarcar do avião, os jornalistas Vital Bataglia e José Maria de
Aquino, do Jornal da Tarde, o fizeram posar de novo com a camisa do
Corinthians, agora para valer. Poucos perceberam que não era uma camisa
sete - mas a dez, que haviam ido buscar na casa de Rivelino, vizinho do
aeroporto. Desfilou em jipe aberto até o parque São Jorge e sentiu-se
mais querido do que nunca.
O Corinthians cumpriu tudo que prometera. Pagou sua mudança para São
Paulo pela Luzitana, arranjou colégio para os filhos de Elza e
providenciou-lhes um apartamento como ela queria: amplo salão, quatro
quartos, já decorado e num ponto chique - na rua Maranhão, defronte à
cantina Roma, em Higienópolis.
Elza entrou no apartamento, abriu as cortinas e janelas, e disse para a
comitiva de cartolas e jornalistas que os acompanhava:
"Aqui vou refazer minha vida!"
Mas, assim que todos se retiraram, sua providência mais urgente foi
fazer seu Alberto - que viajara com eles especialmente para isso - lavar
o apartamento com sal grosso. Elza não queria correr riscos.
No dia seguinte, tarde da noite, Oswaldo Brandão levou seu Alberto ao
parque São Jorge. O estádio estava vazio, os únicos funcionários eram os
guardas e ninguém percebeu a movimentação daqueles homens no gramado às
escuras. Brandão pedira a seu Alberto que procurasse sapos enterrados no
gramado - só um trabalho explicava o longo jejum corintiano de títulos.
Com sua capacidade de enxergar o invisível, seu Alberto viu logo um sapo
enterrado dentro de um dos gols. Escavaram a grama e, de fato, havia um
fóssil de qualquer coisa embrulhado num saco já quase desfeito e
amarrado com linha de carneiro. Seu Alberto limpou o terreno e garantiu
que, a partir de agora, o Corinthians só dependia de suas forças para
ser campeão. E voltou para o apartamento de Garrincha.
Para evitar problemas, Garrincha pediu por carta ao Corinthians que
descontasse o aluguel mensalmente de seu salário e fizesse o pagamento
por ele. O aluguel era de 430 mil cruzeiros - mais da metade de seu
salário. Mas, com os shows que Elza iria fazer para o empresário Marcos
Lázaro, não teriam problemas de dinheiro.
Instruiu também o clube a abater do salário a pensão de Nair - 200 mil
cruzeiros - e depositá-la no Banco Ipiranga, em São Paulo, com ordem
para ser remetida ao Banco de Crédito Mercantil, agência Botafogo, no
Rio, aos cuidados do gerente. Estas eram as instruções que o advogado de
Nair, Dirceu Rodrigues Mendes, lhe passara.
Feitos apenas esses descontos, seu salário mensal de 700 mil cruzeiros
já saía do guichê reduzido a 70 mil.
Mais do que nunca ele dependeria dos seus dribles para viver.

Capítulo 17

Garrincha e Elza adotam Sara

1966-1967

ACABADO

Na primeira semana de Garrincha e Elza no apartamento em São Paulo, seus
vizinhos ameaçaram chamar a polícia. Nunca tinham visto - aliás, ouvido
- tanto alvoroço noturno  no sacrossanto recesso de um lar. Os sons se
estendiam pela madrugada, com intervalos de  quinze minutos para
respiração. Ninguém podia fazer aquilo tantas vezes numa noite e com  o
mesmo entusiasmo. Mas Garrincha talvez estivesse sendo didático para com
seus vizinhos.  O sexo, para ele, era tão esportivo e alegre quanto o
futebol - nada de soturno ou  sorumbático, como para muitos casais.
Por isso, ou por serem Garrincha e Elza Soares, eles se sentiram
discriminados no edifício  da rua Maranhão. Os vizinhos não falavam com
eles, nem os cumprimentavam no elevador.  O porteiro não tinha a menor
pressa em lhes abrir a porta. A situação só melhorou depois  que dona
Lillian, influente moradora do prédio, aproximou-os de outros casais. E
só então  estes se deixaram cativar. Alguns vizinhos foram até
convidados para a baita festa, cravejada de artistas, com que
inauguraram o apartamento e cuja grande atração foi  Wilson Simonal,
então no auge, cantando "Balanço Zona Sul", de Tito Madi.
Mas Garrincha e Elza não paravam muito em São Paulo. Nos primeiros meses
tiveram de  voltar várias vezes ao Rio. Elza viajava toda semana para
outros estados por causa dos  shows. Para cuidar de Sara, contava com
Licanor, garçom do hotel Danúbio, que fazia horas  extras para ela como
baby-sitter.
Se pudesse, Elza não ficaria um minuto fora do apartamento - para
controlar Garrincha. O  Corinthians não sabia, mas seu alcoolismo se
acelerara no último ano. Em Ipanema,  Garrincha não estava se limitando
a beber em casa, onde Elza o vigiava. Várias vezes, ao  acordar de
manhã, ela apalpava o travesseiro ao seu lado e já não o encontrava na
cama.  Garrincha saíra de fininho e fora para o bar Bofetada, na rua
Farme de Amoedo, entre  Visconde de Pirajá e Barão da Torre. O Bofetada
era famoso pelo peixe frito e pela batida  de limão. Garrincha podia ser
visto sozinho, no balcão, tomando um copázio de batida às  oito da
manhã. Parou de ir ao Bofetada porque até mesmo àquela hora o bar já era
freqüentado por pessoas que conhecia, como Lúcio Rangel e Grande Otelo.
E, embora  nenhum deles estivesse ali para tomar Ovomaltine, Garrincha
não gostava de que o vissem  bebendo em público. Então mudou-se para
outro botequim menos nobre na vizinhança.
Elza esperava que, em São Paulo, jogando por um novo clube, Garrincha
recuperasse o  entusiasmo pelo futebol e parasse de beber. Ou que, pelo
menos, reduzisse a cota. No  começo Garrincha realmente se entusiasmou.
Mas, já então, a escalada alcoólica era  irreversível - independia de
sua força de vontade. Seus amigos do Rio, mesmo  familiarizados com seu
apreço pelo produto, assustavam-se ao visitá-lo em São Paulo e  serem
recebidos por ele com um copo longo na mão, de coquetel, com cachaça até
a boca.  Um desses amigos era o seu novo advogado Sebastião Figueira,
filho do professor Figueira.  Diante dessa cena só havia uma certeza:
Elza estava viajando. Garrincha já não se atrevia a  beber tais
quantidades em sua presença.
Para não expô-lo a tentações, Elza baniu qualquer espécie de bebida
alcoólica do  apartamento em Higienópolis e, de tempos em tempos, fazia
uma busca pelos aposentos à  procura de garrafas escondidas. Não
encontrava nenhuma, mas algo lhe dizia que havia  bebida na casa. E
havia mesmo. Um dos reservatórios secretos era o interior de uma
cadeira-do-papai vermelha, cujo forro era pregado com tachinhas e que
ficava no quarto de  Sarinha. Durante meses Garrincha manteve ali um
estoque de cachaça. Quando Elza entrava  no banho ou saía para a rua,
ele despregava as tachinhas, puxava uma garrafa e tomava pelo  gargalo -
porque Elza, ao voltar da rua, cheirava os copos. Em seguida, chupava
drops de hortelâ para maquiar o hálito.
Certa manhã, o repórter José Maria de Aquino foi entrevistá-lo e
percebeu seu bafo.  Alertou-o:
"Começando cedo, Mané?"
Garrincha se traiu:
"Não é possível! O hortelã disfarça!"
Elza acabou descobrindo a adega nas entranhas da cadeira-do-papai, mas
Garrincha  inventou outras formas de esconder bebida em casa. Na
ausência dela, esvaziava garrafas de  água tónica e enchia-as com
cachaça Tatuzinho. Ou, como Ray Milland no filme Farrapo  humano,
pendurava a garrafa de pinga por um barbante no lado de fora da janela
do  banheiro.
Garrincha já não estava bebendo por prazer ou diversão. Era seu
organismo que passara a  exigir álcool. Começou a perceber isso quando,
ao acordar com um certo tremor, este só  passava se bebesse. Daí a
necessidade de ter alguma bebida em casa - e, se não tivesse, de
escapar para beber na rua. Com uma ou duas doses (das suas, tamanho
triplo), seu  organismo se estabilizava e ele voltava ao normal. Quem o
visse depois de estabilizado não  suspeitaria de nada diferente. Donde,
por algum tempo em São Paulo, poucos perceberam  que ele tinha um
problema. Em alguns lugares do Rio, no entanto, sua associação com o
produto era tão notória que até cachaças com o seu nome já estavam sendo
fabricadas. Uma  delas era a Aguardente Fina de Cana Garrincha, em
Caxias.
Garrincha chegara a perguntar ao advogado Sebastião Figueira:
"É justo isso, doutor? Eles botam o meu nome numa cachaça sem me
perguntar e eu não  ganho nada?"
Figueira aconselhou-o:
"É melhor deixar pra lá, Mané. Deve ser uma fábrica de fundo de quintal.
Se você processar,  vai chamar a atenção. E não é bom que o público
ligue o seu nome a esse tipo de coisa."
Mais grave que o caso da caninha era o das chuteiras inglesas Garrincha,
que estavam sendo  fabricadas e vendidas em Londres sem que ninguém o
tivesse procurado para negociar o uso  de seu nome. No começo de 1966,
Garrincha ainda não sabia que estavam fazendo isso. Só iria descobrir
durante a Copa  - mas o Brasil passaria tão rapidamente pela competição
que nem haveria tempo de tratar  do assunto.
Garrincha chegou a São Paulo com 79 quilos, oito acima do seu peso.
Antes de contratá-lo,  o Corinthians fizera com que ele fosse examinado
pelo ortopedista João de Vicenzo, que  radiografou o seu joelho por
todos os lados e não encontrou nada de anormal. Precisava  apenas
emagrecer e recuperar a potência muscular da perna direita, disse
Vicenzo. O clube  então entre gou-o a Haroldo Campos, especialista em
educação física, que o pôs para levantar peso com  a perna e
prescreveu-lhe uma dieta para perder os oito quilos. Previa-se que, dali
a trinta ou  45 dias, Garrincha poderia começar a participar dos
coletivos. A partir daí, sua estréia ficaria  dependendo de Oswaldo
Brandão.
Uma cidade inteira confiava na sua reabilitação e alguns só faziam
restrições à sua idade.  Garrincha estava com 32 anos - mas ali mesmo,
em São Paulo, havia muitos casos de  jogadores que haviam dobrado com
brilho a curva dos trinta: Djalma Santos ia fazer 37,  Mauro, 36, Dino
Sani, 33, e continuavam jogando. Para não falar no inglês Stanley
Matthews, que apenas um ano antes, em 1965, encerrara sua carreira de
ponta-direita - aos  cinqüenta anos! Aliás, Matthews começara a jogar
como profissional dois anos antes de  Garrincha ter nascido. E, se jogou
por tanto tempo, não devia ser pelo dinheiro, já que a  rainha Elizabeth
o sagrara sir Stanley desde 1958.
Mesmo bebendo escondido, Garrincha conseguiu voltar ao peso. Treinou
duro com camisa  de plástico, chegou a levantar cem quilos com a perna e
empenhou-se nos individuais com o  entusiasmo de um principiante. Ainda
não estava pronto para jogar - só participara de  metade de um coletivo.
Mas a pressão dos dirigentes e da torcida fez com que Oswaldo  Brandão,
meio cético, se visse obrigado a apressar sua estréia: contra o Vasco no
Pacaembu, pelo torneio Rio-São Paulo, no dia 2 de março - quarenta dias
depois de sua  chegada ao Corinthians.
Na semana do jogo, Elza foi de bar em bar das proximidades do parque São
Jorge implorar  aos seus donos que, se Garrincha aparecesse, não lhe
vendessem bebida. Os empregados dos  botequins acharam graça - Garrincha
já se tornara um habitue. Quando Garrincha foi com  os outros jogadores
para a concentração no hotel São Paulo, na praça das Bandeiras, Elza
alugou um apartamento no mesmo hotel, concentrando-se junto com ele. Não
queria correr  riscos.
Na noite da grande estréia de Garrincha no Corinthians, diversos
jogadores cariocas que  então atuavam no futebol paulista foram ao
Pacaembu para torcer por ele: Neivaldo,  Pampollini e Caca, ex-Botafogo,
e Dida e Henrique, ex-Flamengo. Todos eram seus amigos  - e Neivaldo
fora seu reserva durante oito anos. Quando lhe perguntavam se, com todo
aquele futebol, nunca se incomodara com a reserva, Neivaldo se ofendia:
"Eu não era um reserva qualquer. Era reserva do Garrincha."
Nas arquibancadas havia 45 mil corintianos com seus expectantes corações
palpitando por  Garrincha. Mal podiam esperar que lhe lançassem as
Nova camisa: o Corinthians recebe Garrincha com esperança
primeiras bolas. O jogo começou e estas lhe foram imediatamente
servidas, à média de uma  por minuto.
Na primeira, Garrincha recebeu e tocou errado para um companheiro. Na
jogada seguinte,  foi facilmente desarmado pelo zagueiro vascaíno
Oldair. Pouco depois, conseguiu passar por  Oldair, mas tropeçou na bola
e o vascaíno a retomou. Recebeu nova bola, não teve domínio  e a deixou
escapar pela lateral. Tudo isso nos cinco minutos iniciais. Os 45 mil
corações  corintianos murmuraram alguma coisa nas arquibancadas. No
campo, seus colegas acharam  melhor passar os quinze minutos seguintes
sem dar-lhe a bola. Quando voltaram a lançá-lo,  Oldair desarmou-o e
deu-lhe um drible que o fez cair sentado. Silêncio no Pacaembu.
Garrincha voltou para o segundo tempo e passou os últimos 45 minutos
escondido. Quando  a bola caía-lhe aos pés, soltava-a o mais depressa
que pudesse para não se comprometer. O  Vasco ganhou por 3X0.
Neivaldo, Pampollini, Caca, Dida e Henrique não ficaram para o segundo
tempo. Tinham se  retirado constrangidos ainda no intervalo - e Neivaldo
antes ainda, aos dez minutos do  primeiro tempo, com lágrimas nos olhos.
O segundo jogo de Garrincha pelo Corinthians foi no Maracanã, oito dias
depois, e  justamente contra o Botafogo, sua alma mater. No gramado, ao
ser entrevistado pelos  locutores volantes, Garrincha parecia
emocionado:
"Vai ser duro jogar aqui, na minha casa e contra tantos amigos."
Do outro lado do grande círculo estavam Manga, Rildo, Gerson e seu
sucessor Jairzinho. O  Botafogo massacrou o Corinthians por 5X1 e
Garrincha foi risonhamente anulado por Rildo  - o mesmo Rildo que ele
driblava com facilidade nos treinos havia tão poucos meses, a  ponto de
pensar-se que Garrincha estava voltando a ser Garrincha.
Rildo explicou:
"Aquilo era treino. Queria que o Mané recuperasse a confiança. Hoje era
pra valer."
No dia 21 de março, nova decepção. O Palmeiras derrotou o Corinthians
por 2x1 e  Garrincha perdeu um pênalti aos 43 minutos do segundo tempo.
Mas nem tudo foram derrotas. Com Garrincha, o Corinthians derrotou o São
Paulo e o  Flamengo, empatou com o Santos e acabou campeão do RioSão
Paulo. A bem da verdade,  um dos campeões, porque o torneio terminou
empatado entre Corinthians, Botafogo, Santos  e Vasco e, por causa da
Copa do Mundo, não houve tempo para decidi-lo. Os quatro clubes  foram
declarados campeões e nenhum deles bordou aquele título em suas
flâmulas. Nem  mesmo o Corinthians, que tanto precisava dele.
Garrincha tinha coisa mais importante a bordar em seu currículo: sua
nova condição de  casado. O desquite com Nair fora finalmente
oficializado
 dia 27 de novembro de 1965. Em março de 1966, Elza e ele entraram com
os papéis para  casarem na embaixada da Bolívia no Rio. O processo
custava caro, mas era muito simples:  brasileiros desquitados passavam
uma procuração para bolivianos residentes em Santa Cruz  de La Sierra,
autorizando-os a casarem em seus nomes no registro civil da Bolívia. Na
rua da  Assembléia havia uma agência desses casamentos e o responsável
era um advogado munido  de uma agenda repleta de bolivianos dispostos a
representar brasileiros.
Os bolivianos que casariam por Garrincha e Elza em Santa Cruz de la
Sierra eram Cristián  Chavez Pedraza e Mercedes Abrego Justiniano. As
procurações foram passadas em 11 de  março de 1966. Uma semana depois, a
embaixada comunicou-lhes que estavam prontos os  documentos bolivianos
que os davam como casados. No dia 31, Garrincha e Elza foram até  lá
para receber os papéis. O dirigente do Corinthians no Rio, Jamil Helu,
acompanhou-os, o  que fez com que o promovessem a padrinho.
Elza e Garrincha sabiam que aquele casamento era uma ficção, não valia
no Brasil - mas  era um gesto de carinho de um para com o outro.
Equivalia a uma jura de amor eterno com  firma reconhecida.
"Sem Garrincha não haverá tri."
Nílton Santos vivia dizendo isso aos repórteres. Mas, aos íntimos, ele
admitia que já não  estava tão certo.
A realidade provaria que, com ou sem Garrincha, o Brasil não se preparou
para disputar a  Copa de Londres, mas uma ópera-bufa, com a ressurreição
do clown no último ato.  Infelizmente, o clown - o Brasil - morreu logo
que o pano subiu e morto ficou. No fim da  ópera, a mocinha - a Copa -
beijou o vilão: a Inglaterra.
Em fins de março, a CBD convocou nada menos que 45 jogadores - 46 com a
vinda de  Amarildo da Itália, o primeiro estrangeiro a ser importado
para uma seleção brasileira.  Desses 46, 24 não chegariam vivos ao dia
do embarque. Teriam de ser cortados para que  restassem 22. Entre os
convocados havia nove sobreviventes das Copas anteriores: Gilmar,
Djalma Santos, Bellini, Orlando, Altair, Zito, Dino Sani, Garrincha e
Pelé - e, exceto Pelé,  todos estavam sendo chamados não pelo que vinham
jogando, mas por serviços  anteriormente prestados. A CBD achava justo
que eles também fossem tricampeões do  mundo. Para os dirigentes, a Copa
de 1966 seria um chá com a rainha, um piquenique no  Hyde Park, um
passeio por Picadilly Circus.
Seria? Feola, com o coração mais periclitante do que nunca, era de novo
o treinador. Paulo  Amaral recusara-se a voltar a ser preparador físico
e tornara-se seu auxiliar técnico. O novo  preparador era Rudolf
Hermanny, genro de João Havelange, cunhado de Tom Jobim e  professor de
judo, não de futebol. Nas altas esferas, Paulo Machado de Carvalho
perdera a  guerra de egos para Havelange e recusara a chefia da
delegação. Um dos cogitados para substituí- lo foi José Luiz Magalhães
Lins, que não aceitou. Faute de mieux, Havelange ofereceu-se  para o
sacrifício de comandar ele mesmo a seleção e trazer o caneco.
Da apresentação dos jogadores no hotel das Paineiras, no dia 12 de
abril, à estréia contra a  Bulgária, em 12 de julho, a seleção teria
três meses para treinar, definir o time e afiá-lo. Em  nenhuma outra
Copa lhe deram tanto tempo. E, pela primeira vez, a seleção tinha até um
símbolo oficial: o desenho de um canário, criado por Ziraldo e Carlos
Leonam. O tri era tão  certo que um fabricante de cigarros de São Paulo,
a Sabrati, sem poder esperar pela vitória,  lançou os cigarros Tri.
A CBD não fez por menos: desfilou a seleção aos quatro ventos durante os
três meses,  como numa prévia volta olímpica. Dezenas de cidades
brasileiras disputaram o privilégio de  acolhê-la para os treinamentos.
A CBD preferia todas, mas teve de limitar-se a Lambari  (MG), Caxambu
(MG), Teresópolis (RJ) e Serra Negra (SP). As quatro eram estâncias de
repouso, ideais para idosos e recém-casados. Mas a única em que os
jogadores tiveram  sossego, perturbado apenas por uma ou outra exibição
da Esquadrilha da Fumaça, foi  Lambari.
Ao chegar a Caxambu no dia 19 de abril, os jogadores viram-se no meio de
uma guerra.  Caxambu não se conformava em que a seleção tivesse ido
primeiro para Lambari e preparara  um festival de eventos para humilhar
a concorrente. Durante dez dias, os jogadores foram  levados a
banquetes, assistiram a desfiles escolares, hastearam bandeiras e
prestigiaram o  lançamento da pedra fundamental de fontes luminosas,
creches, lactários e até de um  consultório dentário. As senhoras
caxambuenses faziam serenata à uma da manhã diante do  hotel dos
jogadores, cantando o "Peixe vivo" e impedindo-os de dormir. Quando
Feola  tentou pôr ordem no coreto, os locais passaram a chamá-lo de
"Bolão" - e Feola, que não  se achava gordo, queria brigar na rua. Nos
treinamentos, abertos ao público, a torcida  vaiava um jogador e Paulo
Amaral ameaçava pular o alambrado para bater em uns vinte ou  trinta.
Em Teresópolis, a seleção foi saudada pelo prefeito com uma banda de
música, uma  comitiva do Lions e um show de Horácio, o Homem-sagüi - um
trapezista amador que  improvisou um trapézio entre dois prédios e
atirou-se lá de cima segurando-se pelas pernas.  Aquela semana, no Rio,
Chacrinha oferecera uma fortuna a quem conseguisse levar Pelé ao  seu
programa na TV Globo - e, devido à proximidade de Teresópolis, temeu-se
que Pelé  fosse seqüestrado da concentração por desesperados que
precisassem do dinheiro. Para  piorar, Gerson tomara tanta água mineral
em  Lambari e Caxambu que cálculos renais se desprenderam e rolaram de
seus rins como uma  avalanche. Ficou fora de combate por uma semana.
Durante a temporada em Lambari e Caxambu, Garrincha recebera em São
Paulo quatro  notificações do juiz da Sexta Vara no Rio convocando-o a
uma audiência para discutir o  reajuste da pensão de Nair. Mas, como ele
e Elza estavam fora, os envelopes tinham ficado  fechados e jogados a um
canto no apartamento em Higienópolis. A seleção veio fazer um  amistoso
no Rio e, no dia 4 de maio, reuniu-se no aeroporto Santos Dumont para
partir de  ônibus para Teresópolis. De repente, Dirceu Rodrigues Mendes
irrompeu no saguão do  aeroporto. Com os cotovelos, abriu caminho entre
os jogadores, repórteres, fotógrafos e  torcedores e espetou o dedo no
peito de Garrincha: queria obrigá-lo a assinar uma intimação  judicial
para comparecer à audiência.
Ao ouvir o zunzum, Carlos Nascimento foi expulsar o advogado. Dirceu
Rodrigues Mendes  não se intimidou: deu-lhe uma carteirada, disse-se
juiz de Direito e só faltou requisitar força  policial para prendê-lo. O
velho Nascimento afastou-se da cena, arrasado. Nunca se vira  aquilo num
embarque da seleção. Vexado da cabeça aos pés, Garrincha assinou o
documento na frente de seus companheiros. O advogado exigia um reajuste
na pensão de  200 mil para 700 mil cruzeiros - a íntegra de seu salário
no Corinthians.
Os 46 jogadores convocados davam para formar quatro times e ainda
sobrava gente. Nos  três meses de preparação, essas quatro seleções
fizeram inúmeros jogos entre si e contra  times brasileiros e seleções
estrangeiras. Em nenhum dos jogos a escalação foi a mesma -  em nenhuma
das seleções. Todas as variações possíveis foram tentadas sem que se
definissem os onze. E não foi por falta de aviso: a imprensa alertou dia
após dia para a  necessidade dessa definição.
Os cortes começaram. De semana em semana, um love de cabeças ia para a
guilhotina, para  que um dia se chegasse aos 22. Mas eles eram tantos
que, ao embarcar para a Europa no dia  17 de junho, a delegação ainda
viajou com 27 jogadores. Os últimos cinco ficaram para ser  cortados na
Europa. No meio dessa roleta sinistra, os jogadores não queriam saber de
entrosar-se uns com os outros. Cada qual estava preocupado em exibir seu
repertório  particular de truques, tentando mostrar serviço para não ser
decapitado.
Apenas dois jogadores não faziam isso: Pelé, porque não precisava - era
o único titular  absoluto; e Garrincha, porque já não era detentor de
seus próprios truques. Nos treinos,  evitava ir à linha de fundo como se
esta fosse infestada de cascavéis. Davam-lhe a bola e ele  a soltava ao
primeiro que passasse por perto. Se a recebesse de volta mais à frente,
sem  ninguém para combatê-lo, podia chutar a gol ou fazer um cruzamento
sobre a área com sua maravilhosa precisão. Mas, se tivesse de driblar o
marcador - e esse marcador era  Rildo ou Paulo Henrique -, sabia que
seria desarmado. Os outros candidatos ao seu lugar  eram Jairzinho e o
banguense Paulo Borges, uma das grandes promessas da época. Paulo
Borges era tão rápido que o chamavam de "Gazela". Pois Feola o
sacrificou para manter  Garrincha.
Numa folga da seleção antes do embarque, Garrincha foi para sua casa em
São Paulo e disse  a Elza que, se dependesse dele, preferia ser cortado.
Sabia que já não podia jogar numa  Copa do Mundo. Mas tinha de ir assim
mesmo:
"Se eu não for e o Brasil perder, vão dizer que foi por minha causa."
Elza poderia ter inventado um pretexto profissional e ido à Copa para
ficar perto de  Garrincha. Mas achou melhor continuar por aqui - se ele
jogasse mal, a culpa seria dela.  Preferiu gastar o dinheiro da passagem
em velas. Acendia-as pela casa inteira e passava o dia  rezando por
Garrincha e pela seleção.
Mas, para aquela seleção, não haveria velas que chegassem. Já na Europa,
o Brasil fez um  périplo antes de chegar à Inglaterra: um jogo na
Espanha, outro na Escócia e quatro na  Suécia. Marcou uma enormidade de
gols nesses amistosos e deixou-se homenagear por  antecipação um
sem-número de vezes. A euforia cegou os dirigentes. Não se entendia por
que os outros países iam disputar a Copa se o tri brasileiro já estava
no papo. Antes desses  jogos, um jornal inglês escrevera:
"Laterais-esquerdos d® mundo, univos. Garrincha está de  volta".
Mas Peter Lorenzo, jornalista inglês do The Sun que acompanhara o
périplo da seleção, viu  a coisa com olhos sombrios e realistas. Os
times suecos que o Brasil goleará eram de fritar  bolinhos. E pior ainda
foi sua conclusão final:
"Bellini e Garrincha morreram."
O próprio espião Ernesto Santos, depois de dar seu relato a Feola sobre
o tremendo preparo  físico e o futebol aplicado e solidário de países
como a Inglaterra, a Alemanha, Hungria e  Portugal, advertiu-o:
"O Brasil só será tri por milagre."
Lucy estava no céu com diamantes: em 1966, tudo parecia estar
acontecendo em Londres.  Os Beatles iriam passar o ano gravando o LP
Sgt. Pepper's lonely hearts club band. Mary  Quant inventara a
minissaia. A modelo Twiggy fora lançada como a primeira mulher- graveto.
O italiano Antonioni acabara de filmar Blow-up, em que mandara pintar os
gramados da cidade porque não gostara do tom do verde original. Rapazes
e moças  desfilavam por Carnaby Street com os mesmos cabelos compridos e
terninhos violeta
 vistos de costas, não se sabia quem era o quê. Milhares de jovens
tomavam ou fingiam  tomar LSD. Saía a alta cultura e entrava a
alta-costura. Tudo era louco, moderno e  psicodélico na swinging London.
A seleção brasileira não sentiu nem o aroma desse swing. Sua
concentração era um cenário  de Charlotte Brontè. Ficava a quase
trezentos quilómetros, em Lymm, um lugarejo afastado,  triste, escuro e
- disseram para os jogadores - perigoso de se sair à noite. Muitos
ficaram  com medo de dar cinco passos fora do hotel. E, mesmo que
saíssem, não havia aonde ir. Os  jogadores foram colocados um a um nos
quartos, coisa que odiavam. Os quartos não tinham  rádio ou TV para eles
se distraírem e nenhum deles tinha inglês suficiente para ler jornais. O
hotel era lúgubre e não seria surpresa se, a qualquer momento, ouvissem
o arrastar de  correntes.
A comida também era horrível. Alguém lhes soprou que estavam comendo
carne de cavalo e  a maioria preferiu passar a batata e repolho. Os
jogadores sentiam-se infelicíssimos, sozinhos  no mundo. Não era um
clima ideal para se ganhar uma Copa.
O campo de treinamento ficava a uma hora de trem. A seleção treinara
durante três meses,  mas Feola e Nascimento ainda não sabiam quem
escalar. E nunca saberiam: nos três jogos  em que se resumiu a presença
do Brasil naquela Copa, foram escalados vinte dos 22  jogadores. O time
mudava de um jogo para outro e ninguém se entendia: nem os jornalistas,
nem os jogadores, nem a comissão técnica.
O Brasil ganhou mal o primeiro jogo, no dia 12 de julho, contra a
Bulgária, por 2X0, com  dois gols de bola parada, por Pelé e Garrincha.
E, como já se temia, perdeu o segundo, no  dia 15, para a Hungria, por
3x1. Do segundo para o terceiro jogo, os jogadores foram a  Feola e
pediram uma definição. Não se importavam de ser titulares ou reservas.
Só queriam  saber quem iria jogar. Estavam ficando neuróticos.
Nascimento praticamente depôs Feola,  assumiu a direção do time e trocou
nove jogadores para a terceira e decisiva partida, contra  Portugal, no
dia 19. Um dos barrados foi Garrincha.
Havia 5 mil torcedores brasileiros em Londres. A cada jogo eles faziam o
percurso de três  horas de trem para Liverpool, onde o Brasil jogava.
Dois imensos caixotes contendo cuícas,  pandeiros e surdos tinham ficado
retidos na alfândega inglesa. Só foram liberados na véspera  da partida
contra a Hungria, depois que os funcionários se convenceram de que
aqueles  instrumentos não eram objetos de vodu. Mas, se demorasse mais
um pouco, os caixotes nem  precisariam ter sido abertos. Após a derrota
para a Hungria, a maioria dos 5 mil torcedores  recolheu as bandeiras e
cuícas e foi à Varig reservar passagens de volta para o dia 20, dia
seguinte ao jogo contra Portugal.
Para continuar na Copa, o Brasil precisaria derrotar Portugal por três
gols de diferença.  Ninguém em Londres, mesmo num delírio de LSD,
acreditava que isso fosse possível. Os  portugueses, treinados pelo
brasileiro Oto Glória, tinham o centroavante moçambicano  Eusébio e
outros grandes jogadores. Eles despacharam o Brasil da Copa derrotando-o
por  3X1 e vingaram-se da velha piada de que em Portugal se jogava de
tamancos e com bola  quadrada. Houve uma grita nacional quanto à
violência do lusitano Morais contra Pelé, mas  até isso era um indício
do fracasso do Brasil - afinal, Rudolf Hermanny, o preparador  físico,
não era um especialista em defesa pessoal?
O único brasileiro vitorioso naquela Copa foi Carlinhos Niemeyer,
proprietário do Canal  100. Na véspera quase quebrara a banca no cassino
do Playboy Club de Londres: ganhara  mais de 50 mil libras - 150 mil
dólares! De cabeça inchada ao fim do jogo contra Portugal,  Niemeyer
atirou moedas de pence a mancheias para os torcedores em Liverpool, como
quem joga milho para as galinhas, e divertiu-se vendo os ingleses se
estapeando para  capturá-las:
"Pobretões! Subdesenvolvidos!", gritava Niemeyer.
No dia seguinte a este jogo, já não se via um único maço dos cigarros
Tri nos botequins  brasileiros. O simpático canário de Ziraldo e Carlos
Leonam também foi logo apagado com  borracha. A Copa de 1966, vencida
pela Inglaterra, evaporou-se da memória brasileira. No  entanto, o jogo
Brasil x Bulgária, o único que o Brasil venceu, teve uma importância
nunca  devidamente registrada. Ele fechou o mais fulgurante ciclo da
história da seleção.
Aquela seria a última partida do Brasil com Garrincha e Pelé em campo.
Por coincidência, a  primeira vez em que os dois haviam atuado juntos
fora também contra a Bulgária, em 1958,  no Pacaembu. Desde então, o
Brasil já perdera várias vezes com Pelé, mas nunca com  Garrincha e
Pelé. E Garrincha, sozinho, também nunca perdera um jogo com a seleção
brasileira. O Brasil x Bulgária de 1966 fora sua quinqúagésima-nona
partida com a camisa  amarela. Saldo de Garrincha até então: 52 vitórias
e sete empates.
A primeira derrota de Garrincha na seleção seria no jogo seguinte,
contra a Hungria. E seria  também a única, porque ele nunca mais jogaria
pelo Brasil. Mas a dupla Garrincha-Pelé  continuou invicta para sempre
porque Pelé, contundido, não atuou contra a Hungria. E, na  terceira
partida, em que o Brasil perdeu para Portugal, Pelé jogou, mas Garrincha
não. Pelo  menos à luz dos números, Havelange estava certo ao lutar pela
recuperação de Garrincha  para jogar com Pelé: os dois juntos eram
invencíveis.
Aquela foi a última Copa que o Brasil acompanhou pelo rádio. A televisão
exibia os teipes  dois dias depois e atingia apenas 21 milhões de
torcedores, metade deles televizinhos. O  rádio falava para sessenta
milhões. Mas não havia muito pelo que torcer. Quando Garrincha cobrara a
falta de fora da área contra a  Bulgária e fizera o gol, aos 22 minutos
do segundo tempo, Elza, em São Paulo, despachara  seu filho Carlinhos
para ir correndo passar um telegrama: "BRASILEIROS DELIRANDO  VOCEH
BEIJOS CORAÇÃO PT CRIOULA". Mas era só uma licença poética de uma
mulher apaixonada para incentivar o seu homem. Pelo jogo que os
espíqueres narravam, os  brasileiros não estavam delirando com Garrincha
nem com ninguém daquele time.
Depois da derrota para a Hungria, Elza invadiu o escritório de Paulo
Machado de Carvalho  na TV Record e suplicou-lhe que desse um jeito de
embarcá-la para Liverpool, a tempo de  pegar o jogo contra Portugal:
"Comigo lá o Neném toma conta do negócio, doutor Paulo!"
Mas Paulo Machado de Carvalho queria tudo, menos envolver-se com a
seleção. Se  Havelange preferira ir no lugar dele como chefe da
delegação, que fizesse bom proveito.  Lidar com jogadores era uma arte,
requeria calor humano - e o tom de voz de Havelange  ao tratar com eles,
apesar de cordial, parecia tão engomado quanto seus colarinhos.
Durante os três meses e meio em que esteve com aquela seleção, Garrincha
empenhou-se  sabendo que era tudo ou nada. Talvez nunca mais fosse
convocado. Participou dos  exercícios, fez treinamentos especiais e
levantou peso às toneladas com as pernas para  reforçar a musculatura.
Para surpresa de muitos, seu comportamento na Europa também foi
impecável: mesmo quando os jogadores eram autorizados a sair, ele
permanecia no hotel.
Ninguém jamais descobriu, mas com toda a segurança Garrincha tinha
bebida escondida em  seu apartamento na concentração em Lymm. Já não
conseguia passar um dia inteiro sem  beber. Precisava pelo menos aplacar
a síndrome de abstinência, que costuma ser maior pela  manhã. Ao acordar
trémulo, dava uma bicada em alguma coisa, voltava ao normal e
segurava-se pelo resto do dia. E havia onde comprar bebida: no bar do
próprio hotel da  seleção.
O Lymm Hotel não era exclusivo da seleção. Os únicos hóspedes eram os
jogadores, mas  Nascimento não conseguira impedir que, à noite, o bar
ficasse infestado de moradores da  região - os quais, como não estavam
disputando a Copa do Mundo, podiam beber como  peixes e embriagar-se à
vontade. Os jogadores cumpriam a ordem de não ir ao bar à noite.  Mas,
durante o dia, não eram proibidos de ir ao balcão tomar uma água ou
refrigerante. E,  como não havia controle, nada impediria que, se
quisesse, Garrincha comprasse uma garrafa  de conhaque e a levasse para
o apartamento. O fato de não estar dividindo o apartamento  com um
companheiro permitia que, numa emergência, ele se servisse. É uma
suposição -  mas com noventa por cento de probabilidade de estar certa.
Porque, ao voltar para o Brasil e para o Corinthians, em fins de julho,
ninguém mais  conseguiria segurá-lo.
Zito, seu ex-companheiro de tantas vitórias na seleção, já o avisara ao
iniciar-se o jogo  Santos x Corinthians, no dia 9 de outubro:
"Não venha com palhaçada comigo que você se dá mal."
Com a camisa amarela, os dois eram bons camaradas e Zito nem se
importava muito com o  apelido que Garrincha lhe colocara: "Chulé". Mas
agora, na volta da Copa, Zito vestia a  camisa do Santos - e Garrincha,
a do Corinthians.
A foto do lance ficou clássica: Zito, com olhos de vilão de gibi de Will
Eisner, dentes em  forma de grade, os braços abertos como as asas de um
pterodáctilo e as pernas em posição  de rapa. Garrincha está no ar, com
a boca em O, como se estivesse expelindo vento, e, nos  olhos, uma
comovente expressão de dor. Zito acertara-lhe o joelho. Anos depois,
Garrincha  ainda iria acariciar o lugar atingido e dizer, sem rancor e
sem alegria:
"Obrigado, Zito."
A derrota por 3X0 para o Santos foi a sua última partida pelo
Corinthians, mas não pelo  pontapé de Zito. Antes dela, entrara no time
apenas duas vezes e apenas porque eram  amistosos na Espanha, onde sua
presença ainda garantia uma cota maior. O treinador  corintiano já não
era Oswaldo Brandão, mas o argentino Filpo Nunes. Filpo não se sentia
obrigado a apiedar-se dele: rebaixou-o ao time reserva e o fez conhecer
a dura realidade do  banco. Em pouco tempo já nem o relacionava entre os
que poderiam entrar no jogo.
Mas Garrincha sobreviveu a Filpo no Corinthians. No segundo semestre de
1966, o  argentino foi derrubado e Zezé Moreira assumiu o time.
Garrincha sorriu: tinha de novo um  amigo como treinador. Mas nem assim
voltou a ser titular. Seu joelho podia não inchar  depois de cada
partida, mas ele já não tinha o arranque, o equilíbrio, a mobilidade e a
resistência que Zezé conhecia tão bem. Continuou na reserva. A amigos no
Rio, Zezé  confidenciou:
"É triste dizer isso, mas Garrincha acabou."
A oposição corintiana, liderada por Vicente Mateus, usou Garrincha para
atacar Wadih Helu  e acusá-lo de torrar o dinheiro do clube. Helu
agüentou os ataques e foi corretíssimo com  Garrincha. Deu-lhe os
reajustes combinados - seu salário, em fins de 1966, chegara a 500  mil
cruzeiros - e pagou-lhe todas as parcelas das luvas enquanto ele esteve
em São Paulo.  Incluindo salários, luvas e bichos, Garrincha faturou 12
milhões de cruzeiros no Corinthians  aquele ano - por apenas treze
partidas.
Em dezembro, pediu para ser liberado. Queria voltar para o Rio. Helu
deixou-o ir com suas  bênçãos. Garrincha tinha ainda um ano de contrato
a cumprir, mas nem Helu via mais  sentido na sua permanência. Só não
poderia deixá-lo sair de graça - a facção de Mateus  voltaria a
acusá-lo. Então fixou o preço de seu passe em 300 milhões de cruzeiros e
o  liberou para procurar um clube.
Infelizmente, esse clube não existia. Quem iria querer um inútil como
Garrincha?
Garrincha e Elza voltaram para o Rio em janeiro de 1967 e alugaram uma
bela casa na  Lagoa, na avenida Borges de Medeiros, 3207, perto do clube
Piraquê. Ainda não sabiam,  mas, pelos anos seguintes, os dois iriam
viver do dinheiro de Elza.
Garrincha bateu à porta de vários clubes. Essas portas lhe foram
abertas, mas apenas a sua  lenda podia passar por elas - não o
profissional que, contra todas as evidências de que já  acabara, teimava
em continuar jogando. O primeiro foi o Botafogo. Os treinadores eram
agora Zagalo e Chirol. Receberam o ex-companheiro e permitiram que ele
treinasse com o  time, mas apenas para manter-se "em forma" até que
outro clube lhe fizesse uma proposta.  Garrincha participou de dois ou
três treinos, entrando nos últimos minutos entre os reservas  ou os
juvenis. Se sonhou com uma volta ao lar, ele foi o único que se iludiu.
Aquele já era o  novo Botafogo de Gerson, Rogério, Jairzinho, Roberto,
Paulo César, Carlos Roberto. Com  eles o Botafogo seria bicampeão
carioca em 1967 e 1968 e voltaria a ser a base da seleção  brasileira.
Não havia lugar ali para um contemporâneo do Biriba.
Garrincha foi então ao Fluminense, cujo treinador era Evaristo, seu
colega de ataque no  combinado Botafogo-Flamengo que derrotara o Honved
dez anos antes, em 1957. Evaristo  também não viu lugar para Garrincha
no tricolor. Por insistência de seu amigo, o zagueiro  Brito, Garrincha
tentou treinar no Vasco, agora dirigido por Gentil Cardoso. Gentil, que
fora seu primeiro treinador, recebeu-o com carinho, mas também não viu
como aproveitá-lo.  Ofereceu-lhe apenas um lugar num time misto do Vasco
que foi jogar em Cardoso (SP).
Se havia uma lição nessas recusas, Garrincha não quis enxergá-la. Zezé e
Gentil, que o  conheciam tão bem, já o davam como acabado. Zagalo e
Evaristo, antigos companheiros,  tinham sabido a hora de parar e de
transformarse em treinadores. E Garrincha arrastava seu  indesejado
fantasma pelos clubes, constrangendo amigos que nunca esperaram vê-lo
pedindo  para jogar.
Pela primeira vez falou-se na realização de um jogo de despedida em seu
benefício. O jogo  seria entre a seleção brasileira e uma do resto do
mundo, com a renda dividida: metade para Garrincha, metade para suas
filhas. Seria uma  maneira elegante de poupá-lo de mais humilhações. Com
o dinheiro da renda ele daria uma  ajuda considerável às suas filhas e
teria o seu próprio futuro assegurado - se não  dispersasse esse
dinheiro.
Mas o projeto foi abortado de saída. Garrincha indignou-se ao saber que,
pela CBD, que  patrocinaria o jogo, sua parte na renda seria bloqueada
por cinco anos:
"Não sou moleque. Ou dão o dinheiro ou dizem logo que não querem
dar."
Disseram-lhe que havia também a idéia de que ele desfilasse pelo gramado
com as filhas.  Mas aí quem se indignou foi Elza:
"Por que não o fazem passar um prato pelas arquibancadas?" Ao mesmo
tempo Garrincha  dizia que não queria esmolas, mas uma homenagem. E
vetou a idéia da despedida:
"Não preciso me despedir. Ainda tenho futebol para muitos anos." Para as
crianças  brasileiras, Garrincha já não tinha futebol nem para estrelar
seus times de botões. Estava  sendo barrado nos times da garotada, que
agora preferia escalar Jairzinho, Paulo Borges ou  mesmo Natal, do
Cruzeiro, no botão da ponta direita. E as pessoas já começavam a faltar-
lhe com o respeito, como aconteceu na TV Tupi.
Elza estava cantando semanalmente no programa Bibi ao vivo, comandado
por Bibi Ferreira  na ainda poderosa Tupi. Outras atrações regulares
eram jovens revelações como Clara  Nunes e Marília Barbosa e veteranos
como Cyro Monteiro e Orlando Silva. O programa ia  ao ar às
sextas-feiras, às oito da noite, mas exigia-se dos artistas que
chegassem ao estúdio à  uma da tarde. Garrincha acompanhava Elza e
ficava sentado num banquinho atrás do palco,  discreto, cabeça baixa,
quase mudo, enquanto ela ensaiava. Sua presença nem sempre era  bem
recebida.
Certa tarde foi enxotado do banquinho por um rapaz da produção: "Não
pode ficar aqui!  Cai fora!" Garrincha não disse nada. Apenas
levantou-se e saiu. Marília Barbosa assistiu  estupefata à cena. Apesar
de nova - dezoito anos -, sabia muito bem quem era Garrincha  e o que
representava. Mas ficou ainda mais triste pela simplicidade com que
Garrincha  recebeu o passa-fora.
Às vezes Garrincha ia com Cyro Monteiro e Orlando Silva para um botequim
perto da  emissora na Urca. Cyro tomava uísque, Orlando tomava café e
Garrincha um líquido  transparente, que podia ser água ou outra coisa,
num copo grande. Dos três, Cyro era o  único que não precisava
refugiar-se no passado - ou fugir dele. Sua carreira nunca tivera
grandes contratempos e sua alegria de viver era efervescente. Mas
Garrincha tornara-se
exatamente o que Orlando já era havia décadas: um sobrevivente de si
mesmo.
Elza continuava tentando impedi-lo de beber. Conseguira fazer com que
Garrincha pelo  menos não bebesse em casa e se animara ao ver que ele
parecia ter recuperado o prazer pela  pescaria:
"Vou a Lagoa pescar umas caraúrias, Crioula."
Garrincha saía sozinho todas as tardes para a Lagoa e, a provar que
estivera pescando,  voltava com uma fieira de peixinhos. Voltava também
com um halo diferente, uma euforia  de quem havia bebido. Quando Elza
lhe perguntava, Garrincha negava. Elza sabia que ele  não ficaria indo
de quinze em quinze minutos da Lagoa ao botequim e vice-versa, tendo de
atravessar várias pistas - logo, devia comprar uma garrafa na rua e
levá-la para a pescaria.  Na tarde em que resolveu segui-lo, descobriu
que Garrincha enterrava uma garrafa de  cachaça na faixa de areia à
beira da Lagoa. Quando chegava para pescar, ela já estava lá.
Elza flagrou-o, mas isso não pareceu aborrecê-lo. Sempre tinha uma
explicação:
"Você já viu pescaria sem pinga, Crioula? Os peixes ficam até
ofendidos!"
Em meados do ano, Garrincha encontrou um clube que o acolhesse: a
pequena Portuguesa,  da Ilha do Governador. Na verdade, fora a
Portuguesa que o procurara. O empresário  Aderbal Savóia oferecera ao
clube dezessete amistosos pelo interior de Qoiás, Mato Grosso  e Bolívia
se ele levasse Garrincha. Como seu passe estava preso ao Corinthians,
Garrincha  iria como convidado. Além disso, eram amistosos e quase todos
no fim do mundo, ninguém  precisaria saber. A Portuguesa receberia
oitocentos cruzeiros novos por partida, equivalente  a 800 mil antigos -
o cruzeiro perdera três zeros aquele ano. A cota de Garrincha seria por
fora e maior que a do resto do time: mil cruzeiros novos. Seu total a
receber na volta ao  Rio, dali a quase três meses, seria de 17 mil
cruzeiros novos - cerca de 6 mil dólares -,  livres de despesas.
Garrincha viajou com o time, que foi de avião do Rio a Goiânia e depois
embrenhou-se pelo  Oeste, atravessando por trem e ônibus o Mato Grosso,
até chegar a Santa Cruz de Ia Sierra,  Cochabamba e La Paz na Bolívia.
Em todas as cidades, o público que foi ver Garrincha  acabou vendo o
jogador que o marcava. Garrincha entrava no começo da partida e tentava
algumas jogadas. A princípio, o zagueiro se assustava. Mas, em poucos
minutos, descobria  que não tinha nada a temer e tomava-lhe a bola com a
maior desenvoltura. Garrincha então  se desinteressava do jogo e torcia
para que o primeiro tempo acabasse logo, para ser  substituído por seu
reserva Almir Lima. Saiu vaiado na primeira partida, em Goiânia, e na
maioria das outras.
Não parecia importar-se. Os jogos eram apenas de exibição e todos os
excessos lhe eram  permitidos. Os colegas não o censuravam por não fazer
ginástica junto com eles e muito  menos por ter sempre uma ou duas
garrafas de conhaque no apartamento dos hotéis.
Almir Lima foi seu companheiro de quarto durante a viagem. Todas as
manhãs Garrincha  acordava trémulo - mal conseguia acertar o cigarro com
a chama do isqueiro. Enquanto  não tomasse o conhaque com limão, não se
sentia seguro. E só depois animava-se a ir tomar  o café da manhã. Em
Três Lagoas, no Mato Grosso, conheceu uma mulata que era uma  quase
sósia de Elza e a levou com ele para a cidade seguinte, Campo Grande. O
time seguia  na primeira classe do trem, mas Garrincha e a garota tinham
direito a uma cabine reservada.  Em Campo Grande pagou-lhe a viagem de
volta para Três Lagoas.
Já não saía muito com os colegas à noite - preferia ficar bebendo no
hotel. Uma das  poucas exceções foi em Corumbá, na fronteira com a
Bolívia, onde fechou um bordel para  ele e para os companheiros e pagou
a despesa. Custou-lhe o cachê de uma partida.
A excursão terminou em La Paz e, quando regressaram ao Rio, em meados de
dezembro,  Garrincha não recebeu os 17 mil cruzeiros novos que Savóia
lhe devia. O empresário  desaparecera.
Nos meses em que esteve fora, Garrincha não mandou a pensão para Nair.
Mesmo antes -  desde que deixara de receber o salário do Corinthians, do
qual a pensão era debitada -, já  não vinha sendo pontual. Dirceu
Rodrigues Mendes esperou a situação ficar insustentável  para apertá-lo
com mais estardalhaço.
Em janeiro de 1968 os jornais noticiaram que Nair e suas filhas estavam
passando fome em  Pau Grande. Deviam ao armazém, ao açougue e à
sapataria. Vinham sendo sustentadas  pelos irmãos de Nair. Para comprar
comida, as filhas estavam rifando os presentes que, no  passado,
Garrincha lhes trouxera da Europa: almofadas, rádios, roupas. Não havia
dinheiro  para remédios e, quando uma ficava doente, era tratada com
"xarope caseiro" - cachimbo.  A mais velha, Terezinha, aprendiz de
fiandeira na fábrica, perdera um dedo num acidente na  máquina e não
podia trabalhar. Mais do que nunca, Pau Grande queria afogar Garrincha
no  poço Dove Doze se ele aparecesse por lá. -,
Por solicitação de Dirceu Rodrigues Mendes, o juiz da Sexta Vara, Áureo
Bernardes  Carneiro, intimou Garrincha a comparecer à sua presença no
dia 27 de janeiro. Garrincha  não se apresentou nem mandou um advogado.
No dia 2 de fevereiro, Dirceu Rodrigues  Mendes deu entrada no pedido de
prisão. O juiz a aceitou, arbitrou a dívida de Garrincha em  2600
cruzeiros novos e deu-lhe o prazo de um mês para apresentar-se ou
recorrer. Como Garrincha continuasse ignorando a intimação, o juiz
lavrou a sentença à revelia no dia 6 de  março: três meses de prisão na
penitenciária Lemos de Brito.
Garrincha condenado à prisão! A imprensa invadiu o terceiro andar do
Fórum, onde ficava a  Sexta Vara. Áureo Carneiro fechou a porta de sua
sala, barrou os repórteres e mandou dizer  que condenara o cidadão
Manuel dos Santos. Não queria saber se era Garrincha. A  condenação
estava sustentada.
Garrincha parecia sinceramente surpreso quando os repórteres voaram para
sua casa na  Lagoa:
"Por que fazem isso comigo? Ninguém me procurou e me condenam sem eu
saber de nada."
Não era bem assim. Garrincha recebera a primeira intimação e até a
assinara. Mas sua  justificativa para os repórteres não era uma atitude
cínica - certamente estava fora do ar  quando a assinara e nem se
preocupara em ler os seus termos. Não valia como desculpa,  mas seu
não-comparecimento à audiência pode ter sido uma decorrência desse
desconhecimento. A verdade era que, sem contrato com um clube,
dependendo de amistosos  e sem o dinheiro que o empresário lhe devia,
não tinha os 2600 cruzeiros novos - menos  de mil dólares - que o juiz o
mandara pagar a Nair.
Sua compreensão dos termos do desquite parecia também confusa:
"Se vierem me prender eu vou tranqüilo, porque, pelo desquite, não
preciso pagar pensão  enquanto estiver sem contrato. E, se for preso, aí
é que não posso pagar mesmo, porque o  time da penitenciária não paga
bicho."
Elza estava há dois meses no México, fazendo uma temporada de shows. De
lá emendaria  para Nova York, a fim de cantar nos bailes de Carnaval do
hotel Waldorf-Astoria. Não sabia  de nada que estava acontecendo por
aqui. Sem ela por perto, Garrincha passava os dias em  torpor alcoólico
e não reagia com presteza ao que lhe faziam. Não lhe ocorreu nem mesmo
acionar o dr. Roberto Pontes, seu novo advogado. Pontes soube da
história pelos jornais do  dia 7 e agiu rápido.
Dirceu Rodrigues Mendes alegara que o pagamento da pensão fora
interrompido em abril de  1967. Mas Pontes mostrou ao juiz recibos
referentes a maio e junho de 1967, assinados por  Dirceu - os únicos que
Garrincha guardara, e mesmo assim por acaso. Poderia haver  outros, mas
Garrincha não era um homem que se preocupasse em guardar papéis. O tempo
era curto para impedir sua prisão.
O mandado de prisão estava sendo datilografado na tarde daquele dia. O
oficial de Justiça já  vestia o paletó para ir prender Garrincha quando
um emissário de José Luiz Magalhães Lins  entrou na Sexta Vara e
entregou ao juiz Áureo um cheque no valor de 2600 cruzeiros  novos.
Como nos filmes seriados que via em criança no cine Pau Grande, em que o
herói escapava no último segundo de cair no precipício, Garrincha também
se livrou da prisão.
Escapou daquele precipício. Mas a roda da carroça insistia em continuar
girando a um centímetro do abismo.

Capítulo 18

O Flamengo acolhe Garrincha

1968-1969

SANGUE NO ASFALTO

Em junho de 1968, ao olhar-se ao espelho, Garrincha se via como os
peixes deviam vê-lo: uma ampliação grotesca e deformada. Estava com doze
quilos a mais, flácido, inchado, com  bolsas empapuçadas sob o branco
amarelado dos olhos. Dois vincos grossos que antes não  existiam desciam
agora de seu cenho e separavam o nariz e a boca do resto do rosto. O
nariz também ficara mais grosso. Perdera o controle sobre a bebida -
Elza tinha de viajar  para fazer os shows e não podia ficar na sua
marcação. Livre de vigilância, Garrincha bebia  em casa nos três turnos
e só saía do estupor alcoólico para fantasiar que ainda podia jogar
profissionalmente.
No primeiro semestre, chegara a fazer várias tentativas de despertar o
interesse de clubes  estrangeiros pelo seu futebol. Um deles fora o Toro
de Nova York, a quem mandara um  recado pelo empresário de Elza. Não
teve resposta. Outros dois, aos quais foi pessoalmente  e em que tentou
treinar, foram o Nacional de Montevidéu e o Boca Juniors de Buenos
Aires. Mas bastou vê-lo para que os dirigentes encerrassem a conversa.
Em Buenos Aires, Garrincha declarou:
"Ninguém me deixa jogar. Parece que querem me eliminar do futebol."
Em agosto, o Atlético Júnior de Barranquila, Colômbia, resolveu pagar
para ver. No  passado já tivera experiências com brasileiros
complicados, como Tim e Heleno de Freitas.  Mas achou que Garrincha
valia o risco. Em dez dias, o Atlético Júnior mandou-lhe a  passagem,
adiantou-lhe dinheiro e o pôs em campo.
A simples notícia de que Garrincha embarcara para jogar na Colômbia
serviu para excitar  Dirceu Rodrigues Mendes. Em junho, o advogado já
extraíra de Negrão de Lima,  governador da Guanabara, uma pensão
especial para os "dependentes de Garrincha"  enquanto este não
"regularizasse a sua situação financeira". O valor inicial seria de 250
cruzeiros novos, a ser pago a Nair por intermédio de Dirceu. Ao ler que
Garrincha estava  indo embora do país, Dirceu assustou-se. Imaginou que
ele iria vender tudo aqui e sumir.  No dia 19 de agosto entrou com mais
um pedido de seqüestro de bens - o terceiro -, para  evitar que
Garrincha "dilapidasse seu patrimônio".
Mas, desta vez, Dirceu chegou tarde - porque já não havia patrimônio a
dilapidar. A casa  na Ilha do Governador acabara de ser perdida para um
agiota a quem Elza pedira um  empréstimo, com Garrincha dando a
propriedade como caução. Elza não pôde pagar e o  agiota lhes tomou a
casa. A crônica desorganização financeira de Garrincha e Elza já lhes
provocara pequenos prejuízos no passado. Este era apenas o primeiro
grande rombo - e  não seria o último. Mas Nair não ficaria de todo
desassistida: na mesma época da pensão de  Negrão de Lima, Nílton Santos
conseguira, por intermédio de Ney Cidade Palmeiro, que o  Botafogo
também desse a Nair uma quantia mensal de duzentos cruzeiros novos.
Ambas as  pensões, a do Estado e a do Botafogo, seriam honradas pelas
administrações seguintes.
O sonho colombiano de Garrincha é que teve a duração de uma miragem. Uma
semana  depois de sua chegada, o Atlético Júnior mandou-o embora. A
torcida queria agredi-lo à  saída do estádio depois do primeiro e único
jogo.
Garrincha no Flamengo?
João Saldanha e o locutor Jorge Curi acharam que tinham entendido mal.
Era tão absurdo  que só podia ser piada.
Mas a notícia que acabara de chegar-lhes na rádio Nacional estava
confirmada. Três  jogadores rubro-negros, Silva, Carlinhos e Paulo
Henrique, companheiros de Garrincha na  seleção em 1966, haviam pedido
ao treinador Walter Miraglia que lhe desse uma chance no  Flamengo.
Miraglia consultara o preparador físico José Roberto Francalacci e este
dissera  que, se tivesse alguns meses, poderia recuperar Garrincha nem
que fosse para disputar amistosos fora do Rio. E, assim, com a anuência
do presidente Veiga Brito, o Flamengo anunciou que, se o  Corinthians
liberasse o seu passe, contrataria Garrincha. O Corinthians relutou por
algumas  semanas - chegou a insinuar que queria os 300 milhões antigos
para soltá-lo -, mas,  finalmente, emprestou-o sem cobrar nada ao
Flamengo.
O Flamengo não acolheu Garrincha por questões apenas humanitárias. Havia
três anos o  clube não era campeão carioca. Estava mal de finanças,
ninguém o queria para excursões e a  presença de Garrincha no time seria
uma atração em cidades do Norte e do Nordeste. Mas  sua recuperação
parecia tão complicada que, além do preparador físico, precisaria ocupar
também os médicos do clube, Celio Cotecchia e Paulo de São Thiago, que
não teriam tempo  para isso. Então Francalacci convidou o ortopedista
Paulo Calarge, do INPS, para ajudá-lo  no trabalho. Não havia
remuneração à vista e Calarge nem sequer era Flamengo, mas  tricolor.
João Saldanha e Jorge Curi eram amigos de Calarge. Saldanha o advertiu:
"Você vai perder tempo e se queimar. Garrincha só falta beber
querosene."
Calarge não se impressionou. A idéia de reabilitar um craque dado como
perdido era um  desafio fascinante.
Garrincha chegou ao Flamengo no dia 21 de setembro de 1968, menos de
dois meses depois  de ter sido escorraçado da Colômbia. Estava agora com
84 quilos - treze de excesso.  Calarge submeteu-o a uma escanometria e
descobriu que sua perna direita era três  centímetros maior que a
esquerda, não seis como se pensava. Fabricou-lhe palmilhas sob  medida,
que balanceavam a diferença e diminuíam o desvio na bacia e a pressão
sobre a  perna menor. A artrose progredira e já havia de novo fragmentos
ósseos dentro da  articulação. Mas outra raspagem seria inútil - seria
apenas mais uma toalete cirúrgica,  como a que o dr. Marques Tourinho
lhe fizera. Garrincha precisava emagrecer e de  exercícios especiais
para reforçar a musculatura e reduzir a velocidade do desgaste. Não era
uma missão impossível.
Só que Calarge impôs-lhe uma condição:
"Primeira coisa, parar de beber."
Garrincha ouviu e concordou com a cabeça.
Tanto quanto no Corinthians, Garrincha aplicou-se na recuperação. Todos
os dias  Francalacci o apanhava em casa na Lagoa e o levava a correr no
Leblon ou para seu ginásio  no Campestre. Durante semanas Garrincha
entregou-se ao aparelho de leg press - levantou  130 quilos com as
pernas. Elas nunca mais voltariam a ser o que eram, dois pilares de
músculos e nervos, mas ele estava fazendo progressos. Um mês depois do
esforço no  ginásio, já podia começar a bater bola no Flamengo com os
auxiliares Joubert e Bria.
Houve também dezenas de saunas no clube Monte Líbano, em que Garrincha
transpirou  álcool suficiente para deixar grogues seus vizinhos de
vapor. Francalacci transportava-o para  cima e para baixo, para evitar
distrações pelo caminho, e, à noite, devolvia-o a Elza. No dia
seguinte, a mesma coisa.
Elza, por sua vez, acompanhava Garrincha na dieta macrobiótica, à qual
eram misturados  desintoxicantes como Necroton ou Metiocolin.
Cronometrava seus exercícios em casa e até  pulava corda com ele. Foi
ainda mais longe e raspou a cabeça a zero - como promessa a  santa Rita
de Cássia para que ele voltasse a jogar.
Francalacci preocupou-se em controlar a bebida de Garrincha. Começou por
advertir os  outros jogadores:
"Evitem tomar até guaraná com ele."
Armou também um cerco para protegê-lo de seus amigos. Quando Garrincha
começou a  fazer os primeiros individuais e bate-bolas na Gávea, Pincel
e Swing iam vê-lo treinar e  esperá-lo sair, como faziam nos tempos do
Botafogo. As ruas perto do Flamengo estavam  cheias de botequins.
Francalacci chamou-os à parte:
"Companheiros, vocês gostam do Garrincha? Então me façam um favor. Vejam
se não o  procuram mais."
Pincel e Swing evitaram voltar à Gávea. Mas ninguém podia impedilos de
ir à casa de  Garrincha - nem Elza conseguia. Era Garrincha que não
conseguia passar sem eles.
Até então, todas as tentativas de salvar Garrincha esbarravam no
desconhecimento, inclusive  por parte dos médicos, do que fosse o
alcoolismo. Quando lhe diziam que ele "precisava"  parar de beber,
pensavam que isso ainda estivesse ao alcance de sua escolha - como se
pudesse escolher entre beber e não beber. Mesmo no Flamengo, ninguém
cogitou de  submetê-lo a um tratamento específico contra a dependência,
sem o que qualquer tentativa  de recuperá-lo para jogar regularmente (ou
para fazer qualquer outra coisa) estaria  condenada ao fracasso.
Prescreveram-lhe Antabuse (dissulfiram), uma droga que altera o
metabolismo do álcool  ingerido e produz uma substância intermediária
que provoca uma reação tóxica no  organismo. Ao beber, o indivíduo sente
enjoos, vômitos, taquicardia e toda espécie de  sensações desagradáveis.
Elza foi instruída a misturá-la na comida de Garrincha sem ele  saber.
Nas primeiras vezes em que bebeu com Antabuse no organismo e teve
aqueles  reações, Garrincha estava na rua e não sabia a que atribuí-las.
Mas, quando bebeu escondido  em casa e começou a vomitar na frente de
Elza, ela se assustou e lhe contou sobre o  remédio. Garrincha ficou
brabo e a própria Elza retirou o medicamento.
Em troca, Garrincha prometeu esforçar-se para beber "menos", o que, por
algum tempo,  parece ter conseguido - embora haja relatos de pessoas que
o viram bebendo escondido  nos botequins perto da Gávea. E Francalacci
depois descobriria que Garrincha bebera até na  sua frente, usando seu
velho truque de encher de cachaça a garrafinha de água tônica.
O Flamengo continuava confiante e fez com Garrincha um generoso contrato
de risco: deu- lhe 50 mil cruzeiros novos de luvas e, em vez de salário,
ofereceu-lhe 3 mil cruzeiros novos  por partida (cerca de setecentos
dólares) e uma ajuda de custo mensal de quinhentos  cruzeiros novos.
Garrincha pediu e ganhou também um Galaxie cinza do ano, que veio
substituir o Ford Comet 1960 com que vinha rodando - e com o qual, meses
antes, batera  sem maiores conseqüências na estrada Rio-Magé. O contrato
vigoraria até 31 de junho de  1969, quando poderia ser rescindido sem
ônus para as partes.
Garrincha no Flamengo podia ser um bom negócio para ambos, mas havia
ainda um lado  simbólico: apesar de Flamengo na infância, ele fora a
bete noire da história do clube. Em  seus doze anos no Botafogo, de 1953
a 1965, jogara 38 vezes contra o Flamengo. Ganhara quinze partidas,
empatara onze e perdera  doze. Não era uma grande diferença. Mas, quando
se lembravam de algum Botafogo x  Flamengo, o que vinha à memória dos
torcedores rubro-negros era a apavorante figura de  Garrincha dançando
diante de Jordan - e, em seguida, deixando Jordan para trás e
arrombando as intimidades flamengas. Talvez porque, nesses 38 jogos, ele
tivesse marcado  doze gols, quase todos decisivos - principalmente os da
vitória do Botafogo por 3X0 na  final do campeonato carioca de 1962. O
Flamengo era o grande clube carioca contra quem  Garrincha fizera mais
gols.
Fora também Garrincha que estabelecera a escrita pela qual o Botafogo
sempre ganharia do  Flamengo, não importava que o Flamengo estivesse bem
e o Botafogo mal. Quando  Garrincha foi para o Corinthians pensou-se que
podia ser uma escrita pessoal, porque até  mesmo no clube paulista, onde
jogara tão pouco e vencera ainda menos, conseguira derrotar  o Flamengo
- por 3x1, em 1966. Agora, aos 35 anos, no mais triste dos ocasos,
vestia  finalmente a camisa que ele se habituara a derrotar.
Setenta dias depois de iniciado o tratamento, de novo com 71 quilos e
tendo feito apenas um  coletivo, Garrincha estreou pelo Flamengo no dia
30 de novembro de 1968 contra o Vasco.  O jogo valia pela Taça de Prata,
como então se chamava o campeonato brasileiro. Os dois  times estavam
caindo pelas tabelas e o jogo era quase irrelevante, tanto que o
programaram  para um sábado à noite. Mas a presença de Garrincha no
Flamengo empolgou a cidade.
Horas antes o espetáculo já era impressionante: carros, ônibus, trens e
hordas de gente a pé,  todos embandeirados a caminho do Maracanã para
ver Garrincha. O borderô oficial registrou 79 694 pagantes, mas
calcula-se que pelo menos 20 mil  torcedores invadiram a geral. Um dos
convidados na tribuna de honra era Pelé.
Garrincha entrou em campo e recebeu a maior ovação de sua vida. Eberval,
o lateral vascaíno  encarregado de marcá-lo/ estava morto de medo. Os
repórteres que cobriam o Vasco não viam  motivo Para esse medo- Não
havia truque de Garrincha que Eberval não conseguisse abortar por
apenas esbarrar nele. Mas Eberval não estava convencido disso e tinha
medo de ser desmoralizado. O  jogo começou e, quando Garrincha conseguiu
driblá-lo pela primeira vez, todos os fotógrafos atrás do  gol ouviram
quando Fontana, beque do Vasco, gritou com Eberval: "Deixa de ser
frouxo! Mete o pé  nele!"
Até então, Eberval vinha marcando Garrincha lealmente e, apesar do
nervosismo, ganhando a  maioria das paradas. No primeiro drible feio que
levou, Fontana ordenou-lhe partir para o  assassinato- E o que se viu
então foi uma chacina: nas sete ou oito bolas seguintes que recebeu,
Garrincha foi pisado, empurrado ou derrubado por Eberval. Numa delas, o
próprio Fontana acertou  um soco no estômago de Garrinchatudo sob a
insensível arbitragem de José Aldo Pereira. Eberval e  Fontana acabaram
vaiados pelas duas torcidas - porque a do Vasco também estava torcendo
por  Garrincha. Ao fim do primeiro tempo, Garrincha pisou num buraco do
Maracanã, torceu o tornozelo  e teve de ser substituído no intervalo.
Mas já saíra sob uma ovação ainda maior que a do começo. A torcida
queria acreditar que assistira a  uma ressurreição e que não fosse a
violência de Eberval, Garrincha o teria driblado e ido à linha  de fundo
quantas vezes quisesse.
Os 45 minutos contra o Vasco foram suficientes Para que uma semana
depois, o Museu da Imagem  e do Som lhe concedesse o prémio Golfinho de
Ouro como o "atleta do ano". Era irónico porque,  tecnicamente,
Garrincha já nem poderia ser considerado um atleta - estava mais para um
artista,  um ator que simulasse jogar futebol. A estatueta era
acompanhada de um cheque de 5 mil cruzeiros  novos.
Garrincha aproveitou o prémio para reclamar que ninguém se lembrava
dele" e que a CBD nem o  convidara para o recente jantar comemorativo
dos dez anos de conquista da Copa de 1958 - o que  não era verdade. O
jantar acontecera em julho num restaurante no Leblon, e Garrincha, assim
como  todos os campeões, inclusive os de São Paulo, fora convidado. O
envelope com o escudo da CBD  fora atirado a uma gaveta em sua casa na
Lagoa sem sequer ser aberto. Garrincha começava a  desenvolver um hábito
que se agravaria com o tempo - o de culpar exclusivamente os outros por
suas agruras.
Em janeiro de 1969, apenas por ter Garrincha, o Flamengo partiu para uma
maratona de nove jogos em dezoito dias, começando pela então Guiana
Holandesa (Suriname) e descendo por Manaus, Belém  do Pará, Natal e
Salvador. Maratona era a palavra exata. Garrincha entrava em campo dia
sim, dia  não, o que seria abusivo até para um jogador em condições
tilintantes. Mas participava pouco das  partidas e, quando conseguia
driblar um adversário e a torcida o aplaudia, era rapidamente
substituído para deixar a platéia querendo mais. Em Manaus, contra o
Fast Clube, fez um gol - e o  jogo acabou ali mesmo, porque a torcida
invadiu o campo para carregá-lo.
Naquela excursão, o Flamengo descobriu que, na verdade, Garrincha não
queria voltar ao futebol.  Todo o seu esforço com Calarge e Francalacci
fora apenas para fazer uma última grande exibição no  Maracanã, como a
que fizera contra o Vasco, e provar que não estava acabado. O que
acontecesse  depois parecia não ter importância. Tanto que, durante a
viagem, soltou as rédeas que ele próprio se  impusera. Para tristeza de
Francalacci (que o acompanhou e dormia com ele no mesmo quarto dos
hotéis), abandonou a dieta e entregou-se a uma orgia de comida e sexo -
teve uma gonorréia no  meio da viagem. E voltou a beber às claras. Em
Manaus, ao ser carregado pela torcida depois do gol,  deixou-se levar
por ela para fora do estádio e só reapareceu no hotel horas depois,
embriagado até a  alma.
De volta ao Rio em meados de fevereiro, Garrincha levou quase um mês
para recuperar o joelho e a  condição geral. Nesse ínterim, ele e Elza
tiveram de deixar a casa da Lagoa - o proprietário,  deputado Armando da
Fonseca, pedira-a para seu uso. Mudaram-se para um apartamento na rua
Toneleros, quase esquina com República do Peru, em Copacabana.
O campeonato carioca de 1969 ia começar e, embora ninguém acreditasse
que ele pudesse entrar em  campo em jogos para valer, acabou escalado
nas primeiras quatro partidas. Seu nome ainda era uma  irresistível
atração de bilheteria. Com ele no time, o Flamengo empatou ou venceu
pifiamente as  quatro. A última delas foi num sábado, 12 de abril,
quando o Flamengo derrotou o Campo Grande  por 1x0 no Maracanã.
No dia seguinte, Garrincha pegou o imenso Galaxie e foi a Pau Grande
visitar suas filhas. Com ele  no carro iam sua filha adotiva Sara e sua
sogra, dona Rosaria.
Na volta de Pau Grande para o Rio, a morte viajou com eles.
Quando Garrincha ia a Pau Grande ver as filhas, chegava até a esquina de
sua antiga rua, buzinava e  elas faziam fila para entrar no carro. Eram
muitas, cinco ou seis de cada vez, mas o Galaxie, com  suas quatro
portas, era quase um navio. Garrincha dava umas voltas com elas pela
região e voltava a Pau  Grande. Parava na confeitaria São Cosme e
Damião, comprava-lhes balas e chocolates e,  enquanto elas se distraíam
por ali, dava um pulo ao bar do Dódi. Jogava totó, conversava  com os
amigos e bebia três ou quatro caipirinhas - doses tamanho Garrincha.
Convocava  as meninas de novo para o carro e as deixava na mesma
esquina. Às vezes via Nair na  varanda, mas evitava aproximar-se. Se
Nair o chamasse, ia até lá e trocavam duas palavras.  Toda a visita a
Pau Grande durava pouco mais de duas horas. Quase sempre Garrincha
levava alguém com ele: Carlinhos ou Gilson, filhos de Elza, o português
Manuelzinho ou -  depois que Pau Grande passara a vê-la como inevitável
- a própria Elza.
Mas, naquela tarde de domingo no Rio, 13 de abril, nem Manuelzinho, nem
Edgar Cosme,  que também estava no apartamento da Toneleros, nem os
filhos de Elza, ninguém se animara  a acompanhá-lo. Elza também não
quisera ir - na véspera sonhara com um acidente em que  via um carro
destruído e dois corpos na estrada. Pedira-lhe que não fosse, que
deixasse para  outro dia. Além disso, sob os seus protestos, Garrincha
já havia bebido sua cota usual em  casa e iria beber mais em Pau Grande.
Garrincha apenas rira. Dona Rosaria oferecera-se  para ir com ele
levando a pequena Sara, então
com três anos.
Foram para Pau Grande, onde Garrincha repetiu seu ritual de quase todas
as semanas com  as filhas. Um amigo deu-lhe um sanhaço que - garantiu -
cantava dia e noite. No Dódi,  Garrincha pode ter passado um pouco da
conta, mas venceu a partida de totó. Entregou as  meninas a Nair e, com
dona Rosaria e Sara a seu lado na frente e a gaiola com o sanhaço no
banco de trás, pegou a estrada de volta para o Rio. Eram quase sete da
noite e acabara de  escurecer.
No quilómetro quatro da rodovia Presidente Dutra, perto de São João do
Meriti, um  caminhão Chevrolet transportando 132 sacos de batata saiu do
estacionamento da barreira  fiscal e entrou na pista. Garrincha vinha a
mais de oitenta por hora, com os faróis apagados.  Quando viu o
caminhão, este já se materializara paquidérmico, monstruoso, centímetros
à  sua frente. Ainda tentou jogar o Galaxie para o lado, mas, na
velocidade, bateu na traseira  do caminhão. O Galaxie capotou três vezes
e dona Rosaria foi projetada pelo pára-brisa.
Os empregados da barreira ouviram a batida e correram para acudir. O
Galaxie estava todo  retorcido, de rodas para o ar. Conseguiram
desvirá-lo e tirar Garrincha e Sara das ferragens.  O rosto e as roupas
de ambos estavam cobertos de sangue.
Souberam imediatamente de quem se tratava porque Garrincha gritava
transtornado:
"Me ajudem! Eu sou o Garrincha! Eu sou o Garrincha!"
Outro Galaxie quase da mesma cor foi o primeiro a parar. Dele desceu
José Bento de Carvalho, diretor social do Vasco. Logo reconheceu
Garrincha - vira-o várias vezes há dois anos, quando ele tentara treinar
no Vasco. Havia muitas pessoas na pista e sacos de batata por toda
parte. Alguém afobadamente enfiou a cara por sua janela e perguntou:
"Pode levar uma pessoa ao hospital?"
Garrincha zanzava zonzo por ali. Só então viu sua sogra estendida na
estrada e correu para ela. Dona Rosaria estava morta, com a cabeça quase
separada do corpo.
Garrincha abraçou-se a ela chorando:
"Minha sogra! Minha sogra!"
Teve uma violenta crise de nervos. Conseguiram fazê-lo entrar no banco
de trás do carro de José Bento de Carvalho e alguém foi ao seu lado para
acalmá-lo. Bento de Carvalho tomou o volante e partiu para o hospital
Getúlio Vargas.
Garrincha continuava gritando:
"Eu não quero que minha sogra morra! Quero ver minha filha."
Outro carro havia parado e levado Sara também para o Getúlio Vargas. A
menina parecia ter apenas escoriações, mas podia ter sofrido alguma
fratura. O corpo de dona Rosaria ficou à espera de uma ambulância vinda
de Nova Iguaçu. O motorista do caminhão fugira, mas as pessoas da
barreira haviam anotado a placa: Piraí - RJ 95-21-98.
Garrincha fez todo o percurso chorando e se torturando por não ter
acreditado na premonição de Elza.
José Bento de Carvalho chegou ao Getúlio Vargas e Garrincha foi levado
por dois  enfermeiros para o terceiro andar. De lá mesmo, Bento de
Carvalho telefonou para Reinaldo  Reis, presidente do Vasco, e lhe
contou a tragédia. Reis ligou para seu colega Veiga Brito,  presidente
do Flamengo. Em poucos minutos, Veiga Brito estava no hospital. Ao
vê-lo,  Garrincha abraçou-se a ele. Não parava de acusar-se:
"Matei minha sogra. Por que fiz isto, meu Deus?"
Os médicos o atenderam. Garrincha tinha escoriações pelo corpo e um
ferimento na testa,  bem entre os olhos, além de um gigantesco galo - a
cicatriz entre os olhos ficaria pelo  resto de sua vida. Teria de voltar
a ser examinado para se ter certeza de que não havia  fraturas. Sara
também foi examinada e transferida para a casa de saúde Arnaldo Moraes,
em  Copacabana. Quebrara a clavícula e a tíbia esquerdas, teria de ficar
internada. José Bento de  Carvalho esperou que o HGV liberasse Garrincha
e o levou para o apartamento na  Toneleros.
A imprensa já estava sabendo. Os carros dos jornais e rádios os seguiram
até o apartamento  e os repórteres subiram com eles. Elza não estava e
era folga da governanta, dona Augusta.  As perguntas eram gritadas e os
flashes estouravam. Garrincha não queria ser fotografado.  Em certo
momento jogou-se no assoalho e cobriu-se com uma esteira de praia. Um a
um, os  repórteres foram saindo. Garrincha melhorou aos poucos. José
Bento de Carvalho não  queria deixá-lo sozinho. Mas Garrincha disse que
estava bem e que os filhos de Elza não  demorariam a chegar. Então Bento
de Carvalho também o deixou.
Poucas horas antes, Elza estava em casa quando o telefone tocou:
"Alô? É da casa do Garrincha? Olha, houve um acidente em São João do
Meriti, morreram  todos!"
Elza ouviu aquilo e ficou sem fala, sem saber o que fazer e sem
consciência do que fazia.  Saiu à rua como uma cega e, quando despertou
do transe, estava atravessando a pé o túnel  do Posto Seis, em direção
ao teatro Santa Rosa, onde fazia o show Elza de todos os  sambas. Tinha
caminhado vinte quarteirões de Copacabana em marcha batida sem perceber.
Entrou no teatro, seus colegas a saudaram e ela só sabia dizer:
"Morreram todos. Morreram todos."
Clara Nunes também estava lá. Acudiu Elza e tentou entender o que ela
queria dizer.  Conseguiu tranquilizá-la e levou-a de volta para casa. O
apartamento estava vazio -  Garrincha já chegara e saíra. O rádio havia
acabado de dar a notícia e esta fora ouvida por  muitos amigos. Em
minutos o apartamento estava cheio de gente: o médico rubro-negro  Celio
Cotecchia, o ator Jorge Coutinho, o percussionista Muçum, dos Originais
do Samba.  Garrincha telefonou da rua e disse chorando a Elza que estava
bem, mas não queria voltar  para casa. Também não disse onde estava.
Telefonou várias vezes, sempre chorando, e só  então contou que estava
no Garden, o restaurante do Jardim de Alah que os jogadores do  Flamengo
frequentavam.
Edgard Cosme, o motorista Quintanilha e outros foram buscá-lo. Garrincha
bebia e dizia que  não tinha coragem de voltar para casa. Finalmente, já
de madrugada, conseguiram trazê-lo.
Jogou-se aos pés de Elza aos gritos:
"Matei minha sogra, Crioula! A pessoa que eu mais amava no mundo depois
de você."
Atirou-se chorando na cama. Elza afagou-lhe a cabeça, mas seu filho
Carlmhos não queria  saber de perdão. Disse exatamente o que sentia
naquele momento:
"Bêbado! Assassino!"
No dia seguinte, enquanto Elza ia sozinha enterrar dona Rosaria no
cemitério do Caju,  Garrincha foi procurado pelo advogado Ernesto da Luz
Pinto Dória. Vinha em nome do dr.  Oscar Steveríson, professor de
Direito Penal da Universidade do Brasil e de quem era  assistente, para
oferecer-lhe de graça os serviços do escritório Stevenson.
"De agora em diante você terá nossa defesa permanente", disse Dória.
Começou dois dias depois, quando Garrincha foi a São João do Meriti para
o interrogatório  e o exame de corpo de delito. O motorista do caminhão
já estava lá. Chamava-se Benedito  Faria Sales, tinha 61 anos e 42 de
profissão. Era um homem raquítico, de cabelos brancos,  pai de quatro
filhos e orgulhoso de nunca ter bebido ou fumado. Sua mulher era
paralítica.  Na noite do acidente vinha de Taubaté (SP), onde morava, e,
embora estivesse dirigindo  havia mais de seis horas, garantiu que se
sentia descansado e lúcido. Não sabia como aquela  desgraça pudera
acontecer. Ao ver Garrincha, atirou-se em sua direção e disse que por
nada  deste mundo gostaria de têlo prejudicado.
Garrincha, muito abatido, acalmou-o:
"Está tudo certo."
A outra preocupação de Benedito era com os 132 sacos de batatas. Muitos
tinham caído do  caminhão no momento do choque; outros se rasgaram e
milhares de batatas rolaram pela  pista durante a fuga. Não sabia como
iria pagar ao proprietário das batatas. Garrincha disse  que faria uma
vaquinha no Flamengo para ajudá-lo.
No interrogatório, Garrincha negou que tivesse bebido antes de dirigir.
O perito Felizardo  não insistiu na questão. Estava mais interessado em
saber se Benedito olhara para trás antes  de entrar na pista. As
testemunhas eram confusas e contraditórias, mas tudo indicava que os
dois eram culpados. Garrincha e Benedito molharam os dedos e foram
indiciados por  homicídio culposo. No exame de lesões corporais, pediram
a Garrincha que se despisse por  inteiro. Mas Garrincha só pensava em
sair dali. Alegou que não podia perder tempo porque  tinha treino no
Flamengo - como se estivesse em condições de treinar. Examinaram-no por
alto e o soltaram.
Antes, deram-lhe o que restara do carro destruído e que uma pessoa havia
recolhido na  estrada: uma imagem de Maria Santíssima Divina Pastora das
Almas, que Garrincha  costumava pendurar no retrovisor; os restos da
gaiola com o sanhaço morto; e um pedaço  de dentadura, certamente de
dona Rosaria. Garrincha levou a imagem da santa e deixou para  trás os
dois últimos itens.
Saiu dali e foi com Elza visitar Sara na casa de saúde. Ainda tentou
brincar com a menina:
"Você vai sarar já, já. Eu é que vou ficar com o nariz mais achatado que
o da tua mãe."
Mas nem ele próprio achou graça na frase. Voltou para casa e entrou em
preocupante  depressão. Passava o dia deitado, em silêncio, sem comer e,
espantosamente, sem beber.  Elza tirou-o de lá e hospedaram-se por uma
semana no hotel Riviera, para se esconderem  dos amigos e dos
repórteres. Pelo menos na frente de Elza, Garrincha ficou sem beber
durante esse tempo - a ponto de ela acreditar que ele nunca mais
beberia. Mas as imagens  do acidente não paravam de persegui-lo.
Garrincha a acordava de madrugada para perguntar:
"Minha Crioula, você acha que eu tive culpa? Que eu matei minha sogra?"
Elza esquecia sua própria dor para tentar consolá-lo:
"Você não matou ninguém. Foi o destino. Podia ter sido eu ou você ao
volante."
"Nunca fiz mal a ninguém, nunca pensei mal de ninguém. Por que tudo isso
comigo?"
Às vezes, para animá-lo ou provar-lhe que não o considerava culpado,
Elza tentava induzi-lo  a fazer amor. Mas a depressão de Garrincha era
tão profunda que o deixou indiferente até a  sexo. Nas poucas vezes em
que se dispôs, fracassou.
Voltaram para casa, mas a depressão continuou. E nem no futebol podia
refugiar-se. Não se  sentia com cabeça para retornar ao Flamengo. Os
médicos Celio Cotecchia e Paulo Calarge,  além de Francalacci,
visitaram-no e tentaram estimulá-lo. Tinha ainda dois meses de contrato
pela frente e poderiam renová-lo. Queriam convencê-lo de que só jogando
melhoraria sua  imagem depois do acidente. Em vão - sua apatia era
total. Nesse ínterim, o Flamengo  contratou um novo treinador: Elba de
Pádua Lima, Tim, uma lenda como jogador do  Fluminense nos anos 30 e 40
e uma revelação como treinador.
Tim era considerado um estrategista, capaz de mudar um placar adverso
com uma sutil  alteração na equipe. Demonstrava sua estratégia aos
jogadores no vestiário durante o  intervalo, usando uma mesa de botões.
Assim que chegou ao Flamengo, deixou claro que  Garrincha não estava nos
seus planos. Não por beber - porque, afinal, Tim bebia quase  tanto
quanto ele. Mas porque sabia que, se Garrincha ainda era uma atração em
amistosos  no interior, não podia mais disputar um campeonato. Além
disso, o Flamengo acabara de  contratar um jovem e arrasador ponta
argentino: Doval, de 21 anos. Era o fim da aventura  de Garrincha no
Flamengo.
Voltou a beber, mais até do que antes, mas sua depressão não passou.
Os-três filhos mais  velhos de Elza haviam saído de casa por não
suportar a sua presença. Numa tarde em que estava sozinho no apartamento
da Toneleros, Garrincha  fechou o basculante do banheiro, abriu a
torneira do gás e sentou-se para morrer.
Por acaso, Elza e a governanta, dona Augusta, voltaram da rua poucos
minutos depois.  Assim que abriram a porta, sentiram o cheiro do gás.
Arrombaram a porta, abriram tudo e o  fizeram tomar leite, ainda a tempo
de salvá-lo. Elza achou que ele estava bem e preferiu não  chamar um
médico. Se havia uma coisa de que não precisavam era de mais propaganda
negativa.
Mas a cidade foi sacudida pelo rumor: Garrincha se matara! Quem vazara a
informação  sobre a tentativa de suicídio acrescentara um final infeliz
ao fato. Elza teve de convocar a  imprensa à sua casa e apresentar
Garrincha vivo.
O boato se desfez, mas aquela seria apenas a primeira tentativa de
Garrincha de se matar.
O apartamento da rua Toneleros só lhes trazia péssimas recordações. Mais
uma vez Elza  achou que precisavam mudar-se. Rumaram em junho para o
Jardim Botânico, onde Elza deu  150 mil cruzeiros novos como entrada
numa casa na rua Engenheiro Alfredo Duarte, 122,  no final da rua Maria
Angélica, aos pés do Cristo Redentor. Compraram-na com as luvas  que
Garrincha recebera do Flamengo e com os cachês de uma longa excursão de
Elza pelo  Brasil, acertada por Marcos Lázaro e patrocinada pela Monark.
Os outros 150 mil teriam de  ser liquidados em seis meses.
Era a melhor casa em que já haviam morado. Tinha um salão com escadaria,
piscina, vários  níveis, jardim com árvores frutíferas e os macacos e
gambás que desciam do morro do  Corcovado para o seu quintal. Carlinhos,
Dilma e Gilson haviam se recuperado do choque,  perdoado Garrincha e
voltado para casa. Elza queria que, ali, tudo fosse diferente - e, para
proclamar ao mundo que continuavam juntos e felizes, inaugurou a casa
com uma festa.
Não uma simples festa, mas uma festa digna de Elza e Garrincha. Convidou
duzentas  pessoas, inclusive algumas que não conhecia, como o colunista
Ibrahim Sued - que  compareceu. A bebida era uísque e champanhe,
adquiridos no contrabandista; o bufê  continha peru, caviar, cascatas de
camarão. Elza proibiu que os convidados chegassem de  Fusca e exigiu, no
mínimo, terno e gravata - recomendação seguida por todos exceto  Carlos
Imperial, que foi de camisa havaiana e chinelos. Cyro Monteiro e Elizete
Cardoso  cantaram para os convidados.
Quando o salão estava cheio, Elza fez a sua grande entrada. Desceu a
escadaria num palazzo  pijama confeccionado sob a orientação de
Manuelzinho e, jogando beijos para os amigos,  dizia, degrau por degrau:
"Obrigada a todos, muito obrigada!"
Garrincha, afrouxando o colarinho com o dedo, era o menos à vontade em
sua própria casa.  Resmungou para Edgard Cosme que não via o menor
sentido naquilo. E não tinha assunto  com as pessoas que se aproximavam
dele - todas só queriam falar de futebol.
A festa custou a Elza 10 mil cruzeiros novos - de que não dispunha
imediatamente -, mas  sobrou comida para mais de uma semana. Ibrahim
elogiou Elza em sua coluna, rotulando-a  de "muito elegante". O Rio
inteiro ficou sabendo que, apesar das grandes e pequenas  tragédias que
perseguiam Elza e Garrincha, eles formavam um casal unido e feliz. No
dia  seguinte, esvaziado o último cinzeiro, os problemas voltaram à
superfície.
A rigor, o problema era um só: a bebida de Garrincha, com a insaciável
assessoria dos  amigos. Pincel e Swing eram escudeiros onipresentes. Mas
havia novos fiéis no templo,  como os jogadores Oliveira e Flávio, do
Fluminense, e Mário Tilico, do Vasco. Todos eram  inimigos do copo
cheio. Tilico às vezes desmaiava de porre e Elza dava-lhe canja na boca
para fazê-lo voltar à vida. Quando percebeu que, sem querer, esses
amigos estavam sendo  cúmplices na destruição de Garrincha, barrou todo
mundo de sua casa e mais uma vez sumiu  com todas as garrafas. Mas
Garrincha continuou a beber pelas suas costas.
Elza desconfiava que seu mordomo Homero escondesse bebida para
Garrincha. Os ninhos  de garrafas iam sendo descobertos um a um, mas
Garrincha sempre inventava outros. Um  deles era o tanque na área de
serviço, onde ficavam as garrafas vazias. Garrincha misturava  as cheias
entre elas. De outra feita, o jardineiro chamou-a para mostrar a
quantidade de  garrafas enterradas e camufladas com folhas num canto do
jardim - perguntou se não era  despacho. Outro velho truque de
Garrincha, adaptado à nova casa, era o de esconder a  garrafa mergulhada
no fundo da piscina, amarrada a uma pedra. E o mais antigo de todos, o
de substituir a água tónica por cachaça, continuava sendo aplicado
diante das visitas, com a  conivência inocente de Gilson, filho de Elza:
Gilson, vai buscar a água tónica do papai..."
Entre essas visitas estavam os novos amigos do casal, o jornalista
Arthur José Poerner,  comentarista internacional do Correio da Manhã, e
sua mulher Eriça. Eram vizinhos e  Poerner os via quase todos os dias.
Garrincha, aparentemente recuperado da depressão,  convenceu Poerner a
ajudálo na caça a uma gambá que estava aparecendo em seu quintal. Já
preparara a armadilha: uma gaveta amarrada a uma corda de cortina, que
ele manobrava  do andar superior. Sob a gaveta, um pires de cachaça. A
gambá seria atraída pela  cachaça, a gaveta cairia sobre ela e, quando
estivesse bêbada, ficaria dócil e fácil de capturar  - sóbria, era um
animal ferocíssimo.
Podia levar dias e exigia trabalho e paciência, mas, segundo Garrincha,
valia a pena:
"Guisado de gambá é uma das melhores coisas do mundo."
Talvez para estimular o bicho a sair da toca e seguir-lhe o exemplo,
Garrincha dava bicadas  na garrafa que estava sempre ao seu lado. O
importante, explicou a Poerner, era ficarem em  silêncio enquanto a
gambá bebesse - se ouvisse um som humano, seu porre passaria.  Poerner
era leitor de Hegel e Marx em alemão, não entendia de gambás. Investiu
vários dias  ao lado de Garrincha: os dois mudos, horas seguidas, na
tocaia da gambá. Que nunca  apareceu - pelo menos para ele. Dias depois,
Garrincha comunicou-lhe que a gambá já  havia sido capturada e comida.
Elza continuava alimentando a fantasia de que Garrincha deveria
completar seus estudos  interrompidos no segundo ano primário e
formar-se num curso superior. Sonhava vê-lo de  beca, jaleco ou de
qualquer traje não civil. A exemplo do que fizera na Ilha do Governador
com o professor Figueira, pediu a Poerner que "como amigo" desse aulas
particulares a  Garrincha, para ajudá-lo a ler e escrever melhor.
Poerner não fazia fé no futuro académico  de Garrincha, mas concordou.
Por três vezes foi visitá-lo munido de material escolar. Nos  primeiros
minutos Garrincha fingia interessar-se - e logo conduzia as lições para
tópicos  mais importantes de sua agenda, como treinar canários ou
embriagar gambás. Poerner  desistiu.
Poerner era militante do clandestino Partido Comunista. Tivera seus
direitos políticos  cassados em 1966 e vivia sendo vigiado pelos órgãos
de segurança. A situação política  estava por um fio no começo do
segundo semestre de 1969, com a formação dos primeiros  grupos que
partiriam para a luta armada, dos quais participavam muitos estudantes.
No  começo daquele ano, Poerner lançara seu livro O poder jovem, uma
história dos  movimentos estudantis brasileiros até 1968. O livro fora
apreendido, mas, quando isso  aconteceu, já lhe rendera bom dinheiro,
com o qual Poerner comprara um Fusca cinza. Mas,  como não sabia
dirigir, era Garrincha - sem carro desde o acidente - quem dirigia por
ele.
Não que fosse seu chofer ou coisa assim. Era apenas conveniente para
ambos. Se, por  exemplo, Poerner fosse viajar, Garrincha o levava ao
aeroporto e ficava com o carro. Numa  das vezes, levou Poerner ao Galeão
quando ele foi a um congresso comunista em Helsinque,  na Finlândia, sob
a fachada de um encontro estudantil. Como o carro de Poerner estava
sendo vigiado, os homens encarregados de segui-lo devem ter ficado
intrigados com a  presença de Garrincha na história.
391
Não seriam tão tapados a ponto de achar que Garrincha tivesse algum
envolvimento político  com os subversivos - mas Elza, como muitos
artistas, era uma potencial opositora do  regime. Numa época
visceralmente paranóica como aquela, talvez tivessem encontrado
mensagens subliminares em suas interpretações de "Estatuto de gafieira"
ou "Mulata  assanhada".
Na manhã de 1 de agosto, Elza recebeu um telefonema anónimo:
"Tudo pode acontecer se você for ao teatro esta noite, sua negra."
Elza não deu importância ao telefonema - desde que se ligara a Garrincha
tornara-se  campeã carioca de ameaças anónimas. Estava fazendo um show
no teatro de Bolso, no  Leblon, ao qual ia e voltava com Garrincha no
carro que Poerner deixara com eles. À saída  do show, tomaram o Fusca na
porta do teatro, com Garrincha ao volante, e seguiram em  direção à
Lagoa.
Na avenida Epitácio Pessoa, dois carros - um JK vermelho e um AeroWillys
preto -  tentaram fechá-los contra o meio-fio. Garrincha assustou-se e
viu que era sério. Acelerou e  os carros continuaram a persegui-los,
espremendo-os contra o acostamento. Elza julgou ver  homens armados e
encapuzados dentro do JK e do Aero-Willys. Mas talvez só quisessem  dar
um susto porque, no meio do caminho, desistiram da perseguição e os
deixaram ir.
No dia seguinte, uma carta anónima:
"Vocês têm 24 horas para sair do país. Senão, vamos pegar vocês."
Aquelas ameaças eram incompreensíveis. A quem os dois poderiam estar
incomodando?  Garrincha tornara-se quase um ex-jogador, os clubes não se
engalfinhavam para contratá-lo,  ninguém queria saber dele. Seu nome era
agora um sinónimo de fracasso e os colegas só  costumavam invocá-lo
quando iam renovar contrato e sentiam que seus clubes queriam
tapeá-los. Diziam:
"Comigo não, eu não sou o Garrincha."
E sua ligação com Elza também já era jornal de ontem ou anteontem - até
Nair parara de  contestá-la. Quanto a Elza, o país mudara tanto que
ninguém mais a via como uma  "destruidora de lares". Ao contrário, já
era louvada por sua bravura ao arriscar a carreira  por um caso de amor.
A violência das ameaças era desproporcional ao momento que viviam.  E
nem era possível deixar o país de um dia para o outro.
O advogado Ernesto Dória pediu garantias de vida para eles na Delegacia
de Vigilância. A  polícia prometeu protegê-los e não mandou ninguém.
Então contrataram um segurança,  Milton Neves, da empresa Segurança
Bancária e Industrial, de Charles Borer. Levantou-se a  hipótese de que
seus perseguidores poderiam ser terroristas tentando seqüestrá-los para
chamar a atenção.
Três dias depois, às cinco da manhã, enquanto Garrincha e Elza dormiam,
seus cachorros  Paquera e Bruxinha começaram a latir. O segurança Milton
pegou seu revólver e deu a volta na casa até o quintal. Um homem saíra
dos arbustos  e preparava-se para escalar a parede que dava para as
janelas do segundo andar. Milton  gritou. O homem pulou de volta para o
chão, atirou contra ele sem acertar e correu para o  muro que cercava a
casa. Milton deu um tiro para o alto e mandou-o parar. O homem
continuou correndo. Milton ouviu tiros vindo de trás - havia um segundo
sujeito dando  cobertura. Os tiros partiram a vidraça da casa. O
segurança jogou-se atrás de uma árvore  para proteger-se. Os dois homens
pularam o muro, cobertos por outros dois do lado de fora.  Um destes
tinha uma metralhadora. Uma rajada quase rachou ao meio um pinheiro
perto de  Milton. Quando o tiroteio cessou, Milton pulou atrás e viu
quando eles correram em direção  à rua Araucária, entraram num carro e
fugiram.
Quando amanheceu, a polícia esteve na casa. Observou que os tiros
atravessaram a vidraça,  furaram a cortina e tiraram lascas do piano.
Recolheu material para exame e não chegou a  nenhuma conclusão. No dia
seguinte - como na invasão à casa da Ilha do Governador em  junho de
1964 -, os jornais falaram em assaltantes.
Garrincha e Elza não podiam saber quem lhes queria tão mal. E,
francamente, já nem  queriam saber. Depois daquilo, a única saída era a
mesma pela qual muitos brasileiros iriam  optar naqueles anos de chumbo:
o Galeão.
Garrincha esforçou-se para sorrir, descalçou os sapatos e meias e pisou
no cimento fresco.  Estava imprimindo seus pés na "calçada da fama" do
Pizzaiollo, o bar do poeta e jornalista  Reynaldo Jardim na rua
Montenegro, em Ipanema. Três semanas antes, a "calçada da fama"  fora
inaugurada com as mãos de Maria Bethânia - sucesso moderado. Na semana
seguinte,  tinha sido a vez do grupo de rock Os Mutantes - fiasco
absoluto, quase ninguém  comparecera. Depois fora a vez de Elis Regina -
muita gente foi vêla receber a  homenagem. Mas nada que se comparasse à
vez de Garrincha, na primeira semana de  outubro. Uma multidão o
esperava na porta do Pizzaiollo. Muitos choravam. Quando  Garrincha
retirou os pés do cimento, Elza ajoelhou-se na calçada e lavou-os na
frente de  todos.
Nada, é claro, que se comparasse ao festival de comemorações pelo
milésimo gol que Pelé  marcaria a poucos quilômetros dali, no Maracanã,
no dia 19 de novembro, contra o Vasco.  Na noite daquele Vasco x Santos,
que seria infalivelmente o do gol mil, a sucursal carioca  do jornal O
Estado de S. Paulo mandou o seu repórter Luiz Carlos Cabral à casa de
Garrincha e Elza para acompanhar o jogo com eles e captar as impressões
de Garrincha.  Mas não houve o que acompanhar. A televisão não estava
ligada, nem o rádio. Não estavam  nem um pouco interessados no jogo.
Cabral tinha de voltar para a redação. Garrincha foi levá-lo ao carro do
jornal. O motorista estava ouvindo o rádio.  Naquele instante, o locutor
Waldir Amaral anunciou o pênalti contra o Vasco.
Garrincha parou para escutar. Pelé cobrou o pênalti, fez o gol mil e
ouviram-se os ruídos da  infernal comemoração. Foguetes estouraram na
vizinhança. Um novo marco no futebol fora  atingido. Garrincha apenas
sorriu, disse tchau e entrou.
Em 1969, o abismo entre os dois destinos - de Pelé e Garrincha - já
parecia impossível de  transpor pelas passadas de qualquer ser humano.
Para sossegar quem quer que não gostasse deles, Garrincha e Elza
anunciaram que estavam  de partida do Brasil. Já haviam dito isso antes,
mas, desta vez, era concreto: Elza acertara  com o empresário italiano
Franco Fontana uma série de shows na Itália a partir do começo  de 1970.
Para isso teria de mudar-se para Roma. E Garrincha planejava jogar
amistosos na  Europa, até encontrar um clube que quisesse contratá-lo. O
Corinthians, num grande gesto,  dera-lhe o seu passe de graça - podia
agora jogar por quem quisesse. A tática deu  resultado: as ameaças
contra eles pararam tão de estalo quanto haviam começado. Já não
recebiam nem mesmo telefonemas agressivos.
Não queriam ir embora do Brasil sem quitar a casa. Mas não tinham nem
fração dos 150 mil  cruzeiros novos que deviam e estavam ameaçados de
perder tudo. O proprietário já abrira  um processo contra eles pedindo a
retomada do imóvel. Elza voltou a pensar na renda de  um jogo de
despedida para Garrincha - que agora significaria uma despedida do
Brasil, não  do futebol. E, para Elza, o Brasil devia a Garrincha esse
jogo de adeus.
Foram falar com Otávio Pinto Guimarães, novo presidente da Federação
Carioca de  Futebol. Elza foi direta ao assunto: planejava acabar de
pagar a casa com o dinheiro da  renda. O jogo poderia ser entre uma
seleção brasileira e a do Peru, cujo treinador era Didi  - e Didi já
concordara. A CBD só teria de arcar com as passagens e hospedagens dos
peruanos. Otávio Pinto Guimarães não pareceu muito receptivo.
Sua pergunta gelou o entusiasmo de Elza:
"É arriscado. E se chover no dia?"
Na rua, Garrincha reagiu como se esperasse por aquilo:
"Não te disse que o "Cabide" não ia topar? Até parece que o Botafogo
nunca jogou debaixo  de chuva. O negócio é falar com o Havelange."
Garrincha e Elza foram à CBD procurar João Havelange. Já haviam
desistido do jogo. A  idéia agora era que a CBD quitasse os 150 mil
cruzeiros novos restantes da casa e que ela,  Elza, se responsabilizasse
pelo pagamento à CBD em parcelas. Para Elza, era um negócio limpo. Não
estava pedindo dinheiro para abrir  um circo, mas para acabar de pagar a
casa de um campeão do mundo. Havelange ouviu a  proposta e pediu tempo
para responder.
A CBD não era um banco. Aquele dinheiro representava 35 mil dólares.
Poucos anos antes  ele já fora generoso com Garrincha, pagando-lhe uma
fortuna em impostos atrasados. A  única garantia que podiam dar-lhe era
a palavra. Dias depois Havelange chamou Garrincha à  CBD para comunicar
sua decisão. Garrincha passou horas sentado na sala de espera até  ouvir
o veredicto de Havelange: não era possível.
Tarde da noite, ao ver que Garrincha não voltava para casa nem
telefonava, Elza logo  calculou o que acontecera. Havelange negara o
empréstimo e Garrincha devia ter reagido da  única maneira que sabia:
entrando num botequim. Chamou um táxi e mandou tocar para a  cidade.
Procurou-o pelos bares que sabia que ele freqüentava por ali e
encontrou-o - caído  em frente à igreja de Santo António, no largo da
Carioca, bêbado e chorando.
Um mês depois, em meados de janeiro de 1970, Garrincha e o motorista de
caminhão  Benedito Sales foram julgados pelo acidente em que morrera a
mãe de Elza. Se Garrincha  fosse condenado e tivesse de ir para a
cadeia, seus amigos de botequim já estavam tramando  um plano
rocambolesco para seqüestrá-lo ali mesmo, na saída do Fórum, e tirá-lo
do país.  Seria algo espetacular como Scaramouche, em que ele
desapareceria em São João do Meriti  e só reapareceria na Bolívia.
Garrincha (assim como Benedito) foi condenado a dois anos de prisão.
Seus advogados  Oscar Stevenson e Ernesto Dória fizeram uma brilhante
defesa, relembrando o débito da  nação para com ele, mas não adiantou. O
juiz Orlando Caudelas manteve a condenação e,  como eram primários,
concedeu-lhes o sursis. Garrincha poderia cumprir a pena em  liberdade.
Pela lei, não poderia sair do país e teria de apresentar-se de seis em
seis meses -  donde não poderia ir para a Itália. Mas o juiz deu-lhe uma
licença especial para viajar e  autorizou-o a apresentar-se à Justiça
italiana ou à embaixada brasileira em Roma. Seus  amigos relaxaram - não
precisariam levar adiante a ridícula idéia do seqüestro. Stevenson e
Dória recorreram da sentença e Garrincha e Elza tomaram o avião para
Roma.
Para Elza, tirar Garrincha do Brasil era a única maneira de salvá-lo.
Suas crises de depressão  agora eram contínuas e só ela sabia do esforço
de Garrincha para parecer mais animado em  público, como na "calçada da
fama". Mas, assim que voltava para casa, atirava-se no sofá e  passava
dias calado e bebendo. Elza atribuía essa depressão ao acidente de quase
um ano antes. Não sabia que a depressão é uma conseqüência do alcoolismo
 crônico - não necessariamente sua causa - e que, se continuasse
bebendo, Garrincha levaria sua depressão para a Itália.
Partiram no dia 24 de janeiro de 1970. Os filhos de Elza - Carlinhos, 21
anos, Duma, dezessete, Gilson, quinze, e Sara, cinco - ficaram no Rio,
cuidando uns dos outros na casa do Jardim Botânico. Elza deixara-os para
trás porque não sabia quanto tempo ela e Garrincha ficariam fora. Se as
coisas dessem certo, mandariam buscá-los.
Em Roma, mal haviam se instalado, receberam a notícia do Brasil. O
processo aberto pelo proprietário da casa continuara correndo à sua
revelia. O juiz lhes mandara a citação. Como esta fora ignorada, o juiz
dera a sentença a favor do proprietário.
Um oficial de Justiça bateu à porta da casa e entregou a Carlinhos o
mandado de desocupação. Carlinhos teve de assiná-lo. Os filhos de Elza
foram para o olho da rua. E, para o depósito público, foram os móveis,
os pertences, os prêmios de Elza e os troféus que Garrincha ganhara em
todos os gramados do mundo.
Dentro de uma gaveta de um dos móveis, o passe que o Corinthians lhe
dera e que ele deixara para trás.

Capítulo 19

Expatriados em Roma

1970-1971

GUIMBAS ROMANAS

No saguão do hotel Imperiale, na via Veneto, em Roma, Garrincha
distraía-se acendendo fósforos e incendiando as florzinhas num vaso da
mesa de centro. Ao contato com a chama, as flores, da família das
margaridas, davam estalos engraçados que faziam Garrincha gargalhar.
Elza acertava-lhe carinhosos tapas na mão para que parasse com aquilo.
Mas não queria ficar censurando-o - pelo menos Garrincha parecia
contente.
O empresário Franco Fontana hospedara-os no Imperiale enquanto não
escolhessem um apartamento para morar. Havia muitos brasileiros no hotel
e Elza controlava Garrincha para não ceder aos convites de beber com
eles. Mas Garrincha não precisava de estímulos externos. Precisava
apenas de sua criatividade. Todos os empregados do Imperiale sabiam quem
era ele e, sem falar uma palavra de italiano, articulou rapidamente uma
rede de fornecedores clandestinos dentro do hotel. Seus principais
cúmplices eram o barman e os garçons. Sabiam que, quando ele pedia "thé"
(chá), era para servir-lhe conhaque. Então, na frente de Elza, Garrincha
bebia "chá". Na sua ausência, bebia grappa, a aguardente italiana.
Em poucos dias, a intimidade de Garrincha com os garçons já lhe permitia
brincadeiras quase iguais às que fazia com Casado, o garçom do Botafogo.
Num jantar que Franco Fontana deu a Elza no Imperiale, presentes vários
funcionários da embaixada brasileira e artistas, Garrincha notou que
todos já haviam acabado de comer. Levantou-se e saiu recolhendo os
pratos da mesa, passando os restos de um prato para outro e
empilhando-os. Então estalou os dedos chamando um garçom, apontou para a
pilha e disse:
"Pode levar."
Para a estréia de Elza no teatro Sistina, Franco Fontana acertou que,
dias antes, ela daria uma entrevista coletiva no próprio teatro, com
Garrincha ao seu lado. Paulo Vidal, ministro- conselheiro da embaixada,
preocupou-se. Elza e Garrincha podiam não estar habituados à
agressividade da imprensa italiana, para a qual não existem perguntas
indiscretas. Destacou sua funcionária Anna Maria Piergilli para que
servisse de intérprete e, com habilidade, amaciasse as perguntas e
respostas.
Os repórteres ignoraram Garrincha, que ficou mudo durante a coletiva, e
concentraram o fuzilamento em Elza. Anna Maria tentou contornar as
perguntas, mas não contava com que Elza as entendesse pelo som e desse
respostas à altura.
Um deles perguntou:
"Não tem vergonha de ter tomado o marido de uma mulher pobre e
analfabeta?"
Elza respondeu:
"Não. Também nasci pobre e analfabeta, mas não me conformei com isso. Eu
evoluí."
Ou:
"É verdade que usou macumba para conquistar Garrincha?"
"Usei. Minha macumba foi o amor."
Confrontados com uma mulher corajosa, os repórteres se curvaram a Elza e
os primeiros meses de 1970 foram de confete e serpentina. Sua temporada
no teatro Sistina foi um sucesso, seguida por shows nos teatros Lírico,
em Milão, e Politheama, em Nápoles. Cantou no Festival Pop de Palermo,
fez excursões por Viareggio, Turim, Prato, Bari e Catanzaro,
apresentou-se na televisão e teve críticas consagradoras. Entre outras
comparações vulcânicas, ela era um Vesúvio de balanço e sensualidade.
Uma carreira européia parecia abrir-se para Elza. Entre um show e outro,
saía para procurar apartamento com Maria Eunice, mulher de Araújo Netto,
já então correspondente do Jornal do Brasil em Roma. Mas Elza era
exigente:
"Tem de ser um apartamento de primadonna. Senão, o pessoal não
respeita."
As sete colinas foram varejadas de alto a baixo. Elza podia encantar-se
com um apartamento, mas não gostava do bairro. Ou apaixonava-se por um
bairro, mas não havia nenhum apartamento disponível. Finalmente
encontrou-o: um suntuoso apartamento na via Bevagna, no bairro de Vigna
Clara, reduto de celebridades como a atriz Monica Vitti, o diretor
Michelangelo Antonioni e os jornalistas da televisão, que, na Itália,
têm status de superstars. Com os primeiros cachês que Franco Fontana lhe
depositou, Elza pagou adiantado três meses de aluguel, decorou o
apartamento com móveis das lojas Cassina e B&B, o máximo do moderno em
design italiano, e plantou telefones brancos pelos aposentos.
Deu uma festa de inauguração com garçons de luvas servindo os
convidados, entre os quais havia gente da imprensa, da televisão e da
música popular. Mandou fazer um novo guarda- roupa na estilista Rina,
prémio Tesoura de Ouro da costura italiana, e comprou dois casacos de
raposa branca numa peleteria. Tudo a crédito: os móveis, as roupas e as
peles. Ela era uma estrela. A perda de sua casa e de seus pertences no
Brasil não seria capaz de abatê-la.
O embaixador brasileiro em Roma era Thompson Flores, que já conhecia
Garrincha desde as temporadas do Botafogo no México, onde servira.
Flores recebeu Elza e Garrincha com um coquetel na embaixada, na piazza
Navona. Anna Maria Piergilli, que morava num dos apartamentos de luxo na
própria embaixada, abriu-lhes as portas e eles fizeram de sua casa um
segundo lar. À noite, Anna Maria às vezes promovia rodas de samba em seu
apartamento. Brasileiros residentes ou de passagem por Roma matavam as
saudades do feijão e cantavam pela noite adentro, improvisando uma
bateria com as panelas. Canções de Noel Rosa e Tom Jobim inundavam as
madrugadas da piazza Navona e, quando um vizinho chegava à janela para
gritar "Ma ché", Anna Maria convidava-o a juntar-se à festa.
Garrincha falava pouco, mas sempre cantava nessas rodas de samba. Era
afinado e tinha ritmo. Sua presença era adorada nas reuniões. Mas às
vezes se excedia em espontaneidade.
Numa das reuniões, Anna Maria custou a perceber o que ele queria dizer
quando cochichou ao seu ouvido:
"Me dá licença de ir lá dentro jogar um barro?"
Na verdade, Anna Maria só soube o que significava quando, na sua volta,
perguntou-lhe:
"O que foi mesmo que você foi fazer?"
Garrincha sussurrou-lhe a explicação e Anna Maria horrorizou-se. Quando
os convidados saíram, correu ao banheiro e desinfetou-o, dos ladrilhos
aos azulejos.
Os problemas digestivos provocados por excesso de álcool eram os menores
de Garrincha. Fora com Elza para a Itália na esperança de conseguir que
algum clube se interessasse em contratá-lo - como jogador ou treinador.
Sabia que, depois da orgia de contratações nos anos 50 e 60, o mercado
do futebol italiano estava fechado para os jogadores e treinadores
estrangeiros. Mas acreditava que, no seu caso, talvez abrissem uma
exceção. E, se isso não acontecesse, os clubes poderiam convidá-lo para
amistosos que, por serem extra-oficiais, não estariam burlando a lei.
Mas os meses se passavam e ninguém parecia interessado em seus serviços.
Era um contraste cruel com sua tremenda popularidade na rua. Onde quer
que o vissem, as pessoas o abraçavam, não o deixavam pagar em
restaurantes e insistiam em oferecer-lhe bebida. Nos álbuns de
figurinhas de futebol lançados na Itália aquele ano, a sua era das
difíceis. Quando um garoto o via na rua e conseguia que ele autografasse
a sua figurinha, esta passava a valer pelo álbum inteiro e muito mais.
Era reconhecido até dentro de táxis e tinha o seu nome constantemente
gritado: "GARRINCCIA" - à italiana, com erres de metralhadora e cês que,
para ele, soavam como espirros. Seus antigos gols pelo Botafogo ou pela
seleção, que os romanos tinham visto ao vivo ou pela TV, continuavam
gravados na memória de muitos, principalmente dos mais velhos. Para a
juventude italiana, "Garrinccia" era apenas uma lenda.
Garrincha aproveitava as excursões de Elza, dentro e fora da Itália,
para ir com ela e procurar os times locais. Em abril, Elza foi cantar em
Portugal. Garrincha seguiu com ela para Lisboa e, à sua maneira,
simulando um olímpico desinteresse, procurou o Benfica. De terno e
sapatos, bateu bola com Eusébio no estádio da Luz. Os portugueses
ofereceram-lhe uma bacalhoada regada a vinho Gatão e digestivo de
bagaceira, mas argumentaram que o Benfica tinha por tradição não
contratar jogadores estrangeiros, nem mesmo brasileiros - o que então
era verdade. Não lhe disseram, é claro, mas, mesmo sem essa cláusula, o
que um crepuscular Garrincha iria fazer num time que ainda era quase a
seleção portuguesa de 1966, terceiro lugar na Copa do Mundo?
Elza resolveu tomar a frente dos negócios e, enquanto cuidava de sua
carreira, levou Garrincha a almoçar ou jantar com vários dirigentes de
clubes. Mas, para esses dirigentes, aquele homem à sua frente, mesmo
sóbrio, era um patético foragido do passado. E nem sempre Garrincha
estava sóbrio. Com o presidente do Avelino, um time da segunda divisão
italiana, o desastre aconteceu antes do secando piatto. O presidente do
clube serviu-lhe mais vinho. Elza não queria que Garrincha aceitasse -
já estava meio passado, mais um copo e seria o fim. Chutava-o por baixo
da mesa para que não bebesse.
Garrincha não se deu por achado:
"Pare de me chutar, Crioula!"
Tomou o fatídico copo de vinho e foi a última gota. Sua voz ficou
empastada como um molho ao quattro formaggi, o mundo girou à sua volta e
o presidente do Avelino saiu com péssima impressão.
O máximo que Garrincha conseguia era exibir-se em amistosos entre times
amadores, quase sempre de colégios, fábricas ou sindicatos, que lhe
pagavam pequenos cachês por sua participação. Fingia achar aquilo
divertido, mas todo o cenário era deprimente: os jogos eram disputados
em campinhos de pelada, em dias de semana, para arquibancadas vazias.
Quase sempre quem o levava para esses jogos era Araújo Netto, mas, em
algumas ocasiões, Garrincha foi transportado no Fiat de outro ilustre
motorista, também morando na Itália e de quem ficara amigo: Chico
Buarque.
Araújo Netto os apresentara. Garrincha visitou Chico Buarque duas vezes
no pequeno apartamento do compositor na piazzale Flaminio. Na primeira
vez tomaram uma garrafa inteira de grappa. Desceram para comprar outra
na mercearia da rua, o povo reconheceu Garrincha e, a partir daí, a
cotação de Chico na vizinhança aumentou espantosamente. Os dois tinham o
que conversar, apesar de suas preferências tão díspares: o tricolor
Chico queria falar de futebol e Garrincha, de música popular. Garrincha
surpreendeu Chico, que o imaginava fã apenas de Emilinha Borba ou Angela
Maria: falou de Bossa Nova com algum conhecimento e disse que um de seus
cantores favoritos era João Gilberto.
A casa de Chico Buarque era das poucas a que Garrincha se arriscava a ir
sozinho. Não se orientava bem em Roma, não entendia níquel de italiano e
se recusava a aprender:
"Não tem essa de non capisco. Eles que me entendam."
Outras casas a que costumava ir, mas sempre atrapalhando-se com o
motorista de táxi e tendo de dar voltas para chegar, eram as de Araújo
Netto e do ex-jogador Vinicius. Sem nada para fazer, seu dia-a-dia
consistia em andar a pé pela cidade, parando nos bares, ou em ficar em
casa assistindo aos programas musicais da televisão - nunca por muitas
horas, porque já não conseguia ficar esse tempo sem beber. As brigas com
Elza estavam cada vez mais quentes e frequentes. Ela o protegia em
público, mas, a sós, já não aceitava suas justificativas para beber.
Elegância europeia: a princípio tudo parecia dar certo
Em junho, Garrincha teve o pretexto ideal para sentar-se diante do
aparelho e beber seu conhaque na frente de Elza sem que ela pudesse
recriminá-lo: a Copa do Mundo no México. Estava "nervoso". Nas Copas
anteriores, em 1958,1962 e 1966, o Brasil dependera de seus dribles.
Agora, em 1970, não precisavam dele. Tinham Jairzinho, que ele vira
começar no juvenil e que acabara por tomar-lhe o lugar no Botafogo e na
seleção. De seus antigos companheiros na Suécia e no Chile, só dois
estavam ali para tentar mais uma vez o tri: Pelé, já com trinta anos, e
Zagalo, como treinador.
Na primeira partida, contra a Tchecoslováquia, Garrincha ainda gritou
para Jairzinho como se este, dentro do aparelho, pudesse ouvi-lo: "Vai
lá, gente boa! Vê se honra essa camisa!"
Jairzinho o atendeu: fez dois gols na vitória por 4X2 contra a
Tchecoslováquia. Garrincha pareceu satisfeito. Mas, a partir daí,
Jairzinho marcaria um gol em todas as partidas da Copa, inclusive o da
vitória de 1x0 contra a Inglaterra - e, por um motivo ou por outro,
Garrincha sentiu-se desobrigado de continuar torcendo. Assistiu aos
demais jogos em silêncio, rodando pensativamente o conhaque dentro do
copo. Ver Jairzinho ser lançado por Gerson e galopar pela ponta direita
devastando defesas como ele, Garrincha, costumava fazer não lhe provocou
nenhuma vibração. O Brasil foi tri sem o seu concurso e o seu
entusiasmo. Talvez enxergasse ali o definitivo fim de uma era: a sua -
se é que ainda se iludia de que ela já não terminara havia muito.
Um mês depois da Copa, Garrincha teria de emprestar sua pele à camisa de
Jairzinho, numa das homenagens mais dolorosas que receberia na vida. O
programa de Flávio Cavalcanti, Um instante, maestro, na TV Tupi, iria
inaugurar as transmissões diretas via satélite feitas por uma televisão
brasileira. Escolheu-se que o programa seria gerado do cassino do
Estoril, em Portugal, onde Elza estava fazendo uma temporada. Os
destaques seriam o show de Elza e uma entrevista com Garrincha. O
diretor Mauricio Sherman chegou alguns dias antes ao hotel Estoril Sol e
acertou tudo com Elza. Não se falou na camisa de Jairzinho - seria uma
surpresa. Sherman notou que Garrincha estava apático e alheio à reunião.
Não se importou, talvez ele fosse assim mesmo.
No dia do programa, a poucas horas de irem para o ar, Elza telefonou
para Sherman no Estoril Sol:
Acho que não vai dar para fazer o programa, Mauricio. O Neném não está
bem."
Sherman gelou do outro lado do fio:
"Mas como? Se estamos aqui para isso!"
Correu até o apartamento dos dois. Garrincha estava perdidamente
embriagado.
Elza tentou justificá-lo:
"Enquanto saí para ensaiar ele abusou um pouco."
Um pouco? Garrincha estava imprestável, mal conseguia abrir os olhos.
Sherman não podia perder tempo. Ligou para Flávio Cavalcanti avisando-o
de que tinham um problema. Deixou a direção técnica por conta dos
portugueses e, com sua amiga brasileira Ana Maria Carvalho Hosken, que
morava em Lisboa, bateu às farmácias da cidade em busca de um remédio
para pôr Garrincha de pé. Compraram um torpedo composto de glicose e
complexo B e correram de volta para o Estoril.
A própria Elza aplicou a injeção regeneradora em Garrincha. Nas horas
seguintes ele se recuperou e o programa foi feito. Mas Garrincha não
gostou da surpresa - vestir a camisa sete da seleção que Jairzinho usara
na Copa e lhe mandara.
Vestiu-a contrariado. Depois disse a Elza:
"Achei um desaforo. Se ele é que é o bom, o que eu sou?"
Elza precisava multiplicar-se. Passava o dia recolhendo os pedaços do
ego de Garrincha e tentando montá-los em seus lugares. Ao mesmo tempo
havia sua própria carreira: tinha de empenhar-se para que o estrondo
provocado por sua chegada ao cenário musical italiano não ficasse pelo
caminho.
"Che meraviglia!", suspiravam os italianos ao ver Elza incendiando o
palco com sua voz e quadris que, para eles, não tinha similar entre as
divas locais.
Os carros-chefes do repertório de Elza na Itália eram "Maschera nera",
de Zé Kéti, "Tristezza", de Haroldo Lobo e Niltinho, e a própria "Che
meraviglia", de Jorge Ben e Toquinho. Mas samba em italiano soa tão
natural quanto ópera em tupi-guarani - principalmente se cantado num
italiano fonético aprendido às vésperas, como Elza teve de fazer nas
primeiras semanas.
Em português, ela era a rainha do duplo sentido. Tornava qualquer letra
engraçada ou sensual com seu jeito moleque de dizer ou distorcer as
palavras. Afinal nascera entre elas, conhecia seus conteúdos ocultos. Em
italiano, sem saber exatamente o que as palavras diziam, Elza tinha de
compensar com seu magnetismo. Carregava na voz rouca e nos scats,
sacudia cada centímetro de seu corpo e fazia a platéia sair com os
braços doendo de bater palmas. Estava dando certo - mas Elza percebeu
que, se quisesse permanecer como uma artista de sucesso na Itália,
precisava aprender a língua. Para isso, passou a ter aulas de italiano
com Arma Maria Piergilli.
No primeiro semestre, quando as perspectivas profissionais eram as mais
brilhantes possíveis, começou a preparar a vinda de seus filhos para a
Itália. Depois da perda da casa do Jardim Botânico, eles se haviam
distribuído entre os parentes no Rio, mas já era hora de reuni-los em
torno dela.
Sua tia Altina tomou as providências no Brasil e, em julho, Altina e os
quatro filhos desembarcaram em Roma - exatamente quando o impacto
inicial provocado por Elza na Itália começava a diminuir.
Para qualquer cantor brasileiro, o sucesso na Itália era algo difícil de
sustentar em 1970. O gosto italiano para a música popular estacionara
por volta de 1914 e seu forte era a canção romântica, própria para gogós
napolitanos. Artistas rítmicos e sincopados como Elza eram assimilados
por algum tempo como exóticos - mas, saciada a curiosidade, os italianos
voltavam às canções, tão padronizadas quanto suas pizzas. Outros
brasileiros na Itália naquela época, como Chico Buarque e Jorge Ben,
também passaram momentos difíceis.
E havia ainda o empecilho da reserva de mercado. Franco Fontana fechou
para Elza um contrato de 60 mil dólares para uma turnê de verão pela
costa italiana. Mas Elza entusiasmou-se e falou desse valor para os
jornalistas numa festa. No dia seguinte, os jornais a acusaram de estar
tomando o lugar dos artistas italianos. O contrato foi cancelado.
Franco Fontana ainda conseguiu colocar Elza em clubes noturnos de Roma,
Milão e Turim, mas as oportunidades já estavam escasseando. Os músicos
brasileiros que tinham ido com Elza - o pianista Mário Castro Neves e o
trio Macumba, formado por Mandrake, írio e Afonso - também estavam à
beira de um motim. Queixavam-se de que quase haviam morrido de frio na