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FALA FRANCÊS? Data: 9 Jun 2009 / Autor: santana / Categoria: Literatura, Home Page Literatura}

FALA FRANCÊS?
(Clerisvaldo B. Chagas. 09/10.06.2009)

Houve uma época em que o centro do mundo era Paris. O Brasil recebeu enorme influência francesa na moda, nas artes, em quase tudo. Ainda hoje as marcas francesas estão espalhadas nos teatros, nas mansões, nas igrejas. Mulheres e homens desfilavam pelo comércio vestidos à moda européia, tanto nas capitais brasileiras quanto nas pequenas cidades do interior. Foto da revista “O Cruzeiro”, bem mostra homens assim trajados no comércio de Santana do Ipanema, em Alagoas. As moças da alta sociedade, além de outros atributos, recebiam aulas de francês e mantinham um piano daquela nacionalidade como provas da boa condição financeira dos seus pais. Falar francês era ser filha de pai rico.
Nas diversas fases da História, sempre existiu o preconceito. Branco não casava com negro; Rico não casava com pobre. Para a alta sociedade francesa da Idade Média, pobre era considerado esterco de burro. Diziam que até o inferno recusava pobres porque eles fediam tanto que nem o demônio aguentava. Mas o preconceito não se limitou à Idade Média e nem ao solo francês. Continua em pleno vigor, apenas com variações de região para região. A Literatura mundial está repleta de romances cujos temas centrais são o amor entre pobres e ricos, desafiando as famílias.
A língua francesa foi primordial no Brasil entre as estrangeiras. Em Santana do Ipanema, décadas 50-60, não foi diferente. No único estabelecimento em que havia ensino da 5ª a 8ª séries, chamado Curso Ginasial, também havia francês. Lembro muito bem da Professora Maria Eunice Aquino nos ensinando a fazer o tradicional biquinho para pronunciar certas palavras naquele idioma. Altamente educada, a Professora Eunice prestou relevantes serviços ao Ginásio, por uma porção de tempo. Vários outros professores colaboraram conosco, mas nenhum marcou igual à professora citada. Com o passar dos anos, o inglês começou a aparecer nas escolas quando a esquina do mundo passou a ser New York. Assim a língua francesa foi perdendo espaço dentro e fora dos estabelecimentos de ensino.
Mas não era somente na escola que o francês estava na boca do povo. Em Santana existiu um comerciante que tinha como apelido “Beneguinho”. Gostava de ficar à porta da loja esgaravatando as unhas com um canivete, palestrando com amigos. Identificava os passantes indiretamente, perguntava com simulada indiferença e respondia irônico:
— Quem é aquele?
— Ah, Seu Beneguinho, é fulano filho de beltrano, um bom rapaz.
— Pois negocie come ele — dizia sem levantar à cabeça.
Ou então, ao passar uma senhorita pobre:
— Quem é aquela?
— Ah, é uma bela moça, Seu Beneguinho.
E o comerciante, preconceituosamente, coçava o indicador no polegar e indagava:
— Fala francês?
O tema está tão vivo como nunca. É só observar as telenovelas e os conselhos das mães aos filhos, estimulando o casamento com moças ricas.
E por falar nisso, eu pergunto ao leitor internauta:
— Sua noiva fala francês?

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