Exposição de fotografias em visitas a terras quilombolas revela árido cotidiano
Na trilha das comunidades, o antropólogo Christiano Barros, do Iteral, e a socióloga Sandreana Melo, da Ufal, lançaram seus olhares críticos e líricos sobre pessoas
Sandreana Melo
Exposição mostra, em ângulos peculiares, rotina de comunidades, muitas vezes desconhecidas
Em Alagoas existem aproximadamente 50 comunidades quilombolas. Dessas, apenas 23 já foram certificadas oficialmente pela Fundação Cultural Palmares, ligada ao Ministério da Cultura. Outras 24 foram visitadas esse ano por uma equipe do Instituto de Terras de Alagoas (Iteral), quando foi elaborado um mapa etnográfico descrevendo as comunidades. A equipe do Iteral sensibilizou os moradores para a importância dessa certificação. “Mas esse número pode ser ainda maior, visto que outras comunidades ainda podem ser visitadas”, diz a gerente do Núcleo de Quilombolas do Iteral, Berenita Melo.
Na trilha dessas visitas às comunidades, o antropólogo Christiano Barros, do Núcleo Quilombola do Iteral, e a socióloga Sandreana Melo, do Laboratório de Antropologia Visual em Alagoas lançaram um olhar crítico sobre os quilombolas, pelas lentes de suas máquinas. O resultado é belíssima exposição “Comunidades Negras Quilombolas em Alagoas”, exposta no Museu da Imagem e do Som (Misa), em Jaraguá.
“A finalidade da exposição é dar visibilidade às comunidades quilombolas e despertar um olhar crítico sobre a temática”, comenta Christiano. As fotos foram obtidas a partir de visitas a, pelo menos, 24 comunidades negras rurais, em 15 municípios do Estado, e compõem o acervo da Gerência do Núcleo de Quilombolas do Instituto de Terras e Reforma Agrária de Alagoas (Iteral).
Um detalhe: nenhuma dessas 24 comunidades obteve a certificação oficial de remanescente de quilombos da Fundação Cultural Palmares, e um dos objetivos das visitas era justamente sensibilizar os moradores para a importância dessa certificação e elaborar um mapa etnográfico que poderá ser anexado ao pedido de certificação. Esse pedido deve ser de iniciativa da própria comunidade.
As fotos, nas palavras de Christiano Barros, mostram “uma seqüência de imagens que revelam um olhar cúmplice de pessoas que enfrentam as dificuldades de um cotidiano marcado por adversidades”.
Sandreana Melo
Fotógrafos lançaram seus olhares críticos e líricos sobre as comunidades
E essas adversidades estão em vários aspectos do dia-a-dia daquelas pessoas e que foram captados pelas lentes da câmera dos pesquisadores. As fotos mostram, em ângulos peculiares e apurados, a rotina de comunidades que ficam em locais de difícil acesso e distantes da sede dos municípios. Elas são, na maioria das vezes, desconhecidas pela sociedade. Embora as fotos tenham sido feitas para que sirvam de “documento antropológico” no processo de afirmação de lutas daquelas comunidades, é impossível não encontrar estética e poesia transcendendo os limites do papel.
Traços culturais dos quilombolas de Alagoas
Entre as características comuns aos quilombolas estão os laços de parentescos muito fortes, bem como os laços de compadrio. “O fato de serem comunidades familiares, concentradas ou não, indicam que têm uma organização social que as une num espaço próprio”, afirma o historiador Dirceu Lindoso. Dessa forma, parentesco e território, juntos, constituem identidade.
Em praticamente todas essas 24 comunidades, uma figura se destaca: o rezador ou a rezadeira, normalmente um dos mais velhos do lugar que ajuda a curar doenças físicas e espirituais, como o “olhado”, com orações e plantas medicinais.
São comuns também nessas comunidades — e o público poderá conferir algumas imagens na exposição — traços marcantes do catolicismo popular, ligados a tradições indígenas e afro-descendentes, como o candomblé ou xangô. Imagens de santos populares, como Padre Cícero, Frei Damião, São João, São José, São Jorge e Nossa Senhora Aparecida decoram as paredes da sala de muitas casas.
A atividade artesanal de cunho utilitário também está presente. Em alguns casos, as peças são vendidas. E essa habilidade de criar e aproveitar materiais também é comum às crianças, que improvisam brinquedos à partir de objetos descartados, como uma prova de que a infância resiste sob qualquer condição.
Como essas comunidades ainda não foram certificadas oficialmente pela Fundação Palmares, elas não tiveram suas terras demarcadas. O pedaço de terra que cabe a cada família é pequeno, e elas aproveitam para plantar e criar alguns animais, como vacas, galinhas, patos, porcos, cabras e ovelhas. Entre os cultivos, um dos mais comuns é a mandioca, que é processada em casas de farinha e serve para produzir alimento para várias famílias.
| 